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Leia trecho de Quebrando o Encanto,
de Daniel Dennett
1. Quebra de qual
encanto?
1. o que está acontecendo?
E ele lhes falou muitas coisas em parábolas,
dizendo: olhai, um semeador foi semear, e quando ele semeou, algumas
sementes caíram à beira da estrada e as aves vieram
e as devoraram. [Mateus 13, 3-4]
Se a "sobrevivência do mais
apto" tiver qualquer valor como slogan, então a Bíblia
parece ser um bom candidato para o prêmio de texto mais apto.
[Hugh Pyper, O texto egoísta: a Bíblia e a memética]
Observe uma formiga em um prado, laboriosamente
subindo por uma folha de capim, cada vez mais alto, até que
cai, depois sobe outra vez, e mais outra, como Sísifo rolando
sua pedra, sempre tentando chegar ao topo. Por que ela faz isso?
Que benefício estará buscando para si própria
nessa estranha e extenuante atividade? A pergunta é que está
errada. Não há benefícios biológicos
para a formiga. Ela não tenta obter uma visão melhor
do território, nem procura comida ou se exibe para um parceiro
em potencial, por exemplo. Seu cérebro foi dominado por um
parasita minúsculo, Dicrocelium dendriticum, que precisa
entrar no estômago de um carneiro ou de uma vaca para completar
seu ciclo reprodutivo. Esse pequeno verme cerebral dirige a formiga
a uma situação que beneficie sua progênie, e
não a da formiga. Esse não é um fenômeno
isolado. Do mesmo modo, parasitas manipuladores infectam peixes
e camundongos, entre outras espécies. Esses caronas fazem
com que seus hospedeiros se comportem de modos bizarros - até
mesmo suicidas - para benefício do parasita, não do
hospedeiro.1
Será que com os seres humanos
acontece alguma coisa parecida? Acontece sim. Com grande freqüência
encontramos seres humanos que deixam de lado seus interesses pessoais,
sua saúde, suas oportunidades de terem filhos e dedicam a
vida inteira a promover uma idéia que se fixou em seus cérebros.
A palavra árabe islam significa "submissão",
e todo bom maometano dá testemunho disso, reza cinco vezes
por dia, dá esmolas, jejua durante o Ramadã e tenta
fazer a peregrinação ou hajj a Meca, tudo em nome
da idéia de Alá e de Maomé, o mensageiro de
Alá. Cristãos e judeus fazem coisa parecida, é
claro, devotando a vida a disseminar a Palavra, fazendo sacrifícios
enormes, sofrendo bravamente, arriscando a vida por uma idéia.
Os sikhs, os hindus e os budistas fazem o mesmo. E não nos
esqueçamos dos muitos milhares de humanistas seculares que
deram a vida pela Democracia, pela Justiça ou pela simples
Verdade. Há muitas idéias pelas quais se pode morrer.
Nossa possibilidade de dedicar nossa
vida a algo que consideramos mais importante que nosso bem-estar
pessoal - ou nosso próprio imperativo biológico de
ter filhos - é um dos aspectos que nos diferenciam do resto
do mundo animal. Uma mãe ursa defenderá bravamente
um espaço que tenha alimentos e defenderá com ferocidade
sua cria, ou até sua toca vazia. Provavelmente, contudo,
já morreu mais gente na brava tentativa de proteger locais
e textos sagrados do que na tentativa de proteger reservas de alimentos
para seus filhos e suas casas. Como outros animais, temos desejos
inatos de nos reproduzir e de fazermos o que for necessário
para atingir essa meta, mas também temos crenças e
a capacidade de transcender nossos imperativos genéticos.
Esse fato nos torna diferentes, mas é em si mesmo um fato
biológico, evidente para a ciência natural, e algo
que exige uma explicação da ciência natural.
Como apenas uma espécie, o Homo sapiens, veio a ter essas
perspectivas extraordinárias quanto à sua própria
vida?
Dificilmente alguém dirá
que a coisa mais importante na vida é ter mais netos que
seus rivais, mas esse é o default summum bonum de todo animal
silvestre. É tudo o que eles sabem. Eles não passam
de animais. Existe uma exceção interessante, parece:
o cachorro. O "melhor amigo do homem" não consegue
mostrar uma dedicação que rivaliza com a de seu amigo
homem? O cachorro não chega a morrer, se necessário,
para proteger seu dono? Sim, e não se trata de mera coincidência
o fato de que esse traço seja encontrado nas espécies
domesticadas. Os cachorros de hoje são descendentes daqueles
que nossos ancestrais mais amaram e admiraram no passado; sem sequer
tentar criá-los para a lealdade, conseguiram que isso acontecesse,
tirando o que há de melhor (de seu ponto de vista, do nosso
ponto de vista) nos animais que nos servem de companhia. 2 Será
que, inconscientemente, modelamos essa dedicação a
um dono segundo nossa própria devoção a Deus?
Estaríamos modelando os cachorros à nossa própria
imagem? Talvez; mas, então, de onde tiramos nossa devoção
a Deus?
É provável que a comparação
com que comecei este livro, entre um verme parasita que invade o
cérebro de uma formiga e uma idéia que invade um cérebro
humano, pareça um tanto forçada e também ultrajante.
Ao contrário dos vermes, as idéias não são
seres vivos e não invadem cérebros; elas são
criadas por cérebros. As duas coisas são verdadeiras,
mas não são objeções tão reveladoras
como a princípio parecem. Idéias não são
seres vivos; elas não conseguem enxergar aonde estão
indo e não têm membros com os quais guiar um cérebro
hospedeiro, mesmo que conseguissem enxergar. É verdade, mas
um Dicrocelium dendriticum também não é exatamente
um cientista de foguetes espaciais; não é mais inteligente
que uma cenoura, na verdade; nem sequer tem um cérebro. Tudo
o que tem é a boa sorte de ser dotado com características
que afetam os cérebros de formigas dessa maneira útil
sempre que entram em contato com elas. (Essas características
são como as manchas semelhantes a olhos nas asas de borboletas,
que algumas vezes enganam as aves predadoras, fazendo-as pensar
que algum animal grande as está olhando. Os pássaros
se afastam e as borboletas se beneficiam, mas sem mérito
algum por isso.) Uma idéia inerte, se for projetada acertadamente,
poderá ter um efeito benéfico sobre um cérebro
sem precisar saber que isso está acontecendo! E, se tiver,
ela poderá prosperar, porque é feita por aquele projeto.
A comparação entre a
Palavra de Deus e um Dicrocelium dendriticum é inquietante,
mas a iniciativa de comparar uma idéia a uma coisa viva não
é nova. Tenho uma partitura de música escrita em pergaminho
de meados do século xvi que achei há meio século
em um sebo de Paris. O texto (em latim) conta a moral da parábola
do semeador (Mateus 13): Semen est verbum Dei; sator autem Christus.
A Palavra de Deus é uma semente, e o semeador da semente
é Cristo. Parece que essas sementes se enraízam em
indivíduos e fazem com que esses seres a disseminem, por
toda parte (e, em compensação, os hospedeiros humanos
alcançam a vida eterna - eum qui audit manebit in eternum).
Como as idéias são criadas
pelas mentes? Pode ser por inspiração milagrosa, pode
ser por meios mais naturais, já que as idéias se disseminam
de mente para mente, sobrevivendo a traduções entre
linguagens diferentes, pegando carona em cantigas, ícones,
estátuas e rituais, unindose em combinações
estranhas na cabeça de pessoas em particular, onde dão
origem ainda a outras novas "criações",
que trazem semelhanças de família com as idéias
que as inspiraram, mas acrescentam características novas
e outros poderes à medida que avançam. E talvez algumas
das idéias "selvagens" que inicialmente invadiram
nossas mentes tenham tido descendentes que foram domesticados e
amansados quando tentamos nos tornar seus donos, ou pelo menos seus
administradores, seus pastores. Quais são os antepassados
das idéias domesticadas que hoje se disseminam? Onde e por
que elas foram originadas? E uma vez que nossos antepassados assumiram
o objetivo de disseminar essas idéias, não apenas
as abrigando, mas nutrindo-as, como essa crença na crença
transforma as idéias que estão sendo difundidas?
As grandes idéias da religião
têm nos mantido, nós, seres humanos, enfeitiçados
há milhares de anos, ao longo de um tempo maior que o da
história registrada, porém ainda um breve momento
em termos de tempo biológico. Se quisermos compreender a
natureza da religião, hoje, como um fenômeno natural,
devemos examinar não apenas o que ela é hoje, mas
o que era antes. Um relato das origens da religião, nos próximos
sete capítulos, irá nos dar uma nova perspectiva para
examinar, nos últimos três capítulos, o que
a religião é agora, por que ela significa tanto para
tanta gente, e sobre o quê elas podem ter ou não razão
em seu entendimento como pessoas religiosas. Aí poderemos
ver melhor aonde a religião poderá ir no futuro próximo,
nosso futuro neste planeta. Não consigo pensar em um tópico
mais importante para ser investigado.
2. uma definição que
funciona para a religião Os filósofos ampliam o significado
das palavras até que elas pouco conservem de seu significado
original; ao chamar de "Deus" alguma abstração
vaga que criaram para si mesmos, eles se apresentam como deístas,
crentes, ante o mundo; podem até se orgulhar de terem atingido
uma idéia mais elevada e mais pura de Deus, embora o Deus
deles não passe de uma sombra sem substância e não
seja mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa. [Sigmund
Freud, O futuro de uma ilusão]
Como defino religião? Não
importa apenas como a defino, já que tenho planos de examinar
e discutir os fenômenos seus vizinhos que (provavelmente)
não são religiões - espiritualidade, compromisso
com organizações seculares, devoção
fanática a grupos étnicos (ou times esportivos), superstição...
Então, seja onde for que eu "trace o limite", de
qualquer modo irei ultrapassá-lo. Como se verá, aquilo
que em geral chamamos de religião é composto de uma
variedade de fenômenos bastante diferentes, que surgem de
circunstâncias diferentes e têm diferentes implicações,
formando uma família frouxa de fenômenos, não
um "tipo natural", como um elemento químico ou
uma espécie.
Qual a essência da religião?
Esta pergunta deve ser encarada com certa desconfiança. Ainda
que haja uma afinidade profunda e importante entre muitas ou mesmo
a maioria das religiões do mundo, certamente há variações
que compartilham de alguns aspectos típicos, ao mesmo tempo
que carecem de uma ou outra feição "essencial".
Assim como a biologia da evolução progrediu durante
o século passado, nós aos poucos avaliamos os motivos
profundos para agrupar as coisas vivas do modo como o fazemos -
esponjas são animais, e as aves têm relações
mais estreitas com os dinossauros que os sapos -, e novas surpresas
ainda são descobertas a cada ano. Dessa forma, deveríamos
prever- e tolerar - alguma dificuldade na tarefa de chegar a uma
definição à prova de contra-exemplos para algo
tão diverso e complexo como a religião. Tubarões
e golfinhos se parecem bastante e apresentam vários comportamentos
semelhantes, mas não são de jeito algum o mesmo tipo
de coisa. Talvez, uma vez conhecido melhor o campo inteiro, vejamos
que o budismo e o islamismo, apesar de todas as suas semelhanças,
merecem ser considerados como duas espécies de fenômeno
cultural diferentes. Podemos começar com o senso comum e
a tradição, considerando-os, os dois, religiões,
mas não devemos nos deixar cegar pela perspectiva de que
nossa classificação inicial pode ter de se ajustar
à medida que aprendemos mais. Por que dar de mamar a seus
filhotes é mais fundamental que viver no mar? Por que ter
uma coluna vertebral é mais fundamental que ter asas? Agora
isso pode parecer óbvio, mas não era óbvio
no raiar da biologia.
No Reino Unido, a lei que diz respeito
à crueldade com os animais traça um importante limite
moral que leva em conta se o animal é vertebra- do: no que
diz respeito à lei, você pode fazer o que quiser com
um verme, uma mosca ou um camarão, mas não com uma
ave, um sapo ou um camundongo vivo. Este pode ser um lugar bastante
bom para traçar o limite, mas as leis podem ser modificadas
- e esta o foi. Cefalópodes - polvos, lulas - recentemente
foram promovidos a vertebrados honorários, na verdade, porque,
ao contrário de seus primos moluscos, os mexilhões
e ostras têm sistemas nervosos bastante sofisticados. Parece-me
um ajuste político sábio, uma vez que as semelhanças
importantes para a lei e a moralidade não se alinhavam perfeitamente
com os profundos princípios da biologia.
Podemos achar que o problema de traçar
um limite entre religião e seus vizinhos mais próximos
pertencentes aos fenômenos culturais está cercado de
questões parecidas, embora mais perturbadoras. Por exemplo,
uma lei (pelo menos nos Estados Unidos) que separa religiões
segundo status especiais, declarando que algo que era encarado como
religião na verdade é alguma outra coisa, está
fadada a ter mais do que interesse acadêmico para aqueles
envolvidos. A Wicca (bruxaria) e outros fenômenos do movimento
Nova Era têm sido defendidos como religiões por seus
seguidores exatamente com o objetivo de elevá-las ao status
legal e social tradicionalmente desfrutado pelas religiões.
Por outro lado, há quem declare que a biologia da evolução
é na verdade "apenas mais uma religião",
e, portanto, que suas doutrinas não têm lugar no currículo
das escolas públicas. Proteção da lei, honra,
prestígio e uma isenção tradicional de determinados
tipos de análises e críticas - tudo isso depende bastante
de como definimos religião. Como devo lidar com essa delicada
questão?
Como uma primeira tentativa, proponho
definir as religiões como um sistema social cujos participantes
confessam a crença em um agente ou agentes sobrenaturais
cuja aprovação eles buscam. É claro que essa
é uma maneira tortuosa de articular a idéia de que
uma religião sem Deus ou deuses é como um vertebrado
sem coluna vertebral.3 Alguns dos motivos para essa linguagem em
circunlóquios estão bastante claros; outros aparecerão
com o tempo - e a definição está sujeita a
revisão, é um ponto de partida, não algo esculpido
em pedra para ser defendido até a morte. De acordo com essa
definição, um devotado fã-clube de Elvis Presley
não é uma religião, porque embora os membros
possam, em um sentido bastante óbvio, adorar Elvis, ele não
é considerado por eles literalmente sobrenatural, mas apenas
um ser humano especialmente grandioso. Se alguns fã-clubes
resolverem que Elvis é realmente imortal e divino, então
estarão realmente no caminho de iniciar uma nova religião.
Um agente sobrenatural não precisa ser muito antropomórfico.
O Jeová do Velho Testamento é sem dúvida um
tipo de homem divino (não uma mulher) que vê com olhos
e ouve com ouvidos - e fala e age em tempo real. (Deus esperou para
ver o que Jó faria e então falou com ele.) Muitos
cristãos, judeus e maometanos contemporâneos insistem
em que Deus, ou Alá, é onisciente, não tem
necessidade de coisas como órgãos dos sentidos, e,
sendo eterno, não age em tempo real. Isso é intrigante,
uma vez que muitos deles continuam a rezar para Deus, a esperar
que Deus responda a suas preces amanhã, a expressar gratidão
a Deus por ter criado o universo, e a usar expressões como
"o que Deus quer que nós façamos", e "Deus
tem misericórdia", atos que parecem estar em contradição
direta com sua insistência de que o seu Deus de modo algum
é antropomórfico. De acordo com uma tradição
já bem antiga, essa tensão entre Deus como agente
e Deus como um Ser eterno e imutável é um aspecto
que está além da compreensão humana, e seria
bobagem e arrogância tentar entendê-lo. Até aqui
é o que se pode ter, e esse tópico será tratado
com cuidado mais adiante, porém não podemos prosseguir
com minha definição de religião (ou qualquer
outra definição, na verdade) até que (de modo
experimental, dependendo de maiores esclarecimentos) nos tornemos
um pouco mais explícitos em relação ao espectro
de opiniões perceptíveis por trás desse nevoeiro
piedoso de recatada incompreensão. Precisamos buscar outras
interpretações antes de decidir como classificar as
doutrinas que as pessoas esposam.
Para algumas pessoas, a prece não
é literalmente falar com Deus, mas uma atividade "simbólica",
um jeito de falar consigo mesmo a respeito de suas mais profundas
preocupações, expressadas de modo metafórico.
É como iniciar um diário com "Querido Diário".
Se o que elas chamam de Deus realmente não é um agente,
a seus olhos, um ser que pode atender às preces, aprovar
e desaprovar, aceitar sacrifícios e impor castigos ou perdão,
então, embora elas possam chamar este Ser de Deus e reverenciá-lo
(e não a Ele), esse credo, seja lá qual for, não
é verdadeiramente uma religião, de acordo com a minha
definição. É talvez um maravilhoso (ou terrível)
substituto da religião, ou uma religião primitiva,
descendente de uma religião genuína que apresenta
muitas familiaridades com a religião, mas é uma espécie
inteiramente diferente.4 Com o objetivo de esclarecer o que são
as religiões somos obrigados a admitir que algumas delas
podem ter se transformado em algo que não é mais religião.
Isso certamente aconteceu com práticas e tradições
particulares que faziam parte de religiões genuínas.
Os rituais de Halloween não são mais rituais religiosos,
pelo menos nos Estados Unidos. As pessoas que despendem grandes
esforços e dinheiro para participar desses rituais não
estão, portanto, praticando uma reli gião, embora
suas atividades possam ser alocadas em uma clara linhagem de descendência
das práticas religiosas. A crença em são Nicolau
(Papai Noel) também perdeu seu status de crença religiosa.
Para outros, a prece significa realmente
falar com Deus, que (como pessoa, e não coisa) de fato ouve
e perdoa. Seu credo é uma religião, de acordo com
minha definição, desde que seja parte de um sistema
social ou de uma comunidade mais ampla, e não a congregação
de apenas um. Sob esse aspecto, minha definição está
profundamente em conflito com a de William James, que qualificou
a religião como "os sentimentos, atos e experiências
de homens, individualmente, em sua solidão, desde que se
vejam em relação com qualquer coisa que possam considerar
divina" (1902, p. 31). Ele não teria dificuldade em
identificar um crente isolado como uma pessoa dotada de religião;
ele próprio, aparentemente, era um deles. Essa concentração
na experiência religiosa individual, privada, era uma escolha
tática para James. Ele achava que crenças, rituais,
armadilhas e hierarquias políticas da religião "organizada"
serviam para desviar a atenção da raiz do fenômeno,
e esse caminho tático deu frutos maravilhosos. Mas James
dificilmente poderia negar que esses fatores sociais e culturais
afetavam sobremaneira o conteúdo e a estrutura da experiência
individual. Hoje há motivos para trocar o microscópio
psicológico de James por um telescópio grande-angular
biológico e social, examinando os fatores ao longo de grandes
extensões de espaço e de tempo que moldam as experiências
e ações de pessoas individualmente religiosas.
Assim como James dificilmente poderia
negar os fatores sociais e culturais, eu dificilmente poderia negar
a existência de indivíduos que, com grande sinceridade
e devoção, se consideram os comungantes solitários
daquilo que podemos chamar de religiões particulares. Em
geral essas pessoas tiveram uma considerável experiência
com uma ou mais religiões existentes e preferiram não
ser seus adeptos. Sem negar importância a elas, mas tendo
necessidade de diferenciá-las das pessoas religiosas, muito
mais comuns, que se identificam com um credo ou uma igreja em particular
que possui muitos outros membros, eu as chamarei de pessoas espirituais,
mas não religiosas. Elas seriam, por assim dizer, vertebrados
honorários.
Há muitas outras variantes a
serem consideradas no devido tempo - por exemplo, pessoas que rezam
e crêem na eficácia da prece, mas não acreditam
que essa eficácia seja canalizada por um Deus agente, que
literalmente ouve as preces. Quero adiar a discussão de todas
essas questões até que tenhamos um sentido mais claro
a respeito de onde surgiram essas doutrinas. Proponho que o núcleo
do problema da religião invoca deuses que são agentes
eficazes em tempo real e que representam um papel central na maneira
como os participantes pensam sobre o que deveriam fazer. Lanço
mão aqui da evasiva palavra "invocar" porque, como
veremos adiante, a palavra-padrão "crença"
tende a distorcer e camuflar alguns dos aspectos mais interessantes
da religião. Como provocação, diria que a crença
religiosa nem sempre é crença. E por que é
preciso buscar a aprovação do agente ou dos agentes
sobrenaturais? Essa cláusula serve para distinguir religião
de "magia negra" de diversos tipos. Há pessoas
- muito poucas, na verdade, embora interessantes histórias
populares a respeito de "cultos satânicos" possam
nos fazer pensar o contrário - que se acham capazes de aliciar
demônios com quem formam algum tipo de aliança pecaminosa.
Esses sistemas sociais (quase inexistentes) estão nos limites
da religião, mas acho apropriado deixá-los de fora,
uma vez que nossas intuições se horrorizam com a idéia
de que as pessoas que se envolvem com esse tipo de bobagem mereçam
o status especial de devoto. O que aparentemente enraíza
o respeito amplamente disseminado e mantido por religiões
de todos os tipos é o sentimento de que as pessoas religiosas
são bem-intencionadas, tentam levar uma vida moralmente boa,
são honestas em seu desejo de não fazer o mal e reparar
suas transgressões. Alguém que seja ao mesmo tempo
egoísta e crédulo a ponto de tentar fazer um pacto
com agentes sobrenaturais malévolos a fim de conseguir o
que quer, vive em um mundo de superstição de histórias
em quadrinhos e não merece o mesmo respeito.
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