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Brasil A fé do brasileiro Um
retrato completo da Igreja no maior país católico do mundo O
precisamente auto-proclamado “maior país católico do mundo”
- que em épocas de patriotismo exacerbado, como quando obtemos alguma grande
conquista esportiva, costuma reivindicar para si a nacionalidade de Deus - nunca
esteve exatamente no centro das atenções dos sacerdotes do Vaticano.
No entanto, o aparente papel periférico que a Igreja brasileira exerce
dentro do mundo católico não reflete a importância que ela
tem dentro das fronteiras do país. Pelo contrário - se há
instituição que rege a vida da maioria dos brasileiros, mais até
do que as entidades políticas, que parecem apenas trabalhar em proveito
próprio, é a Igreja Católica. O crescimento - especialmente
midiático – de algumas seitas evangélicas, por mais alardeado
que tenha sido, ainda não faz frente à massa de católicos
do país – mais de três quartos da população,
segundo o último censo do IBGE. A Igreja Católica
abriga hoje três vertentes principais no Brasil: o clero tradicionalista,
os remanescentes da Teologia da Libertação (que desde os anos 70
formam uma espécie de esquerda eclesiástica) e os adeptos da Renovação
Carismática (movimento mais vigoroso e recente). Como o braço mais
conservador do clero – que mantém as ligações mais
estreitas com as autoridades de Roma - sempre foi a corrente mais forte do catolicismo
brasileiro, se há alguma das vertentes que pode ser considerada “o
passado” (recente) da Igreja em terras tupiniquins, é o grupo da
Teologia da Libertação. Também
denominada de “ala progressista”, a esquerda eclesiástica experimentou
dias de prestígio nas décadas de 1960 e 1970, quando adaptava conceitos
marxistas à doutrina católica e servia de justificativa para o engajamento
político de padres e bispos. Por florescer num tempo de ditadura e repressão,
a Teologia da Libertação chegou a influenciar boa parte do clero
brasileiro – até o início da década de 1980, desfrutou
de certa hegemonia, ao menos do ponto de vista ideológico. Entretanto,
o papa João Paulo II - juntamente do então prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI –
varreu do mapa brasileiro, aos poucos, os líderes do movimento progressista,
dentro do espírito da cruzada anticomunista que levou aos quatro cantos
do planeta. A exemplo do que vem fazendo Bento XVI, João Paulo II tratou
de combater toda e qualquer associação entre a doutrina católica
e alguma ideologia política. Na primeira vez que esteve no Brasil, em 1980,
rezou missa para centenas de milhares de fiéis em Brasília, onde
declarou que “a missão da Igreja não pode ser reduzida a aspectos
sociopolíticos, mas consiste em anunciar o que Deus revelou sobre si mesmo
e sobre o destino do homem". Partindo das palavras
para a ação, o Vaticano substituiu bispos e líderes brasileiros
e lançou uma série de críticas formais à Teologia
da Libertação, até deixá-la como se encontra hoje,
um pálido resquício que sobrevive somente na figura de alguns de
seus membros ainda ativos. Em sua dissolução, pesou também
a redemocratização do país, aliada ao fim do "socialismo
real" no Leste Europeu. A perda de espaço
do clero esquerdista não significa que a Igreja brasileira tenha abolido
de seu rol de preocupações as injustiças sociais que grassam
no país. No entanto, o tom das críticas políticas do clero
brasileiro, na maioria das vezes dirigidas aos governos “neoliberais”,
é o mesmo dos derradeiros pronunciamentos do papa João Paulo II.
Ou seja, piedoso, caritativo, ancorado na miragem de um mundo organizado segundo
as virtudes teologais. Os sermões ideologizados contra as desigualdades
deram lugar a reflexões de caráter eminentemente místico,
que abriram espaço para o movimento da Renovação Carismática,
a face emergente do catolicismo brasileiro. A
Renovação Carismática – da qual o padre Marcelo
Rossi é a estrela mais saltitante – vem se mostrando a resposta mais
eficiente da Igreja para combater o avanço dos evangélicos e de
outras religiões no país. Com uma liturgia especialmente coreografada
para provocar a catarse pessoal dos fiéis, além de pregações
contra o demônio que lembram os rituais exorcistas dos evangélicos,
as missas promovidas pela Renovação atraíram de volta para
o catolicismo parte do rebanho que se havia desgarrado em busca de uma visão
mais mística e menos politizada da religião. O movimento congrega
hoje cerca de 10 milhões de pessoas, e a tendência é que esse
número aumente. Nada mal para um país
que, apesar de sua essência católica, concentra, especialmente em
suas cidades mais ricas, um alto número dos chamados “não
praticantes” - característica que marca o catolicismo no mundo como
um todo, ainda que não ele seja a única religião detentora
de tal qualidade. A maneira com que os padres carismáticos incorporaram
o espetáculo às suas missas, com música alta e aeróbica,
pode em breve constituir um ponto de atrito com o Vaticano. Quando cardeal, Bento
XVI já se manifestou contra a "criatividade de certos sacerdotes"
e tachou de profanas algumas músicas tocadas nas igrejas. Em um artigo
de 1996, o papa denunciou as inovações litúrgicas que esquecem
a tradição para satisfazer os anseios dos fiéis. "Hoje
se demonstra cansaço diante de uma liturgia da palavra”, disse então. Uma
eventual discussão envolvendo as autoridades clericais e os padres midiáticos
não será, entretanto, suficiente para abalar a fé que anualmente
leva milhões de pessoas às Igrejas – e principalmente às
ruas – do maior país católico do mundo. As populosas romarias
para a Basílica de Aparecida do Norte, em São Paulo, o impressionante
Círio de Nazaré, em Belém do Pará, a devoção
pela figura do Padre Cícero no Nordeste, ou as inúmeras encenações
da Paixão de Cristo que anualmente lotam praças de todo o país
na Semana Santa continuarão a reafirmar a presença do catolicismo
na vida do brasileiro ainda por muito tempo. Que o diga Frei Galvão, o
primeiro santo brasileiro da história, cuja canonização foi
anunciada nos estertores de 2006. | |