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27 de junho de 2007
  

Leia trecho de Quebrando o Encanto, de Daniel Dennett

1. Quebra de qual encanto?

1. o que está acontecendo?

E ele lhes falou muitas coisas em parábolas, dizendo: olhai, um semeador foi semear, e quando ele semeou, algumas sementes caíram à beira da estrada e as aves vieram e as devoraram. [Mateus 13, 3-4]

Se a "sobrevivência do mais apto" tiver qualquer valor como slogan, então a Bíblia parece ser um bom candidato para o prêmio de texto mais apto. [Hugh Pyper, O texto egoísta: a Bíblia e a memética]

Observe uma formiga em um prado, laboriosamente subindo por uma folha de capim, cada vez mais alto, até que cai, depois sobe outra vez, e mais outra, como Sísifo rolando sua pedra, sempre tentando chegar ao topo. Por que ela faz isso? Que benefício estará buscando para si própria nessa estranha e extenuante atividade? A pergunta é que está errada. Não há benefícios biológicos para a formiga. Ela não tenta obter uma visão melhor do território, nem procura comida ou se exibe para um parceiro em potencial, por exemplo. Seu cérebro foi dominado por um parasita minúsculo, Dicrocelium dendriticum, que precisa entrar no estômago de um carneiro ou de uma vaca para completar seu ciclo reprodutivo. Esse pequeno verme cerebral dirige a formiga a uma situação que beneficie sua progênie, e não a da formiga. Esse não é um fenômeno isolado. Do mesmo modo, parasitas manipuladores infectam peixes e camundongos, entre outras espécies. Esses caronas fazem com que seus hospedeiros se comportem de modos bizarros - até mesmo suicidas - para benefício do parasita, não do hospedeiro.1

Será que com os seres humanos acontece alguma coisa parecida? Acontece sim. Com grande freqüência encontramos seres humanos que deixam de lado seus interesses pessoais, sua saúde, suas oportunidades de terem filhos e dedicam a vida inteira a promover uma idéia que se fixou em seus cérebros. A palavra árabe islam significa "submissão", e todo bom maometano dá testemunho disso, reza cinco vezes por dia, dá esmolas, jejua durante o Ramadã e tenta fazer a peregrinação ou hajj a Meca, tudo em nome da idéia de Alá e de Maomé, o mensageiro de Alá. Cristãos e judeus fazem coisa parecida, é claro, devotando a vida a disseminar a Palavra, fazendo sacrifícios enormes, sofrendo bravamente, arriscando a vida por uma idéia. Os sikhs, os hindus e os budistas fazem o mesmo. E não nos esqueçamos dos muitos milhares de humanistas seculares que deram a vida pela Democracia, pela Justiça ou pela simples Verdade. Há muitas idéias pelas quais se pode morrer.

Nossa possibilidade de dedicar nossa vida a algo que consideramos mais importante que nosso bem-estar pessoal - ou nosso próprio imperativo biológico de ter filhos - é um dos aspectos que nos diferenciam do resto do mundo animal. Uma mãe ursa defenderá bravamente um espaço que tenha alimentos e defenderá com ferocidade sua cria, ou até sua toca vazia. Provavelmente, contudo, já morreu mais gente na brava tentativa de proteger locais e textos sagrados do que na tentativa de proteger reservas de alimentos para seus filhos e suas casas. Como outros animais, temos desejos inatos de nos reproduzir e de fazermos o que for necessário para atingir essa meta, mas também temos crenças e a capacidade de transcender nossos imperativos genéticos. Esse fato nos torna diferentes, mas é em si mesmo um fato biológico, evidente para a ciência natural, e algo que exige uma explicação da ciência natural. Como apenas uma espécie, o Homo sapiens, veio a ter essas perspectivas extraordinárias quanto à sua própria vida?

Dificilmente alguém dirá que a coisa mais importante na vida é ter mais netos que seus rivais, mas esse é o default summum bonum de todo animal silvestre. É tudo o que eles sabem. Eles não passam de animais. Existe uma exceção interessante, parece: o cachorro. O "melhor amigo do homem" não consegue mostrar uma dedicação que rivaliza com a de seu amigo homem? O cachorro não chega a morrer, se necessário, para proteger seu dono? Sim, e não se trata de mera coincidência o fato de que esse traço seja encontrado nas espécies domesticadas. Os cachorros de hoje são descendentes daqueles que nossos ancestrais mais amaram e admiraram no passado; sem sequer tentar criá-los para a lealdade, conseguiram que isso acontecesse, tirando o que há de melhor (de seu ponto de vista, do nosso ponto de vista) nos animais que nos servem de companhia. 2 Será que, inconscientemente, modelamos essa dedicação a um dono segundo nossa própria devoção a Deus? Estaríamos modelando os cachorros à nossa própria imagem? Talvez; mas, então, de onde tiramos nossa devoção a Deus?

É provável que a comparação com que comecei este livro, entre um verme parasita que invade o cérebro de uma formiga e uma idéia que invade um cérebro humano, pareça um tanto forçada e também ultrajante. Ao contrário dos vermes, as idéias não são seres vivos e não invadem cérebros; elas são criadas por cérebros. As duas coisas são verdadeiras, mas não são objeções tão reveladoras como a princípio parecem. Idéias não são seres vivos; elas não conseguem enxergar aonde estão indo e não têm membros com os quais guiar um cérebro hospedeiro, mesmo que conseguissem enxergar. É verdade, mas um Dicrocelium dendriticum também não é exatamente um cientista de foguetes espaciais; não é mais inteligente que uma cenoura, na verdade; nem sequer tem um cérebro. Tudo o que tem é a boa sorte de ser dotado com características que afetam os cérebros de formigas dessa maneira útil sempre que entram em contato com elas. (Essas características são como as manchas semelhantes a olhos nas asas de borboletas, que algumas vezes enganam as aves predadoras, fazendo-as pensar que algum animal grande as está olhando. Os pássaros se afastam e as borboletas se beneficiam, mas sem mérito algum por isso.) Uma idéia inerte, se for projetada acertadamente, poderá ter um efeito benéfico sobre um cérebro sem precisar saber que isso está acontecendo! E, se tiver, ela poderá prosperar, porque é feita por aquele projeto.

A comparação entre a Palavra de Deus e um Dicrocelium dendriticum é inquietante, mas a iniciativa de comparar uma idéia a uma coisa viva não é nova. Tenho uma partitura de música escrita em pergaminho de meados do século xvi que achei há meio século em um sebo de Paris. O texto (em latim) conta a moral da parábola do semeador (Mateus 13): Semen est verbum Dei; sator autem Christus. A Palavra de Deus é uma semente, e o semeador da semente é Cristo. Parece que essas sementes se enraízam em indivíduos e fazem com que esses seres a disseminem, por toda parte (e, em compensação, os hospedeiros humanos alcançam a vida eterna - eum qui audit manebit in eternum).

Como as idéias são criadas pelas mentes? Pode ser por inspiração milagrosa, pode ser por meios mais naturais, já que as idéias se disseminam de mente para mente, sobrevivendo a traduções entre linguagens diferentes, pegando carona em cantigas, ícones, estátuas e rituais, unindose em combinações estranhas na cabeça de pessoas em particular, onde dão origem ainda a outras novas "criações", que trazem semelhanças de família com as idéias que as inspiraram, mas acrescentam características novas e outros poderes à medida que avançam. E talvez algumas das idéias "selvagens" que inicialmente invadiram nossas mentes tenham tido descendentes que foram domesticados e amansados quando tentamos nos tornar seus donos, ou pelo menos seus administradores, seus pastores. Quais são os antepassados das idéias domesticadas que hoje se disseminam? Onde e por que elas foram originadas? E uma vez que nossos antepassados assumiram o objetivo de disseminar essas idéias, não apenas as abrigando, mas nutrindo-as, como essa crença na crença transforma as idéias que estão sendo difundidas?

As grandes idéias da religião têm nos mantido, nós, seres humanos, enfeitiçados há milhares de anos, ao longo de um tempo maior que o da história registrada, porém ainda um breve momento em termos de tempo biológico. Se quisermos compreender a natureza da religião, hoje, como um fenômeno natural, devemos examinar não apenas o que ela é hoje, mas o que era antes. Um relato das origens da religião, nos próximos sete capítulos, irá nos dar uma nova perspectiva para examinar, nos últimos três capítulos, o que a religião é agora, por que ela significa tanto para tanta gente, e sobre o quê elas podem ter ou não razão em seu entendimento como pessoas religiosas. Aí poderemos ver melhor aonde a religião poderá ir no futuro próximo, nosso futuro neste planeta. Não consigo pensar em um tópico mais importante para ser investigado.

2. uma definição que funciona para a religião Os filósofos ampliam o significado das palavras até que elas pouco conservem de seu significado original; ao chamar de "Deus" alguma abstração vaga que criaram para si mesmos, eles se apresentam como deístas, crentes, ante o mundo; podem até se orgulhar de terem atingido uma idéia mais elevada e mais pura de Deus, embora o Deus deles não passe de uma sombra sem substância e não seja mais a personalidade poderosa da doutrina religiosa. [Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão]

Como defino religião? Não importa apenas como a defino, já que tenho planos de examinar e discutir os fenômenos seus vizinhos que (provavelmente) não são religiões - espiritualidade, compromisso com organizações seculares, devoção fanática a grupos étnicos (ou times esportivos), superstição... Então, seja onde for que eu "trace o limite", de qualquer modo irei ultrapassá-lo. Como se verá, aquilo que em geral chamamos de religião é composto de uma variedade de fenômenos bastante diferentes, que surgem de circunstâncias diferentes e têm diferentes implicações, formando uma família frouxa de fenômenos, não um "tipo natural", como um elemento químico ou uma espécie.

Qual a essência da religião? Esta pergunta deve ser encarada com certa desconfiança. Ainda que haja uma afinidade profunda e importante entre muitas ou mesmo a maioria das religiões do mundo, certamente há variações que compartilham de alguns aspectos típicos, ao mesmo tempo que carecem de uma ou outra feição "essencial". Assim como a biologia da evolução progrediu durante o século passado, nós aos poucos avaliamos os motivos profundos para agrupar as coisas vivas do modo como o fazemos - esponjas são animais, e as aves têm relações mais estreitas com os dinossauros que os sapos -, e novas surpresas ainda são descobertas a cada ano. Dessa forma, deveríamos prever- e tolerar - alguma dificuldade na tarefa de chegar a uma definição à prova de contra-exemplos para algo tão diverso e complexo como a religião. Tubarões e golfinhos se parecem bastante e apresentam vários comportamentos semelhantes, mas não são de jeito algum o mesmo tipo de coisa. Talvez, uma vez conhecido melhor o campo inteiro, vejamos que o budismo e o islamismo, apesar de todas as suas semelhanças, merecem ser considerados como duas espécies de fenômeno cultural diferentes. Podemos começar com o senso comum e a tradição, considerando-os, os dois, religiões, mas não devemos nos deixar cegar pela perspectiva de que nossa classificação inicial pode ter de se ajustar à medida que aprendemos mais. Por que dar de mamar a seus filhotes é mais fundamental que viver no mar? Por que ter uma coluna vertebral é mais fundamental que ter asas? Agora isso pode parecer óbvio, mas não era óbvio no raiar da biologia.

No Reino Unido, a lei que diz respeito à crueldade com os animais traça um importante limite moral que leva em conta se o animal é vertebra- do: no que diz respeito à lei, você pode fazer o que quiser com um verme, uma mosca ou um camarão, mas não com uma ave, um sapo ou um camundongo vivo. Este pode ser um lugar bastante bom para traçar o limite, mas as leis podem ser modificadas - e esta o foi. Cefalópodes - polvos, lulas - recentemente foram promovidos a vertebrados honorários, na verdade, porque, ao contrário de seus primos moluscos, os mexilhões e ostras têm sistemas nervosos bastante sofisticados. Parece-me um ajuste político sábio, uma vez que as semelhanças importantes para a lei e a moralidade não se alinhavam perfeitamente com os profundos princípios da biologia.

Podemos achar que o problema de traçar um limite entre religião e seus vizinhos mais próximos pertencentes aos fenômenos culturais está cercado de questões parecidas, embora mais perturbadoras. Por exemplo, uma lei (pelo menos nos Estados Unidos) que separa religiões segundo status especiais, declarando que algo que era encarado como religião na verdade é alguma outra coisa, está fadada a ter mais do que interesse acadêmico para aqueles envolvidos. A Wicca (bruxaria) e outros fenômenos do movimento Nova Era têm sido defendidos como religiões por seus seguidores exatamente com o objetivo de elevá-las ao status legal e social tradicionalmente desfrutado pelas religiões. Por outro lado, há quem declare que a biologia da evolução é na verdade "apenas mais uma religião", e, portanto, que suas doutrinas não têm lugar no currículo das escolas públicas. Proteção da lei, honra, prestígio e uma isenção tradicional de determinados tipos de análises e críticas - tudo isso depende bastante de como definimos religião. Como devo lidar com essa delicada questão?

Como uma primeira tentativa, proponho definir as religiões como um sistema social cujos participantes confessam a crença em um agente ou agentes sobrenaturais cuja aprovação eles buscam. É claro que essa é uma maneira tortuosa de articular a idéia de que uma religião sem Deus ou deuses é como um vertebrado sem coluna vertebral.3 Alguns dos motivos para essa linguagem em circunlóquios estão bastante claros; outros aparecerão com o tempo - e a definição está sujeita a revisão, é um ponto de partida, não algo esculpido em pedra para ser defendido até a morte. De acordo com essa definição, um devotado fã-clube de Elvis Presley não é uma religião, porque embora os membros possam, em um sentido bastante óbvio, adorar Elvis, ele não é considerado por eles literalmente sobrenatural, mas apenas um ser humano especialmente grandioso. Se alguns fã-clubes resolverem que Elvis é realmente imortal e divino, então estarão realmente no caminho de iniciar uma nova religião. Um agente sobrenatural não precisa ser muito antropomórfico. O Jeová do Velho Testamento é sem dúvida um tipo de homem divino (não uma mulher) que vê com olhos e ouve com ouvidos - e fala e age em tempo real. (Deus esperou para ver o que Jó faria e então falou com ele.) Muitos cristãos, judeus e maometanos contemporâneos insistem em que Deus, ou Alá, é onisciente, não tem necessidade de coisas como órgãos dos sentidos, e, sendo eterno, não age em tempo real. Isso é intrigante, uma vez que muitos deles continuam a rezar para Deus, a esperar que Deus responda a suas preces amanhã, a expressar gratidão a Deus por ter criado o universo, e a usar expressões como "o que Deus quer que nós façamos", e "Deus tem misericórdia", atos que parecem estar em contradição direta com sua insistência de que o seu Deus de modo algum é antropomórfico. De acordo com uma tradição já bem antiga, essa tensão entre Deus como agente e Deus como um Ser eterno e imutável é um aspecto que está além da compreensão humana, e seria bobagem e arrogância tentar entendê-lo. Até aqui é o que se pode ter, e esse tópico será tratado com cuidado mais adiante, porém não podemos prosseguir com minha definição de religião (ou qualquer outra definição, na verdade) até que (de modo experimental, dependendo de maiores esclarecimentos) nos tornemos um pouco mais explícitos em relação ao espectro de opiniões perceptíveis por trás desse nevoeiro piedoso de recatada incompreensão. Precisamos buscar outras interpretações antes de decidir como classificar as doutrinas que as pessoas esposam.

Para algumas pessoas, a prece não é literalmente falar com Deus, mas uma atividade "simbólica", um jeito de falar consigo mesmo a respeito de suas mais profundas preocupações, expressadas de modo metafórico. É como iniciar um diário com "Querido Diário". Se o que elas chamam de Deus realmente não é um agente, a seus olhos, um ser que pode atender às preces, aprovar e desaprovar, aceitar sacrifícios e impor castigos ou perdão, então, embora elas possam chamar este Ser de Deus e reverenciá-lo (e não a Ele), esse credo, seja lá qual for, não é verdadeiramente uma religião, de acordo com a minha definição. É talvez um maravilhoso (ou terrível) substituto da religião, ou uma religião primitiva, descendente de uma religião genuína que apresenta muitas familiaridades com a religião, mas é uma espécie inteiramente diferente.4 Com o objetivo de esclarecer o que são as religiões somos obrigados a admitir que algumas delas podem ter se transformado em algo que não é mais religião. Isso certamente aconteceu com práticas e tradições particulares que faziam parte de religiões genuínas. Os rituais de Halloween não são mais rituais religiosos, pelo menos nos Estados Unidos. As pessoas que despendem grandes esforços e dinheiro para participar desses rituais não estão, portanto, praticando uma reli gião, embora suas atividades possam ser alocadas em uma clara linhagem de descendência das práticas religiosas. A crença em são Nicolau (Papai Noel) também perdeu seu status de crença religiosa.

Para outros, a prece significa realmente falar com Deus, que (como pessoa, e não coisa) de fato ouve e perdoa. Seu credo é uma religião, de acordo com minha definição, desde que seja parte de um sistema social ou de uma comunidade mais ampla, e não a congregação de apenas um. Sob esse aspecto, minha definição está profundamente em conflito com a de William James, que qualificou a religião como "os sentimentos, atos e experiências de homens, individualmente, em sua solidão, desde que se vejam em relação com qualquer coisa que possam considerar divina" (1902, p. 31). Ele não teria dificuldade em identificar um crente isolado como uma pessoa dotada de religião; ele próprio, aparentemente, era um deles. Essa concentração na experiência religiosa individual, privada, era uma escolha tática para James. Ele achava que crenças, rituais, armadilhas e hierarquias políticas da religião "organizada" serviam para desviar a atenção da raiz do fenômeno, e esse caminho tático deu frutos maravilhosos. Mas James dificilmente poderia negar que esses fatores sociais e culturais afetavam sobremaneira o conteúdo e a estrutura da experiência individual. Hoje há motivos para trocar o microscópio psicológico de James por um telescópio grande-angular biológico e social, examinando os fatores ao longo de grandes extensões de espaço e de tempo que moldam as experiências e ações de pessoas individualmente religiosas.

Assim como James dificilmente poderia negar os fatores sociais e culturais, eu dificilmente poderia negar a existência de indivíduos que, com grande sinceridade e devoção, se consideram os comungantes solitários daquilo que podemos chamar de religiões particulares. Em geral essas pessoas tiveram uma considerável experiência com uma ou mais religiões existentes e preferiram não ser seus adeptos. Sem negar importância a elas, mas tendo necessidade de diferenciá-las das pessoas religiosas, muito mais comuns, que se identificam com um credo ou uma igreja em particular que possui muitos outros membros, eu as chamarei de pessoas espirituais, mas não religiosas. Elas seriam, por assim dizer, vertebrados honorários.

Há muitas outras variantes a serem consideradas no devido tempo - por exemplo, pessoas que rezam e crêem na eficácia da prece, mas não acreditam que essa eficácia seja canalizada por um Deus agente, que literalmente ouve as preces. Quero adiar a discussão de todas essas questões até que tenhamos um sentido mais claro a respeito de onde surgiram essas doutrinas. Proponho que o núcleo do problema da religião invoca deuses que são agentes eficazes em tempo real e que representam um papel central na maneira como os participantes pensam sobre o que deveriam fazer. Lanço mão aqui da evasiva palavra "invocar" porque, como veremos adiante, a palavra-padrão "crença" tende a distorcer e camuflar alguns dos aspectos mais interessantes da religião. Como provocação, diria que a crença religiosa nem sempre é crença. E por que é preciso buscar a aprovação do agente ou dos agentes sobrenaturais? Essa cláusula serve para distinguir religião de "magia negra" de diversos tipos. Há pessoas - muito poucas, na verdade, embora interessantes histórias populares a respeito de "cultos satânicos" possam nos fazer pensar o contrário - que se acham capazes de aliciar demônios com quem formam algum tipo de aliança pecaminosa. Esses sistemas sociais (quase inexistentes) estão nos limites da religião, mas acho apropriado deixá-los de fora, uma vez que nossas intuições se horrorizam com a idéia de que as pessoas que se envolvem com esse tipo de bobagem mereçam o status especial de devoto. O que aparentemente enraíza o respeito amplamente disseminado e mantido por religiões de todos os tipos é o sentimento de que as pessoas religiosas são bem-intencionadas, tentam levar uma vida moralmente boa, são honestas em seu desejo de não fazer o mal e reparar suas transgressões. Alguém que seja ao mesmo tempo egoísta e crédulo a ponto de tentar fazer um pacto com agentes sobrenaturais malévolos a fim de conseguir o que quer, vive em um mundo de superstição de histórias em quadrinhos e não merece o mesmo respeito.


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