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| | Nascimento
das "guerras santas" Antecedentes:
A luta por espaço e influência vem das Cruzadas Em
meio à luta contra o terror detonada pelo 11 de Setembro, o presidente
americano George W. Bush referiu-se à empreitada da coalização
ocidental no Oriente Médio e no Afeganistão como uma "cruzada".
A declaração tingiu uma batalha legítima contra o radicalismo
com cores de anti-islamismo, trazendo à tona lembranças dos mais
duros embates entre cristãos e o Oriente Médio, entre Ocidente e
o Islã: as Cruzadas da Idade Média. Há um sentido útil
nisso, porém: recuar no tempo pode ajudar a compreender a luta por espaço
e influência exacerbada a partir do século XI - há 1.000 anos,
portanto - quando os primeiro católicos tentaram tomar Jerusalém
dos muçulmanos. Por muito tempo, o Ocidente praticamente não
existiu nos pensamentos dos muçulmanos - e não havia mesmo razão
para que os orientais se ocupassem dele. Nascido na Península Arábia,
o Islã vinha alargando suas fronteiras desde o século VII. Às
vezes pelo fio da espada, mas mais freqüentemente pela simples adesão
à fé do profeta Maomé. Os muçulmanos estavam estabelecidos
no sul da Espanha e na Sicília, de onde os cristãos já começavam
a desalojá-los. A leste, haviam englobado uma porção do que
antes fora a Cristandade - inclusive Jerusalém, ocupada em 638. Mas as
linhas fronteiriças com o mundo cristão eram estáveis. Não
havia nelas, no geral, um estado de guerra. Boa parte do crédito cabe ao
Islã, que praticava a tolerância religiosa e mantinha Jerusalém
aberta "às três fés de Abraão" - o islamismo,
o cristianismo e o judaísmo. No século XI, porém, a balança
pendeu para o lado do conflito armado. Tribos nômades de turcos seljuk abocanharam
toda a Ásia Menor (a moderna Turquia), reduzindo o Império Bizantino
quase que só à Grécia e à Constantinopla (hoje Istambul). O
imperador de Bizâncio pediu socorro, e foi ouvido pela Europa. Em 1095,
o papa Urbano II atendeu ao apelo do imperador com um chamado para as Cruzadas,
estabelecendo as seguintes metas: recuperar os locais sagrados do cristianismo
e garantir a passagem de peregrinos para a Terra Santa. Quem tomasse a cruz para
socorrer seus irmãos ganharia em troca a salvação. No total,
oito Cruzadas se seguiram, entre 1095 e 1291. Elas garantiram a cristão
e islâmicos vitórias relativas e derrotas substantivas: estima-se
que ao redor de 1 milhão de pessoas morreram de cada lado. Jerusalém
passou ao controle provisório dos cristão em períodos desse
intervalo, mas, ao final dele, retornou às mãos dos muçulmanos. No
fim do século XIII, o vitorioso foi o Islã, que conseguiu expulsar
todos os cruzados de seus domínios. Entretanto, hoje, quase 1.000 anos
depois, a sensação que ocidentais e muçulmanos têm
é a de que o Islã foi o grande perdedor do movimento deflagrado
pelos papas católicos. O enorme poder simbólico das Cruzadas para
os árabes do presente foi insuflado com a ajuda decisiva dos próprios
colonialistas ocidentais do século XIX, que adoravam usar imagens do período
medieval para caracterizar suas conquistas. Ao entrar em Jerusalém pela
primeira vez em sete séculos com um exército cristão, em
1917, o general inglês Edmund Allenby teria declarado que "agora, sim,
as Cruzadas terminaram". A revista inglesa Punch, então popularíssima,
não perdeu tempo em retratá-lo como Ricardo Coração-de-Leão,
o maior herói cristão das Cruzadas, numa caricatura célebre
- e também das mais ofensivas aos sentimentos árabes. Não
é de estranhar, portanto, que os palestinos dos dias de hoje, em guerra
pelo território em que cristãos e muçulmanos se enfrentaram
há quase 1.000 anos, se vejam como parte desse mesmo conflito. Hoje,
o cristianismo, o islamismo e o judaísmo são religiões globalizadas,
cujos seguidores se mostram capazes de conviver de forma pacífica e proveitosa
em vários pontos do planeta. Exatamente como em períodos e regiões
do passado. Entre o século VIII e o XV, por exemplo, os mouros criaram
na Península Ibérica um exemplo não livre de tensão,
mas ainda assim florescente, daquilo que o contato entre as civilizações
pode produzir: o reino de al-Andalus, que legou para o presente bem mais do que
as maravilhas arquitetônicas de Granada, Sevilha e Córdoba, o sabor
do gaspacho ou a música e a dança flamencas. Foi por meio da convivência
entre muçulmanos, cristãos e judeus em al-Andalus, também,
que fincaram pé no continente tradições das quais ninguém
sonharia abrir mão, como a diplomacia, a tolerância religiosa, o
livre-comércio e a pesquisa acadêmica e científica. Se o mundo
medieval foi capaz de 800 anos de relativa harmonia, não há desculpa
para que o mundo moderno não se empenhe em restabelecê-la. | |