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ESPECIAL
Um cessar-fogo no Vietnã e
a paz nos EUA

31 de janeiro de 1973

Gilles Caron/Reprodução
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Como a guerra, a paz chegou aos poucos. Ambas se aproximaram hesitantes, tímidas, mas teimosas, e sua presença foi se tornando cada vez mais impossível de ser ignorada. Já nas suas origens havia uma curiosa, uma irônica simetria. As primeiras sementes de paz germinaram de uma das mais violentas explosões da guerra (a ofensiva do Tet, em 1968, cujos resultados convenceram ambas as partes a abdicar da ambição de uma vitória militar); e as primeiras nuvens da guerra haviam se formado após um ato de paz: os acordos de Genebra, em 1954.

Durante quase vinte anos, a guerra resistiu incólume às profecias do otimismo oficial - e, ao abandonar o campo de batalha, ela deixou, entre suas vítimas, um bom número de profetas da vitória a curto prazo. O apoio dos EUA a um afastado aliado, representando 2% da população da Ásia, cresceu na medida em que o compromisso gerou um envolvimento, o interesse se transformou em obsessão e o que deveria ser um curto entreato na diplomacia de uma grande potência adquiriu os contornos angustiantes de uma tragédia internacional.

Para explicar o ímpeto de sua progressão, nasceu uma palavra: escalada. No ápice, ela chegou a significar mais de meio milhão de soldados americanos em combate e todos os recursos militares do mais poderoso país do mundo. Não se tratava mais de uma entre muitas guerras - era a guerra da década de 60, travada simultaneamente nos arrozais vietnamitas e na consciência da opinião pública americana, e deixando, em ambos os campos de batalha, crateras e cicatrizes indeléveis.

Tudo isso acabou às 11h01 da manhã de sábado passado, no antigo Hotel Majestic, em Paris, Sob o grande lustre de cristal empalidecido pela luz dos refletores, o secretário de Estado americano, William Rogers, estendeu a mão para a primeira de suas 77 assinaturas em todas as folhas de todas as cópias do acordo de paz no Vietnã. A caneta não tinha tinta. Sem se perturbar, escolheu uma outra à sua frente. Também não escreveu. Somente na quinta tentativa seu nome apareceu claramente no papel. Mas nem por isso o momento perdeu em solenidade. A seu lado, na enorme mesa coberta de feltro verde, Tran Van Lam, ministro das Relações Exteriores do Vietnã do Sul; do lado oposto, Nguyen Duy Trinh, chanceler do Vietnã do Norte e a ministra das Relações Exteriores do Governo Provisório Revolucionário (GPR), senhora Nguyen Thi Binh. Durante 22 minutos os quatro executaram silenciosamente o ritual das assinaturas. Ao se levantarem, acenaram discretamente e abandonaram a sala.

A paz estava feita, testemunhada, fotografada. A partir da meia-noite, o cessar-fogo entraria em vigor e os pontos principais dos acordos poderiam se colocar em marcha: retirada de todas as tropas americanas do Vietnã, num prazo de sessenta dias, libertação dos prisioneiros de guerra americanos no mesmo espaço de tempo, formação de comissões militares conjuntas para a supervisão das cláusulas do acordo, convocação de uma conferência internacional sobre a Indochina.

Poucas horas mais tarde, no mesmo cenário histórico, uma segunda solenidade mostraria - pelo simples fato de ter sido necessária - a fragilidade do acordo obtido. Como o governo de Saigon e do Vietcong não se reconhecem mutuamente, eles só puderam ser citados nominalmente numa segunda versão dos acordos, assinada apenas pelos Estados Unidos e por Hanói. Com esse prenúncio de incompreensão e irredutibilidade, o trabalho de Sisifo realizado durante três anos e meio por Henry Kissinger e Le Duc Tho será exposto, logo nos seus primeiros passos, à luz crua da realidade. Nos Estados Unidos e no mundo ocidental, a paz realmente havia chegado. Mas na Indochina "hoa dinh" ainda é uma palavra de significado abstrato.

Para as memórias da História, alimentadas de datas oficiais, a segunda guerra da Indochina acabou na manhã de sábado, com a assinatura dos acordos em Paris. Para o mundo, neste início de ano, contudo, a paz chegara quatro dias antes, pela voz solene de seu arauto. Quase sem tomar fôlego durante os dez minutos de seu discurso pela televisão, Richard Nixon proclamou a libertação da América do atoleiro asiático sem grandes floreios ou retórica: "Os Estados Unidos chegaram a um acordo com a República Democrática do Vietnã do Norte para encerrar honrosamente a guerra do Vietnã". Foi o bastante para que os sinos da igreja da Trindade, em Wall Street, fizessem tremer as janelas dos prédios vizinhos durante quinze minutos.

À mesma hora, em Hanói, o primeiro-ministro Pham Van Dong atravessava as colunas de mármore do palácio presidencial (ocupado pela França até 1954) para saudar a paz de viva voz, ostentando sua extraordinária muralha de dentes. A cada frase de seu discurso bem-humorado, os convidados - membros do Politburo e diplomatas estrangeiros - respondiam com aplausos em staccato; apenas os ininterruptos brindes, com um rosado licor nacional, acabaram por separar, pelas barreiras do paladar, os asiáticos e ocidentais. Entre os presentes, o general Giap era um dos mais animados. "Sou Vo Nguyen Giap, estou de uniforme e não me sinto morto", cochichava com malícia, numa referência aos rumores sul-vietnamitas sobre sua morte. E, como para afugentar momentaneamente o batalhão de problemas que Hanói passará a enfrentar, repetia que os acordos de paz constituíam "uma grande vitória em três frentes: política. militar e diplomática".

Foi o presidente sul-vietnamita, Nguyen Van Thieu, quem mais se alongou ao fazer o anúncio de paz em Saigon. Nixon já havia saído do ar, cedendo o vídeo à rodada final do campeonato americano de basquete, e a recepção de quinze minutos oferecida em Hanói por Pham Van Dong estava encerrada havia meia hora quando a rádio das Forças Armadas sul-vietnamitas terminou a transmissão do discurso de Van Thieu. Em suas palavras, nenhum abandono à euforia. "Quero deixar claro que se trata apenas de um cessar-fogo; nem mais nem menos. E a cessação dos combates não significa paz."

Era um retorno impiedoso à realidade, confirmada na manhã seguinte, em tons mais brandos, pelo próprio co-autor do fim da guerra. Interrompendo seu longo relato com um pigarro seco e regular, Henry Kissinger apresentou aos jornalistas convocados à Casa Branca, durante mais de uma hora e meia, uma análise crítica das sessenta páginas dos textos por ele negociados com Hanói. "É muito difícil conseguir numa mesa de negociações o que não foi obtido no campo de batalha", a certa altura ele admitiu, pensativo, isolando-se por alguns momentos na meditação sobre o que acabara de dizer. Referia-se, especificamente, à permanência autorizada de 145.000 soldados norte-vietnamitas no Sul, contra a vontade de Thieu. Mas sua hesitação poderia, da mesma forma, servir de epígrafe para os 23 artigos do acordo e quatro protocolos adicionais. Monumento de "diplomatês", ao lado do qual os acordos de Genebra de 1954, embora complexos, parecem um modelo de simplicidade, os documentos de Paris acumulam ao mesmo tempo tantas minúcias técnicas, imprecisões de raciocínio e acrobacias que apenas uma dose ilimitada de boa vontade por parte dos interessados poderá fazer respeitá-los. É precisamente essa boa vontade política que mais parece faltar.

Do ponto de vista jurídico e político, os pontos conquistados por Hanói são consideráveis. Em 1954, a revolução de Ho Chi Minh triunfava até o 17o paralelo; hoje, ela se instala oficialmente, como manchas de leopardo, na pele do Vietnã do Sul, ameaçando seriamente o bom funcionamento do governo Thieu. Além disso, um dos itens mais combatidos pelo regime de Saigon foi incluído no acordo de paz - o estabelecimento de um Conselho Tripartite (governistas, comunistas, neutralistas). Mas, sobretudo, Hanói obteve, com a retirada total das tropas americanas e o desmantelamento de suas bases militares no Vietnã, a primeira descolonização efetiva da antiga Cochinchina. Mesmo assim, o regime de Thieu ainda dispõe de munição de grosso calibre, e a elasticidade dos textos oficiais lhe oferece inúmeras oportunidades de usá-la.

Primeiro, o presidente sul-vietnamita pode, se quiser, minar o funcionamento político dos acordos: todas as comissões de controle e órgãos administrativos só poderão tomar decisões por unanimidade. Assim, Thieu poderá bloquear qualquer decisão do Conselho de Reconstrução Nacional - a começar pela data ou natureza (presidenciais, legislativas ou municipais?) das eleições. "As partes interessadas farão todos os esforços visando a um entendimento num prazo de noventa dias após o cessar-fogo", suplica o artigo 11 do capítulo IV, enquanto o capítulo III convida Thieu a "fazer o possível" para libertar todos os presos políticos nos próximos três meses e restituir todas as liberdades individuais aos sul-vietnamitas. Mas não há definição precisa sobre quais esforços são "todos", e nenhum artigo estabelece os limites do "possível".

Assim, nesse acordo em que os denominadores comuns são realmente mínimos, parecem estar plantadas as sementes de uma terceira guerra da Indochina, com os dois Vietnãs face a face, sem intermediários. Mas esse é o preço que o presidente Nixon se dispôs a pagar para cumprir sua promessa de pacificar a América. Henry Kissinger, três anos atrás, já havia desenvolvido a idéia de "negociações em pista dupla" que permitissem aos EUA barganhar a retirada americana diretamente com Hanói, legando aos vietnamitas os espinhosos problemas políticos internos.

Durante os próximos sessenta dias, algum respeito aos acordos ainda poderá ser alcançado através do complexo emaranhado de controles internacionais, construído para supervisionar os dispositivos imediatos da paz. Dificilmente, contudo, os 4.500 homens do Canadá, Indonésia, Polônia e Hungria, solicitados a se desdobrarem em detetives, juizes e executores da palavra assinada, poderão vigiar um país de 200.000 quilômetros quadrados e língua desconhecida. E, mesmo que pudessem, a cláusula da unanimidade poderá compeli-los ao imobilismo: nada indica que o representante da Indonésia aceite denunciar as mesmas violações do acordo que seu colega polonês. "Não é segredo para ninguém que temos sérias reservas quanto ao que nos pedem para fazer", preveniu na semana passada o chanceler canadense Mitchell Sharp. Mais direto, o embaixador canadense em Washington, Marcel Cadicus, confiou a seu colega soviético, Anatoly Dobrynin, durante um coquetel oferecido por William Rogers: "É desagradável esse emprego de guarda que estão nos querendo dar no Vietnã. É um trabalho meio sujo".

Ainda assim, é uma forma de controle, por mais precária que seja. Apenas quando for abolida, dentro de dois meses, os 17 milhões de sul-vietnamitas se encontrarão a sós com seus problemas e suas opções. Nesse inter-regno, as ordens são estritas, e sua desobediência pode ser punida com a prisão. No momento de cessar-fogo, determinou o presidente Thieu, todas as casas e carros do Vietnã do Sul devem estar com as bandeiras amarelas de três faixas vermelhas bem à vista. Todo cidadão deve trazer na lapela um retângulo de dois centímetros por três, com as cores nacionais. E as vendas de tecidos azuis e vermelhos, cores do Vietcong, foram proibidas em todas as lojas do país. Desde o primeiro momento, o inimigo deve ficar impressionado com a disposição da população em permanecer fiel a seus símbolos.

Essa fidelidade nem sempre é inteiramente espontânea. Na província de Binh, por exemplo, o Comitê de Luta contra o Comunismo organizou um "concurso do melhor relato de atrocidades comunistas", em prosa, verso ou desenho. Para um país com 8 milhões de refugiados sem teto, o primeiro prêmio, de 40.000 piastras (450 cruzeiros), pode ser um incentivo literário-ideológico, mas não uma garantia segura de lealdade a longo prazo. O exército de 1,1 milhão de homens e a sétima força aérea do mundo ainda são o respaldo mais seguro do presidente Thieu. Desde que a paz foi mostrada ao alcance das mãos de Kissinger, a 26 de outubro, até a assinatura oficial do acordo que proíbe aos americanos a introdução de armamentos no Vietnã, os Estados Unidos ainda fornecem cerca de seiscentos helicópteros, quarenta tanques e uma dúzia de canhões de longo alcance ao regime de Thieu. Em contrapartida, o comando militar americano não pôde evitar que nesse mesmo período a taxa de deserção nas Forças Armadas sul-vietnamitas chegasse a 27.000 homens por mês.

Indiscutivelmente, o poder de sobrevivência política de Thieu já demonstrou ser desnorteante. Em janeiro de 1972, o presidente sul-vietnamita se oferecia para renunciar caso isso acelerasse a paz. Nos doze meses seguintes, ele aparou os golpes mais duros de sua carreira.

Primeiro, a exigência de Hanói, endossada por muitos de seus conterrâneos, para que fosse afastado e seu governo desmantelado, como condição prévia a um acordo de paz; em seguida, a pressão da ofensiva comunista de março e os expurgos que teve de efetuar na cúpula de seu próprio Exército; e a onda de descontentamento que se seguiu à promulgação de suas severas medidas de exceção. Mas, acima de tudo, ele não só se recuperou do choque dos entendimentos diretos entre Washington e Hanói, em outubro passado, como conseguiu atrasar a sua conclusão até que algumas de suas exigências pessoais fossem atendidas. Resta saber se Van Thieu, o homem da guerra, também poderá ser o da paz. Pelo menos ele dispõe de algum tempo para demonstrá-lo. O Vietnã do Norte tem muito que fazer em sua própria casa antes de poder se interessar prioritariamente pelo sul. Em todo o país, desta semana em diante, a vida parecerá um exercício estranhamente diferente do que tem sido nos últimos vinte anos. Atingido durante todo esse tempo por tempestades de bombas, o país talhado politicamente por Ho Chi Minh encontra na paz um mundo desconhecido. A maioria esmagadora de seus 22 milhões de habitantes (a metade tem menos de dezesseis anos) terá de adquirir pouco a pouco hábitos como viver de dia e dormir à noite. Em quase todos os setores, a economia do país afundou num atoleiro tão vasto como a própria guerra e volta hoje ao ponto em que se encontrava sete anos atrás - o que, segundo o jornal oficial Nhan Dan, é estar "duzentos ou trezentos anos atrás das nações mais modernas".

Ironicamente, se Hanói conseguiu atravessar duas décadas de guerra escolhendo seus protetores, não poderá fazer o mesmo agora que a paz chegou, e vai abrir seus cofres para moedas de todas as ideologias. Suécia, Dinamarca e Japão já encabeçam a lista dos arquitetos desse novo plano Marshall para a Indochina. Mas a fatia maior do bolo da reconstrução, estimado em 12 bilhões de dólares, deverá caber aos Estados Unidos. Pela primeira vez, uma grande potência se engajará a fundo no reerguimento de uma nação, sem a esperança de vir a tê-la como aliado. Mas para Henry Kissinger qualquer quantidade de dólares, assim como os quatro anos que gastou em rocambolescas negociações secretas, não são um preço alto demais. Finalmente, foi eliminada a peça defeituosa que impedia o funcionamento da complexa engrenagem montada a partir de sua visão do equilíbrio de forças no mundo. Na diplomacia kissingeriana, não há lugar para Vietnãs, nem mesmo para ideologias, principalmente como mercadorias de exportação: o equilíbrio.,no seu jargão professoral, deve se apoiar no peso de uma bipolaridade militar (da URSS e dos EUA) e uma multipolaridade política (URSS, EUA, China, Japão, Europa). É um modelo aproximado do que garantiu cem anos de paz na Europa, baseado nas conceituações e na habilidade de um príncipe do século XIX.

Henry Kissinger e Klemens von Metternich, o chanceler de Francisco 1 da Áustria, têm duas coisas em comum: a fama de grandes conquistadores de mulheres e o horror às grandes conquistas militares. Presidindo a reconstrução da Europa após o furacão napoleônico, o príncipe austríaco montou um delicado sistema de pesos e contrapesos políticos, cujo principal mérito consistia na substituição dos generais pelos diplomatas na solução dos problemas europeus.

Na sinfonia das relações internacionais, o primeiro-violino Kissinger sentia o Vietnã como um acorde dissonante prejudicando o conjunto. Assim, enquanto a guerra durasse, os EUA não poderiam ter uma "diplomacia global" que lhes permitisse relações harmoniosas com os outros centros mundiais do poder. Nessa formulação não havia qualquer elemento emocional - nem a irritação texana de um Lyndon Johnson com a teimosia dos norte-vietnamitas em não se deixar derrotar, nem a angústia patética dos liberais americanos, cobrindo as cabeças de cinzas e declarando o holocausto vietnamita uma vergonha nacional.

O caminho escolhido por Kissinger e aprovado por Nixon foi, assim, um paciente meio-termo que faria Metternich dançar um minueto de alegria: diminuir gradualmente a intensidade da guerra, retirar paulatinamente os soldados americanos do combate direto - e, acima de tudo, negociar. Com o inimigo, com os aliados, com os aliados do inimigo. Até a paz.

Para Kissinger, Paris foi o seu Congresso de Viena (no qual Metternich conseguiu realizar uma partilha durável do espólio de Napoleão). Para o presidente Nixon - um improvável Francisco 1 -, o inicio auspicioso de seu segundo reinado. Para a nação americana, é a grande oportunidade de cicatrizar profundas feridas. Além de lhe custar 46.000 vidas e 110 bilhões de dólares, a guerra criou ou acentuou divisões profundas em sua sociedade - entre jovens e adultos, ricos e pobres, brancos e negros -, enquanto desviava atenções e recursos de problemas sociais prementes e desgastava o prestígio e a força de seus líderes e instituições.

Se na Indochina estes são os dias de reconstrução, se na política mundial é o momento da reorganização, nos Estados Unidos soou a hora do reencontro. A hora de voltar para casa - os últimos soldados, os desertores, os 516 prisioneiros de Hanói -, não para um frágil cessar-fogo mas para a geração de paz prometida por Richard Nixon.