PERSPECTIVAS
Quem ganha e quem perde

A discussão sobre a Alca é realizada numa circunstância curiosa para um assunto de tamanho impacto para o futuro do país: há palpites, bravatas e debates ideológicos de sobra, mas faltam pesquisas e análises detalhadas sobre os possíveis efeitos da adesão ao bloco. Para complicar, até mesmo os raros estudos e simulações já realizados sobre o tema correm o risco de se tornar irrelevantes no decorrer das negociações - ninguém sabe exatamente quais serão os termos do acordo, e cada item alterado pode mudar drasticamente o saldo final. Economistas e analistas de mercado concordam, contudo, que o Brasil tem tudo para sair ganhando. Se fechar um acordo com termos favoráveis, que não coloque barreiras no caminho de suas exportações, o país tende a crescer mais e ampliar sua participação no mercado internacional, hoje relativamente pequena. A seguir, algumas perspectivas sobre os efeitos da adesão à Alca:

O Projeto Benchmarking da Fiesp comparou setores industriais brasileiros aos seus congêneres em outros países. Resultado: se todas as tarifas alfandegárias caíssem a zero imediatamente, o país perderia cerca de 1 bilhão de dólares no saldo comercial. Esse é o tamanho do risco se o Brasil entrar num acordo em que os Estados Unidos não derrubam suas medidas protecionistas, como cotas e subsídios.

A pedido da revista Exame, o Centro de Pesquisa e Comunicação de São Paulo (Cepac) consultou, há cerca de dois anos, quase 100 empresas listadas no anuário Melhores e Maiores. A conclusão foi de que as grandes companhias brasileiras estão, em sua grande maioria, preparadas para a Alca e prontas para ganhar dinheiro no bloco. Só 9% das empresas se disseram despreparadas. Em resumo, a pesquisa revelou, entre outras coisas, que a Alca é uma grande oportunidade de negócios, que alguns setores têm tudo para dar um salto formidável, que as empresas ganharão em escala e grau de especialização e que algum tipo de abertura, mesmo que não em condições ideais, é melhor que nenhuma abertura com os americanos.

Um estudo feito neste ano pela Unicamp em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior simulou os efeitos da entrada no país na Alca nos prazos e condições previstas atualmente. O levantamento revelou que quanto mais competitivo o setor mais suas empresas teriam a lucrar com o acordo. Em setores fortes como café, papel e celulose, cítricos, couro e calçados, têxtil e confecções e siderurgia - que representam mais de um quarto das exportações brasileiras -, haveria mais investimentos e um salto de qualidade e quantidade. Em áreas como cosméticos, cerâmicas e madeira e móveis, há perigos e oportunidades - se melhorarem, a produção brasileira cresce; se não se modernizarem, o mercado será inundado por importados. Por fim, o estudo mostrou quais são os setores que devem sair perdendo: bens de capital, química e petroquímica, plásticos e estaleiros, que somam 3% das vendas externas, correm o risco de perder espaço ou até desaparecer. Isso ocorrerá se não resolverem seus problemas de falta de infra-estrutura e mão-de-obra adequadas.

Uma estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que, sem um avanço maior nas negociações da Alca, o Brasil teria um acréscimo de apenas 6,09% nas exportações para os EUA e 5,3% para o Canadá, as duas maiores economias do bloco. O ganho nas exportações seria de pouco mais de 1% do total vendido pelo Brasil sem a Alca. Segundo o Ipea, o acordo não vale a pena para o Brasil se não forem negociadas outras barreiras além do fim das tarifas. Cerca de 60% dos produtos que o país exporta para os EUA sofrem algum tipo de restrição na entrada do território americano.

   
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