Política
Uma nação em busca de democracia e justiça social

Reflexos do apartheid perduram em todas áreas do país

Qualquer ângulo que se tome para analisar a África do Sul deve levar em conta a herança do apartheid, encerrado oficialmente em 1990. Resquícios do regime segregacionista que dividiu a nação entre brancos e negros durante boa parte do século XX ainda podem ser percebidos na política, na economia e na sociedade local. Essa história tem início na independência sul-africana, em 1910, quando foi criada a União Sul-Africana. O país só seria livre dos domínios britânicos em 1961, quando nasce efetivamente a África do Sul. Em 1948, chega ao poder o Partido Nacional, que oficializa o apartheid e mantém o domínio da minoria branca nos campos político, econômico e social. Dez anos mais tarde, foi proclamada a Lei de Promoção do Auto-governo Banto, que criou os chamados bantustões ou homelands, territórios concedidos aos negros que ganhariam independência política à medida que evoluíssem materialmente.

Mas, devido à escassez de terras aráveis e ao crescimento do desemprego, os negros não conquistaram a tão sonhada autonomia. Isso obrigou a maioria da população adulta a procurar trabalho nas "zonas brancas", onde tinham direitos limitados. A consequência disso foi a volta dos movimentos nacionalistas negros, iniciados em 1912, com a criação do Congresso Nativo Nacionalista, rebatizado Congresso Nacional Africano (CNA). Em 21 de março de 1961, cerca de 5.000 manifestantes reuniram-se em Shaperville, "cidade negra" nos arredores de Joanesburgo, e marcharam em protesto pacífico contra a Lei do Passe, que obrigava os negros a usarem passaporte para andar nas "zonas brancas". A polícia sul-africana abriu fogo contra os manifestantes, matando 69 pessoas e ferindo cerca de 180. Em resposta, um líder negro pregou a luta armada, mas acabou preso: Nelson Mandela. Ele ficaria encarcerado até 1990.

Nos anos 80, os conflitos raciais explodiram no país. O governo de P. W. Botha comandou uma campanha para eliminar os opositores, destruindo propriedades pertencentes a negros, detendo e matando centenas de pessoas e censurando a imprensa. A reação foi severa, tanto em termos domésticos quanto externos. Pressionado pelas forças internacionais, Frederik Willem de Klerk, empossado presidente em 1989, declarou ao Parlamento Nacional que o apartheid havia fracassado, abolindo as normas racistas e libertando Mandela. Imediatamente, o governo e a oposição negra criaram mecanismos de transição para um sistema político não discriminatório. Foi criado um comitê, encarregado de elaborar a nova Constituição e de supervisionar as primeiras eleições multipartidárias e multirraciais: em abril de 1994, Mandela venceu o pleito, tornando-se o primeiro presidente negro da África do Sul.

Apesar do fim do apartheid, a democracia sul-africana ainda passa por desafios. O sucessor de Mandela no poder foi seu braço-direito, Thabo Mbeki. Ao renunciar em 2008, devido à luta interna no CNA, ele abriu espaço para que seu maior inimigo, Jacob Zuma, fosse eleito. Economista educado em Londres, Mbeki tem o mérito de ter sido o arquiteto da recuperação econômica do país. A África do Sul cresce a 4,5% ao ano desde 2004. Mas duas atitudes deploráveis marcam sua carreira. A proteção que deu a Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, e sua esdrúxula visão da aids, que contribuiu para propagar a epidemia no país. Em parte por sua culpa, hoje a doença mata 800 sul-africanos por dia e 5 milhões estão contaminados. Ocorre que Mbeki não acredita que a enfermidade seja causada pelo vírus HIV. Convicto de que as medidas de prevenção adotadas universalmente eram parte de uma conspiração para depreciar os negros, ele pretendeu curar a doença com vitaminas.

Jacob Zuma, é um retorno às trevas do populismo africano. Filho de uma empregada doméstica, ele cuidava do gado num grotão de KwaZulu, coração do povo zulu, a mais numerosa etnia do país. Adolescente, entrou para a ala militar do CNA africano e só aprendeu a ler já adulto, na prisão. Com uma carreira marcada por escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão, fraude e sonegação de impostos, espanta por seu primitivismo. Em um julgamento por estupro, em 2006, do qual também saiu absolvido, ele defendeu-se alegando que a tradição de sua etnia zulu não permitia que negasse fogo àquela minissaia provocante. Com o tribunal cercado por uma turba de partidários, foi absolvido.

Muitos sul-africanos votam no candidato do CNA por reverência ao papel do partido na luta contra o apartheid. Mas a maioria dos eleitores de Zuma são os camponeses, que o veem como um dos seus. A máquina do partido também não quer saber de mudanças. O monopólio sobre a administração pública permitiu a uma pequena elite ligada ao CNA enriquecer rapidamente, enquanto os indicadores sociais do país mostram avanços tímidos. O desemprego chega a 40% e uma em cada oito pessoas está infectada com o vírus da aids. Por falta de planejamento no setor energético, o país, que no próximo ano vai sediar a Copa do Mundo, sofre com apagões frequentes. Como prova de que as coisas vão mal, metade dos sul-africanos acredita que sua vida continua igual ou pior que nos tempos do apartheid.