| Leia
trechos de Travessuras da Menina Mα,
de Mario Vargas Llosa I.
As chilenitas Foi
um verão fabuloso. Pérez Prado e sua orquestra de 12 professores
vieram animar os bailes de carnaval do Clube Terrazas de Mirafl ores e do Lawn
Tênis de Lima, houve um campeonato nacional de mambo, na Praça de
Acho, com grande sucesso apesar da ameaça do cardeal Juan Gualberto Guevara,
o arcebispo de Lima, de excomungar todos os casais participantes, e meu bairro,
o Bairro Alegre das ruas miraflorenses Diego Ferré, Juan Fanning e Colón,
disputou um torneio de futsal, ciclismo, atletismo e natação contra
o bairro da rua San Martín e, naturalmente, ganhamos.
Coisas
extraordinárias aconteceram naquele verão de 1950. Cojinoba Lañas
se declarou pela primeira vez a uma garota a ruiva Seminauel e ela, para surpresa
de todo Miraflores, disse que sim. Cojinoba esqueceu que era manco e a partir
de então andava pelas ruas estufando o peito feito um Charles Atlas. Tico
Tiravante desmanchou com a Ilse e se declarou à Laurita, Víctor
Ojeda se declarou à Ilse e desmanchou com a Inge, Juan Barreto se declarou
à Inge e desmanchou com a Ilse. Houve tanta recomposição
sentimental no bairro que estávamos todos meio zonzos, os namoros se desfaziam
e refaziam e, aos sábados, os casais que saíam das festas nem sempre
eram os mesmos que tinham entrado. "Que sem-vergonhice!", dizia escandalizada
minha tia Alberta, com quem eu morava desde a morte dos meus pais. As
ondas nas praias de Miraflores rebentavam duas vezes, a primeira bem longe, a
200 metros da praia, e os mais valentes de nós iam até lá
para descê-las de peito, e deslizávamos uns 100 metros até
onde as ondas morriam e se reconstituíam em garbosos movimentos e então
estouravam de novo, numa segunda arrebentação que nos empurrava,
como navegantes de ondas que éramos, até as pedrinhas da praia.
Naquele verão extraordinário,
nas festas de Mirafl ores todo mundo parou de dançar valsas, corridos,
blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terremoto que
fazia todos os casais infantis, adolescentes e maduros se sacudirem, balançando,
pulando e fazendo firulas nas festas do bairro. E certamente acontecia o mesmo
fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Breña,
Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, o centro
de Lima, o Rímac e o Porvenir, onde nós, miraflorenses, nunca tínhamos
pisado nem pensávamos pisar jamais. E
assim como havíamos passado das valsinhas e huarachas, das sambas e das
polcas para o mambo, também passamos dos patins e patinetes para a bicicleta,
e alguns, Tato Monje e Tony Espejo por exemplo, para a moto e até mesmo,
um ou dois rapazes, para o automóvel, como o grandalhão do bairro,
Luchín, que às vezes roubava o Chevrolet conversível do pai
e nos levava para dar uma volta pelo cais, de Terrazas até a quebrada de
Armendáriz, a cem por hora. Mas
o fato mais notável daquele verão foi a chegada a Mirafl ores, diretamente
do Chile, seu distante país, de duas irmãs cuja presença
marcante e inconfundível jeito de falar, rapidinho, esquecendo as últimas
sílabas das palavras e arrematando as frases com uma exclamação
aspirada que soava como um "pueh", deixaram abobalhados todos os miraflorenses
que acabavam de trocar as calças curtas pelas compridas. E eu, mais do
que qualquer outro. A mais alta parecia
ser mais nova e vice-versa. A mais velha chamava-se Lily e era um pouco mais baixinha
que Lucy, que tinha um ano menos. Lily devia estar com 14 ou 15 anos, no máximo,
e Lucy, com 13 ou 14. O adjetivo marcante parecia ter sido inventado para elas,
mas, sem deixar de sê-lo, Lucy era menos marcante que a irmã, não
só porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos
atrevimento que Lily, mas também porque era mais calada e, na hora de dançar,
apesar de também fazer firulas e requebrar a cintura com uma audácia
que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada,
inibida e quase insípida em comparação com aquele pião,
aquela labareda ao vento, aquele fogo-fátuo que era Lily quando, colocados
os discos na vitrola, o mambo explodia e começávamos todos a dançar.
Lily dançava num ritmo saboroso
e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção,
erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura
e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia
e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e
participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava
um mambo com ela sempre se saía mal porque, como acompanhá-la sem
se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes?
Impossível! Você ficava constrangido desde o início, e totalmente
consciente de que os olhos de todos os casais estavam concentrados nas façanhas
mambeiras de Lily. "Que menina!", indignava-se a tia Alberta, "dança
como uma Tongolele, parece uma rumbeira de filme mexicano". "Bem, não
vamos esquecer que é chilena", insistia, "e o forte das mulheres
desse país não é a virtude". Eu
me apaixonei por Lily feito um bezerro, a forma mais romântica de se apaixonar
também se dizia queimar feito um tição , e naquele verão
inesquecível me declarei três vezes a ela. A primeira, depois da
matinê de domingo, no balcão do Ricardo Palma, aquele cinema que
ficava no Parque Central de Miraflores, e ela me disse que não, porque
ainda era muito nova para ter namorado. A segunda, na pista de patinação
inaugurada justamente naquele verão perto do Parque Salazar, e ela também
não me aceitou, precisava pensar, porque, por mais que gostasse um pouquinho
de mim, seus pais lhe pediram para não arrumar namorado antes de terminar
o quarto ano e ela ainda estava no terceiro. E a última, poucos dias antes
da grande confusão, no Cream Rica da avenida Larco, enquanto tomávamos
um milk-shake de baunilha, e ela, é claro, disse outra vez que não,
para que ia dizer que sim se já parecíamos namorados do jeito que
estávamos. Não nos colocavam sempre juntos na casa da Marta, quando
jogávamos verdade ou conseqüência? Não nos sentávamos
juntos na praia de Miraflores? Ela não dançava comigo mais do que
com qualquer outro garoto, nas festas? Para que, então, ia dar formalmente
um sim se todo Miraflores já nos considerava namorados? Com sua pinta de
modelo, olhos escuros e marotos e uma boquinha de lábios carnudos, Lily
era a coqueteria em forma de mulher. "Em
você, gosto de tudo", dizia eu. "Mas o melhor é o seu jeitinho
de falar." Era engraçada e original, por seu sotaque e sua musicalidade,
tão diferentes dos peruanos, e também por certas expressões,
palavrinhas e ditados que deixavam nas nuvens os garotos do bairro, tentando adivinhar
o que queriam dizer e se não haveria neles algum deboche. Lily ficava o
tempo todo falando coisas de duplo sentido, fazendo adivinhas ou contando piadas
tão pesadas que deixavam as garotas do bairro vermelhas. "Essas chilenitas
são terríveis", sentenciava tia Alberta, tirando e repondo
os óculos com seu ar de professora primária, temerosa de que aquelas
duas forasteiras desintegrassem a moral miraflorense. No
começo dos anos 50 ainda não havia edifícios em Miraflores,
que era um bairro de casinhas de um andar ou às vezes dois, jardins com
os infalíveis gerânios, as cidreiras, os louros, as buganvílias,
o gramado e as varandas, até onde subiam as madressilvas ou a hera, com
cadeiras de balanço onde os moradores esperavam a noite contando fofocas
e sentindo o perfume do jasmim. Em alguns jardins havia ceibos espinhosos com
fl ores vermelhas e rosadas, e as limpas e retilíneas calçadas tinham
pés de magnólia, jacarandás, amoras, e o toque de cor vinha
tanto das flores nos jardins como das carrocinhas amarelas dos sorveteiros da
DOnofrio, uniformizados de aventais brancos e bonés pretos, que percorriam
as ruas dia e noite anunciando sua presença com uma buzina cujo lento ulular
me dava a sensação de um corno bárbaro, uma reminiscência
pré-histórica. Ainda se ouviam os pássaros cantando nesse
Miraflores em que as famílias cortavam os pinheiros quando as moças
chegavam à idade de casar porque, se não o fizessem, as coitadas
ficariam solteironas como a minha tia Alberta. Lily
nunca me aceitava, mas o fato é que, tirando essa formalidade, em todo
o resto parecíamos namorados. Ficávamos de mãos dadas nas
matinês do Ricardo Palma, do Leuro, do Montecarlo e do Colina e, embora
não se pudesse dizer que tirávamos sarro na penumbra das platéias,
como outros casais mais antigos tirar sarro era uma fórmula em que cabiam
desde beijos anódinos até os chupões lingüísticos
e toques impróprios que depois era preciso confessar ao padre, nas primeiras
sextas-feiras, como pecados mortais , Lily me deixava beijá-la, nas bochechas,
na beirada das orelhinhas, no canto da boca e, às vezes, por um segundo,
juntava seus lábios aos meus e os afastava logo com uma careta melodramática:
"Não, não, isso é que não, magrinho." "Você
parece um bezerro, magro, você está azul, magro, está derretendo
de tanta paixão, magro", caçoavam meus amigos do bairro. Nunca
me chamavam pelo meu nome Ricardo Somocurcio , era sempre pelo apelido. E não
exageravam nem um pouco: eu estava caidinho pela Lily. Por
sua causa, nesse verão troquei socos com Luquen, um dos meus melhores amigos.
Num daqueles encontros de garotos e garotas do bairro na esquina de Colón
e Diego Ferré, no jardim dos Chacaltana, Luquen, bancando o engraçadinho,
disse de repente que as chilenitas eram umas cafonas, porque não eram louras
de verdade mas sim oxigenadas, e que, pelas minhas costas, tinham começado
a chamá-las em Miraflores de As Cucarachas. Dei-lhe um direto no queixo,
do qual ele se esquivou, e fomos resolver o problema a socos na esquina do cais
da Reserva, ao lado do barranco. Ficamos sem nos falar uma semana inteira, até
que, na festa seguinte, as garotas e garotos do bairro nos fizeram reatar a amizade.
Lily gostava de ir, todos os fins
de tarde, a um canto do Parque Salazar fervilhante de palmeiras, copos-de-leite
e campainhas, de cujo murinho de tijolos vermelhos contemplávamos toda
a baía de Lima como o capitão de um navio contempla o mar na sua
torre de comando. Quando o céu estava claro, e juro que nesse verão
o céu ficou o tempo todo sem uma nuvem e o sol brilhou em Miraflores sem
falhar um dia, divisava-se lá no fundo, nos limites do oceano, o disco
vermelho, flamejante, despedindo-se com raios e fogos de artifício enquanto
se afogava nas águas do Pacífico. O rostinho de Lily se concentrava
com o mesmo fervor com que comungava na missa do meio-dia na igreja do Parque
Central, a vista fixa naquela bola ígnea, esperando o instante em que o
mar engolisse o último raio para formular o desejo que o astro, ou Deus,
materializaria. Eu também pensava num desejo, acreditando mais ou menos
que se tornaria realidade. Sempre o mesmo, é claro: que ela finalmente
me aceitasse, que nós começássemos a namorar, a tirar sarro,
e afinal nos apaixonássemos, ficássemos noivos, casássemos
e fôssemos viver em Paris, ricos e felizes. Desde
que me entendo por gente eu sonhava morar em Paris. Provavelmente por culpa do
meu pai, daqueles livros de Paul Féval, Júlio Verne, Alexandre Dumas
e tantos outros que ele me fez ler antes de morrer no acidente que me deixou órfão.
Esses romances encheram a minha cabeça de aventuras e me convenceram de
que a vida na França era mais rica, mais alegre, mais bela e mais tudo
que em qualquer outro lugar. Por isso, além das minhas aulas de inglês
no Instituto Peru-Estados Unidos, consegui que minha tia Alberta me matriculasse
na Aliança Francesa da avenida Wilson, onde ia três vezes por semana
aprender a língua dos franceses. Apesar de gostar de me divertir com os
meus chapas do bairro, eu era bastante caxias, tirava boas notas e adorava idiomas.
Quando meus trocados permitiam, eu
convidava Lily para tomar um chá ainda não estava na moda dizer
fazer um lanche no La Tiendecita Blanca, com sua fachada cor de neve, suas mesinhas
e seus toldos nas calçadas, e seus mileumanoitescos doces os biscoitinhos,
os alfajores recheados de manjar branco, os rocamboles! no cruzamento entre
a avenida Larco, a avenida Arequipa e a alameda Ricardo Palma sombreada pelas
copas dos altíssimos fícus. Ir
com Lily ao La Tiendecita Blanca tomar um sorvete e comer um pedaço de
bolo era uma felicidade quase sempre ofuscada, infelizmente, pela presença
de sua irmã Lucy, que eu tinha de carregar também em todas as saídas.
Ela fi cava segurando vela sem se incomodar, mas com isso estragava os meus planos
e me impedia de conversar a sós com Lily e dizer todas as coisas bonitas
que queria murmurar no seu ouvido. Mas, embora nossa conversa, devido à
presença de Lucy, precisasse evitar certos assuntos, estar com ela não
tinha preço, ver sua cabeleira dançando toda vez que mexia a cabeça,
a malícia de seus olhos cor de mel escuro, ouvir seu jeitinho tão
diferente de falar, e às vezes espreitar, sem querer, no decote de sua
blusa ajustada, o começo dos peitinhos que já despontavam, redondos,
com tenros botões e, sem dúvida, firmes e suaves como frutas jovens.
"Não sei o que faço
aqui com vocês, segurando vela", se desculpava Lucy, às vezes.
Eu mentia: "Que idéia, ficamos felizes com a sua companhia, não
é mesmo, Lily?" Lily ria, com um diabinho zombeteiro nas pupilas,
e aquela exclamação: "É, puuueh
" Era
um ritual naquele verão dar um passeio pela avenida Pardo, sob a alameda
de fícus invadidos por pássaros cantores, entre as casinhas de ambos
os lados em cujos jardins e varandas corriam meninos e meninas vigiados por babás
de uniforme branco bem engomado. Como era impossível, na presença
de Lucy, falar com Lily de tudo o que eu gostaria, levava a conversa para assuntos
anódinos: os planos para o futuro, por exemplo, quando, já formado
em direito, eu fosse para Paris com um posto diplomático porque lá,
em Paris, é que se vivia, a França era o país da cultura
, ou talvez me dedicasse à política, para ajudar um pouco este
pobre Peru a ser grande e próspero de novo, e nesse caso teria de adiar
um pouco a viagem à Europa. E elas, o que gostariam de ser, ou de fazer,
quando crescessem? Lucy, sensata, tinha objetivos bem precisos: "Antes de
mais nada, terminar o colégio. Depois, conseguir um bom emprego, talvez
numa loja de discos, deve ser um bocado divertido." Lily pensava numa agência
de turismo ou numa companhia de aviação, como aeromoça, se
conseguisse convencer os pais, porque assim viajaria de graça pelo mundo
inteiro. Ou então, artista de cinema, talvez, mas nunca permitiria que
a filmassem de biquíni. Viajar, viajar, conhecer todos os países
era o que ela mais queria. "Bem, pelo menos já conhece dois, o Chile
e o Peru, o que quer mais", dizia eu. "Compare comigo, que nunca saí
de Miraflores." As coisas que
Lily contava de Santiago eram para mim uma antecipação do céu
parisiense. Com que inveja eu a ouvia! Lá, ao contrário daqui, não
havia pobres nem mendigos nas ruas, os pais deixavam os garotos e garotas ficarem
até de manhã em festas onde dançavam cheek to cheek, e nunca
se via, como aqui, os velhos, as mães, as tias, espiando os jovens dançarem
para dar bronca se passassem dos limites. No Chile, os garotos e garotas podiam
entrar em filmes para adulto e, desde os 15 anos, fumavam sem precisar se esconder.
Lá a vida era mais divertida que em Lima porque havia mais cinemas, circos,
teatros, espetáculos e festas com orquestras, e em Santiago sempre se apresentavam
companhias de patinação, de balé e musicais americanos, e
os chilenos, em qualquer trabalho que fizessem, ganhavam o dobro ou o triplo do
que os peruanos recebiam aqui. Mas,
se era assim, por que então os pais das chilenitas tinham deixado para
trás aquele país maravilhoso e vieram para o Peru? Eles não
eram ricos, e sim visivelmente pobretões. Para começar, não
viviam como nós, garotas e garotos do Bairro Alegre, em casas com mordomos,
cozinheiras, faxineiras e jardineiros. Moravam num apartamentinho, de um edifício
estreito de três andares, na rua La Esperanza, à altura do restaurante
Gambrinus. E em Miraflores daquele tempo, ao contrário do que ocorreria
mais tarde, quando começaram a surgir os edifícios e desaparecer
as casas, só moravam em apartamentos as pessoas pobres, essa espécie
humana diminuída a que uma verdadeira lástima as chilenitas
pareciam pertencer. Nunca vi a cara
dos seus pais. Elas nunca me levaram, nem a qualquer outro garoto ou garota do
bairro, à sua casa. Nunca comemoraram um aniversário, nem deram
uma festa, nem nos convidaram para lanchar e brincar, como se tivessem vergonha
de mostrar como era modesto o lugar em que viviam. O fato de serem pobres e se
envergonharem de tudo o que não tinham me enchia de compaixão, aumentava
o meu amor pela chilenita e me infundia propósitos altruístas: "Quando
Lily e eu nos casarmos, vamos levar toda a família dela para morar conosco."
Mas meus amigos, e principalmente
minhas amigas miraflorenses, suspeitavam do fato de Lucy e Lily não abrirem
as portas da sua casa. "Serão tão mortas de fome que não
podem sequer dar uma festa?", perguntavam. "Vai ver que não são
pobres, e sim pão-duras", tentava explicar Tico Tiravante, piorando
as coisas. De repente os meninos do
bairro começaram a falar mal das chilenitas pela maneira como se maquiavam
e se vestiam, a caçoar do seu escasso vestuário todos nós
já conhecíamos de cor aquelas sainhas, blusinhas e sandálias
que, para disfarçar, combinavam de todas as maneiras possíveis ,
e eu as defendia, cheio de santa indignação, aquelas maledicências
eram pura inveja, inveja obscena, inveja venenosa, porque as chilenitas nunca
tomavam chá-de-cadeira nas festas, todos os meninos faziam fila para dançar
com elas "elas deixam encostar, assim ninguém toma chá-de-cadeira",
replicava Laura , ou porque, nas reuniões no bairro, nos jogos, na praia
ou no Parque Salazar, eram sempre o centro das atenções, todos os
garotos ficavam à sua volta, ao passo que elas... "Porque são
metidas e descaradas e porque com elas vocês se atrevem a contar umas piadas
sujas que a gente não deixaria!", contra-atacava Teresita , e, por
último, porque as chilenitas eram bárbaras, modernas, sagazes, e
elas, ao contrário, umas frescas, atrasadas, conservadoras, beatas e preconceituosas.
"Com muita honra!" respondia Ilse, para provocar. Mas,
apesar de falarem mal delas, as garotas do Bairro Alegre continuavam convidando
as duas para as festas e indo em turma com elas às praias de Miraflores,
à missa de meio-dia aos domingos, às matinês e às obrigatórias
voltas pelo Parque Salazar, do entardecer até a aparição
das primeiras estrelas que, naquele verão, brilharam no céu de Lima
de janeiro a março sem serem cobertas uma única noite pelas nuvens,
tenho absoluta certeza, como acontece nesta cidade em quatro quintos do ano. Andavam
com elas porque nós, garotos, pedíamos, e porque, no fundo, as garotas
de Miraflores sentiam uma fascinação pelas chilenitas igual à
que a cobra tem pelo passarinho ao hipnotizá-lo antes de engoli-lo, o pecador
pela santa, o diabo pelo anjo. Invejavam nas forasteiras, vindas daquele país
remoto que era o Chile, a liberdade que não tinham de ir a todo e qualquer
lugar, e ficar passeando ou dançando até tarde sem precisar pedir
para ficar mais um pouquinho sem que o pai, a mãe ou alguma irmã
mais velha, ou uma tia, ficasse espionando pelas janelas da festa como e com quem
dançavam, ou as levasse para casa porque já era meia-noite, hora
em que moça direita não fica dançando nem conversando na
rua com homens isso só faziam as mais marmanjas, as oferecidas e as índias
, têm de estar nas suas casas, deitadas nas suas caminhas, sonhando com
os anjinhos. Invejavam as chilenitas por serem tão soltas, dançarem
com tanto molejo sem se importar que seus joelhos aparecessem, mexendo os ombros,
os peitinhos e a bundinha como nenhuma garota de Miraflores fazia, e também,
provavelmente, permitindo liberdades aos meninos que elas nem ousavam imaginar.
Mas, se eram assim tão livres, por que Lily e Lucy não queriam ter
namorado? Por que rejeitavam todos os que lhes pediam para namorar? Lily não
havia recusado só a mim; fez o mesmo com Lalo Molfino e Lucho Claux, e
Lucy não aceitou Loyer, Pepe Cánepa e o bonitinho do Julio Bienvenida,
o primeiro miraflorense que, antes mesmo de terminar o colégio, ganhou
um Volkswagen dos pais quando fez 15 anos. Por que as chilenitas, que eram tão
livres, não queriam ter namorado? Este
e outros mistérios relacionados com Lily e Lucy foram inesperadamente esclarecidos
no dia 30 de março de 1950, o último daquele verão memorável,
durante a festa de Marirosa Álvarez-Calderón, a gordinha fofa. Uma
festa que marcaria época e ficaria para sempre na memória de todos
os presentes. A casa dos Álvarez-Calderón, na esquina de 28 de Julio
e La Paz, era a mais bonita de Miraflores, e talvez do Peru, com seus jardins
de árvores altas, suas tipuanas de flores amarelas, suas campainhas, suas
roseiras e sua piscina de azulejos. As festas de Marirosa sempre tinham orquestra
e um enxame de garçons servindo salgados, canapés, sanduíches,
sucos e todo tipo de bebidas não alcoólicas a noite inteira, festas
para as quais os convidados se preparavam para entrar no céu. Tudo ia às
mil maravilhas até que, com as luzes apagadas, uma centena de garotas e
garotos cercou Marirosa e todos cantamos Parabéns pra você e ela
soprou e apagou as 15 velinhas do bolo e fizemos fila para lhe dar o indefectível
abraço. Quando chegou a vez
de Lily e Lucy abraçá-la, Marirosa, uma gorducha feliz cujos pneus
laterais estufavam seu vestido rosa com um grande laço nas costas, depois
de beijá-las no rosto arregalou os olhos:
Vocês são chilenas, certo? Vou apresentá-las à minha
tia Adriana. É chilena também, acabou de chegar de Santiago. Venham,
venham. Pegou-as pela mão e
as arrastou para dentro da casa, gritando: "Tia Adriana, tia Adriana, tenho
uma surpresa para você." Pela
ampla vidraça da janela, um retângulo iluminado que emoldurava um
grande salão com uma lareira apagada, paredes com paisagens e retratos
a óleo, poltronas, sofás, tapetes e uma dúzia de senhoras
e senhores com taças nas mãos, vi Marirosa irromper instantes depois
com as chilenitas, e cheguei a divisar, borrada e fugaz, a silhueta de uma senhora
muito alta, muito bem arrumada, muito bonita, com um cigarro fumegante na ponta
de uma piteira comprida, avançando para cumprimentar suas jovens compatriotas
com um sorriso condescendente. Fui
tomar um suco de manga e fumar escondido um Viceroy nas cabines do vestiário
da piscina. Lá encontrei Juan Barreto, meu amigo e colega do Colégio
Champagnat, que também viera se refugiar naquela solidão para fumar
um cigarro. De repente me perguntou:
Você se incomoda se eu me declarar a Lily, magro? Ele sabia que, apesar
das aparências, não éramos namorados, e também como
todo mundo, esclareceu que eu tinha me declarado três vezes e nas três
me dera mal. Respondi que me incomodava sim, e muito, porque, se Lily me rejeitou,
foi para fazer um joguinho no Chile as garotas são assim , mas na realidade
gostava de mim, era como se fôssemos namorados, e além do mais naquela
noite mesmo eu já tinha começado a me declarar pela quarta e definitiva
vez, e ela estava quase me aceitando quando a entrada do bolo com as 15 velinhas
da gorducha fofa nos interrompeu. Mas agora, assim que ela parasse de conversar
com a tia da Marirosa, ia finalmente me aceitar e a partir dessa noite seria minha
namorada como Deus manda. Neste
caso, vou ter de me declarar a Lucy Juan Barreto se resignou. O problema é
que gosto mesmo é da Lily, compadre. Eu
o incentivei a se declarar a Lucy e prometi que faria tudo para ajudar. Ele com
Lucy e eu com Lily formaríamos um quarteto genial. Conversando
com Juan Barreto ao lado da piscina, e vendo os casais evoluindo na pista ao som
da orquestra dos Irmãos Ormeño não chegava a ser a de Pérez
Prado, mas era muito boa, que trompetes, que tambores , fumei dois ou três
Viceroys. Por que Marirosa tivera a idéia, bem naquele momento, de apresentar
sua tia a Lucy e Lily? O que tanto fofocavam? Aquilo estava atrasando o meu plano,
diacho. Porque, era mesmo verdade, quando surgiu o bolo com as 15 velinhas, eu
estava começando minha quarta e, tinha certeza, dessa vez bem-sucedida
declaração de amor a Lily, depois de ter convencido a orquestra
a tocar "Me gustas", o bolero mais adequado para se declarar às
garotas. Demoraram uma eternidade
para voltar. E voltaram transfi guradas: Lucy, muito pálida e com olheiras,
parecendo ter visto um fantasma e ainda não ter se recuperado da impressão
do outro mundo, e Lily, emburrada, com uma expressão azeda, soltando faíscas
pelos olhos, como se aquelas senhoras e senhores grã-finos as tivessem
feito passar um mau pedaço lá dentro. Na mesma hora tirei-a para
dançar, um daqueles mambos que eram sua especialidade o Mambo número
5 , e Lily, eu não podia acreditar, não acertava uma, perdia o
ritmo, se distraía, errava, tropeçava, e até mesmo seu gorrinho
de marinheiro escorregou, dando-lhe um aspecto um pouco ridículo. Ela nem
se preocupou em endireitá-lo. O que havia acontecido? Quando
o Mambo número 5 terminou, sem dúvida toda a festa já sabia,
porque a gordinha fofa se encarregara de espalhar. Que satisfação
devia ter aquela fofoqueira contando a história, com todos os detalhes,
colorindo e exagerando o caso, arregalando os olhos de curiosidade e espanto e
felicidade! Que alegria doentia devem ter sentido que desagravo, que vingança
todas as garotas do bairro, que tanto invejavam aquelas chilenitas recém-chegadas
a Miraflores para revolucionar os nossos costumes de garotos que, nesse verão,
estávamos recebendo o certificado de adolescentes! Eu
fui o último a saber, quando Lily e Lucy já haviam desaparecido
misteriosamente, sem se despedir de Marirosa nem de ninguém "mordendo
o freio de tanta vergonha", sentenciaria a tia Alberta , e o boato sibilino
se espalhara por toda a pista de dança deixando em alvoroço a centena
de garotos e garotas que, esquecidos da orquestra, de seus namorados e namoradas,
dos sarros e amassos, cochichavam, repetiam, alarmados e exaltados, abrindo uns
olhos enormes que fervilhavam cheios de maledicência: "Viu só?
Já soube? Escutou? Que coisa! Percebe? Imagina, imagina!" "Não
são chilenas! Não, não eram! Pura lorota! Nem eram chilenas
nem sabiam nada do Chile! Mentiram! Enganaram! Inventaram tudo! A tia da Marirosa
acabou com a festa delas! Que bandidas, que bandidas!" Eram
peruanitas, pronto. Coitadas! Coitadinhas! A tia Adriana, recém-chegada
de Santiago, deve ter tido a maior surpresa da vida ao ouvi-las falar com aquele
sotaque que nos enganava tão bem mas que ela identificou imediatamente
como uma impostura. Como devem ter-se sentido mal as chilenitas quando a tia da
gordinha fofa, adivinhando a farsa, começou a perguntar sobre sua família
santiaguina, o bairro onde moravam em Santiago, o colégio em que tinham
estudado, sobre seus parentes e as amizades de sua família em Santiago,
fazendo Lucy e Lily passarem o momento mais amargo de suas curtas vidas, encarniçando-se
com elas até que, expulsas da sala, destruídas, espiritual e fisicamente
demolidas, proclamou diante de seus parentes e amizades e da atônita Marirosa:
"Que chilenitas que nada! Essas meninas jamais puseram os pés em Santiago
e são tão chilenas como eu sou tibetana!" Naquele
último dia do verão de 1950 eu também acabava de fazer
15 anos , começou para mim a vida real, aquela que discrimina os castelos
no ar, miragens e fábulas da crua realidade. Eu
nunca soube muito bem a história completa das falsas chilenitas, nem ninguém
mais soube, exceto as próprias, mas ouvi as conjeturas, intrigas, fantasias
e supostas revelações que perseguiram por muito tempo, como um rastro
de rumores, aquelas chilenitas de mentira, quando elas já tinham deixado
de existir uma maneira de dizer , porque nunca mais foram convidadas para as
festas, nem para os jogos, nem para os chás, nem para as reuniões
no bairro. As más línguas diziam que, embora as garotas decentes
do Bairro Alegre e de Mirafl ores não as freqüentassem mais, e virassem
a cara quando cruzavam com elas na rua, os meninos, rapazes e homens as procuravam
às escondidas, como se procuram as piranhas e o que eram Lily e Lucy,
senão duas piranhas de algum bairro como Breña ou El Porvenir que,
para ocultar sua origem, tinham passado por estrangeiras para se infiltrar entre
as pessoas decentes de Miraflores? para tirar um sarro, para fazer com elas
essas coisas que só as índias e as piranhas deixam fazer. Depois,
imagino, todos foram se esquecendo de Lily e Lucy, porque outras pessoas, outros
assuntos vieram substituir essa aventura do último verão da nossa
infância. Mas eu não. Não me esqueci, principalmente da Lily.
E, embora tenham se passado tantos anos, e Miraflores tenha mudado tanto, assim
como também os costumes, e se eclipsaram as barreiras e os preconceitos
que antes se manifestavam com insolência, e agora são disfarçados,
eu a guardei na memória e às vezes a evoco, para ouvir a risada
travessa e o olhar zombeteiro de seus olhos cor de mel escuro, e vê-la se
arqueando feito um bambu ao compasso dos mambos. E continuo achando que, apesar
de já ter vivido tantos verões, aquele foi o mais fabuloso de todos.
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