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Economia
Depois
do colapso, a fé
no futuro do capitalismo
A
abertura a empresas estrangeiras
e a vida sob a economia paralela
Na
virada do século, Cuba vivia um momento de exuberante fé
no futuro do capitalismo. Havana ficou colorida por outdoors estampando
o nome de marcas famosas como o sabonete Lux, os automóveis
italianos Fiat, a cerveja canadense Labbat. Javier Sottomayor, o
esplêndido saltador cubano, atleta olímpico orgulho
da revolução, aparecia num cartaz propagandeando os
tênis alemães da Adidas. Entre eles, timidamente, em
algumas esquinas longe do centro, sobrevivem as placas com palavras
de ordem socialistas e a fisionomia barbuda de Fidel Castro e Che
Guevara, um tanto deslocados. Entre os esqueletos de prédios
da parte velha da capital, uma loja da Benetton oferece roupas européias
a preço de free shop. Do outro lado da rua, dois cafés
de luxo com seus cristais e mármores competem por clientes.
No cardápio de ambos, lagosta e vinhos franceses. Guindastes,
andaimes, aroma de tinta fresca estão por todo lado na capital.
Cuba e sua capital estão lentamente renascendo da decrepitude
de quase quarenta anos de sufoco. Nos quartos dos hotéis
as televisões retransmitem a programação da
CNN e de emissoras francesas e italianas. Os cubanos, que não
têm acesso à TV a cabo, contentam-se com os dois canais
oficiais. Mesmo neles, no intervalo das novelas brasileiras, assistem
ao comercial da Emtel, a companhia telefônica local, que,
com 49% de capital mexicano, é um símbolo dos novos
tempos na ilha. Para um país comunista cuja economia recebeu
extrema-unção depois do desmonte do bloco soviético,
de onde recebia 8 de cada 10 dólares de seu orçamento,
Cuba vai muito bem. O frescor da circulação do dólar
pela economia informal transmite uma estranha sensação
de vitalidade e normalidade como se Cuba tivesse, finalmente, despertado
de um pesadelo. Depois de anos de colapso, os serviços de
transporte voltaram a funcionar e os ônibus circulam com alguma
assiduidade pelos bairros. De um esquema de dezoito horas sem eletricidade
por dia, Havana quase não precisa mais racionar energia.
A cidade
também está com nova cara. Havana, fundada pelos espanhóis
em 1519, tem arquitetura tão imponente, com suas fontes,
praças e parques, que uma simples demão de tinta e
uma fonte luminosa ligada operam milagres visuais. Nossa Senhora
da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, não tem nada a ver
com a ressurreição urbana da capital. O santo milagreiro
é o de sempre nesses casos, o dólar. Em 1993, Fidel
Castro legalizou o uso da moeda americana em transações
comerciais, abrindo caminho para a renovação econômica
e de humor que hoje contamina boa parte de Cuba. Na década
passada, apenas 2% dos cubanos trabalhavam em atividades que, mesmo
pagando salário em peso cubano, os colocavam em contato direto
com o dólar. Hoje são cerca de 8%, e o número
não pára de crescer. Garçons, prostitutas,
motoristas de táxi clandestinos, prestadores de serviços
aos estrangeiros residentes na ilha são profissões
cobiçadas. Estão próximos do dólar e
dos grandes privilégios que ele traz. Ganham gorjetas e têm
seus serviços pagos em moeda forte. Com dólar pode-se
ir às compras no shopping center Carlos III ou nas dezenas
de lojas menores espalhadas pelo país que só vendem
em moeda americana. Pode-se sentar num restaurante chique ao lado
dos turistas - e ir à feira comprar o produto das cooperativas
agrícolas do interior que vendem seu excedente em moeda forte.
Alguns gastam seus dólares, como os turistas alemães,
italianos e holandeses, com as prostitutas. Todo cubano tem seu
"invento", gíria que descreve a ampla gama de pequenas
ilegalidades em que se mete disciplinadamente boa parte da população
para desviar para o próprio bolso alguns dólares que
circulam na economia. São truques para os quais o governo
faz vista grossíssima. Quase 1 milhão de cubanos,
dos 11 milhões que vivem na ilha, trabalham hoje em alguma
atividade ligada ao capital estrangeiro.
Concorrente
desleal - O mais significativo, porém, é o dinheiro
que chega, de graça, de Miami, enviado pela raivosa e rica
comunidade de 1,1 milhão de cubanos exilados. A maior parte
dos dólares entra no país via México trazida
em espécie na própria bagagem por visitantes batizados
de "mulas", a mesma designação que os traficantes
dão a quem leva droga de um lado a outro das fronteiras nacionais.
Cerca de 10% aterrissam de maneira oficial, transferidos eletronicamente
de Miami pelos canais reconhecidos pelos governos americano e cubano.
Em apenas um ano, os cubanos de Miami enviaram 1,1 bilhão
de dólares para Cuba, um recorde. Em segundo lugar, como
fonte de divisas, está o turismo. Só em 2000, cerca
de 1,8 milhão de estrangeiros visitaram a ilha. Em 1990,
foram apenas 300.000. A indústria turística, com um
crescimento de 18% em 2001, já é a principal do país
e movimenta anualmente 2 bilhões de dólares. Milhares
de cubanos perceberam o filão e tentaram entrar nesse lucrativo
mercado. Só que trombaram com um concorrente desleal: o próprio
governo comunista, que investiu em infra-estrutura e, com seu habitual
apetite totalitário, não está disposto a dividir
o bolo. Um dos objetivos na atual perseguição aos
proprietários é rastrear os interessados em usar o
imóvel como ponto comercial. Muitos o transformam em pousada,
alternativa barata aos hotéis cinco-estrelas, 80% deles geridos
pelo governo. Outros insistem em abrir "paladares", como
são conhecidos os restaurantes caseiros. Há três
anos, 600 deles funcionavam em Havana. Em sua incontrolável
sanha contra qualquer sinal de prosperidade fora do aparato burocrático
do Partido Comunista, o governo inventou um imposto de 800 dólares
e uma série de restrições. Os paladares ficaram
reduzidos a algumas dezenas.
A ilha
de Fidel, que já possuía a mais liberal lei de investimentos
estrangeiros da América Latina, modernizou ainda mais seus
regulamentos para atrair capital em 1995. Os investidores estrangeiros
agora podem ser donos de 100% dos empreendimentos na ilha. Têm
direito assegurado de repatriar integralmente seus lucros, sem impostos.
No Brasil, o limite de repatriação é de 27%.
Os funcionários e diretores estrangeiros das empresas mistas
também podem remeter a seus países de origem até
dois terços do salário livres de qualquer taxação.
Não há interferência na contratação
ou demissão de funcionários cubanos das empresas estrangeiras.
Além disso, o governo cubano proibiu a si mesmo, por lei,
de expropriar propriedades de estrangeiros na ilha. Uma sinalização
ideológica de grande significado, quando se lembra que os
revolucionários cubanos tungaram mais de 2 bilhões
de dólares em patrimônio de estrangeiros em Cuba ao
tomar o poder pelas armas há 39 anos. As expropriações
foram a causa central do embargo econômico decretado pelos
americanos contra Cuba em 1962, três anos depois da revolução,
e de pé até hoje. O embargo econômico atual
serve principalmente de mote para os discursos de Fidel Castro.
É cômodo para Fidel colocar a culpa de todos os problemas
do país num histórico, poderoso e vizinho inimigo,
os Estados Unidos. Na realidade, o embargo traz alguns pequenos
problemas para as entidades assistenciais internacionais que não
podem comprar todo o remédio de que necessitam. Na semana
passada, a Organização Mundial de Saúde revelou
que faltam aos pacientes cubanos cerca de 300 tipos de medicamento
que poderiam ser conseguidos mais facilmente se não pesasse
sobre Cuba o embargo econômico decretado pelos americanos.
A saúde de Cuba vai bem. A ilha tem a menor taxa de mortalidade
infantil da América Latina (9 por 1.000), a menor incidência
de Aids (onze infectados por milhão de habitantes) e longevidade
de país rico, na casa dos 76 anos. O embargo, é óbvio,
não tem um efeito tão danoso como querem fazer crer
os dirigentes cubanos. Mas a atração que Cuba exerce
sobre os americanos é fortíssima. Mesmo com o embargo
e a franca hostilidade entre os dois governos, 84.000 turistas americanos
visitaram Cuba no ano passado. Um número maior que o de turistas
brasileiros.
Resultado
bizarro - O terror fiscal é hoje, de longe, a mais poderosa
arma de coerção do regime cubano contra a economia
paralela. Para tomar conta de carros na porta de um hotel, um cubano
paga 54 dólares por mês ao governo. Quem deseja alugar
um quarto da casa para turistas precisa entregar 250 dólares
fixos todo mês ao Estado. A partir daí paga mais de
acordo com o que receber do inquilino temporário. Os cálculos
são draconianos. Como quase sempre se é obrigado a
pagar mais do que se recebe do hóspede, a prática
acabou sendo abolida da ilha. A paisagem de casarões degradados
e escurecidos pela má conservação é
uma das marcas registradas das cidades cubanas sob o regime de Fidel
Castro. Nos últimos tempos, algumas fachadas passaram a ganhar
uma demão de tinta, reluzente sinal de que mudanças
estão ocorrendo na ilha. Quatro décadas após
a revolução comunista, o que há de novo em
Cuba é um fenômeno de duas vias. De um lado, uma crescente
injeção de dólares no país que não
se via desde que a madrinha União Soviética desabou,
junto com o Muro de Berlim, quinze anos atrás, deixando Cuba
entregue à penúria. De outro, na contramão,
o governo cubano empenhado em reprimir qualquer sinal de prosperidade
da população, como se os dólares recém-chegados
representassem um demônio a ser exorcizado, e não uma
tábua de salvação. Hoje, não há
nada mais perigoso em Cuba que reformar uma casa ou pintar sua fachada
sem autorização - o imóvel pode ser até
confiscado. É a senha de que seu proprietário pode
ser um "bisnero", eufemismo para os que se aventuraram
no business, a iniciativa privada. Ou que recebeu um bom naco dos
800 milhões de dólares enviados pelos exilados em
Miami para ajudar parentes na ilha.
De
tanto acender uma vela para o santo e outra para o diabo, execrando
o capitalismo sem deixar de estimular a entrada de capital externo,
o governo de Fidel Castro acabou numa encruzilhada. Não consegue
mais reverter os efeitos da concessão feita no auge da crise
econômica, no início dos anos 90, que permitiu que
milhares de cubanos tentassem a sorte em bicos ou num pequeno negócio
por conta própria. Ao mesmo tempo, busca a todo custo manter
o total controle da economia e da população. O resultado
é bizarro: em vez de estimular a reforma das casas, confisca
o imóvel de quem tenta torná-lo mais digno, como se
o país ou a revolução estivessem ameaçados
por uma demão de tinta. Cerca de 85% dos cubanos vivem em
casa própria, mas só podem trocar de imóvel
se não houver compensação financeira no negócio.
Para dar um verniz de justiça social aos confiscos, os imóveis
atingidos viraram creches, clínicas médicas, escolas
de computação e asilo. Enquanto isso, a imprensa oficial
encarregou-se de transformar em bandidos os proprietários
que viraram sem-teto.
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