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 Tropeços e esperança
Perspectivas: Sopro de modernização
do Islã é chance de diálogo

Entre bombas e declarações oficiais atravessadas, o Ocidente e os países de maioria islâmica têm ensaiado aproximações. As oportunidades parecem tanto mais promissoras quanto mais livres (ou menos fechadas) são as sociedades sob a lei de Alá. Líbano, Catar e até o Iraque, entre outras nações, foram atravessadas recentemente por sopros de modernidade que incluíram tentativas de democracia. A realidade, sem dúvida, está distante do desejado. Mas a abertura para o diálogo dentro dessas nações e delas com o mundo ainda é a grande esperança para a construção de uma ponte entre os dois mundos.

Antes de ser duramente bombardeados pelos israelenses em agosto de 2006, os libaneses foram às ruas carregando cartazes de líderes ocidentais. O protesto não era contra o presidente americano George W. Bush, o francês Jacques Chirac e o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Ao contrário, os moradores de Beirute reconheciam a importância daqueles políticos durante as negociações que desaguaram na retirada das tropas sírias do Líbano após quase 30 anos de ocupação. No Catar, pequeno emirado do Golfo Pérsico, o protesto que ganhou as ruas foi em reprovação a um atentado do fanatismo religioso. No Iraque pós-derrubada de Saddam Hussein e pós-eleições para o Parlamento, milhares se dirigiram para a Embaixada da Jordânia, acusada de facilitar a entrada no país das ondas de suicidas que, em nome da guerra aos Estados Unidos, trucidam diariamente civis iraquianos.

As cenas inéditas certamente não significam que o Oriente Médio esteja ingressando em peso numa era democrática. Mas flertando com a democracia com o incentivo do Ocidente, esses países deram vez a vozes que antes eram caladas. E elas resolveram se expressar não por meio de bombas - mas de palavras e de pressão política. As cenas também não significam que os Estados Unidos tenham se tornado um modelo de altruísmo, disposto a espalhar a mensagem democrática em nome da confraternização universal. Os objetivos americanos são conhecidos e permanentes: garantir que o petróleo continue fluindo, que os países do Oriente Médio onde ele jorra como água não sejam engolfados pelo caos e que não produzam os fanáticos terroristas dispostos a atacar.

O 11 de Setembro comprovou que o terceiro item da lista estava dando terrivelmente errado. A aliança com regimes autoritários mas confiáveis, que durante décadas havia garantido a estabilidade, não funcionava mais a contento? Vassoura nele, decidiram os dirigentes americanos, com irretorquível pragmatismo. E o que fazer para atacar o problema de fundo, o X da questão, o coração da matéria: o ódio visceral aos Estados Unidos? Nada melhor do que a democracia, como detergente antifanatismo.

Cabe lembrar, porém, que a democracia exige dedicação e cuidados diários. Os desafios à sua implantação na região são enormes - e nada indica que, no futuro, serão menores. Provas disso aparecem aos montes quase todos os dias. Os palestinos escolheram um moderado como presidente de sua Autoridade Nacional, Mahmoud Abbas, porque sabiam o que ele queria: levar adiante o processo de acomodação com Israel. Meses depois, porém, os mesmos palestinos foram às urnas e depositaram suas esperanças no Hamas, que prega a intolerância e o aniquilamento dos judeus. No Iraque, a situação é semelhante: depois de eleições democráticas para um governo de coalizão, o país segue afundado em uma luta fratricida patrocinada pelos radicais de várias tendências. Mesmo os Estados Unidos ainda estudam qual caminho seguir.

A abertura no Oriente Médio pode parecer timidíssima. Esperar que todo o mundo árabe entre em uníssono na dança da abertura democrática seria de uma ingenuidade quase insana. As disparidades são imensas quando se fala de um universo de 304 milhões de pessoas (374 milhões se incluído o Irã, que não é árabe mas está na mesma zona geopolítica), em dezessete países, com um PIB de 680 bilhões de dólares, gerados por produtos que vão das tâmaras ao petróleo. Mas a similaridade de língua, religião e matriz cultural cria um efeito contágio considerável. Os iraquianos que foram às urnas no início de 2005, apesar das ameaças terroristas, deixaram marcas profundas além-fronteiras - e criaram enormes dilemas político-religiosos para os xiitas militantes: quando a democracia vingar ali, como enfrentar seus frutos?