17
de julho de 1971
Edson,
Dico, Pelé, Edson
Edson
Arantes do Nascimento, de trinta anos, negro, casado (dois
filhos), muito rico, tem problemas que nem o gênio de
um Pelé poderia resolver.
Pelé
desde menino, graças a ele Edson conseguiu tudo o que
tem e foi tudo o que queria ser: o maior ídolo popular
de seu país, o mais famoso atleta de sua geração
em todo o mundo. Era esse o tamanho da ambição
do garoto magricela, de orelhas de abano e joelhos salientes
que um dia saiu de Bauru levando consigo a imagem do pai,
craque frustrado, e as orações da família,
que via nele um predestinado.
Ainda
adolescente, a glória fez de Edson o seu filho mais
mimado; ele é o primeiro a reconhecer que a fama o
acostumou mal: não sabe mais viver sem ela. Mas, ao
abandonar a seleção brasileira, como primeiro
passo para deixar o futebol, está também fazendo
a sua declaração de independência, pelo
menos parcial, em relação a essa mãe
generosa, sempre possessiva, cruel às vezes.
A
libertação não é fácil
nem simples. Além das pressões que vêm
de fora - e em algumas descobre, indignado, os primeiros sinais
da ingratidão - existem as suas próprias dúvidas
e incertezas. "Como vai ser no dia em que eu deixar de
ser Pelé?" - ele conta que tem feito a pergunta
a si próprio, na rua, no campo, nos vestiários,
em dias de vitória ou derrota. É uma preocupação
que seria exagero chamar de angústia; de qualquer forma,
é responsável pela inquietadora sensação
de insegurança que às vezes toma conta de Edson.
"Sei
que sou forte, mas tudo vai mudar muito. São quinze
anos dentro de um campo de futebol, é bem duro passar
a viver de outra maneira. Por isso, desde agora me preparo
para o futuro." Não será possível
deixar de repente os limites de cal desenhados sobre a grama.
Pelé o fará aos poucos: primeiro, a seleção.
Depois, o Santos.
UM
AMOR DE INFÂNCIA - Foi uma longa convivência com
a vitória. Aos quinze anos, no meio da noite, acordava
seus colegas de pensão com um berro: "GOOOOOOL!"
E saía correndo e pulando, até ser acordado
pelo companheiro de quarto, o ponta-direita Dorval: "Aí
ele ficava sentado na cama a noite inteira, contando o seu
sonho - estádios cheios de gente aplaudindo suas jogadas
maravilhosas".
Desde
os tempos de Bauru - antes das grandes torcidas e dos gols
incomparáveis - a bola sempre foi essencial para a
vida do menino Edson, o Dico da família Nascimento.
Por amor à bola transformava em traves a marmita que
deveria levar ao pai Dondinho. Às vezes entregava à
mãe Celeste, cheio de formigas, o bolo que fora comprar
na padaria e deixara esquecido no chão, ao lado de
um campinho de futebol. E, por causa da bola, pelo menos um
dia por semana alguém da família encontrava,
na caixa de descarga do banheiro, o calção e
a camisa sujos - ingênua tentativa de esconder as provas
incriminadoras de um dia longe da escola.
"Ele
era muito educado", lembra-se ainda Olga Muniz Pimentel,
professora de Pelé no terceiro ano primário
do Quinto Grupo Escolar, em Bauru (hoje, Grupo Escolar Irmã
Erminda). "Mas, se a gente se descuidasse e o deixasse
falar, o assunto era futebol. Na segunda-feira, eu até
deixava a classe conversar uns dez minutos, antes de começar
a aula, senão ninguém agüentava - domingo
ele tinha jogado."
Queria
ser um craque, ver o nome e as fotos nos jornais. "Era
a sua maior ambição", diz Jair Rosa Pinto,
antigo meia-armador da seleção, que viu Pelé
começar no Santos, em 1957 - "um crioulinho inibido
e inseguro".
A
MANIA DA PERFEIÇÃO - Mais do que ambição
de menino pobre, ser ídolo era, para Pelé, uma
predestinação. "Acho que o Dico veio com
essa missão", explica sua mãe. Criado em
família humilde, fortemente marcada pelo fervor religioso
- todas as semanas rezava-se o terço na casa de Bauru
-, não foi difícil a Edson acreditar-se um instrumento
divino para compensar o insucesso do pai. Dondinho, heróico
e valoroso a seus olhos, parece-lhe injustiçado pela
falta de reconhecimento e a fatalidade de um defeito no joelho,
observa o psicólogo Athayde Ribeiro da Silva, no livro
"Futebol e Psicologia". E afirma, ainda sobre Pelé:
"Desde a infância, um obsessivo, um superexigente
consigo mesmo, em busca permanente da perfeição;
um insatisfeito quando não estava em primeiro lugar".
Exatamente
como conta Sérgio Gonçalves Carvalho, na infância
o médio-volante Paçoca, do clube infantil do
BAC (Bauru Atlético Clube), onde jogava aquele meia-direita,
às vezes centroavante, raramente meia-esquerda, que
"ficava louco quando o time estava perdendo. Começava
a gritar, empurrar, xingar todo mundo. Podia ser o treininho
mais sem importância, mas ele queria sempre ganhar".
Uma
obsessão que se estendia às partidas de futebol
de botão: as comemorações dos gols de
Zoca, imitando o ruído da torcida e correndo em volta
da mesa, braços erguidos, eram invariavelmente punidas
com uma surra pelo irmão inconformado.
Derrotado,
fica-lhe sempre a impressão de não ter lutado
o suficiente. Sua atitude é perfeccionista: "Se
não for possível fazer bem uma coisa, é
melhor parar".
Por
isso, depois de algumas tentativas, desistiu de ser cantor
e compositor. "Ele não se deslumbrou com a gravação
de sua música", afirma Roberto Menescal, responsável
pela produção do compacto simples "Tabelinha",
com Elis Regina e Pelé, autor das músicas. "Nem
permitiu promoção em torno de seu nome como
compositor."
No
próprio disco, como parte da gravação,
Pelé desculpa-se: "Não dá para eu
cantar, Elis. Eu não tenho voz para cantar". No
entanto, continua a compor - "por necessidade de criação",
diz Menescal. Só que agora suas músicas têm
um público bem menor e infinitamente mais compreensivo:
a família.
FUGIR
NO RISCO - Além das canções, inspiradas
mas despretensiosas, Pelé quer dar um pouco mais para
a família: seu tempo, que ele dedicou sempre ao futebol.
"Em cinco anos de casados, passamos juntos apenas um
ano, três meses e alguns dias", conta sua esposa,
Rosemeri. Ela sabe, porém, que não deve manter
muitas esperanças de ver o marido em casa com mais
freqüência do que antes. Pelé precisa encontrar
agora alguma outra forma de se manter em evidência,
sem ser através do futebol: "Ele parece não
acreditar que quem chegou até onde ele chegou pode
parar com tudo que será sempre lembrado".
Talvez
não seja bem assim. "Se eu tivesse deixado o futebol
em 1966, depois da derrota em Londres, alguém correria
atrás de mim, pedindo-me para continuar?" - pergunta
Pelé, duvidando do amor eterno da torcida. E se, em
1970, o Brasil não ganhasse a Copa?
No México, Edson jogou todo o seu prestígio
- o passado e o futuro de Pelé - num esforço
quase desesperado. "Pelé está com problemas
na vista", afirmara João Saldanha, técnico
da seleção antes da Copa do Mundo. O apressado
diagnóstico marcou profundamente o jogador: "Tudo
o que fiz, todo o meu sacrifício, foi esquecido de
repente".
Ele
precisava ganhar a Copa e, de certa forma, foi o seu exemplo
de dedicação e humildade na fase da preparação
do selecionado que influiu na seriedade com que os jogadores
mais novos chegaram ao México.
Mas
não lhe bastava ganhar. Era preciso continuar buscando
a perfeição para agradar ao público,
e criar sempre, como um artista de talento inesgotável.
Por isso, além de tudo o que fez, tentou marcar um
gol do meio do campo no goleiro Viktor, da Checoslováquia.
Um tipo de gol famoso por não ter acontecido: é
o único que Pelé confessa jamais ter conseguido
marcar.
Ele
sabia que, se a seleção perdesse, os adoradores
talvez abandonassem o ídolo. Com o tricampeonato, Edson
não deixou de ser Pelé e, agora, não
quer correr o risco novamente: "Quem me garante que amanhã
não surgirão novas críticas, novas acusações?
Não, não vale a pena".
O
tricampeonato é o alto da montanha - dali, todos os
caminhos levam para baixo. Edson prefere que se lembrem dele
apenas como o homem que conquistou a montanha.
Mas,
acostumado à glória, ele constata a dificuldade
de deixá-la para trás. Conhece a experiência
de companheiros que foram famosos: "O Zito e o Pepe,
não eram ídolos no Santos? Hoje ninguém
fala mais neles. Os dois também sentem falta do amor
da torcida. Eu vou sentir mais ainda, e por isso procuro uma
outra motivação, para me ajudar nessa fase".
Essa
motivação ele parece estar encontrando no cinema.
É a sua segunda tentativa de sobreviver como ator,
junto ao público. Em 1969 participou de uma novela
no antigo Canal 9, de São Paulo. Na época, Pelé
não convenceu como intérprete. E nem recebeu
tudo o que fora combinado: a empresa faliu.
A
CONSCIÊNCIA DA RAÇA - "Leilão que
eu gostaria de arrematar é esse: trezentos escravos,
com a fazenda toda, a menos de 30 quilômetros daqui."
Chico Bondade fala comovido, os olhos fixos nos homens que
negociam os negros. "Corta!" - grita Oswaldo Sampaio,
diretor do filme "A Marcha", rodado em Bragança
Paulista, interior de São Paulo. "Saiu ótimo.
Perfeito."
Chico
Bondade tira o casaco marrom, senta-se numa cadeira de palhinha,
cabeça baixa, chapéu na mão. É
de novo Edson Arantes do Nascimento: "Sabe que fiz esta
cena com muita vontade? Parecia que eu estava vivendo naquela
época. Já pensou a alegria da gente em poder
libertar de uma só vez um monte de escravos, que sofria
sem ter nenhuma esperança?"
Ídolo
desde os dezessete anos, quando foi campeão do mundo,
na Suécia, Edson jamais viveu problema algum por ser
negro. Muitas vezes perguntaram-lhe se já participara
de algum movimento contra o racismo.
"Eu
fico sem jeito de responder. Mas a verdade é que nunca
senti nada que pudesse me motivar a tomar qualquer medida
em defesa da cor. As figuras mais importantes dos países
onde estive sempre me trataram com carinho e respeito. Sendo
assim, como é que eu ia reclamar de alguma coisa?"
Como
jogador e atração mundial, viveu alheio a essas
questões. Agora, através de Chico Bondade, está
descobrindo problemas insuspeitados. "Gosto do personagem.
Como Chico Bondade, sou gente, um outro sujeito. Um cara que
pode e deva lutar pelos outros. Sinto-me feliz fazendo isso."
"O
Pelé é um sujeito impressionante", afirma
o ator Paulo Goulart, que participa do filme. "Durante
uma cena em que um escravo é surrado e aparecem outros
negros acorrentados, a gente vê no rosto dele uma revolta
indescritível - como se aquilo estivesse acontecendo
de verdade. Tenho notado que realidades antigas o chocam.
Às vezes a filmagem acabou faz algum tempo, mas ele
ainda parece magoado." Segundo Oldemário Toguinhó,
jornalista e amigo pessoal do jogador, Pelé está
tomando contato com situações que jamais teve
tempo para sentir: "Agora, com mais tempo dedicado ao
Edson, ele passou a se interessar por muitas coisas além
do futebol". Na última excursão do Santos,
aos Estados Unidos e Canadá, Pelé levou dois
livros sobre a questão da escravatura no Brasil para
ler na viagem, e entender melhor as preocupações
do personagem.
"No
'Rei Pelé' era tudo igual ao que fazia no Santos. Agora
é diferente: sinto meu papel, sofro os problemas de
Chico Bondade. Olho os escravos nos campos ou acorrentados
e tudo parece ser verdade: sinto-me na obrigação
de lutar por eles."
AS
RAZÕES PRÁTICAS - Apesar de todo o seu atual
entusiasmo pelo cinema, Pelé sabe que será um
pobre substituto para o futebol: "Não há
nada igual ao futebol. Estádio cheio, enfeitado por
milhares de bandeiras. A bola, branquinha, em nossa frente.
Um chute certo. Gol. A festa começa ali no campo, continua
nas arquibancadas. Todos vibram juntos. Quando eu corro e
comemoro, olho para a torcida. Estamos na mesma alegria. Não
há nada comparável a esse momento.
"No
cinema, a gente só sente a reação de
uma vitória ou de uma boa interpretação
horas ou dias depois. Jamais esquecerei dos domingos de futebol.
São parte de mim. Lá em casa guardo fotos e
filmes para me lembrar deles."
Além
das razões emotivas, ser ator tem, para Pelé,
finalidades práticas. É uma maneira de manter
seu nome em evidência - e bons contratos sempre acompanham
a fama. É dela que depende a maior parte de sua renda.
"Quando
marcamos a gravação do disco", lembra Menescal,
"e a conversa entrou por um terreno em que poderia aparecer
dinheiro, o crioulo mudou de figura. Deixou as brincadeiras
e quis logo saber como era 'esse negócio de direitos
autorais'. Na hora da assinatura do contrato, leu item por
item. Ele é inteiramente profissional."
OS
CONTRATOS - Hoje, Pelé ganha mais como modelo ou anunciante
do que como jogador de futebol. "Seu salário mensal
no Santos chega a 45.000 cruzeiros. Além disso, ele
recebe uma cota fixa de 2.500 dólares (quase 13.000
cruzeiros) nos amistosos no exterior (no ano passado foram
vinte partidas) e de 3.000 a 5.000 cruzeiros no Brasil.
Como
diretor de relações públicas no Banco
de Campina Grande, onde trabalha algumas horas, às
sextas-feiras, ganha 6.000 cruzeiros mensais. Da Puma - firma
alemã de material esportivo, com grandes fábricas
também na França - recebe 15.000 cruzeiros mensais.
Da Ducal-Sparta, mais 5.000 cruzeiros mensais, além
de uma cota não revelada cada vez que é lançado
um artigo novo. As fotos em que aparece cercado de aparelhos
de TV Colorado RQ lhe dão 20.000 cruzeiros mensais.
Para dizer que usa pilhas Ray-O-Vac, mais 20.000 por mês.
Vários produtos da Atma usam o nome Pelé: 4.000
cruzeiros por mês. Até agora, o único
contrato que Pelé lamenta ter feito foi com a Dulcora:
500 cruzeiros mensais. "Naquela ocasião, eu não
sabia bem como fazer negócio e assinei por seis anos",
justifica-se.
Ele
não tem mais a mesma ingenuidade comercial. Para garantir
a imagem do ídolo, Pelé de novo chegou perto
da perfeição: contratou a empresa de publicidade
Walter J. Thompson, incumbindo-a de servir de intermediária
em negócios, estudar propostas de contrato de publicidade
(inclusive verificar as possibilidades financeiras dos contratantes)
e até responder cartas. Nos próximos dias a
Thompson fará os primeiros contatos para campanhas
publicitárias na África, um mercado promissor.
O
MENINO INGÊNUO - O homem que deixa a seleção
é muito diferente do menino de meias escorregando pelas
canelas finas que Waldemar de Brito, ex-craque de futebol
e ex-técnico do BAC, levou para o Santos em 1956. Está
mais maduro, experiente e, principalmente, mais calculista.
Herança maior que lhe deixou uma frustrada amizade:
a de José Ozores, Pepe Gordo, o procurador que o tirou
da pensão de dona Jô, ajudou-o a crescer e afinal
quase o leva à ruína.
"Cuide
dele como se fosse seu filho. Mas, se for preciso, use o cabo
da vassoura." Jorgina Rodrigues Teixeira repete hoje
a recomendação do técnico do Santos,
Luís Alonso Perez, o Lula, feita em agosto de 1956,
para provar que, desde aquela época, o clube se preocupava
até com a formação moral de Pelé.
Ela tinha uma pensão, para onde foram enviados vários
jogadores que o Santos não podia mais abrigar. "Um
menino humilde, calmo e educadinho, que não falava
muito e tinha medo de sair sozinho", lembra dona Jô,
olhando para o retrato de onde Pelé lhe sorri e diz
numa dedicatória: "À minha querida mãe,
uma recordação do filho que a estima, Edson
Arantes".
Jorgina
Rodrigues, uma paraense com 33 anos na época, era a
pessoa que se preocupava com o conforto dos jogadores e lhes
dava conselhos, geralmente obedecidos. Além disso,
programava festinhas nos fins de semana, fórmula eficiente
de vigiá-los. Para Edson, foram tempos felizes. A glória
chegava fácil, a vida na pensão corria alegre
e começavam as viagens. Sua única preocupação:
marcar gols, ser aplaudido.
"Na
pensão moravam alguns dos jogadores mais famosos do
Brasil", lembra dona Jô. "Todos solteiros
e, por isso, sempre procurados pelas moças."
Pelé
cultivava idéias bastante definidas sobre suas relações
com as fãs. "Ele sempre dizia que precisava ter
cuidado, muito novo não queria pensar em casamento",
conta Dorval. "Mas tinha sempre um sorriso para elas."
Gostar
de meninas era um velho costume de Edson. "No carnaval,
ele costumava fantasiar-se de mulher para enganar as garotas
e roubar beijos na praça de Bauru", diz, rindo,
o irmão Jair Arantes do Nascimento, o Zoca.
O
CASTIGO DO CRIOULO - Com os gols, a seleção,
a fama, chegou também o dinheiro. Inexperiente e sem
tempo para cuidar dos negócios que começavam
a aparecer, Pelé entregou-os nas mãos de Pepe
Gordo, um espanhol amigo do médio-volante José
Ely de Miranda, o Zito. Pepe era homem ativo, rápido
nas decisões, sempre por perto para resolver o que
fosse preciso. Além disso, tratava Pelé com
um carinho desconhecido para o menino que saíra de
casa com menos de quinze anos e fora morar numa cidade distante
e de vida diferente.
Em
pouco tempo, seduzido pela figura paternal e protetora de
Pepe Gordo, Pelé acabou deixando a pensão e
indo morar com a família do espanhol. Sua confiança
era total: "Dei a ele uma procuração que
não se dá nem para o pai". Pepe podia vender,
trocar, assinar cheques. Essa foi uma fase ruim na vida de
Pelé, que pouco pode aprender: Pepe Gordo fazia tudo.
Até nos vestiários, depois dos jogos, enquanto
Pelé se enxugava, o espanhol ficava agressivamente
à sua frente, afastando com violentos empurrões
todos os que queriam se aproximar do jogador.
José
Ozores tinha uma preocupação especial: reforçar
a imagem do mito. "Não foi difícil",
ele diz hoje. "Embora de pouca cultura, Pelé aprendia
com facilidade algumas regras básicas: não fazer
propaganda de bebidas ou cigarros; respeitar a pátria
e a bandeira; gostar de criancinhas e visitá-las sempre;
nunca tomar partido."
Com
uma força irresistível, porém, o ídolo
Pelé continuava crescendo e acabou ficando grande demais
para Pepe. Na segunda-feira de carnaval, em 1966, contrariando
objeções iniciais de Pepe Gordo, Pelé
- que já morava com os pais em Santos - se casou com
Rosemeri Cholbi, filha de um estivador aposentado moça
de forte personalidade sob uma aparência enganosamente
frágil. Longe do jogador, combatido pelos pais e a
esposa de Pelé, derrotado ainda mais pelos maus negócios,
Pepe acabou perdendo irremediavelmente a luta pelo domínio
do protegido. Por má administração, a
Sanitária Santista, a mais importante firma de Pelé
e Pepe Gordo, teve um prejuízo de 300 mil cruzeiros.
"Ele reconheceu que não agi com desonestidade.
Mas nunca me procurou para ajudar, mesmo sabendo que eu tinha
perdido tudo", queixa-se Pepe Gordo. Ele guarda ainda
um retrato a crayon de Pelé. Só que, agora,
o quadro está voltado para a parede. Explicação
do espanhol: "O crioulo está de castigo. E vai
ficar aí, até aprender".
AMIGOS
E AMIGOS - Mais do que 300 mil cruzeiros de prejuízo,
Pepe Gordo representou para Pelé a súbita proximidade
com um destino de que fugia desde o começo. De moço,
rico, famoso, temeu se transformar num dos velhos exemplos
de jogador fracassado. Seu medo era quebrar uma perna, sofrer
um acidente qualquer que o impedisse de continuar jogando
futebol para pagar as dívidas e se reerguer.
E
Pelé descobriu que também fora dos campos tinha
de planejar suas jogadas: "Quando a gente é mordido,
fica vacinado. Comecei a tomar cuidado com empresários;
apareciam muitos, querendo tomar conta de tudo, me orientar".
Pelé,
Administração de Imóveis e Promoções
Ltda., uma empresa que está sendo criada e onde ele
mesmo tomará as decisões, será, paradoxalmente,
o primeiro passo para Pelé ser Edson Arantes do Nascimento,
um homem independente. Antes, sua vida esteve sempre presa
a alguém. "O jogador tem isso de ruim", explica
ele. "Nos clubes há sempre alguém para
cuidar de tudo, da roupa à saúde. Falta tempo
para tomar iniciativas."
A
sua independência continua não sendo total, mas
isso agora, pelo menos, é mais compreensível.
A maioria de suas decisões, hoje Pelé as toma
numa conversa de travesseiro com Rose. "Ela me ajudou
bastante, nesta fase em que procuro me libertar do Pelé",
afirma Edson. "Chega até a servir de secretária,
batendo os ofícios e contratos." Assim Rose tem
a melhor garantia de que o marido não está sendo
enganado. E é também a fórmula que ela
encontrou para se sentir mais perto de Pelé.
O
POUCO TEMPO - "Bem que ele podia reservar uma hora por
semana para rever os velhos amigos", queixa-se Dalmo
Gaspar, antigo companheiro de Pelé. De certa forma,
é a mesma reclamação de todos os que
se sentem abandonados pelo velho amigo. Dependuradas nas paredes
de seu apartamento, Coutinho guarda ainda as fotografias de
Pelé: "Só sei onde ele mora por informações
dos outros".
Oldemário
Toguinhó afirma que o problema é exatamente
este: tempo. Durante seis dias ele acompanhou Pelé.
E anotou esta absurda semana:
"Domingo:
jogo contra o Guarani, em Campinas (a 172 quilômetros
de Santos), pelo campeonato paulista. Após o jogo,
viagem para Bragança Paulista, a 69 quilômetros.
"Segunda-feira:
7 horas, início das filmagens. Várias trocas
de roupa. Pelé anda a cavalo cerca de 2 quilômetros.
Fica filmando até 14 horas. Almoço às
14h10. 15h10, novamente a cavalo. Filmagem até 17h30.
18 horas, sanduíches e maquiagem. 22 horas, ensaio.
2 da madrugada, tomada das primeiras cenas. 8 horas, fim das
filmagens.
"Terça-feira:
10 horas, vários representantes da TV Colorado RQ preparam
um salão, na casa onde Pelé dorme, arrastando
oito aparelhos de televisão para todos os lados. 13
horas, Pelé, mal toma café, começa a
fotografar para publicidade. Termina às 4 da tarde.
4 e meia, viagem de Volkswagen para São Paulo, onde
encontra com Rose às 19 horas. Viagem para Santos,
jantar com amigos e convidados. Vai dormir às 2 da
madrugada.
"Quarta
e quinta-feiras: 8 horas, segue para o Rio; o vôo atrasa
e só chega às 13 horas. 14 horas, almoço
no hotel. 15h15, campo do Flamengo. Milhares de crianças.
Troca de roupa e vai ser juiz na festa mundial da televisão.
Acaba o jogo e é entrevistado durante uma hora e meia.
Vai direto a um sítio tirar fotos para a Ducal, acaba
depois das 9 da noite. 22 horas, encontro com dirigentes do
Banco de Campina Grande. 23h30, jantar em restaurante. 3 horas
da madrugada, entra no hotel e, no apartamento em frente ao
seu quarto, duas câmaras de TV esperam uma entrevista
para a. Argentina. Sorrindo, Pelé fala em espanhol,
durante quase uma hora. Vai dormir às 4.
"Sexta-feira:
Segue para o aeroporto às 7 horas."
"Aí,
eu parei", diz Oldemário. "À tarde
o crioulo ainda ia treinar no Santos, para o jogo de domingo
contra o Corinthians. Eu não agüentava mais, fui
dormir."
Se
não o tivesse acompanhado todo o tempo, o jornalista
duvidaria desse ritmo de vida: Edson parecia sempre descansado,
atendendo a todos com o sorriso de quem tem a obsessiva necessidade
de ser querido.
INDISCIPLINA
DO ADEUS - Talvez por isso, Edson, na semana passada, reagiu
com violência à acusação de "indisciplina
esportiva" que uma misteriosa "fonte governamental"
distribuiu a alguns jornais. Enquanto jogador do Santos, dizia
a informação, Pelé era obrigado a atender
aos chamados da CBD, e por isso o governo não promoveria
qualquer homenagem oficial em sua despedida.
Para
ele, a notícia era o sinal do início da ingratidão
- o começo do esquecimento de quem disputara 1.034
partidas (108 pela seleção brasileira) e marcara
1.085 gols (94 com a camisa da CBD), conquistando trinta títulos
de campeão - oito para o Brasil. E, em Bragança
Paulista, o ator Edson abandonou por um momento o personagem
Chico Bondade para desabafar: "Se continuarem me pressionando
assim, largo agora o futebol profissional, de vez".
Vieram
explicações. Primeiro, tudo não passaria
de uma manobra de João Havelange, presidente da CBD,
preocupado em não perder a ajuda do cabo eleitoral
Pelé em suas tentativas de chegar à presidência
da FIFA. Depois, a versão oficial, do ministro Jarbas
Passarinho, da Educação: haveria a impressão
inicial de que Pelé deixaria a CBD e o Santos ao mesmo
tempo; como era só a seleção, as homenagens
do governo ficariam para a despedida definitiva.
Explicações
aceitas, o travo amargo ficou: mais uma vez, Edson sentiu
a presença das forças que sempre o impediram
de ser dono da própria vida - e como Pelé, marcador
implacável, estava destinado a persegui-lo até
o fim da partida.
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