| | Política Divididos
no passado, chilenos buscam harmonia Cristalização
da democracia ajuda a superar o fantasma de Pinochet Assim
que a morte do ex-ditador Augusto Pinochet foi anunciada, em dezembro de 2006,
milhares de chilenos foram à Praça Itália, no centro de Santiago,
comemorar. No dia seguinte, no velório na Academia Militar, 60.000 pessoas
enfrentaram filas de sete horas para o último adeus ao general. As manifestações
contrastantes expressam divisões do passado, pois o que prevalece atualmente
entre os 16 milhões de chilenos é um consenso sobre o futuro: todos
querem preservar a democracia e a paz doméstica. Isso
ficou claro também na eleição da presidente Michelle Bachelet,
em março de 2006. Socialista, ela chegou à chefia da nação
pela aliança de centro-esquerda que governa o país desde o fim da
ditadura, em 1990. Michelle fez questão de frisar que defenderia a manutenção
da democracia acima de tudo. Assim, ao invés de promover uma onda revanchista
contra os militares e, em especial, contra Pinochet, ofereceu justiça.
E fez isso a despeito de todas as razões para ressentir-se com os militares:
afinal, seu pai, um comandante da Força Aérea, foi morto na prisão
durante a ditadura Pinochet (1973-1990). Ela mesa foi presa e acabou exilada. "As
feridas não cicatrizam jamais", disse Michelle, em entrevista a VEJA
de 2006. "Elas se reabrem muitas vezes em momentos difíceis da sociedade
e do país. É preciso aprender a viver com essas feridas, como pessoa
e como sociedade. O que se deve fazer, com muita força, é tentar
fechar bem a ferida. Desde que esteja limpa, porque, como médica, sei que
ferida suja não se cura", explicou a pediatra presidente. "Como
se consegue isso? Com o que já se está fazendo: buscando a verdade,
a justiça e a reparação a todas as vítimas da violência." Pinochet
- Depois de dezessete anos de brutal regime militar, os chilenos não podem
nem pensar em viver novamente sob um Estado policial. A morte de Pinochet tirou
do caminho uma figura anacrônica da Guerra Fria, com a qual os cidadãos
tinham dificuldade em lidar. Dez anos antes, teria sido diferente. A popularidade
do general, então figura influente na política chilena, girava em
torno de 40%. Depois de ele deixar o comando do Exército, de sua prisão
por crimes contra a humanidade em Londres, em 1998, dos processos no Chile por
violação dos direitos humanos e da descoberta de suas contas secretas
no exterior, ele se tornou um fantasma político. O
golpe liderado por Pinochet, em 1973, foi um produto da Guerra Fria. A CIA, o
serviço secreto americano, recebeu carta-branca para financiar o levante
militar. Quando se pôs à frente da sublevação, Pinochet
usou força desproporcional. Bombardeou o palácio de governo (Salvador
Allende, o presidente socialista, preferiu o suicídio à rendição),
criou campos de concentração (o mais famoso deles no Estádio
Nacional) e seu governo assassinou no primeiro ano metade das 3.200 pessoas que
seriam mortas durante a ditadura. Outras 30.000 foram presas e torturadas. Era
uma reação bárbara a um país sem rumo. Allende, primeiro
socialista eleito presidente, fora chegara a ser visto como o sinal de que era
possível conciliar socialismo com democracia - mas não cumprira
a promessa: iniciou um processo exacerbado de nacionalizações e
permitiu que grupos de extrema esquerda invadissem fábricas e fazendas.
O Chile viu-se engolfado pelo caos econômico e pela tensão política. Agora,
porém, essas são páginas da história. Passada a semana
do sepultamento do general, as ruas de Santiago se acalmaram, a vida seguiu seu
curso e simpatizantes e opositores voltaram à tarefa de administrar o futuro.
Bachelet apontou os desafios: "Para conseguir isso precisamos não
apenas ser capazes de desenvolver a democracia do ponto de vista representativo,
mas também a cultura democrática. Isso significa aprender que se
o outro pensa de maneira diferente da sua não quer dizer que seja uma pessoa
ruim. Apenas que pensa diferente e que parte do que defende talvez seja perfeitamente
aceitável." | |