17
de março de 1982
O
nosso craque maior
Vencidos
problemas e preconceitos,
Zico chega aos 29 anos como o melhor
jogador do Brasil e com tudo para
explodir na Copa do Mundo
Ricardo
A. Setti
Quando
as seleções do Brasil e da Alemanha Ocidental
pisarem o gramado do Maracanã, no Rio de Janeiro, no
próximo domingo, os apreciadores estarão diante
do que, no momento, o futebol internacional pode oferecer
de melhor - e testemunharão, de quebra, o confronto
direto de duas superestrelas desse esporte: o brasileiro Arthur
Antunes Coimbra, o Zico, 29 anos, e o alemão Karl-Heinz
Rummenigge, 26. Poucos críticos e torcedores, excetuados
talvez os argentinos, deixariam de considerar Brasil e Alemanha
o maior clássico do planeta. Da mesma forma, o mundo
parece convencido de que Zico e Rummenigge compõem,
com o argentino Maradona, o trio de gigantes de sua geração.
Embora
seja um amistoso preparatório para a Copa do Mundo
da Espanha, que começa em junho, o jogo de domingo
oferece atrações capazes de transformá-lo
num grande acontecimento. Em primeiro lugar, há o ressentimento
dos alemães com o duro retrospecto sobre os encontros
Brasil e Alemanha - em nove jogos, o Brasil venceu seis, empatou
dois e perdeu apenas um. Além disso, o fortíssimo
time do técnico Jupp Derwall ainda parece francamente
atônito com a impiedosa goleada de 4 a 1 que lhe foi
imposta pela equipe de Telê Santana no Mundialito do
Uruguai, há pouco mais de um ano. São temperos
que certamente apimentarão o duelo entre Zico e Rummenigge.
Trata-se de um daqueles tira-teimas entre craques que tanto
atrai as multidões - no último deles, entre
Zico e Maradona, Zico levou a melhor. Num Flamengo e Boca
Juniors realizado em setembro passado, o Flamengo ganhou de
2 a 0 - dois gols de Zico, numa partida em que Maradona jogou
mal e saiu antes do fim.
Zico
merece todo o respeito dos alemães. "Ele é
um jogador-exceção, uma raposa, um craque que
conquista a bola com leveza e agilidade", diz o meio-campo
Wolfgang Dremmler, 27 anos, que no domingo atuará contra
o Brasil. A exibição ao lado de Rummenigge,
um habilíssimo atacante sem posição fixa,
eleito o melhor jogador da Europa em 1980 e 1981, será
uma boa oportunidade para que Zico se consolide na posição
de primeiro aspirante a uma coroa que foi de Pelé por
muitos anos e, na prática, está sem dono desde
que o holandês Johann Cruyff se afastou da Seleção
Holandesa, às vésperas da Copa de 1978.
CURRÍCULO
ESPLÊNDIDO - Que Zico é o maior jogador do
Brasil ninguém mais duvida - nem mesmo Sócrates,
o atacante do Corinthians, reconhecidamente o único
que poderia fazer-lhe sombra de forma direta. "Isso não
se discute: o melhor jogador do Brasil é Zico",
encerra Sócrates. E já ficaram definitivamente
para trás alguns fantasmas e preconceitos que assombraram
a carreira de Zico. Pipoqueiro? "Santo Deus, eu queria
ter um pipoqueiro desses em cada clube que eu treinar",
diz o técnico Oswaldo Brandão, o primeiro a
convocar Zico para a Seleção, no início
de 1976. Jogador que só vai bem no Maracanã?
Basta ver a chuva de gols que Zico marca por todo o Brasil,
ou, então, os aplausos que recebeu da insaciável
torcida paulista no magro empate por 1 a 1 contra a Checoslováquia,
no início do mês. Mesmo no "purgatório"
tradicional à saída do estádio, onde
nem Sócrates escapou de xingamentos, Zico foi poupado.
Craque que não dá certo na Seleção?
Que se ouça, então, o técnico Telê,
para quem Zico é "o maior nome do futebol brasileiro",
"um dos melhores jogadores do mundo" e "um
grande profissional", que em vinte das 28 partidas da
Seleção disputadas desde que Telê assumiu,
há dois anos, fez dezenove gols, sem contar os que
proporcionou a seus companheiros.
Ninguém,
no futebol brasileiro atual, chega perto do esplêndido
currículo do novo camisa 10 da Seleção.
Zico foi seis vezes campeão da Taça Guanabara
e seis vezes campeão do Rio de Janeiro pelo Flamengo,
ganhou três títulos de torneios internacionais
pela Seleção e dois pelo Flamengo, foi campeão
da Taça Libertadores da América e Mundial de
Clubes no ano passado.
De
1974 para cá, quando se firmou de vez no ataque do
Flamengo, em oito campeonatos disputados no Rio, Zico foi
artilheiro em cinco e vice-artilheiro em dois. Um dos poucos
jogadores profissionais em todos os tempos a superar a marca
dos 500 gols, até a semana passada ele balançara
as redes adversárias exatas 560 vezes, 502 das quais
no Flamengo - o que o transforma no maior artilheiro da história
do clube -, 53 na Seleção Brasileira e cinco
em outras seleções.
Para
onde se olhe na carreira de Zico, lá estará
sendo quebrado algum recorde. Foi ele, por exemplo, o maior
goleador do Maracanã num único campeonato, o
de 1975, com trinta gols, batendo um recorde estabelecido
ainda na década de 50 pelo legendário Ademir
de Menezes e igualado na década seguinte pelo artilheiro
Quarentinha, do Botafogo. Foi ainda Zico quem mais gols marcou
num único jogo no Maracanã - seis, na goleada
de 7 a 1 do Flamengo contra o Goytacaz, em março de
1979, dose repetida três meses depois contra o Niterói.
Na segunda-feira dia 22 ele receberá o Troféu
Craque do Ano da revista Placar, escolhido pelo voto dos leitores,
unanimidade do Júri Especial da revista e por um júri
de jornalistas esportivos de quatro capitais brasileiras.
AUTÓGRAFOS
EM BOLAS - Zico chega ao limiar da Copa do Mundo com uma
unanimidade nacional semelhante à ostentada por Pelé.
"Mas não há termo de comparação
entre Zico e Pelé", ressalva o camisa 10 do Flamengo.
As estatísticas sugerem que mesmo o grande Zico não
poderá reprisar a glória do genial Pelé.
Zico precisou chegar aos 29 anos de idade para ter marcado
500 gols. Pelé, com a mesma idade, já havia
colecionado 1.000. Mas os dois se parecem ao menos na infinita
paciência com que ambos sabem conviver com a condição
de ídolo. "Este rapaz já não se
pertence, não pode ficar tranqüilo um minuto",
irrita-se o supervisor do Flamengo, Domingos Bosco.
É
verdade. Tome-se ao acaso qualquer dia na vida de Zico e se
terá uma prova para os nervos de um mortal comum. Dia
de jogo do Flamengo em Fortaleza, no Ceará, por exemplo.
No restaurante em que ele almoça no Hotel Praiano,
o garçom larga na mesa o filé do maior jogador
do Brasil, saca do bolso uma câmara e põe-se
a fotografar o craque. Nos 15 minutos em que se aventura a
chegar perto da piscina, não consegue parar: dá
autógrafos em bolas, raquetes de tênis, cartões-postais.
Segura criancinhas para fotografias, abraça fãs
que nunca viu, é sucessivamente beijado.
Na
sede do Flamengo no Rio, na Gávea, é pior ainda.
Num dia normal, como antes da recente partida contra o Atlético
Mineiro, Zico pode bem demorar 40 minutos entre o final do
treino e o momento em que, enfim, exausto, pode entrar no
banho. No percurso, entrevistas a cinco emissoras de rádio,
a três jornalistas italianos e a dois árabes
que mal falam português, uma ida até as arquibancadas
para conversar com crianças excepcionais trazidas por
uma professora, uma pausa para receber sua imagem entalhada
em madeira por um fã adolescente - e, claro, incontáveis
autógrafos.
SUCESSO
NO TEATRINHO - "As pessoas às vezes abusam,
mas ele dificilmente perde a paciência", diz Sandra
de Sá Coimbra, 26 anos, a mulher de Zico. "Eu
é que às vezes perco", arremata, lembrando
casos em que Zico mal pôde permanecer numa boate ou
teve o braço confiscado por algum fã num restaurante
no momento exato de levar o garfo à boca. "Faz
parte de minha vida", diz Zico, resignado. "Essas
pessoas só me vêem de longe nos estádios,
gostam de mim. Eu não me escondo, não."
Maria José, a "Zezé", 38 anos, irmã
mais velha de Zico, psicóloga com consultório
em Copacabana e professora na Universidade Gama Filho, acha
que Zico "tem muito equilíbrio para conviver com
essa glória e ser um homem feliz". Pragmático,
o próprio Zico explica sua técnica para sobreviver
quando está em trânsito por algum lugar público:
"Você não pode é parar. Se parar,
aglomera". Nas férias com Sandra e os filhos Arthur
Júnior, de 4 anos, e Bruno, de 3, o recurso é
ir para o exterior. "No Brasil, não tem mais lugar
nenhum em que eu passe despercebido", diz ele com simplicidade.
O
caminho de Zico para a glória, desde que era o pequeno
craque "Caroço" (apelido resultante de um
quisto próximo a seu olho esquerdo, já eliminado)
das peladas em Quintino Bocaiúva, um subúrbio
a 45 minutos de ônibus do centro do Rio, entre Cascadura
e Piedade, na zona norte, já entrou para a legenda
do futebol brasileiro. O alfaiate José Antunes Coimbra
- "seu" Antunes, o pai, hoje com 81 anos - fora
goleiro na juventude, depois que emigrou de Portugal, mas
mesmo assim se opusera a que os filhos, todos flamenguistas
roxos como ele, jogassem futebol profissionalmente.
Segundo
a mãe, dona Matilde, o filho caçula era um menino
bem-comportado, que não dava trabalho. "Ele gostava
muito de cantar e de participar do teatrinho da escola",
lembra-se sua primeira professora no Grupo Escolar Rocha Pombo,
dona Neide Almeida Sampaio. "Uma vez ele foi o caçador
na encenação do 'Chapeuzinho Vermelho' e se
saiu muito bem." Acima de tudo, ele gostava de futebol.
Um garoto que antes dos 10 anos encantava Quintino nas peladas
de rua, Zico, porém, obedecia ao pai - e foi preciso
que o irmão José Carlos, o "Zeca",
hoje um economista de 37 anos, mais conhecido por Antunes,
abrisse caminho para uma breve carreira no Fluminense para
que os irmãos pudessem segui-lo.
MAMADEIRA
E SERIEDADE - Fernando, o "Nando", formado em
Comunicações, 36 anos, acabou jogando no Madureira
e no Futebol Clube do Porto, de Portugal. Eduardo, o "Edu",
hoje com 35 anos, concluindo o curso de Educação
Física, treinador dos juvenis do América Carioca
e instrutor da Funabem no Rio, foi uma sensação
no América, jogou no Vasco e no Flamengo, esteve entre
os quarenta selecionados para a Copa do México e encerrou
sua carreira no mês passado pelo Campo Grande, no Rio.
Dos cinco homens - Zezé, a psicóloga, é
a única mulher -, apenas Antônio, o "Tonico",
36 anos, formado em Administração e funcionário
do Detran, não foi jogador profissional.
A
história do Zico craque começou com o radialista
Celso Garcia, da Rádio Tupi, vizinho de bairro dos
Antunes, sendo chamado para ver o garoto em ação
no futebol de salão do Clube River, em Piedade. O Santos,
time de Zico, então com 14 anos, ganhou de 22 a 2,
e aquele franzino atacante fez catorze gols. "Fiquei
impressionado, com a certeza de que tinha descoberto um craque
excepcional", diz Garcia, hoje conselheiro o Flamengo.
Garcia
levou Zico para treinar na Gávea e espantou o treinador
dos juvenis, Modesto Bria, com o físico mirrado do
garoto: 1,55 metro e 37 quilos. "Isso aqui é coisa
muito séria, Celso", reclamou Bria. "Esse
menino precisa é de mamadeira." Mas Zico agradou
em cheio no primeiro treino - e daí para a frente ninguém
o segurou, nem a má vontade de técnicos sem
visão. Joubert não o deixava treinar, já
crescido, com os profissionais. Zagalo, mais tarde, nunca
lhe deu uma chance no time principal. E Antoninho conseguiu
excluí-lo dos convocados para a Olimpíada de
Munique, em 1974, mesmo sendo o Flamengo campeão estadual
e Zico, ainda um aspirante o artilheiro do time.
GOSTOS
SIMPLES - Um intenso programa de condicionamento físico
transformaria Zico completamente. Dividido em três fases
- uma completa revisão médica, tratamento à
base de anabolizantes hormonais para estimular o crescimento
combinado com superalimentação e treinamentos
físicos especiais -, o programa fez Zico ganhar 17
centímetros e 13 quilos de 1969 a 1974. Valeu. Zico
não se importa de ser chamado de craque de laboratório.
"O futebol eu sempre tive, ninguém me ensinou",
diz. Embora poucos notem, ele acabou ficando 2 centímetros
mais alto que Pelé, e hoje tem 66 quilos.
O
maior jogador do Brasil é um homem de gostos simples.
Seu prato preferido é filé com fritas, arroz
e feijão. Quando freqüenta seus restaurantes prediletos
no Rio, o Castelo da Lagoa, o Antiquarius e o Mário's,
costuma pedir frutos do mar. Gosta de cerveja gelada e de
vinho rosê, embora só beba socialmente, e odeia
gravata. Passa a maior parte do tempo com roupa esporte, e
usa muito - por força de um contrato de publicidade
- os artigos da marca Le Coq Sportif.
Zico
dispensa os penduricalhos que normalmente enfeitam os jogadores
de futebol: junto com o relógio, usa uma pequena pulseira
de ouro, presente de Sandra. E, no pescoço, uma medalha
também de ouro mostrando dois peixinhos nadando entrelaçados
- referência a seu signo e presente que ganhou no Dia
dos Pais do ano passado. No lazer, o vôlei de praia
de outrora tomou-se impraticável. Seu grande passatempo,
hoje, é a aparelhagem de vídeo-cassete instalada
num painel de mais de 2 metros em sua sala. Ali, Zico tem
quase todos os gols que marcou e uma enorme coleção
de filmes e musicais. Confessa-se "amarrado" em
samba e conhece de cor os sambas-enredos das principais escolas
do Rio. Vai pouco a cinema - prefere ver em casa - e muito
a teatro.
PLANOS
ABANDONADOS - É um homem de família. Costuma
beijar não só mãe e a irmã, mas
também o pai, os tios e os irmãos homens. Sabe
de memória as datas de aniversário de todos
os parentes e amigos mais próximos, e não deixa
passá-las sem um presente. Gosta de trabalhar com os
que lhe são próximos: seu procurador, João
Batista de Almeida, é irmão de dona Neide, a
primeira professora, e o irmão Antunes ajuda a administrar
seus negócios. Longe do público, é brincalhão
e considerado pelos companheiros de time "um grande gozador".
"Pintou um lance, ele encarna", diz o lateral Leandro,
do Flamengo. Seu círculo de amizades é elástico.
No mundo do futebol, os mais próximos são Cláudio
Adão, do Vasco, e sua mulher, Paula, o goleiro reserva
do Flamengo, Cantarele, e o lateral Júnior. Mas nele
figuram também o cantor Fagner, o comediante Chico
Anysio e os atores Carlos Eduardo Dollabela, Pepita Rodrigues
e Fábio Júnior.
Casado
há sete anos com Sandra, primeira namorada e irmã
mais nova de Suely, mulher de Edu, declara-se até hoje
apaixonado pela "mulher, irmã, amiga e amante".
"Nunca tivemos uma crise ou briga séria",
garante Sandra, que o chama de "Filho". Para os
colegas de Flamengo é "Galo" - uma alusão
ao apelido "Galinho de Quintino" com o qual foi
batizado pelo locutor Waldir Amaral. Sandra vai com freqüência
ao Maracanã para assistir aos jogos de Zico, e tem
viajado ao exterior durante as excursões do Flamengo,
para ficar próxima do marido. Sandra vai à Copa
da Espanha, e Zico aplaude a idéia.
O
futebol obrigou o supercraque a arquivar alguns planos. Ele
gostaria de estudar piano, se tivesse tempo. Sandra, que passou
no vestibular de Comunicações da Gama Filho
em 1977 mas deixou os estudos quando ficou grávida
de Arthur Júnior, tateia algum horário para
que Zico estude inglês, como ela. Zico, que fez Contabilidade,
abandonou seu curso de Educação Física
na Faculdade Castello Branco em 1974, por falta de tempo.
ESPÍRITO
DE LIDERANÇA - Tempo também falta para Zico
exercer como gostaria suas funções de presidente
do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio de Janeiro.
"Vou lá quando dá", desculpa-se. Mas
faz o que pode. Atualmente, Zico empenha-se sobretudo pela
criação de uma entidade nacional de atletas
profissionais, pela destinação da renda de um
teste da Loteria Esportiva às entidades assistenciais
dos jogadores e por uma reformulação da lei
do passe, que "escraviza o jogador ao clube". "Ele
é um grande líder de nossa classe", diz
Zé Mário, substituído por Zico no cargo
quando se transferiu do Vasco para a Portuguesa, em São
Paulo.
"O
Zico tem um grande espírito de liderança",
afirma o advogado Antônio Augusto Dunshee de Abranches,
presidente do Flamengo, acostumado a receber o craque para
tratar das reivindicações dos jogadores. Foi
Zico quem exigiu que o vestiário fosse reformado, ou
que os jogadores tivessem participação nas rendas.
"Quando ele reivindica, é sempre para o grupo,
nunca só para ele", atesta o lateral Júnior.
É
claro que Zico sabe também defender seus próprios
interesses - mas, rumo aos 30 anos e próximo de disputar
a que provavelmente será sua última Copa do
Mundo, ele ainda não é exatamente um bilionário
do futebol. Obviamente, está muito longe de ser pobre.
Mora com família numa bela casa de três andares,
quatro suítes e piscina na Barra da Tijuca, no Rio,
servida por quatro empregados permanentes e dois eventuais.
Para comprá-la no ano passado, porém, teve que
vender seu primeiro apartamento, na Tijuca, porque lhe faltavam
os 7 milhões de cruzeiros da entrada. Além disso,
possui dois apartamentos, dois terrenos, uma casa de veraneio
em Praia Grande, no litoral fluminense, uma loja de artigos
esportivos - a Zico Esportes, na Tijuca - e três automóveis:
uma Caravan, um Passat Dacon e um Del Rey.
COTAS
ESPECIAIS - A condição de jogador mais bem
pago do futebol brasileiro - entre luvas e salários,
ele ganha hoje cerca de 3 milhões de cruzeiros mensais
estipulados por um contrato que vai até maio de 1983
- não permitiu que Zico juntasse um patrimônio
muito superior a 100 milhões de cruzeiros. A preços
de hoje, portanto, é menos que a quarta parte do primeiro
contrato assinado por Pelé com o Cosmos de Nova York,
em 1977. "Proporcionalmente ao que ele traz para o clube,
Zico é o jogador mais barato do Brasil", exagera
Michel Assef, assessor jurídico do Flamengo. A tendência,
porém, é a aceleração do ritmo
de sua caminhada para a riqueza: seu contrato atual prevê
cotas especiais por participação em jogos no
exterior, e o sistema de prêmios do Flamengo, com participação
dos jogadores na renda e nos direitos de televisamento, permite,
nas boas fases do Flamengo, que Zico receba pelo menos 1,5
milhão adicional por mês.
Acima
de tudo Zico está agora entrando de rijo no terreno
em que realmente uma celebridade esportiva hoje ganha dinheiro:
os contratos de publicidade. "Quando terminarem esses
contratos, ele será um homem rico", assegura George
Helal, vice-presidente do Flamengo, velho amigo do jogador
e seu sócio na firma Zico Participações
e Empreendimentos Ltda. A empresa comercializará, no
futuro, a marca "Zico", já patenteada, como
fez Pelé. Hoje, cuida dos negócios publicitários
de Zico, que tem contratos com a Coca-Cola, Le Coq Sportif,
Wella (xampus), Calcigenol (fortificante), Losango (turismo)
e Estrela (brinquedos). Quanto Zico está ganhando com
tudo isso? "Bem...", desconversa o jogador, com
um sorriso reticente.
Ele
se torna bem mais loquaz ao falar de futebol - e é
modesto ao analisar suas qualidades. Acredita sinceramente
que seu irmão Edu o "superava longe em termos
de qualidade técnica". Talvez se trate de um tique
familiar: o pai, "seu Antunes", jura que o melhor
entre os filhos era Antunes. Considera-se um bom jogador,
embora admita que precisa apefeiçoar o chute de esquerda
com bola parada e não se veja como um marcador eficiente.
Suas jogadas preferidas são partir do meio de campo
com a bola dominada, em arrancada fulminante rumo ao gol -
cada vez mais difícil, hoje em dia -, e chutar de primeira,
quando consegue, uma bola cruzada da linha de fundo. Acha
que sua principal característica é a rapidez
dentro da área: "Procuro não enfeitar -
quero jogar a bola dentro do gol, pegar o goleiro no contrapé".
O
POVO SABE - Quanto à Copa, Zico entende que Telê
está no caminho certo, que não há "casos
claros de injustiçados" e que "é preciso
respeitar o fato de que certos técnicos trabalham melhor
com certos tipos de jogador". Baseado sobretudo na divisão
de chaves, ele aponta Alemanha e Espanha como grandes forças
que poderão cruzar o caminho do Brasil. Entre os jogadores
estrangeiros, acha que brilharão sobretudo o argentino
Maradona, os alemães Breitner, Runimenigge e Hansi
Müller, e o inglês Keegan. Do Brasil, omitindo-se
da lista, ele aponta como os melhores Sócrates, Júnior,
Leandro, Cerezo e Luizinho.
Zico
também não se acanha em selecionar nomes em
política. Nessa área, é ecumênico.
O senador Tancredo Neves, ex-PP, agora PMDB, é "um
cara de cabeça muito legal". Sandra Cavalcanti,
candidata do PTB ao governo do Rio, que conhece pessoalmente,
"é uma cabeça poderosa". Seu rival
do ex-PP e agora do PMDB, Miro Teixeira, amigo pessoal de
Zico, representa "sangue novo". Ele apóia
o projeto de abertura do presidente Figueiredo - e publicou
um artigo no jornal Hora do Povo, do MR8. "Não
vejo problema algum nisso", diz Zico, que no entanto
esclarece não se tratar de coluna fixa, como o jornal
deu a entender. "Eu estava falando dos problemas do jogador
de futebol."
Zico
não está satisfeito com o estado da economia.
"Então vou ser a favor dessa inflação
terrível que aí está comendo tudo?",
pergunta. "Vou dizer que a situação econômica
é boa? Claro que não é", diz, apontando
como uma das causas a "má administração".
Zico acha que o brasileiro está plenamente preparado
para votar. Espera que haja logo eleições diretas
para a Presidência - "Temos que chegar lá"
- e não aprovou a vinculação de votos
estabelecida pelo pacote de novembro: "Deve haver liberdade
de escolha". Pretende votar em seu amigo Márcio
Braga, ex-presidente do Flamengo, para deputado federal. Com
a incorporação, produto direto dos casuísmos
eleitorais do governo, se Márcio, ex-PP, mantiver sua
candidatura, Zico, portanto, vai acabar votando no PMDB nas
eleições de novembro.
Mas
Zico lembra que "política não é
meu setor", e acha que as pessoas célebres, no
Brasil, são patrulhadas caso não se pronunciem
"sobre tudo". Sua vida está centrada mesmo
é no futebol. Segundo o craque, para o Brasil estrear
em pleno estilo na Espanha, "só falta o pessoal
poder ficar com a cabeça voltada para a Copa".
A dele já está - e, no auge da forma, Zico poderá
voltar da Espanha como o maior jogador do mundo.
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