| | Sociedade
Um bilhão em movimento O
país mais populoso do planeta vive em constante transição:
seu mais de um bilhão de habitantes há décadas se movimenta
entre as tradições e princípios dos antepassados e os desafios
do futuro. Se avançou em muitos aspectos, em dezenas de outros pontos a
sociedade chinesa continua bastante parecida à que viu Mao Tsé-tung
assumir o poder há mais de meio século. A seguir, a situação
dos chineses em diversos setores de suas vidas neste novo século:
Família
Enfrentando
a perspectiva de uma explosão populacional, a China implementou rígidas
leis de controle de natalidade nos anos 70. A famosa lei que permitia que cada
casal tivesse somente um filho aparentemente fez efeito. O índice de natalidade
caiu - a população na virada do século era de 1,2 bilhão
de pessoas, contra a previsão de 1,5 bilhão se não houvesse
o programa. Há indícios, no entanto, de que o sucesso do controle
foi obtido às custas do desrespeito aos direitos humanos - os relatos de
abortos forçados e esterilizações compulsórias atraíram
condenação da comunidade internacional. Surgiu também um
fenômeno trágico: a multiplicação dos casos de infanticídio.
Como os homens são mais valorizados por sua força de trabalho braçal
nas áreas rurais, muitas meninas eram sacrificadas por causa da lei de
um filho por casal.
Migração e terceira idade
Uma
das principais ameaças ao controle de população na China
é o número crescente de migrantes, uma população flutuante
que reúne mais de 100 milhões de pessoas em constante trânsito
pelas áreas rurais. De acordo com os registros do governo, essas pessoas
tendem a desrespeitar as regras de natalidade e planejamento familiar, inflando
a população total e aumentando a demanda por trabalho e serviços
públicos. Além disso, a expectativa de vida dos chineses dobrou
desde a tomada do poder por Mao, em 1949. Na virada do século, o índice
era de 70 anos em média. Com poucos nascimentos e cada vez mais idosos,
a China corre o risco de, no futuro, abrigar a população mais envelhecida
já vista no mundo.
Religião
O
governo comunista da China garante conceder a seus cidadãos total liberdade
de credo e permitir qualquer prática religiosa em seu território.
De acordo com os dissidentes, analistas políticos e grupos internacionais
de defesa dos direitos humanos, isso não ocorre na prática: a perseguição
religiosa ainda seria parte integrante da sociedade chinesa. A seita Falun Gong,
que mistura idéias do budismo e taoísmo, é um dos principais
alvos: desde 1999, está banida. Além disso, a tolerância religiosa
dos chineses também é bastante duvidosa no Tibete: o dalai lama,
líder espiritual dos budistas tibetanos, continua exilado, apesar dos apelos
do mundo em seu nome.
Drogas
Tema
de grande importância histórica na China - no século XIX,
o país lutou duas guerras contra o Ocidente por causa do ópio -,
o consumo de drogas foi banido pela revolução comunista de 1949.
Na época, os traficantes foram executados e os viciados, submetidos a tratamentos
obrigatórios. Mas o crescimento econômico ressuscitou o acesso às
substâncias proibidas - no fim da década de 90, o governo já
calculava em meio milhão o número de pessoas com menos de 35 anos
viciadas em drogas. O país retomou sua estratégia de dura repressão
aos entorpecentes - mas é cada vez mais difícil conter o tráfico
e o consumo das substâncias ilícitas.
Crime
Na
época das "comunas" de Mao, cada região tinha comitês
de governo responsáveis por controlar seus cidadãos - o que mantinha
os índices de criminalidade em níveis baixíssimos. A mudança
na estrutura social e econômica do país permitiu o surgimento de
ramificações do crime organizado no país. Com controle governamental
menos rígido e corrupção oficial cada vez maior, as atividades
criminosas aumentaram nas últimas décadas, incluindo a prostituição,
a pirataria de produtos, o contrabando, a extorsão, o jogo ilegal e o tráfico
de drogas e armas.
Direitos humanos
De
acordo com a Anistia Internacional e vários outros grupos de defesa dos
direitos humanos, a China continua ferindo as convenções globais
e perseguindo de forma implacável seus dissidentes e opositores. Os prisioneiros
políticos lotam o sistema penitenciário e são submetidos
a tortura, cárceres precários e julgamentos sem direito a defesa.
As execuções ainda são comuns e há denúncias
sobre o suposto cultivo de órgãos humanos de seus prisioneiros.
Há ainda campos de trabalhos forçados e alto índice de trabalho
infantil. O governo nega tudo.
Comunicação
A
imprensa chinesa é controlada com rigidez pelo governo, que também
restringe a entrada de informações externas ao bloquear sinais de
televisão e rádio externos e impedir o acesso a sites estrangeiros
na internet. Nos últimos anos, a imprensa chinesa vem tendo liberdade para
criticar a corrupção e a ineficácia de funcionários
do governo e autoridades, mas a mídia jamais tem autonomia para questionar
o poder do Partido Comunista. Em
2008, existiam 10.000 publicações periódicas, cuja função
era, no máximo, contar uma parte da verdade, jamais a verdade inteira.
As revistas estrangeiras que chegavam às bancas (pouquíssimas) tinham
páginas coladas. Se o assunto da reportagem fosse China, os censores grudavam
o que julgavam ser ameaçador ao regime. Eles não sabem inglês
ou qualquer outra língua estrangeira, então, eliminam o problema
da liberdade de imprensa passando cola em todos os textos aparentemente sensíveis.
Livros
de bons autores à venda: quase não há. De maus autores: situação
idêntica. Importação de livros: demorada e com o risco de
cola nas páginas. Cinema: minguadas setenta salas para os 17,4 milhões
de habitantes de Pequim. A exibição de filmes estrangeiros no país
é restrita a vinte títulos novos por ano. Assim como as produções
chinesas, eles não podem ter cenas de sexo, mensagens políticas
ou questionamentos de ordem moral. As emissoras abertas, estatais, exibem majoritariamente
novelas ambientadas quinhentos anos atrás, protagonizadas por senhores
da guerra de barbas e sobrancelhas longas. | |