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Cultura
A
tradição arraigada
constrói a modernidade
O
passado se recusa a morrer na
ilha mais transgressora da Europa
Pelas
janelas, dá para ver o céu, cinza, e a chuva, constante.
Ao pé de uma escada palaciana, uma aristocrata desfila a
glória de um vestido que só muitos séculos
de nobreza (e de divisão de classes) podem acomodar. Um pouco
à frente, a turma punk rola pelo chão, literalmente.
Um usa penteado moicano composto de tampões higiênicos,
o colar de outro traz um receptáculo de, como dizer?, fluidos
corporais masculinos. Onde estamos? Na Inglaterra, é claro.
Se há um traço de sua identidade do qual os ingleses
(e escoceses e irlandeses em menor grau) não abrem mão
é o de ditar a maior gama de modismos culturais que conseguirem
ainda que sempre ofuscados pela maciça presença
norte-americana em todos os cantos do planeta. Das artes à
moda, da literatura à música pop, a ilha não
deixa de influenciar o que quer que se faça em termos de
cultura popular mundial.
A Inglaterra
tem Shakespeare e Harry Potter, Turner e Damien Hirst. Tem Jack,
o Estripador e James Bond. Tem Twiggy e Kate Moss, os Beatles e
o Oasis. Inventou o futebol e os pubs, popularizou os tablóides
e instituiu o chá das 5 como uma de suas mais caras tradições.
Acima de tudo, os ingleses têm o idioma, que perpassa todas
as suas tradições culturais e mantém acesas
as manifestações artísticas modernas.
Do
lado da tradição, permanecem até hoje alguns
emblemas de uma aristocracia que politicamente quase não
existe mais, mas que se mantém viva nos gestos finos, no
sotaque pomposo e na porcelana cara em que serve o chá. Londres
é uma das capitais européias que mais tradição
têm para oferecer aos turistas. Igrejas como a Abadia de Westminster,
fortificações históricas como a Torre de Londres,
toda a folclórica parafernália criada em torno da
família real e alguns dos melhores museus do mundo (sem falar
na típica cerveja morna) fazem da capital inglesa a terceira
cidade mais visitada do planeta. A Inglaterra é ainda um
país ímpar na sua fixação pela jardinagem.
Calcula-se que 20 milhões de britânicos cerca
de um terço da população se entreguem
habitualmente aos prazeres do cultivo e da poda, herdados de uma
época em que a vida no campo simbolizava o que de mais nobre
existia na alta sociedade britânica. Em suma, trata-se de
um país cujo passado se recusa a morrer.
Criatividade
diária Curioso observar como, num ambiente onde
a tendência parece ser o imobilismo a estagnação,
a indústria cultural se reinventa diariamente e irradia novos
conceitos para o resto do mundo. Nos últimos anos, este lado
criativo e moderno esteve, na maioria dos casos, ligado à
subida ao poder do governo trabalhista, que inclusive se apropriou
deste caráter cultural britânico para dar a si próprio
uma imagem jovem e renovadora. Na esteira do projeto do primeiro-ministro
Tony Blair, vieram investimentos colossais em obras como o pavilhão
Millenium Dome e a roda-gigante London Eye. Já em 1997 a
música pop estava entre os principais itens da pauta de exportação
inglesa Blair, ele mesmo um ex-guitarrista, aproveitou-se
para encontrar com alguns dos mais populares heróis do rock
local.
Com
a construção da galeria Tate Modern, em 2000, os ingleses
tentaram destronar o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA,
do posto de mais importante coleção de arte do século
XX. Foram investidos 200 milhões de dólares no espetacular
complexo às margens do Tâmisa, em frente à Catedral
de Saint Paul, onde se casaram o príncipe Charles e Diana.
Do lado de dentro, estão perfiladas obras de Salvador Dalí,
Pablo Picasso e Francis Bacon que ficavam espremidas na velha sede
da Tate Gallery. A galeria se tornou rapidamente um símbolo
da avalanche de criatividade na arquitetura, no design e na engenharia
que se espalhou por todo o país. O cinema inglês viu
renascimento semelhante sob a batuta trabalhista. No lugar de filmes
de época sonolentos, repletos de homens de fraque e mulheres
de espartilho, fitas como Um Lugar Chamado Notting Hill e Jogos,
Trapaças e Dois Canos Fumegantes renovaram a produção
britânica e fizeram sucesso dentro e fora da ilha.
Na
Grã-Bretanha, a tradição é tudo, por
mais cômico que pareça aos olhos estrangeiros. É,
inclusive, a força motriz das infinitas revoluções
culturais que de tempos em tempos sacodem o universo cultural do
Ocidente. A energia criativa na Inglaterra é, em grande parte,
resultado do choque entre passado e presente. Elementar. A transgressão
só pode existir quando houver tradição contra
a qual se rebelar. É por isso que a Inglaterra foi, é
e provavelmente continuará sendo uma ilha de transgressão
cercada de tradição por todos os lados. Ou vice-versa.
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