DEBATE
O que está em jogo

Protestos com dezenas de milhares de pessoas, acalorados duelos diplomáticos, um impasse político que já dura quase uma década - afinal, por que a Alca desperta tanta polêmica e provoca tanta briga? Há motivos de sobra. A Área de Livre Comércio das Américas tem chance de se transformar no maior bloco comercial do planeta, reunindo 800 milhões de consumidores em 34 países, sob um PIB total de 12 trilhões de dólares. Para cada país que negocia seu ingresso no grupo, está em jogo o destino de sua economia - o resultado do acordo pode fazer seu setor produtivo naufragar ou detonar um ciclo de desenvolvimento jamais visto.

Para o Brasil não é diferente: a decisão sobre a Alca será mais importante para o futuro do país do que qualquer medida que o governo possa adotar internamente. É justamente esse o argumento usado pelos negociadores brasileiros na hora de explicar por que o país vem travando uma disputa tão acirrada com os Estados Unidos, os principais interessados no acordo - e, por conseqüência, assumindo o papel de peça chave na montagem da Alca.

Cotas e subsídios - Dividindo com os americanos a presidência das negociações em sua reta final, com fim previsto para 2005, os brasileiros têm pretensões claras. Por trás de todo o bate-boca, a questão que trava a Alca é bastante simples: os Estados Unidos querem acabar logo com todas as tarifas alfandegárias no continente, mas não abrem mão de suas barreiras não alfandegárias, que protegem os produtores locais da concorrência externa. Ou seja: a maior economia do planeta quer ampliar o mercado consumidor para seus produtos, mas não aceita acabar com a proteção aos seus produtores. O Brasil tem como objetivo mudar essa posição.

Se aceitar o acordo como os americanos querem, seu território corre o risco de ser inundado por produtos importados, enquanto as exportações continuariam sob as condições de hoje. Pior: nos Estados Unidos, as barreiras não alfandegárias (como cotas, subsídios e restrições fitossanitárias) afetam justamente os produtos em que o Brasil é mais competitivo, como o suco de laranja, os calçados e o aço, entre dezenas de outros.

Política e diplomacia - Além da disputa comercial, o Brasil também colocou seu prestígio regional em jogo ao enfrentar os americanos na Alca. Washington não esconde sua desaprovação ao Mercosul, visto como obstáculo à formação do novo bloco. Como o Brasil mantém em sua agenda externa o fortalecimento da relação com os vizinhos mais próximos - inclusive nas áreas política e diplomática -, o papel do país como líder regional estará seriamente comprometido em caso de enfraquecimento do Mercosul. É por isso que o Brasil já assegurou um pacto para que a Alca não interfira nos outros blocos comerciais do continente. Mas tudo pode ir por água abaixo se o Brasil desistir da Alca e os Estados Unidos fecharem acordos bilateriais com outros países sul-americanos, esvaziando de vez o Mercosul.

Por fim, a discussão da Alca será decisiva para o futuro das relações do Brasil com a maior potência mundial. Um eventual acordo pode abrir caminho para uma aliança mais íntima com os americanos, o que poderia beneficiar a economia do país. Porém, se os brasileiros acabarem vistos como os culpados pelo fracasso das negociações, o abismo que separa a grande força do sul e o gigante do norte tende a aumentar de forma dramática.

   
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