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Política
Reformas
sem rupturas
Em
1º de outubro de 1949, Mao Tsé-tung apareceu vitorioso
na praça da Paz Celestial para decretar a vitória
de sua revolução comunista: "O povo chinês
enfim se levantou". A criação da República
Popular da China encerrava mais de um século de conflitos
internos e invasões por forças estrangeiras, decretando
o nascimento do que Mao chamava de "uma nova China". Mais
de 50 anos depois, a peça central da terceira geração
de líderes, o presidente Jiang Zemin, discursava no congresso
do Partido Comunista da China, entregando à quarta geração
de comandantes do país mais populoso do mundo o poder e um
desafio: sustentar o espantoso crescimento conquistado desde a abertura
da economia e, ao mesmo tempo, manter vivos os princípios
defendidos pelo camarada Mao em seu discurso de meio século
antes.
No
congresso da transição de poder, realizado em novembro
de 2002, Jiang anunciou que o partido passaria a aceitar ricos capitalistas
em suas fileiras, mas rejeitou qualquer mudança no sistema
político do país, como a adoção de uma
democracia pluripartidária. Diante de 2.114 delegados do
partido reunidos no Grande Salão do Povo, o presidente discursou
por 90 minutos, divulgando um documento de 98 páginas com
as novas diretrizes políticas do país.
Sem
democracia - A aproximação com os capitalistas
foi justificada por Jiang pela necessidade de adaptar a China aos
novos tempos. "Nós devemos avançar, ou ficaremos
para trás", defendeu. "Precisamos admitir no partido
elementos das altas camadas que aceitam o programa do partido. Desta
forma, nós poderemos aumentar a influência e a força
de nosso partido entre a sociedade civil."
As
metas estabelecidas por Jiang incluíam novas reformas no
mercado de trabalho e nas políticas econômicas do país,
além do crescimento da economia em até quatro vezes
até 2020. O líder chinês ressaltou que, apesar
da adoção de doutrinas capitalistas, o país
"jamais deve copiar os modelos políticos do Ocidente",
descartando qualquer mudança em direção à
democracia ampla e irrestrita.
No
mesmo encontro, o vice-presidente do Partido Comunista, Hu Jintao,
então com 59 anos, foi eleito o futuro líder. Pela
primeira vez desde a criação do partido, em 1949,
a transição de poder foi pacífica e ordeira,
conduzida pelo atual presidente e aceita pelos delegados durante
a cerimônia de encerramento de seu congresso. Se depender
de Jiang, contudo, a histórica reforma nos cargos do governo
não deverá afetar o poder do Partido Comunista - pelo
contrário, pois ele deseja fortalecer ainda mais o sistema
de governo do país. "Precisamos reforçar a liderança
do partido e consolidar e melhorar o sistema", alertou aos
delegados.
Os
dilemas da transição - As preocupações
de Jiang eram justificadas. A transição política
na China foi lançada num momento em que os líderes
do país enfrentavam desafios inéditos - e as perguntas
mais importantes só serão respondidas dentro de anos
ou mesmo décadas. O atual sistema político pode se
sustentar em paz e prosperidade por mais meio século? Como
mantê-lo vivo num tempo em que os raros regimes comunistas
que ainda vigoram no mundo estão aos farrapos? E mais: que
papel o país deve cumprir numa comunidade internacional cada
vez mais envolvida em choques de interesse?
De
acordo com os analistas políticos do próprio Oriente,
a China não escapará destas perguntas no decorrer
da primeira metade do século XXI. Desde que Deng Xiaoping
lançou as reformas econômicas há mais de duas
décadas, o PIB chinês se expandiu num ritmo assombroso,
mas junto com o dinheiro veio o crescente abismo social entre ricos
e pobres - algo que jamais fora visto pelas atuais gerações
de chineses. Com as previsões de que o crescimento continuará
em níveis altíssimos, a tendência para as próximas
décadas é, curiosamente, de inquietação
política crescente.
"A
China hoje está dividida entre ricos e pobres", observou
o analista político Wang Chan, no aniversário de 50
anos da revolução. "As pessoas que passam para
a oposição são os doentes, os velhos, os desempregados,
os derrotados. No futuro, isso se agravará." Se o Partido
Comunista da China, com seus novos líderes da quarta geração
e sua lealdade à velha cartilha de 1949, não oferecer
caminhos para quem saiu perdendo no novo jogo econômico, cada
vez mais gente buscará alternativas fora dos palácios
da Praça da Paz Celestial.
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