Política e diplomacia
Dentro da ilha, só avanços.
Fora, desastres

Legado conservador forja novo
trabalhismo e mantém EUA próximos.

Ainda que esteja amparado por uma anacrônica monarquia, o papel de modelo político para uma infinidade de nações exercido pelo Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte não pode nunca ser subestimado. No campo ideológico e estrutural, a Grã-Bretanha é simplesmente o berço das instituições parlamentares modernas, condição que alcançou em dois significativos momentos históricos: a imposição de uma Magna Carta ao rei João Sem-Terra por nobres e clérigos em 1215, que criou um Parlamento na Inglaterra séculos antes de qualquer outro país; e a Revolução Gloriosa, que às custas de pouquíssimo sangue derramado (somente na Escócia e na Irlanda), deu a este Parlamento o verdadeiro controle político do país – 100 anos antes da Revolução Francesa. Tendo ambos os marcos acontecido em solo inglês, é natural que a Inglaterra seja vista como a principal força da Grã-Bretanha, sendo muitas vezes confundida com ela. Não à toa, é a Inglaterra que vai, depois de “arrumar a cozinha”, liderar o processo da Revolução Industrial e se lançar à conquista de territórios – mercados consumidores – em quase todos os cantos do globo. Reflexos da época do “império sobre o qual o sol nunca se punha” ainda são bastante presentes na atual política britânica: seja nas constantes medidas governamentais que impulsionam a economia e fazem da ilha o 2º PIB da Europa; seja no campo da diplomacia, onde os britânicos participam de todas as questões internacionais relevantes, embora não tenham força para fazer um décimo da pressão que os Estados Unidos exercem.

Entre analistas econômicos, é consenso afirmar que a atual fase de prosperidade vivida pelo capitalismo britânico tem origem no período em que a conservadora primeira-ministra Margaret Thatcher comandou o país, na década de 1980. Um ponto menos abordado, mas de igual importância, é a influência do legado político de Thatcher no governo do trabalhista Tony Blair, que em 2007 completa 10 anos de mandato. Dizendo-se um “radical de centro”, Tony Blair tratou de modernizar o discurso trabalhista, afastando-se dos sindicatos e dos velhos dogmas socializantes. Também roubou das mãos dos conservadores algumas de suas antigas bandeiras eleitorais. Defendeu – e aplicou – a redução do estado e as privatizações, um discurso típico dos conservadores. Para chegar ao poder, fez inúmeras promessas de que seu governo não aumentaria impostos nem gastos públicos.

Internamente, desfrutou de um retumbante sucesso depois de eleito. Pelo menos até 2001, o carismático Tony Blair foi a figura símbolo de uma nova Inglaterra (e um novo Reino Unido), um país moderno, liberal e cada vez mais internacionalista. Ao contrário dos vizinhos franceses e alemães – ambos com sérios problemas de convivência com os imigrantes –, os ingleses abrem cada vez mais espaço para suas minorias étnicas e sexuais. E têm ficado cada vez mais ricos. Blair se tornou, para muitos, o mais perfeito clone político de Margaret Thatcher, autora intelectual do programa que colocou o Reino Unido na dianteira dos seus vizinhos europeus. Para desvincular-se da desgastada imagem de uma Inglaterra cinzenta que também costuma ser associada ao período da Dama de Ferro, o inventor do Novo Trabalhismo, suavizou a herança thatcherista com uma demão de tintura social.

Diplomacia controversa – Diferente do que o premiê poderia supor, no entanto, nem o fato de ter deixado os ingleses mais abonados conseguiu reduzir o desgaste causado pelo envolvimento do país na Guerra do Iraque. O alinhamento político com os Estados Unidos tem fortíssimas raízes históricas na Grã-Bretanha. Mesmo assim, também no campo diplomático o governo de Tony Blair parece se esmerar em repetir alguns pontos da política externa de Margaret Thatcher, notadamente a relação de unha e carne que mantinha com o presidente americano Ronald Reagan. A herança é traduzida na proximidade entre Blair e o atual ocupante da Casa Branca, George W. Bush, republicano, como Reagan. Enquanto desfrutava de popularidade e aprovação em Londres, Blair investiu até nas negociações entre árabes e palestinos pelo fim dos violentos conflitos no Oriente Médio, já cortejando o então presidente americano Bill Clinton. Natural que se tornasse o maior aliado externo de Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Os ingleses cederam tropas à busca pelo terrorista Osama bin Laden no Afeganistão, que terminou com a derrubada do regime Talibã, e foram a única potência ocidental a seguir os americanos na investida contra Saddam Hussein sem questionamentos.

Por causa do ressentimento da população inglesa com a atuação do governo Blair no plano externo, marcada pelo apoio incondicional aos Estados Unidos no Iraque, o premiê tornou-se uma mera sombra do que era no início de sua gestão. Os ingleses se sentiram enganados pelo primeiro-ministro, principalmente porque ele exagerou as evidências sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque para justificar o envio de tropas ao país. Em setembro de 2006, cerca de 54% da população britânica achava que a política externa de Blair e a amizade com os EUA deixaram o país mais vulnerável a ataques terroristas como o de 7 de julho de 2005, quando homens-bomba explodiram três estações do metrô de Londres e um ônibus de dois andares tipicamente londrino. Na opinião de alguns comentadores, a cidade que melhor simbolizava a Grã-Bretanha construída por Blair, grande centro financeiro mundial, síntese do Ocidente e do capitalismo moderno, metrópole cosmopolita, tolerante com a diversidade humana e berço da democracia, até que demorou para tornar-se alvo do fundamentalismo islâmico.

Desgastado, o premiê prometeu desocupar a casa número 10 de Downing Street, residência oficial do primeiro-ministro, até setembro de 2007, possivelmente antes. O desafio de seu sucessor, além de dar um fim digno à ação militar no Iraque com o menor prejuízo possível para a imagem do governo, é manter, para além da figura de Blair, a política econômica eficiente forjada pelo premiê durante seus dez anos à frente do Parlamento.