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Sociedade
No
cotidiano, um eterno
salve-se-quem-puder
Saúde
e educação são para todos,
mas o 'jeitinho' é uma necessidade
Produtos
básicos de limpeza, de higiene pessoal e comida são
artigos de luxo em Cuba. Viajando de leste a oeste da ilha, o que
se vê é uma nação em colapso. Mercado
negro, sonegação, corrupção, prostituição,
malandragem e jeitinho passam são moeda corrente no país.
Cuba é um salve-se-quem-puder. A economia é tão
complexa que até a mais brilhante inteligência teórica
teria dificuldade de entender seu funcionamento. Longe do turismo
requintado e das estatísticas oficiais do governo, as dificuldades
da população se aprofundaram com o fim da Guerra Fria.
Com a suspensão da ajuda da União Soviética,
no início dos anos 90, foi imposto o período especial,
marcado principalmente por um severo racionamento de energia. A
nação começou a se deteriorar. O salário
que os cubanos recebem é o mesmo de sempre, mas antes pagava
todas as contas do mês. Agora não paga. O Partido Comunista
de Cuba teve de encarar o problema e, sem saída, abriu timidamente
a economia para o capital estrangeiro.
A
abertura da economia gerou empregos e atraiu capital estrangeiro
para a maior e mais charmosa ilha do Caribe. Mas não melhorou
a vida da maioria do povo. A cesta básica de alimentos distribuída
pelo governo dura apenas uma semana. Para garantir o sustento para
o resto do mês, os cubanos precisam fazer bicos. Os pesos
só podem ser gastos em poucas lojas e em mercados públicos
que vendem o mínimo do básico: arroz, feijão,
açúcar, sal, café, cigarro, palito de fósforo,
alguns legumes e pouca coisa a mais. Mesmo assim, a quantidade é
limitada por pessoa. Outros artigos de primeira necessidade são
destaque nas lojas - rolos de papel higiênico, panelas, recipientes
plásticos, lamparinas, panos de chão são exibidos
na vitrine. Produtos que no Brasil ficam escondidos no fundo da
loja.
As
roupas vendidas em pesos são usadas - o preço varia
conforme o número de vezes que elas foram recicladas. Mais
variedade de produtos só nas "tiendas" que vendem
artigos importados, em dólar, ou então no mercado
negro, que oferece artigos de porta em porta. O comércio
paralelo é movimentado por pequenos furtos feitos por operários
das fábricas, funcionários de armazéns estatais
ou empregados de lojas. A opção pela ilegalidade é
involuntária. Não tem saída. O povo depende
do dólar para comprar sabonete, xampu, detergente, bolacha
e leite. A economia cubana está dolarizada desde 1993, quando
o governo permitiu que o dinheiro americano circulasse no país.
Esse precedente causou mudanças profundas na sociedade. Quem
tem acesso ao dólar, como os que possuem parentes no exterior
que lhes enviam remessas do dinheiro regularmente, vive melhor que
os demais. Essas pessoas abriram negócios para atender os
turistas e aos poucos adquiriram um padrão de vida que as
distancia da grande massa de trabalhadores. Está surgindo
uma nova classe social em Cuba: a pequena burguesia.
Sob
as barbas de Fidel - A juventude começa a se questionar
se faz sentido passar tantos anos na universidade para depois receber
um salário que não dá para viver. Sabem que
se pode ganhar 40 dólares por mês como cozinheiro de
um "paladar", restaurante particular. Uma grande massa
de jovens está concluindo que estudar muito não enche
o bolso de ninguém. Eles trabalham para empresas estatais,
já que a ociosidade é crime em Cuba, e passam as horas
livres perambulando pelas ruas em busca de dólares. A ilegalidade
está escancarada sob as barbas de Fidel e todos fingem que
não vêem. Na verdade, não só estão
a par de tudo como participam do processo. A operação
de um pequeno negócio mostra bem como a atividade informal
está organizada no país. Percebendo a presença
de turistas no local, inspetores do governo fazem uma visita ao
proprietário. Para manter uma casa particular é preciso
pagar um imposto para o governo. O valor é de 100 dólares
mensais por quarto. Geralmente há mais de um quarto em cada
casa, mas paga-se por apenas um. Sonegação clássica.
A multa pelo descumprimento da regra é de 500 dólares.
Para passar pela inspeção vale tudo. Desde oferecer
suco de frutas, café e biscoitinhos até subornar o
inspetor.
Além
do imposto mensal, os donos de negócio próprio têm
de entregar anualmente 10% do lucro ao governo. Em Santiago de Cuba,
ponto de partida dos revolucionários que tomaram o poder
em 1959, a prostituição é visível nas
ruas e nos hotéis de luxo. No quatro-estrelas Casa Granda,
que fica no Parque Céspedes, onde Fidel Castro fez o primeiro
discurso vitorioso da revolução socialista, prostitutas
e gigolôs se misturam com hóspedes e músicos
cubanos. A polícia assiste a tudo sem interferir. Todos levam
um bom dinheiro nessa história. As prostitutas "classe
A", como dizem os cubanos, podem ganhar até 100 dólares
por cliente. A maior parte do dinheiro fica com o gigolô,
que compra roupas e maquiagem para suas moças e paga um pedágio
à polícia para poder tocar o negócio. Fidel
condenou a prostituição em vários de seus longos
discursos, mas anda calado. A atividade é um dos pontos altos
do turismo, que atrai mais de 1 bilhão de dólares
para o país a cada ano. A todo momento somos abordados nas
ruas por algum cubano oferecendo tabaco muito em conta, uma "jinetera",
como são chamadas as prostitutas, drogas e até balas
e bombons.
Saúde
burocratizada - O furto já é uma atividade institucionalizada
em Cuba. O comércio ilegal de tabaco, um dos principais itens
de exportação do país, é dos mais visíveis.
Muitos cubanos obtêm o sustento da mesma forma. Como em qualquer
lugar do mundo, a ilegalidade rende muito dinheiro. O charuto Cohiba,
marca famosa criada pelos revolucionários, é vendido
a 385 dólares a caixa de 25 unidades na loja da fábrica,
em Havana. Dez vezes mais caro do que é cobrado nas ruas,
cuja procedência é duvidosa. Em Cuba, o turista é
bem tratado porque representa o caminho mais curto para chegar ao
dólar. Também não há arma de fogo. Esse
é um aspecto positivo de Cuba. Não há assaltos,
só pequenos furtos. Arma é proibida, nem no mercado
negro se pode encontrar um revólver. O Código Penal
é muito rígido. Os cubanos preferem ficar longe da
criminalidade mais pesada. É agradável, ainda, ver
crianças calçadas e vestidas decentemente. Todas estão
na escola, sem exceção. Mão-de-obra infantil
também não se vê. As crianças têm
tempo para se divertir jogando bolinha de gude e beisebol nas ruas.
O estudo é obrigatório, e os pais que desobedecem
à lei são multados. Ao contrário do que se
imagina, porém, a escola não é totalmente gratuita.
Custa 40 pesos mensais para o ensino primário, cerca de 20%
do salário médio cubano. Também surpreende
o fato de que não há vagas suficientes nas universidades.
Há um teste de seleção, como o vestibular no
Brasil.
A
saúde é para todos, mas o acesso é burocratizado.
Tem gente que não consegue ser operada por falta de médico,
equipamento cirúrgico, leito ou qualquer outro problema.
Os cubanos reclamam, principalmente, da falta de medicamentos. Muitos
pensam em deixar o país e já não é mais
preciso recorrer a um bote improvisado para atravessar os 120 quilômetros
que separam a ilha da Flórida, nos Estados Unidos, onde vivem
mais de 1 milhão de cubanos, cerca de 10% da população.
O governo não proíbe a saída para maiores de
18 anos, mas é difícil um cubano conseguir um visto
permanente fora de casa. O governo permite o matrimônio cubanos
com estrangeiros residentes em Cuba, mas cobra alto pela concessão,
800 dólares. A conta ainda inclui a tarjeta branca, autorização
para um cubano sair do país (150 dólares), passaporte
(50 dólares) e passagem aérea (400 dólares).
Isso sem considerar o preço que um estrangeiro pede para
casar-se, cerca de 500 dólares. A soma total chega a quase
2.000 dólares.
Ícones
americanos - A sociedade cubana está fragilizada. Sabe
que vive um período de transição e teme o futuro.
Fala-se muito no país sobre a debilidade da saúde
de Fidel Castro. De fato, os discursos dele estão mais curtos.
A voz apagada e rouca atrapalha. O sucessor ainda não está
definido, mas para os cubanos ninguém está à
altura de Fidel, há mais de quatro décadas no poder.
Os cubanos são fidelistas, não socialistas. Entretanto,
o enriquecimento de algumas pessoas já está colocando
essa harmonia em jogo e causa insatisfação por parte
dos menos abastados. Há um clima tenso no ar. Os cubanos
estão inquietos. Há pouco tempo não se via
ninguém reclamar dos primitivos e lotados ônibus que
circulam pelas ruas. Hoje, o povo questiona, sem receio, até
quando terá de agüentar tamanho incômodo. É
proibido criticar o governo, mas ouvem-se freqüentemente queixas
contra preços altos e autoritarismo da polícia. Alguns
acreditam que a situação difícil do país
vem do embargo econômico. Os mais críticos lembram
a falta de iniciativa do governo em promover o desenvolvimento,
quando contava com a ajuda farta dos soviéticos. Para o governo
cubano há ainda uma situação delicada a resolver:
as relações com os Estados Unidos. São mais
de quarenta anos de animosidade, com raros períodos de calmaria.
Cedo ou tarde essa questão terá de ser resolvida.
Alheios a qualquer situação diplomática, crianças
andam pelas ruas com o Mickey estampado nas camisetas e adultos
exibem camisas de times de beisebol dos Estados Unidos. Os ícones
americanos convivem pacificamente com as imagens dos heróis
da revolução Fidel Castro e Che Guevara, reproduzidas
à exaustão nas fachadas dos prédios públicos,
nos outdoors ou em qualquer estabelecimento comercial. Para os cubanos,
o que está em jogo não é ser revolucionário
ou contra-revolucionário. O que importa é a luta pela
sobrevivência.
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