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Depois de meses de sufoco, a Argentina finalmente ganhou fôlego para seguir em frente. Na semana passada, o país foi socorrido com 40 bilhões de dólares pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Trata-se de uma injeção de recursos equivalente a 14% do produto interno bruto (PIB), que é o total de riqueza produzida no país durante um ano. O presidente Fernando de la Rúa anunciou o empréstimo com grande pompa nos jardins da Quinta de Olivos, a residência oficial da Presidência, como se seu governo tivesse a oportunidade de um recomeço um ano após a posse. "Esta ajuda é um sinal do prestígio que a Argentina goza no mundo e da fortaleza de suas instituições. Teremos um ano espetacular", prometeu o presidente. A declaração pode ser lida ao revés: pela grande desconfiança que há sobre o futuro da Argentina e pelo fracasso dos quatro pacotes econômicos assinados em apenas um ano de governo, o FMI apressou-se em garantir uma bóia salva-vidas, com medo de que a crise argentina se alastre pelos países vizinhos, o Brasil inclusive. Esse tipo de empréstimo é apelidado de "blindagem". Consiste em aplicar uma dose formidável de dinheiro para diminuir ou eliminar o risco de naufrágio econômico. A situação da Argentina demandava mesmo cuidados especiais. Como outras economias que entraram em colapso na segunda metade da década de 90, lançando uma onda de choque de dimensões planetárias, a Argentina era vista como a bola da vez. A dívida externa do país já é equivalente a 52% do PIB. Em 2001, chegará a 54%. A economia encolheu 3% em 1999 e estagnou neste ano. Sem crescimento nem aumento da arrecadação, as contas do governo não fecham e os credores internacionais começaram a suspeitar, com razão, de que a Argentina caminhava para um calote. A elevação de impostos e a redução de salários dos funcionários públicos afetaram o ânimo dos argentinos, que deixaram de consumir, prejudicando ainda mais a arrecadação. A recessão se arrasta há 28 meses e a produção industrial caiu quase 6 pontos em relação a novembro de 1999. Boa parte da indústria é obsoleta e precisa tomar um banho de modernidade. O desemprego bateu em 15%. Não bastasse, o país enfrenta uma crise política. O vice-presidente renunciou, denunciando corrupção no governo. A popularidade do presidente De la Rúa despencou para reles 20%. Os rumores sobre a queda do ministro da Economia, José Luís Machinea, são mais fortes que nunca. O Brasil vem sendo afetado diretamente pela instabilidade da Argentina, com a cotação do dólar oscilando a cada espirro dado por nossa principal parceira no Mercosul. O pacotaço do FMI acalma o mercado internacional. Mas, sozinho, não é capaz de resolver os problemas estruturais da economia platina. "A blindagem dá tempo ao governo, diminui o risco de turbulência por dois anos", diz o economista-chefe da Fundação Capital, Martin Redrado. "Mas se não são feitas as reformas de fundo para devolver competitividade à Argentina, como a reforma tributária, a bola só estará sendo chutada adiante." Até agora, os seis países socorridos desde 1995 voltaram a crescer (veja quadro). Para cumprir as metas acertadas com o FMI, a Argentina precisará de muita disciplina. Sempre criticada por condicionar seus empréstimos à severa receita de austeridade, sem levar em conta o custo social, o FMI finalmente capitulou, pelo menos no plano retórico. No ano passado, seus diretores começaram a dar ênfase também à necessidade de combater a pobreza. Do discurso à prática pouca coisa mudou. O FMI está hoje mais flexível e passou a enxergar os países como nações que precisam de soluções distintas. Mas não abriu mão de seu objetivo principal: garantir o crescimento dos países por meio do ajuste de suas economias, da abertura de mercados e da solidez do sistema financeiro internacional. Para a Argentina, o FMI pediu mudanças no sistema previdenciário e de saúde, que herdou dos tempos das vacas gordas, além de pesados cortes no Orçamento. A meta para o déficit fiscal do país, no entanto, foi facilitada. Um memorando preliminar de política econômica da instituição com a Argentina, costurado no final do ano passado, previa para este ano um déficit fiscal de 4,7 bilhões de dólares. Como o país não reagiu, o fundo elevou a meta para 5,3 bilhões. Mesmo assim o déficit fiscal deverá ficar em 6,4 bilhões de dólares. O pacote completo liberado para a Argentina inclui dinheiro próprio do FMI (13,7 bilhões de dólares), do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do Banco Mundial, do governo espanhol e de bancos privados e fundos de pensão. O FMI é o avalista. No caso de um calote, é ele que deverá prestar contas a toda essa gente. "No fundo o que o FMI quer é que as nações às quais empresta dinheiro possam produzir dólares para honrar suas dívidas", diz o economista-chefe do banco Lloyds no Brasil, Odair Abate. Parte da blindagem, 5 bilhões de dólares, deverá ser convertida em programas sociais, como construção de moradias e planos de empregos temporários. É pouco para um país que vive um recrudescimento dos conflitos trabalhistas, com piquetes nas estradas e paralisações gerais. Outra greve geral de 24 horas está prevista para o dia 29. De la Rúa precisará acalmar ânimos, se quiser recolocar a Argentina no trilho do desenvolvimento. Dinheiro, agora, é o que não falta.
Com reportagem de Denise Ramiro, de São Paulo
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