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Trecho
do livro Mãos de Cavalo,
de Daniel Galera
6h08
Segurando
com firmeza o volante do automóvel que está
prestes a dirigir ao longo de quatro dias e três noites
até a região mais elevada do Altiplano Boliviano,
sente a náusea típica daquele último
instante em que ainda parece viável voltar atrás
com relação a algo que, no fundo, sabemos não
ter volta, porque já foi decidido e planejado há
muito tempo. Essa hesitação inútil é
ainda mais incômoda por causa do silêncio duradouro
das seis horas da manhã de um sábado. Em vez
de girar a chave na ignição, fica à espera
de algum ruído, como se isso pudesse dar o peteleco
que faltava pra ele ser jogado pra frente, forçado
a ligar o carro, buscar Renan em casa no horário combinado
e ir ao encontro do que prometia ser a maior aventura de sua
vida. A Adri tinha avisado na noite anterior que não
levantaria da cama pra se despedir. Por isso, a partir do
momento em que o despertador do telefone celular tocou a musiquinha
da Família Addams, às cinco e quinze, ele fez
o máximo de barulho possível pra mijar, lavar
o rosto, vestir uma calça confortável de abrigo,
camisa pólo, tênis e boné da clínica
cirúrgica, preparar uma tigela de iogurte integral
com granola e uma quantidade absurda de mel, escovar os dentes,
tropeçar propositalmente na cama e no banquinho do
closet, sintonizar o rádio em volume desnecessariamente
alto em uma estação AM pra conferir a previsão
do tempo, retornar pro quarto do casal sem motivo nenhum e
sair dele logo em seguida, abrir a porta do quarto da Nara,
cujo sono infantil quase perturbou na esperança de
que isso comovesse a esposa, abrir e fechar desnecessariamente
a porta do bagageiro pra espiar a bagagem que havia guardado,
organizado e checado trocentas vezes na noite passada, voltar
pra dentro de casa sem motivo e, finalmente, sair, fechando
a garagem pela última vez e batendo a porta do carro
com raiva, mas apesar de todo esse esforço a Adri cumpria
a ameaça e devia estar fingindo que dormia até
agora, aguardando o breve rangido elétrico da ignição
iniciar os ciclos de combustão da gasolina dentro dos
pistões do Mitsubishi Pajero TR4. Por fim, decide proporcionar
a ela essa satisfação e gira a chave, dá
a partida no motor e acelera algumas vezes em ponto morto,
somente pelo prazer de romper a quietude, fantasiando que
naquele exato instante, na cama, ao perceber que ele estava
realmente partindo, ela se arrependia mortalmente de não
ter dado um beijo de despedida, na bochecha que fosse, e lhe
desejado boa sorte. Descendo o carro lentamente pelas faixas
paralelas de granito que cortam o gramado uniforme do jardim
em frente à casa, decide que vai desligar o celular
assim que cair na estrada e esperar dois ou três dias
antes de telefonar pra ela dando notícias. Com as ruas
da cidade desertas, pretende chegar ao sítio do Renan
na Vila Nova em no máximo vinte e cinco minutos. Mantém
as janelas do carro fechadas, e o ruído dos pneus sobre
o pavimento irregular soa longínquo e fofo, dando a
impressão de que está dentro de um aquário,
separado do mundo. Abre completamente a janela da porta do
motorista e tudo se transforma, a começar pelo barulho
crocante dos pneus. O sol, que deve estar despontando por
trás de algum edifício, cobre as casas, prédios,
árvores e os paralelepípedos das ruas secundárias
da Bela Vista com uma luz embaçada entre o amarelo
e o rosa. Três estrelas heróicas resistem no
céu que deixou de ser noturno há uns cinco,
no máximo dez minutos. O ar está fresco e saturado
de oxigênio. Enche os pulmões pelo nariz, preenchendo
cada alveólo até o limite da capacidade, e prende
o fôlego por uns três segundos. Daqui a poucos
dias estarão, ele e Renan, quatro mil e setenta metros
acima do nível do mar em algum hotelzinho de Potosí,
que divide o título de cidade mais alta do planeta
com Lhasa, no Tibete, os dois deitados em beliches, repousando
e ingerindo volumes imensos de líquido em busca de
uma aclimatação adequada, evitando arruinar
tudo logo no começo com uma embolia pulmonar. Assim
que pega a Carlos Trein Filho pra descer até a Nilo
Peçanha, lembra da pergunta que Renan fez de repente,
sem mais nem menos, quando descansavam no topo da Pedra da
Cruz, no final de tarde de um domingo do mês de abril,
quase sete meses atrás. Tinham acabado de escalar a
via Prosciutto Crudo, conquistada e batizada pelo próprio
Renan. Desde que tinha passado duas semanas em férias
escalando no litoral da Sardenha, em agosto de 2002, Renan
batizava suas vias com expressões aleatórias
em italiano. Aquele foi provavelmente o melhor fim de semana
que passaram em Minas do Camaquã, uma vila fantasmagórica
perto da qual se ergue um conjunto de formações
rochosas que parece uma seqüência de quatro gigantescas
ondas de pedra maciça rasgando uma paisagem de morros
suaves e rios. Situada no sudoeste do Rio Grande do Sul, a
vila se desenvolveu a partir do início do século
XX, com a descoberta de jazidas de cobre, ouro e prata. As
reservas se esgotaram, e a mineração foi encerrada
em meados dos anos 1990. Hoje a vila é habitada por
algo entre uma e duas centenas de famílias, em boa
parte de mineradores aposentados, e suas casas e ruas abandonadas,
cercadas de uma geografia mutilada pela extração
de minérios, dão um adorável ar de fim
do mundo a um recanto já naturalmente isolado. A turma
da qual fazem parte ele, Renan e mais um punhado de alunos
da academia foi uma das primeiras a freqüentar a região
pra praticar montanhismo. Percorriam os trezentos quilômetros
entre Porto Alegre e Minas do Camaquã no sábado
cedinho, passavam o dia escalando e a noite traçando
um churrasco, escalavam mais um pouco no domingo e retornavam
pra Porto Alegre à noite, Renan de volta pras paredes
artificiais indoor da Condor, a academia esportiva na Tristeza
da qual era dono, e ele pro seu consultório na Quintino
Bocaiúva e pras salas de cirurgia do Mãe de
Deus Center. A escalada, pra ele, sempre foi antes de tudo
um método de exploração dos limites físicos
e mentais, um exercício prazeroso de resistência
muscular e concentração, praticado com disciplina
e regularidade, que acabou entranhado em sua rotina, mas quando
consegue se livrar de suas pacientes e acompanhar as saídas
da turma da Condor nos finais de semana, a prática
se torna algo além disso, um parêntese que interrompe
o fluxo mais ou menos previsível de sua vida profissional
e familiar. Já pro Renan a escalada é a própria
rotina. Quando não está trabalhando como instrutor
e sócio administrativo na Condor ou dando aulas de
escalada técnica pra grupos particulares e instituições
diversas, está em algum lugar do Brasil, da América
Latina ou de outras partes do globo, escalando vias dificílimas
de nível 9 ou 10, acumulando gigabytes de fotos digitais
que registram alguns feitos consideráveis do montanhismo
nacional, como a encadenação em tempo recorde
da "Massa Crítica", na Barra da Tijuca, e
a conquista da sua "Francobolo", considerada até
a presente data a via esportiva mais difícil do Sul
do Brasil, uma 10b repleta de passadas explosivas no teto
da Gruta da Terceira Légua, em Caxias do Sul. Apesar
da relação de seus egos com a escalada ser um
tanto diferente, ele e Renan se tornaram grandes amigos logo
que se conheceram na Condor, e desde então, sempre
que as brechas das agendas coincidem, viajam juntos de carro
nos finais de semana e feriados pra escalar na rocha, numa
média de dez vezes por ano nos últimos três
anos. Estiveram no Itacolomi, em Torres, Cotiporã,
Salto Ventoso, Pico da Canastra e Ivoti. Mas seu destino favorito
vinha sendo as Minas do Camaquã, onde os acampamentos
montados pra passar a noite de sábado pra domingo se
tornaram tão divertidos, com fogueiras e conversas
madrugada adentro, que numa ocasião a Adri tinha consentido
em deixar a Nara com os pais dele pra lhe fazer companhia
na saída de fim de semana, apesar do terror que sentia
de ver outros seres humanos pendurados nas alturas, terror
que ele definia, em tom de brincadeira, como "acrofobia
derivada", enquanto Renan dizia que era cagaço
mesmo. No fim ela se encantou com a natureza do lugar, perguntou
pra que serviam os mosquetões, o freio oito, o magnésio,
quis saber o comprimento das cordas, o método de fixação
dos grampos na rocha, e chegou a escalar uns quatro ou cinco
metros de altura, antes de começar a berrar de pavor.
À noite, ela fumou muita maconha, bebeu muito vinho
e ajudou todo mundo a tirar sarro da cara dele por não
beber nem fumar maconha. Fez amizade e passou cerca de uma
hora trocando confidências e segredinhos com a Keyla,
namorada e aluna do Renan. Ao presenciar a rápida intimidade
das respectivas companheiras, Renan ficou balbuciando em seu
ouvido frases ininteligíveis nas quais se destacava
a palavra "suingue", e isso era bem a cara do Renan.
Naquela noite a Adri ficou implicante, incoerente, desfigurada
e alegre, e ele ficou feliz em ver ela daquele jeito. Mas
aquela foi a primeira e última vez que a Adri foi escalar
com ele. Ela simplesmente perdeu o interesse, como se tivesse
esgotado todas as possibilidades de fruição
numa única viagem. Ele e Renan, entretanto, prosseguiram.
Precisava cada vez mais da endorfina, da adrenalina e do estado
mental quase meditativo que a escalada na rocha proporcionava.
Renan precisava seguir fazendo aquilo que fazia melhor: vencer
desafios em boulders com a graça de uma aranha
bailarina, abrindo novas vias que seriam repetidas e respeitadas
por inúmeros outros escaladores. E naquele dia de abril,
quando já estavam sentados na pedra, descansando e
admirando a vista do cume da Pedra da Cruz, Renan perguntou,
sem desviar os olhos da paisagem: "Tá a fim de
fazer um lance totalmente Coração das Trevas?".
Ainda meio zonzo, extasiado pelo esforço e pela conquista,
ele seguia com os olhos um gavião que estava empoleirado
na enorme cruz branca que dá nome à Pedra da
Cruz e tinha recém levantado vôo, batendo as
asas contra um céu laranja estriado de nuvens brancas.
"Fazer o quê?", perguntou, arrancado de seu
devaneio. Ao invés de dar bola pro Renan, começou
a mentalizar etapas do rapel que fariam em breve pra descer
daquela altura antes que ficasse escuro demais. A descida
era sempre a parte que o deixava mais nervoso. Assim como
a maioria dos acidentes de carro ocorre a menos de cinco minutos
do destino do motorista, a descida é a parte em que
um escalador está mais à vontade, mais apressado
e distraído. Renan demorou alguns segundos antes de
falar de novo. "Já pensou alguma vez em escalar
no gelo?" Sabia que Renan tinha feito curso de escalada
em gelo em Bariloche e que havia chegado ao cume de algumas
montanhas nevadas dos Andes argentinos, por isso imaginou
que ele tinha em mente mais alguma investida naquela região.
"Nunca pensei, mas seria interessante." "Tô
com uma idéia fixa, véio, um projeto que tá
me deixando totalmente obcecado." "Escalar o Aconcágua
com as mãos amarradas nas costas?" Esperava que
Renan fosse rir, mas em vez disso o amigo cruzou os dedos
e usou a força da mão direita pra estalar as
articulações metacarpofalangianas da mão
esquerda, que estouraram como um conjunto de pequenas cápsulas
cheias de ar de um plástico bolha. "Preciso de
um parceiro pra uma viagem, uma expedição, na
verdade. Alguém com tempo e vontade pra pegar dias
de estrada, investir num equipamento, se enfiar no meio do
nada e passar um tempo na montanha. Tá a fim de encarar
algo assim?" A pergunta parecia prever uma resposta negativa
e tinha um toque muito sutil de desafio, coisa comum entre
os dois quando o assunto era escalada, já que Renan
era melhor no esporte em todos os sentidos e tinha como principal
motivação a superação de marcas
e façanhas, de preferência as alheias. "Onde?"
"Cordilheira dos Andes." "Sim, mas tá
pensando em alguma montanha específica?" Renan
tirou os olhos do horizonte e o encarou. "Já ouviu
falar no Cerro Bonete?" Alguns neurônios faiscaram,
porque sim, já tinha ouvido falar nessa montanha, em
um artigo da revista canadense Gripped, se não
estava enganado. Um pico vulcânico de quase sete mil
metros de altura, próximo ao Aconcágua, no Noroeste
da Argentina. "Sim, já ouvi", emendou com
satisfação, se sentindo um especialista, "não
é um vulcão na Argentina?" "Pois é,
existe esse Cerro Bonete, que fica perto do Aconcágua,
na província de La Rioja. Tem seis mil setecentos e
não sei quantos metros e sempre foi meio esnobado pelos
escaladores, mas ultimamente tem sido mais procurado. Só
que não é desse que eu tô falando, não."
Renan enunciava suas frases com um falso tom de pouca importância,
mas era claro que estava querendo chegar em algum lugar, falar
de algo que vinha sendo objeto de fascínio em sua imaginação
fazia um bom tempo. Queria fazer suspense, tanto que ficou
quieto e o forçou a perguntar: "Existe outro Cerro
Bonete, então?" "Existem pelo menos três
ou quatro, que eu saiba. ‘Bonete’ em espanhol significa um
tipo de chapéu, e os caras deram esse nome pra uma
porrada de montanhas nos Andes. Mas o Bonete que eu tô
falando é especial. Pra começar, fica na Bolívia.
Bem no sul, quase fronteira com a Argentina." "Fora
isso, o que ele tem de especial?" "Difícil
dizer, porque ninguém nunca subiu lá. Aparece
em alguns mapas e nas fotos de satélite, mas não
se sabe a altura exata. Encontrei uma página na internet
que diz que tem dezoito mil, duzentos e quarenta pés,
uns cinco mil e seiscentos metros." "Não
é dos mais altos." "O que importa é
que é desconhecido. Não existe quase nada documentado
sobre a região. Não tem estrada, cidade, porra
nenhuma. O desgraçado fica na borda de uma cratera
vulcânica com uns seis ou sete quilômetros de
diâmetro. Tu precisa ver as fotos aéreas. Dá
pra achar alguma coisa na internet. É impressionante."
Soube na hora que o papo do Renan era pra valer. Subir os
picos mais elevados de cada continente já tinha se
tornado algo banal aos olhos dele, não que fosse fácil,
mas muita gente já tinha feito. "Existem pacotes
turísticos pro cume do Everest" era uma frase
que Renan vivia usando pra ilustrar sua tese de que os verdadeiros
desafios do alpinismo hoje em dia estão nos boulders
de alta dificuldade e nas pouquíssimas montanhas do
planeta que ainda têm um cume ou uma face intocada por
piolets e grampões. O que motivaria ele a sair
de casa e investir numa expedição seria uma
montanha desconhecida, misteriosa. Algo que fosse inédito
e merecesse registro. Os olhos dele brilhavam ao falar. Piscava
diversas vezes seguidas e depois mantinha as pálpebras
abertas por um longo tempo. "E aí? O que te parece?
Nunca teve vontade de fazer uma indiada dessas? É possível,
véio, perfeitamente possível. Precisa de tempo,
dinheiro e um bom estado de espírito. Além de
colhões. É isso que não tenho certeza
se tu tem", disse, meio brincando, meio pra valer. "É
de se pensar, é de se pensar", respondeu. Naquela
ocasião a idéia pareceu tão mirabolante
que não levou a sério. Mas na segunda-feira
seguinte baixou seus e-mails em casa e havia meia dúzia
de mensagens do Renan, com links e imagens sobre o tal de
Cerro Bonete. Eram informações limitadas e fotografias
de satélite de baixa qualidade encontradas em sites
obscuros de estudos geológicos e relatórios
governamentais. Um dos e-mails continha um par de coordenadas
e um link pra fazer o download de um programa chamado Google
Earth. Instalou e seguiu as instruções da mensagem:
digitou a latitude 21º45’0.00"S e a longitude 66º29’0.00"W
num campo da interface do programa e apertou Enter. O globo
terrestre tridimensional começou a girar devagar e
a tela foi se aproximando cada vez mais rápido da América
do Sul, da Bolívia, e depois de alguns segundos de
transferência de dados surgiu a imagem nítida
de um cume nevado na borda da cratera de um vulcão
inativo. Sua primeira impressão foi de estar vendo
um mapa de algum jogo muito antigo de computador, mas aos
poucos foi compreendendo que era uma imagem de satélite
legítima, colorida e detalhada, de um trecho inacreditavelmente
inóspito da superfície do planeta, a vista aérea
das cordilheiras lembrando a textura da casca de uma velha
araucária, a crosta terrestre vista como a crosta de
um bolo, quase palpável na tela do computador. E foi
nesse instante que a idéia da expedição
desmiolada se gravou na sua mente de forma definitiva. Fossem
quais fossem as motivações pessoais do Renan,
agora tinha a sua própria: precisava estar lá.
Precisava que aquele exato retalho da Terra se tornasse um
lugar onde estivera, que sua presença ali fosse algo
realizado. A imagem da tela do computador evocou fotografias
mentais de diversos locais que tinham provocado nele um desejo
semelhante, como se lhe reservassem uma revelação
de qualquer tipo. Lembrou de uma pequena ilha que viu durante
um passeio de barco pelo sul da ilha de Santa Catarina, no
primeiro ano de casamento com a Adri, quando ela estava grávida
de três meses. Era uma ilha de rocha entre tantas outras
daquele litoral, coberta de vegetação na metade
mais elevada, mas nessa havia três ou quatro cabanas
de madeira completamente isoladas, voltadas pro oceano e escondidas
do continente. Ficou imaginando quem havia construído
aquilo, como tinham chegado lá, se alguém morava
de fato naquelas habitações precárias
ou se eram apenas galpões de pescadores usados como
depósitos ou abrigos eventuais. Fosse como fosse, teve
vontade de estar naquela casinha isolada numa ilha sem civilização.
Pareceu, por um instante, algo simples e acessível.
O que podia haver de tão misterioso em escolher um
lugar vazio da superfície do planeta, mandar construir
uma pequena casa e ir pra lá de vez em quando? Depois,
aos poucos, a idéia foi adquirindo outra cara, se revelando
inviável, muito mais inacessível do que parecia,
e deixar isso de lado foi como perder uma oportunidade valiosa,
embora não pudesse definir exatamente o que haveria
de tão único e revelador naquele lugar específico.
Outra ocasião, viajando de carro pela BR-101 entre
Torres e Osório, enxergou uma figueira magnífica
em um sítio na margem da estrada e teve a mesma sensação
de urgência. Teria sido a coisa mais simples do mundo
estacionar o carro e percorrer a pé os quinhentos metros
que o separavam da árvore. Sentar encostado em seu
tronco e atingir dentro de minutos alguma epifania, ou simplesmente
deixar a aura daquela figueira naquele sítio naquela
estrada evanescer vagarosamente, retornar pro seu carro e
seguir viagem até Porto Alegre. Perdeu aquela oportunidade
e dezenas de outras. O que a imagem de satélite na
tela do computador oferecia era mais uma chance de eleger
um instante no tempo e no espaço em detrimento de todos
os outros. Era preciso estar lá. Se pudesse, se teletransportaria
pro Cerro Bonete boliviano naquele exato instante. Como era
impossível, apenas respondeu pro Renan: "Vi as
imagens. tô dentro (sério)".
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