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Antecedentes
O Cristo humano

Quem foi o profeta máximo da religião - de acordo com a história

Se existe algum motivo que justifica a longevidade e a predominância da fé dos dois bilhões de homens e mulheres que acreditam que o filho de Deus passou pelo planeta dois mil anos atrás, este motivo certamente não é a coerência e a veracidade da história de Jesus Cristo, que de uma forma ou de outra chegou a todos os cristãos que vivem no mundo hoje. As falhas nos registros são gritantes, e não há relíquias suficientes nem evidências incontestáveis que comprovem quem foi e o que realmente fez o profeta de Nazaré.

No entanto, a tenuidade das marcas que Jesus Cristo legou ao caminhar pela Terra nunca foi suficiente para demover os cristãos de sua fé – pelo contrário, ela se alimenta justamente dos grandes mistérios, entre eles a própria Paixão de Cristo, evocada diariamente nas milhões de missas celebradas ao redor do mundo. O que as lacunas na história do messias alimentam, muito mais do que qualquer descrédito entre os cristãos, é uma enxurrada de pesquisas sobre o assunto – desde os anos de 1980, quando tecnologias mais elaboradas passaram a ser empregadas nos estudos, houve um número considerável de manuscritos e sítios arqueológicos descobertos. Uma nova mentalidade na abordagem do assunto e um rigor crescente, além de certo otimismo que passou a contagiar os especialistas no setor, levaram a um crescimento de sua produção intelectual, com farta e renovada bibliografia.

Para estes pesquisadores, antes do Jesus teológico, do Cristo dos altares ou do salvador de cada um - nascido no recanto da intimidade onde brota, ou não brota, a fé – há o Jesus concreto, que viveu na Palestina num determinado período histórico. Sobre este Jesus, é possível afirmar com certeza quase absoluta que foi batizado por João Baptista no Rio Jordão, escolheu doze discípulos, pregou pela Galiléia durante menos de um ano e morreu crucificado. E só. O restante dos dados bibliográficos do mais importante personagem da história para um terço da humanidade é fruto de palpites e especulações que jamais revelaram – e talvez nunca revelem – a verdade dos fatos por completo.

A procura por traços concretos da existência de Jesus começou com os movimentos racionalistas da virada do século XVII para o XVIII, quando ganhou força a idéia de que qualquer dúvida ou mistério poderiam ser desfeitos pela ciência. Fora os Evangelhos, textos sagrados do cristianismo, a figura do profeta aparece citada apenas de forma cifrada ou pouco clara em obras escritas dezenas de anos depois de sua morte. E dentro deles, há um inegável caráter proselitista – seu objetivo não era exatamente o da reconstituição histórica. Antes, há a manifesta preocupação dos quatro evangelistas em convencer e converter aqueles que os lêem. Por essa razão, as raras descobertas arqueológicas que iluminam o período histórico de Jesus na Palestina são recebidas com grande curiosidade pelos estudiosos.

Em 2002, foi encontrada uma urna funerária de pedra gravada com a inscrição em aramaico "Tiago, filho de José, irmão de Jesus". Passada a excitação inicial com o que parecia ser a primeira prova não textual da existência física de Jesus, as dúvidas prevaleceram. O fato de a relíquia ter sido encontrada somente muito tempo depois de sua origem não permitiu que se obtivessem informações precisas sobre sua veracidade, e contribuiu para que a descoberta não fosse considerada definitiva.

Outro achado, desta vez um esqueleto de um jovem judeu crucificado, chamado Yehohanan, desenterrado nos arredores de Jerusalém em 1968, corrobora a tese da crucificação de Cristo, mas confunde sobre qual teria sido o real procedimento de sua execução. A análise da ossada de Yehohanan mostrou que suas mãos não foram pregadas à cruz: provavelmente, seus braços foram amarrados à barra horizontal, enquanto seus pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás, na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Supor que a morte de Jesus tenha sido semelhante significaria dizer que suas mão e pés não foram perfurados por cravos. Pior, as chagas com que é descrito nos Evangelhos e habitualmente representado não corresponderiam aos seus ferimentos reais.

Atribui-se, ainda, à imaginação dos artistas, e ao fato de o cristianismo ter se desenvolvido de forma mais pujante na Europa, o aspecto físico com que Jesus passou à história. Os longos cabelos castanho-aloirados, os traços esculpidos e os olhos claros não correspondem com o biótipo de um palestino do século I. O mais provável é que ele fosse moreno, de olhos escuros e cabelos crespos – bem diferente, portanto, não só do Jesus da iconografia, como da imagem impressa no Santo Sudário, relíquia máxima do cristianismo até hoje, exposta em Turim, na Itália.

Chega-se à conclusão que estas e outras questões são apenas algumas das centenas que movimentam os estudos históricos sobre Jesus nos dias de hoje. Embora conservem, em maior ou menor grau, boa dose de valor científico, elas não têm o poder de demolir a vigorosa verdade teológica construída pelo homem que mandou o apóstolo Pedro construir a sua Igreja. Por mais valioso que seja conhecê-la, a dimensão política de Jesus, entretanto, em nada ajuda a compreender a sua natureza essencial – a divina. Qualquer tentativa de contar a história de Jesus pondo de lado a confissão de que ele é o filho de Deus - e o próprio Deus também - seria equivocada. Significaria desprezar exatamente o fator que confere a ele sua importância absoluta e insuperável.