AFP

Política
Da primazia no
Ocidente aos
novos desafios

Criadores da política
moderna hoje se deparam com grandes dilemas

Ninguém que tenha algum conhecimento da história européia dos últimos 1.500 anos tem como negar o papel central da França em formular e instituir boa parte dos conceitos que baseiam a noção de política da civilização ocidental dos dias de hoje. Se a forma pode ser atribuída a modelos que derivam principalmente da democracia ateniense da Antigüidade e de sua apropriação - e aperfeiçoamento - pelos romanos, o conteúdo da ação política como conhecemos hoje foi essencialmente fornecido pelo país.

Não a partir da revolução de 1789, como é comum se pensar, mas já no auge do período medieval, quando, na Europa fragmentada por domínios feudais, os francos foram o único grupo a manter por certo tempo algo parecido com um estado unificado, apoiado na figura do soberano Carlos Magno. Não à toa, o florescimento de uma pujante burguesia comercial em todo o continente foi percebido antes em território francês, levando ao estabelecimento de uma monarquia forte no país já ao término da Idade Média. Monarquia esta que serviu de inspiração para todos os estados modernos que a sucederam. Como se ainda não estivessem satisfeitos, os franceses também foram astutos para compreender que aquele mesmo estado que haviam criado cresceu a ponto de tornar-se parasitário e nefasto para a sociedade. Arquitetaram a sua derrubada no fim do século XVIII, algo que em outros territórios europeus seria realizado somente décadas depois.

Tamanho legado explica porque hoje em dia os franceses parecem tão ressentidos ao ouvirem o comentário comum que diz que, em matéria de política, foi-se o tempo em que davam as cartas. A exemplo da supremacia cultural que exerceram até o século XIX, influenciando da arquitetura à literatura de inúmeros países - o Brasil entre eles -, e que perderam para os EUA, também a primazia francesa em ditar os rumos políticos do Ocidente esvaiu-se com o tempo. O que não exime a França de manter, no início do século XXI, um dos regimes democráticos mais bem acabados e eficientes entre as grandes potências mundiais - e cheio de peculiaridades.

Bové e Le Pen - Uma característica francesa marcante é a divisão do poder entre um presidente, que tem sob sua responsabilidade as relações exteriores e a defesa da nação, e um primeiro-ministro, que cuida de todo o resto. Tal sistema - melhor no papel do que na prática - gerou nas últimas décadas um fenômeno político conhecido como coabitação, como os franceses chamam um governo dividido entre partidos opostos. Essa mistura tão francesa de presidencialismo com parlamentarismo, inventada por Charles de Gaulle para seu próprio uso nos anos 50, funcionou bem, por exemplo, sob a batuta de presidentes carismáticos como François Mitterrand, socialista, que reteve durante 14 anos uma autoridade quase monárquica enquanto o conservador Jacques Chirac comandava o Parlamento.

Recentemente, a questão geral que mais move os franceses em suas manifestações políticas - nas urnas ou nas ruas, como é muito comum em Paris, cidade conhecida como a "capital mundial das manifestações" - é a integração à União Européia e, numa esfera superior, a participação no processo da globalização como um todo. As contradições políticas, econômicas e culturais deste movimento de integração - ao qual os franceses ora se mostram entusiastas, ora reticentes - estão na raiz de acontecimentos como a rejeição à Constituição Européia votada pelos eleitores do país em 2005, ou dos graves conflitos nos subúrbios das grandes cidades no fim do mesmo ano, quando jovens imigrantes e filhos de estrangeiros atearam fogo a milhares de carros e prédios em protesto contra a falta de oportunidades e a discriminação étnica que encontram na França de hoje.

Tal cenário, alimentado principalmente por uma política econômica que ainda atravanca o crescimento do país, proporciona também a ascensão de figuras tão díspares como o agricultor e sindicalista José Bové e o ultra-direitista Jean-Marie Le Pen. O primeiro, uma espécie de retrato cômico do orgulho francês, se mete até em depredações de lanchonetes McDonald's para manifestar seu repúdio à economia globalizada. O segundo readapta frases de Adolf Hitler quando discursa a seus partidários. Bové e Le Pen representam, de certa forma, a contradição política que a França vive neste início de século: um poderia até invocar os princípios igualitários característicos da esquerda para promover uma convivência mais harmoniosa com os imigrantes, mas prega a destruição absoluta de toda influência estrangeira que deturpe a tradição francesa; o outro, ainda que já tenha declarado a sua admiração pela dama de ferro inglesa Margaret Thatcher, é um xenófobo de fazer inveja ao mais antiamericano dos franceses. Enquanto não houver um consenso entre as lideranças políticas do país, abrindo caminho para um avanço econômico duradouro, é possível que as discussões se mantenham neste mesmo nível.