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Edição 2071

30 de julho de 2008
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Diogo Mainardi
O efeito da paternidade

Minha vida e a de meus filhos são aborrecidas
como um programa educacional da TV canadense.
Os acontecimentos mais prosaicos acabam ganhando
uma utilidade pedagógica. Qual é mais alto: o prédio
de tijolos brancos ou o prédio de tijolos vermelhos?
Consegue ler em voz alta o que este blogueiro
pilantra escreveu sobre o papai?

No New York Times, num artigo publicado no último domingo, o jornalista David Carr fez um relato dos tempos em que era um celerado que espancava a mulher, comercializava cocaína e consumia ininterruptamente crack, LSD, peiote, maconha, cogumelo, mescalina, anfetamina, Quaalude, Valium, ópio, haxixe e todos os tipos de bebida alcoólica. A paternidade o transformou. Depois de perder a guarda das duas filhas, ele resolveu abandonar as drogas, arranjar um emprego, recuperar a custódia das crianças e garantir-lhes uma vida serena.

Eu sempre fui um pai dedicado. Tenho um bom emprego e garanto uma vida serena aos meus filhos. Hoje, depois de uma semana de férias com os dois, estou prestes a empreender o caminho inverso ao de David Carr, mergulhando no crack, LSD, peiote, maconha, cogumelo, mescalina, anfetamina, Quaalude, Valium, ópio, haxixe e todos os tipos de bebida alcoólica.

A paternidade se tornou um empenho permanente. Fico dia e noite com meus filhos. Falo apenas com eles e sobre eles. O museu é o museu dos meninos. O restaurante é o restaurante dos meninos. De maneira geral, os filhos tiveram esse efeito sobre mim: eles me apequenaram e me embruteceram. Eles ocuparam minha mente como Antônio Conselheiro ocupou Canudos, impondo suas idéias primitivas e suas práticas regressivas. Questões que pareciam definitivamente superadas voltaram a me atazanar. Antes de ter filhos, eu abria um livro e indagava sobre Santo Agostinho. Agora abro um livro e indago onde está Seymour, o bonequinho de madeira (Seymour, o bonequinho de madeira, está escondido dentro daquele pote cheio de lápis de cor).

Até recentemente, a paternidade era vista como uma atividade trivial, a ser cumprida com naturalidade. Em certos casos, com desprezo. Agora é o oposto: o papel dos pais foi inchado, foi superdimensionado. Virei um behaviorista com meus pequenos Albert, permanentemente engendrando mecanismos para estimular seu desenvolvimento emocional e cognitivo. Minha vida e a de meus filhos são aborrecidas como um programa educacional da TV canadense. Os acontecimentos mais prosaicos acabam ganhando uma utilidade pedagógica. Qual é mais alto: o prédio de tijolos brancos ou o prédio de tijolos vermelhos? Eram dezoito paradas de metrô até Coney Island: se já fizemos sete, quantas paradas ainda faltam? Consegue ler em voz alta o que este blogueiro pilantra escreveu sobre o papai?

Neste momento, meu filho de 7 anos, por algum motivo, quer reconfigurar meu computador. E meu filho de 3 anos, por algum outro motivo, quer dar uma martelada em meu dedo. Onde está a mescalina? (A mescalina deve estar com Seymour, o bonequinho de madeira.)



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