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história do Chile ficou marcada com as imagens do bombardeio do Palácio
de La Moneda no golpe de 1973 e está permeada de denúncias contra
o regime ditatorial de Augusto Pinochet. Mas um aprofundamento nas origens desse
país pode ajudar a entender muito mais de sua história e de sua
cultura. Espremido entre a cordilheira dos Andes a leste e o Oceano Pacífico
a oeste, o Chile é o país mais estreito do mundo. A existência
do deserto do Atacama torna o território ainda mais peculiar. Essa posição
geográfica foi, por muitas vezes, determinante na história chilena,
em especial se forem levados em conta os inúmeros terremotos que destruíram
cidades inteiras ao longo dos anos. Os
principais momentos históricos
Chile
pré-hispânico Os
primeiros indícios de presença humana no território chileno
remontam ao ano de 12.000 a.C., no extremo sul, evidenciados por descobertas arqueológicas
na cova Fell, na Terra do Fogo. Seus primeiros habitantes foram tribos indígenas
como mapuches, aimaras, diaguitas, atacamenses, e changos. Na Ilha de Páscoa,
os primeiros povoadores foram os rapanui, que chegaram por volta do ano 600 d.C.,
vindos das Ilhas Polinésias. No século XV, os povos que habitavam
o norte, como os aimaras, atacamenses e diaguitas, foram subjugados ao Império
Inca. No momento da conquista espanhola, a população indígena
do Chile era de mais de 1 milhão. Conquista
e colonização A
descoberta do Chile se deu no ano de 1520, durante a missão de circunavegação
de Fernando Magalhães, quando este passou pelo estreito que hoje leva seu
nome. O território chileno, um dos últimos da América Latina
a ser povoado devido ao seu difícil acesso, começou a ser colonizado
em 1536, pelo espanhol Diego de Almagro, sócio de Francisco Pizarro na
conquista do Peru. Quatro anos depois, Pedro de Valdivia deu continuidade à
colonização. Sua expedição foi mais bem sucedida que
a de Almagro, pois tomou a rota do Deserto do Atacama, e não dos Andes,
como seu antecessor. Em 1941, Valdivia conquista o Vale Central e funda Santiago. A
colonização seguiu por mais de dois séculos, com o Reino
do Chile representando uma Capitania Geral com capital em Santiago. Nos primeiros
anos de dominação espanhola, a população nativa foi
submetida à servidão, através do sistema de encomiendas.
A maior resistência à dominação se deu com os índios
mapuches, que habitavam as partes meridionais do Chile. Foram eles que lutaram
contra os espanhóis na Guerra de Arauco (1550-1656). Durante
a primeira metade do século XVII, a economia do Chile foi impulsionada,
principalmente, pelo envio de charque, couro e sebo ao vice-reinado do Peru. A
alta demanda peruana acabou por exigir uma mudança no sistema de trabalho,
levando à escravização de índios na Guerra de Arauco
e à compra de escravos negros para complementar as já insuficientes
encomiendas. Em
1687, uma crise agrícola no vice-reinado do Peru, desencadeada por uma
peste, afetou a produção do trigo no país, favorecendo o
envio do produto pelo Chile. O século XVIII, que ficou então conhecido
como o século do trigo, acabou por criar uma nova estrutura agrária,
com fazendas de cereais. Independência Após
a invasão da Espanha pela tropas de Napoleão em 1808, e o subseqüente
aprisionamento do rei Felipe VII, os criollos decidem formar uma junta de governo.
Assim, no dia 18 de setembro de 1810, dia em que hoje se celebra a independência
do Chile, o governo espanhol foi trocado por uma junta de notáveis, presidida
por Mateo de Toro y Zambrano, com o propósito de conservar o poder enquanto
durasse o cativeiro do Rei.
A formação desse Cabildo Aberto representou os primeiros passos
em direção à independência do Chile, já que
era a primeira vez em que a aristocracia criolla tomava o controle do seu próprio
país. Em pouco tempo, foram convocadas eleições para o Primeiro
Congresso Nacional, que foi estabelecido em 1811. A vitória foi dos moderados,
que buscavam aliar uma maior autonomia da colônia à manutenção
de um vínculo com o Império Espanhol. A
influência do iluminismo e dos ideais da independência dos Estados
Unidos, no entanto, acabou por dar outros rumos ao governo chileno. Com a ascensão
de José Miguel Carrera ao poder, foram editados os primeiros textos constitucionais
e leis próprias, além da criação de novas instituições
como o Instituto Nacional do Chile e o primeiro jornal chileno, o Aurora de Chile. Em
1813, Bernardo O'Higgins substituiu Carrera no poder e deu início à
luta pela independência, obtida com o apoio do general argentino José
de San Martín. Em abril de 1818, o Exército Libertador venceu as
tropas realistas na Batalha de Maipu, selando definitivamente a independência
do Chile. O'Higgins, que fora nomeado Diretor Supremo em fevereiro de 1818, governou
ditatorialmente até 1823, quando renunciou, a fim de evitar uma guerra
civil. República Em
1826, Manuel Blanco Encalada é eleito o primeiro presidente da República
do Chile pelo Congresso Nacional, em um ambiente político conturbado. O
caos reinante acabou por provocar sua renúncia e uma sucessão de
presidentes de curta permanência no poder. A
Revolução de 1829 termina com o implemento da República Conservadora
em 1831, sob o comando de José Joaquim Prieto Vial. Ela duraria até
as eleições de 1851, quando foi substituída pela República
Liberal. Entre
1879 e 1883, o Chile lutou contra as forças conjuntas da Bolívia
e do Peru, no que ficou conhecido como a Guerra do Pacífico. Com a vitória
chilena no conflito, foram anexados regiões ricas em minerais de ambos
os países derrotados. Do Peru, foi tomada a região do Atacama, e
da Bolívia, a província de Antofagasta, o que tirou dos bolivianos
sua única saída para o mar. Em
1886, José Manuel Balmaceda é eleito presidente da república.
Ele ficaria marcado pela modernização do sistema econômico,
educacional e sanitário, além de pela construção de
importantes obras civis. No entanto, isso não impediu a oposição
ao seu governo, que cresceu ao ponto de provocar a Guerra Civil de 1891, quando
Balmaceda foi destituído do cargo em reação ao fechamento
do Congresso pelo mesmo. Com
a vitória das forças congressistas, foi instituída uma República
Parlamentar, com o domínio do Congresso Nacional sobre a política.
Esse sistema durou até 1925, quando uma nova constituição
devolveu o poder ao presidente. Da
prosperidade econômica da segunda metade da década de 1920, o país
entrou em uma recessão sem precedentes com a quebra da Bolsa de Nova York
em 1929. O endividamento chileno e a crise do mercado pela falta de liquidez acabaram
em uma drástica crise financeira no Chile. A Liga da Nações
chegou a estimar que o país foi o mais afetado pela crise mundial. A recuperação,
no entanto, não chegou a tardar, com um crescimento anual da indústria
de 7,5% entre 1940 e 1943. No
dia 4 de junho de 1932, um golpe militar derrubou o governo de Juan Montero e
proclamou a República Socialista do Chile. Porém, o governo durou
apenas 12 dias, quando seus líderes, Marmaduke Grove e Eugenio Matte, foram
exilados na Ilha de Páscoa. Quase
40 anos depois disso, o socialismo voltaria a alcançar o poder, desta vez
- e pela primeira vez no mundo - pela via democrática. Em sua quarta candidatura
presidencial, Salvador Allende Gossens, da Unidade Popular (aliança de
socialistas, comunistas e cristãos de esquerda), ascendeu ao poder em 1970.
No contexto
da Guerra Fria, o caráter radical do novo governo despertou a oposição
não só a nível nacional como internacional. Nesse sentido,
foi decisiva a influência do governo norte-americano na derrubada do socialismo
chileno. A paralisação de vários setores da sociedade, como
os transportes coletivos, agravaram a sensação de desgoverno, e
culminaram no golpe militar de 1973. Regime
Militar O
dia 11 de setembro de 1973 ficou marcado na história com as imagens do
bombardeio do Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, pelas Forças
Armadas, que derrotaram o governo da Unidade Popular. Allende e seus partidário
se negaram à rendição. Foi do Palácio de La Moneda
que pronunciou suas últimas palavras à população,
pouco antes de cometer suicídio, por volta das 14h. Quem
assumiu o poder foi o general Augusto Pinochet que, no comando da junta militar,
dissolveu partidos políticos e iniciou um período de censura à
imprensa e de repressão a oposicionistas. Sob seu regime, que se estendeu
até 1990, mais de 3.000 pessoas foram mortas por sua polícia secreta,
a Direção de Inteligência Nacional (Dina). A
conjuntura da América Latina, governada por diversos ditadores militares,
levou o Chile a ingressar na Operação Condor. O plano de inteligência
foi realizado em conjunto entre diferentes países e foi destinado à
pratica do terrorismo de estado no Cone Sul, com o apoio da CIA. Um de seus idealizadores
foi o chefe da Dina, Manuel Contreras. Em
março de 1987 foi promulgada a Lei Orgânica de Partidos Políticos,
que permitiu a criação de partidos políticos, e a Lei Orgânica
Constitucional, que permitiu abrir os registros eleitorais. Essas modificações
viabilizaram a realização de um novo plebiscito, estabelecido pela
Constituição de 1980, ano do primeiro referendo. Em 1988, a população
chilena foi submetida a um plebiscito, que deu a vitória para o "não"
da oposição. Foram convocadas eleições para a presidência,
que deram, no ano seguinte, a vitória a Patricio Aylwin, candidato da Concertação.
Redemocratização A
vitória de Patricio Aylwin é seguida pela reabertura do Congresso
Nacional. O novo presidente enfrentou algumas dificuldades em seu governo, já
que a Constituição de 1981 permitiu a permanência até
1998 de Pinochet à frente das Forças Armadas, que ainda eram um
importante ator político. Em
1993, novas eleições presidenciais levaram Eduardo Frei Ruiz-Tagle
ao poder em 1994. Em seu governo teve início a crise política desencadeada
pela detenção de Augusto Pinochet, que após deixar o Comando
do Exército em 1998, havia assumido como senador vitalício no Chile.
Pinochet
foi detido em Londres devido a uma ordem de captura internacional emanada pelo
juiz espanhol Baltasar Garzón, sob acusações de assassinato
e tortura de cidadãos espanhóis durante a ditadura. No entanto,
a Justiça conclui que o estado mental de Pinochet o tornava incapaz de
se defender e, no ano seguinte, o processo foi arquivado. Nos
anos seguintes, Augusto Pinochet sofreu diversos processos internacionais pela
violação de direitos humanos. Além disso, foram descobertas
contas no exterior, onde o general teria guardado milhões de dólares
de origem não confirmada. Sua morte, aos 91 anos, em 10 de dezembro de
2006, o livrou de qualquer possível punição. Fatos
Recentes Ricardo
Lagos, do Partido Socialista, foi eleito presidente em 2000, apoiado pela coalizão
governista Concertação. Lagos venceu o candidato da UDI (União
Democrática Independente), Joaquim Lavin, em segundo turno e se tornou
o primeiro socialista a governar o país desde o golpe de 1973. Em
2003, o Chile assina um acordo bilateral de livre-comércio com os Estados
Unidos. A assinatura do tratado acabou suspendendo os procedimentos para incorporação
do Chile como membro pleno do Mercosul. Lagos
foi autor de diversas reformas políticas, entre elas, o direito de o presidente
destituir os chefes das Forças Armadas, atributo extinto durante a ditadura
militar. Outra mudança foi na duração do mandato presidencial,
que passou de seis para quatro anos. Em
2006, a socialista Michelle Bachelet venceu as eleições presidenciais
em segundo turno, com 53,5% dos votos. Com apenas quatro meses de governo, Bachelet
já enfrentou sua primeira provação. Estudantes do ensino
secundário paralisaram as aulas, em protesto por mudanças no sistema
educacional. O
movimento culminou com uma manifestação de cerca de 600 mil pessoas
em Santiago. Eles pediam a extinção de uma lei educacional adotada
durante o regime militar que, segundo eles, privilegiava o ensino privado. Sob
pressão, Bachelet envia ao Congresso um projeto de reforma que prevê
maior igualdade entre as escolas. Fonte:
Almanaque Abril 2007 | |