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Sociedade
A
luta pela tradição e a busca da integração
Mesmo
multirracial, a
França não abre mão do orgulho e do foie
gras
Pátria
de luminares como Montaigne, Voltaire, Descartes, Molière, Balzac, Flaubert,
Sartre. Berço do Iluminismo, dos direitos do homem e do cidadão.
Terra do foie gras, do roquefort, do crepe, do champagne, do vinho. Da moda e
da perfumaria. De quebra, o país cuja capital é simplesmente Paris.
A França tem no acervo histórico e cultural sua maior fonte de riqueza.
Os 1.000 anos de irradiação das artes, idéias e da cultura
ocidental, as centenas de castelos, as milhares de obras de arte são o
principal responsável pela afluência de mais 70 milhões de
turistas ao país a cada ano.
Ninguém
questiona a força da história, da cultura e da identidade nacional
da França - com exceção dos próprios franceses. Desde
o fim do século passado, eles sofrem de algo que também inventaram:
crise existencial. Sentem-se ameaçados pelo hambúrguer, pela hegemonia
internacional da língua inglesa, por Hollywood. Enfim, por aquela nação
a quem presentearam com a Estátua da Liberdade, os Estados Unidos. É
como se os piqueniques às margens do rio Sena, os museus como o D'Orsay
e o Louvre e os monumentos como a Catedral de Notre-Dame, o Arco do Triunfo e
a Praça da Bastilha não conseguissem mais sustentar o orgulho francês
frente ao poderio cultural americano.
O
ex-presidente Charles de Gaulle disse certa vez que "a França não
pode ser a França sem a grandeza". Da boca do mesmo De Gaulle saiu
também a pergunta: "Como se pode governar um país que tem 246
espécies de queijo?" Entre as mesquinharias de laticínio e
as ilusões perdidas de sua grandeur, os franceses às vezes se comportam
como os quixotescos gauleses das tiras de Asterix, aqueles que tomavam uma poção
mágica, fabricada por um druida, para fazer frente aos romanos. A realidade,
no entanto, não comporta truques de feitiçaria. Não há
como revogar as leis do mercado, não há como sustar a globalização,
não há como eliminar a força da indústria cultural
americana.
Cultura preservada - O
que não significa que a França precisa deixar de ser o país
da literatura, arte e filosofia. Por trás
deste discurso está a nostalgia de uma época em que os franceses
tinham nas mãos uma potência colonial, um império que ombreava
com o britânico. Não é porque hoje a força política
não é mais a mesma que a França deve deixar de ser o único
lugar do mundo onde filósofos recebem o tratamento geralmente reservado às estrelas
do show business.
Assim
como a Inglaterra reafirma sua identidade e se faz lembrar pelo mundo nas cerimônias
da família real, assim também a França se aproveita do prestígio
de sua cultura para rever-se no espelho e revigorar-se. É um engano freqüente
confundir tais iniciativas com decadência. A Europa nunca esteve tão
próspera, e a estagnação francesa está longe de tirar
o país de perto do topo da economia mundial. Antes, a manipulação
permanente do passado é um elixir com múltiplas utilidades: promove
a coesão social, reforça o charme nacional e - como não?
- atrai dinheiro, seja sob a forma de incremento ao negócio da cultura,
seja sob a forma de turismo.
Contudo,
a luta pela preservação de seus valores tradicionais não
é o único problema enfrentado pela sociedade francesa nos dias de hoje.
No decorrer dos últimos 150 anos, a França acolheu mais estrangeiros que qualquer
outro estado europeu, especialmente após o colapso de seu vasto império
colonial na África. As maiores comunidades são de argelinos e marroquinos,
com algumas famílias já em sua terceira geração -
o que não impede que novos imigrantes continuem aportando no litoral francês.
Difícil integração - A França
é hoje um país multirracial. Basta um passeio de cinco minutos pelas
ruas de Paris para comprová-lo. Quando se cruza com um grupo de crianças
de escola, verifica-se que o país que vem aí é branco, negro
e moreno-árabe. A França é paradoxal. Ao mesmo tempo em que
possui a extrema direita mais ameaçadora da Europa, abre suas escolas aos
recém-chegados e garante a cidadania à segunda geração.
Na França vigora o jus solis, o direito do solo - quem nasce em território
francês é francês. Na Alemanha, o jus sanguinis, direito de
sangue - é alemão quem é filho de alemão.
Esta
política, no entanto, não evitou que a Alemanha - e o resto da Europa
- se transformasse em um continente multirracial. O que antes era uma particularidade
dos países americanos, onde a uma população nativa se somaram
os europeus e, de quebra, se importaram escravos da África, tornou-se uma
das principais características européias do século XXI, muito
bem simbolizada pela França: o estado nacional multirracial. Infelizmente,
o fato consumado e reconhecido de que diversas origens e culturas habitam o mesmo
local não representa a vitória da causa pró-integração
e antipreconceito. Este tipo de convivência pacífica só poderá
acontecer pela via econômica, quando houver iguais oportunidades para todos
os cidadãos franceses, sejam descendentes dos Bourbon ou do Magreb. | |