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Desmatamento Após anos em queda, números voltam a subir O desmatamento na Amazônia, que chegou a diminuir nos últimos anos, voltou a crescer. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 25.500 quilômetros quadrados da maior floresta tropical do mundo sumiram desde 2002, 40% mais que em 2001. Isso equivale a uma área maior que o Estado de Sergipe. É o maior número desde 1995 e o segundo maior desde que o instituto começou a medir o desmatamento, em 1988. O temor é que o quadro piore ainda mais em 2004. Toda vez que o índice de desmatamento cresce, o governo e as ONGs procuram um bode expiatório. A lista de culpados inclui grileiros, madeireiros e pecuaristas. Atualmente, começa a preocupar a expansão da soja, que já mudou a paisagem do cerrado mato-grossense e agora ameaça a Amazônia. Ao lado desses poderosos, pequenos agricultores e assentados também aumentam o problema queimando a roça, muitas vezes sem controle. Junta-se a isso a falta de estrutura para fiscalização. Não existe uma solução única para evitar o fim da floresta. Ao contrário, é preciso se antecipar a alguns problemas e incentivar iniciativas menos destrutivas, como o manejo de floresta para retirar madeira ou a exploração sustentável de produtos por ribeirinhos e índios. Enquanto isso, o governo tenta apagar a fogueira do momento. Em julho de 2003 foram anunciados 20 milhões de reais para fiscalização e ficou acertado que qualquer decisão na região precisará do aval de ambientalistas do governo. Os desmatamentos acontecem principalmente nos Estados de Rondônia, Mato Grosso e Pará - servidos por estradas que ligam aos mercados do sul do país. Juntos, eles são responsáveis por 80% das árvores derrubadas na região. E nem toda a pressão que os ecologistas têm feito nos últimos anos serviu para impedir o avanço de motosserras e queimadas. Se o ritmo da devastação não diminuir rapidamente, em apenas 30 anos o estrago feito na floresta vai dobrar. Uma das causas desse aumento na velocidade da devastação está no uso de tecnologia de ponta para cortar as árvores. Motosserras potentes, imensos tratores e caminhões arrasam com hectares de florestas em poucos dias. Mas a causa principal, segundo os ecologistas, está na falta de uma política de desenvolvimento sustentável da Amazônia por parte do governo. É verdade que vários parques nacionais e reservas indígenas foram criados na última década, mas isso não evita a destruição nas áreas que não foram legalmente protegidas. O Brasil continua a cometer o erro grosseiro de desmatar para extrair madeira ou formar pastagens, eliminando a riqueza de uma das maiores biodiversidades de bichos e plantas que o planeta já reuniu num só lugar. BIODIVERSIDADE AMEAÇADA - O desmatamento da floresta traz consigo uma série de efeitos perversos: extinção de espécies de bichos e plantas, destruição de áreas indígenas, empobrecimento do solo e aumento da emissão de gás carbono na atmosfera, contribuindo para o efeito estufa. É uma tragédia de muitas faces. Para acabar com ela, a primeira coisa a fazer é reformular a idéia de que a Amazônia é um manancial inesgotável e sem dono, criada na década de 70 para estimular o povoamento da região. Depois de décadas de projetos equivocados formulados por tecnocratas, os brasileiros precisam admitir que muita coisa errada foi feita. E, principalmente, precisam evitar que os mesmos erros sejam cometidos de novo. O Brasil, hoje, é o maior destruidor de florestas do mundo, em números absolutos. "Infelizmente persiste a visão equivocada de que é preciso criar grandes eixos de desenvolvimento para a região, sem levar em conta os severos impactos ambientais", afirma Aziz Ab'Sáber, geógrafo da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas na questão. AMAZÔNIA DESCENTRALIZADA - Uma projeção do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) estima que a abertura de uma única estrada gera um desmatamento que se alastra, em média, de 50 a até 200 quilômetros mata adentro, em ambos os lados da rodovia. Isso acontece devido à facilidade de escoamento da madeira cortada. Basta ver o que aconteceu ao longo das rodovias Transamazônica e Belém-Brasília. Dezenas de cidades surgiram ao longo desses dois eixos, alimentadas principalmente por madeireiras e serrarias. Para contrapor esse modelo, Aziz Ab'Sáber defende há 30 anos a divisão da Amazônia em 21 pequenas sub-regiões administrativas dotadas de um bom grau de autonomia. O principal efeito disso seria a descentralização das decisões, fazendo com que as próprias comunidades interessadas passem a discutir o melhor modelo de desenvolvimento sustentado a ser adotado. Essa é a segunda coisa a fazer para resolver de vez o problema do desmatamento: admitir que os povos tradicionais da floresta, representados pelas múltiplas comunidades indígenas, caboclas, ribeirinhas, extrativistas, negras remanescentes de quilombos são os principais responsáveis pelo futuro da floresta. Esses povos têm muito a nos ensinar sobre como lidar com os recursos da mata e precisam de oportunidade para que seu conhecimento possa ser convertido em benefícios como empregos, melhoria na qualidade de vida e aumento da renda familiar. CHUVAS - A Amazônia tem um dos maiores índices pluviométricos do mundo, mas esse escudo de umidade vem sendo reduzido há três décadas pelo desmatamento continuado. Nesse período, a área desmatada avançou de 4% do total de floresta para 15% - uma área equivalente à França. Nesse ritmo, daqui a cinqüenta anos, o ciclo de chuvas na região terá sido reduzido em 20%. Isso quer dizer que, ainda que fenômenos climáticos como o El Niño não se manifestem, os efeitos sobre a região poderão ser os mesmos. "A temperatura na região poderá estar até 5 graus mais alta que as médias atuais", calcula o meteorologista Carlos Nobre, que coordena uma pesquisa climática realizada pelo Inpe. A redução das chuvas não acaba com todas as espécies, mas diminui a biodiversidade, outra celebrada qualidade da Amazônia. O resultado pode ser uma floresta menor e mais pobre. FRONTEIRA SEGURA - Outra questão importante na Amazônia é a segurança. A presença do Exército defendendo as fronteiras da região é, sem sombra de dúvida, essencial. Não por causa da hipótese delirante de uma invasão americana, como costuma ser divulgado pela internet, mas porque a parte brasileira da floresta se situa num pedaço conflagrado da América do Sul, onde grassam o narcotráfico, guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de direita. Esses boatos na internet têm de nocivo o fato de que eles desviam a atenção do que é realmente relevante. Mais importante que discutir algo que não está em questão - a soberania brasileira sobre a Amazônia - é debater o desenvolvimento sustentado, ou seja, como levar progresso à região sem destruir a floresta. Para isso, é essencial algo que causa urticária nos xenófobos que falsificam mapas na internet: capital estrangeiro. É graças a uma doação de 280 milhões de dólares, a fundo perdido, do G-7, o grupo de países mais ricos do planeta, que o governo federal está, entre outras coisas, desenvolvendo um programa de fiscalização da floresta via satélite, indispensável para impedir o desmatamento da região por parte de madeireiras. |
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