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17 de julho de 1971
Edson, Dico, Pelé, Edson

Edson Arantes do Nascimento, de trinta anos, negro, casado (dois filhos), muito rico, tem problemas que nem o gênio de um Pelé poderia resolver.

Pelé desde menino, graças a ele Edson conseguiu tudo o que tem e foi tudo o que queria ser: o maior ídolo popular de seu país, o mais famoso atleta de sua geração em todo o mundo. Era esse o tamanho da ambição do garoto magricela, de orelhas de abano e joelhos salientes que um dia saiu de Bauru levando consigo a imagem do pai, craque frustrado, e as orações da família, que via nele um predestinado.

Ainda adolescente, a glória fez de Edson o seu filho mais mimado; ele é o primeiro a reconhecer que a fama o acostumou mal: não sabe mais viver sem ela. Mas, ao abandonar a seleção brasileira, como primeiro passo para deixar o futebol, está também fazendo a sua declaração de independência, pelo menos parcial, em relação a essa mãe generosa, sempre possessiva, cruel às vezes.

A libertação não é fácil nem simples. Além das pressões que vêm de fora - e em algumas descobre, indignado, os primeiros sinais da ingratidão - existem as suas próprias dúvidas e incertezas. "Como vai ser no dia em que eu deixar de ser Pelé?" - ele conta que tem feito a pergunta a si próprio, na rua, no campo, nos vestiários, em dias de vitória ou derrota. É uma preocupação que seria exagero chamar de angústia; de qualquer forma, é responsável pela inquietadora sensação de insegurança que às vezes toma conta de Edson.

"Sei que sou forte, mas tudo vai mudar muito. São quinze anos dentro de um campo de futebol, é bem duro passar a viver de outra maneira. Por isso, desde agora me preparo para o futuro." Não será possível deixar de repente os limites de cal desenhados sobre a grama. Pelé o fará aos poucos: primeiro, a seleção. Depois, o Santos.

UM AMOR DE INFÂNCIA - Foi uma longa convivência com a vitória. Aos quinze anos, no meio da noite, acordava seus colegas de pensão com um berro: "GOOOOOOL!" E saía correndo e pulando, até ser acordado pelo companheiro de quarto, o ponta-direita Dorval: "Aí ele ficava sentado na cama a noite inteira, contando o seu sonho - estádios cheios de gente aplaudindo suas jogadas maravilhosas".

Desde os tempos de Bauru - antes das grandes torcidas e dos gols incomparáveis - a bola sempre foi essencial para a vida do menino Edson, o Dico da família Nascimento. Por amor à bola transformava em traves a marmita que deveria levar ao pai Dondinho. Às vezes entregava à mãe Celeste, cheio de formigas, o bolo que fora comprar na padaria e deixara esquecido no chão, ao lado de um campinho de futebol. E, por causa da bola, pelo menos um dia por semana alguém da família encontrava, na caixa de descarga do banheiro, o calção e a camisa sujos - ingênua tentativa de esconder as provas incriminadoras de um dia longe da escola.

"Ele era muito educado", lembra-se ainda Olga Muniz Pimentel, professora de Pelé no terceiro ano primário do Quinto Grupo Escolar, em Bauru (hoje, Grupo Escolar Irmã Erminda). "Mas, se a gente se descuidasse e o deixasse falar, o assunto era futebol. Na segunda-feira, eu até deixava a classe conversar uns dez minutos, antes de começar a aula, senão ninguém agüentava - domingo ele tinha jogado."

Queria ser um craque, ver o nome e as fotos nos jornais. "Era a sua maior ambição", diz Jair Rosa Pinto, antigo meia-armador da seleção, que viu Pelé começar no Santos, em 1957 - "um crioulinho inibido e inseguro".

A MANIA DA PERFEIÇÃO - Mais do que ambição de menino pobre, ser ídolo era, para Pelé, uma predestinação. "Acho que o Dico veio com essa missão", explica sua mãe. Criado em família humilde, fortemente marcada pelo fervor religioso - todas as semanas rezava-se o terço na casa de Bauru -, não foi difícil a Edson acreditar-se um instrumento divino para compensar o insucesso do pai. Dondinho, heróico e valoroso a seus olhos, parece-lhe injustiçado pela falta de reconhecimento e a fatalidade de um defeito no joelho, observa o psicólogo Athayde Ribeiro da Silva, no livro "Futebol e Psicologia". E afirma, ainda sobre Pelé: "Desde a infância, um obsessivo, um superexigente consigo mesmo, em busca permanente da perfeição; um insatisfeito quando não estava em primeiro lugar".

Exatamente como conta Sérgio Gonçalves Carvalho, na infância o médio-volante Paçoca, do clube infantil do BAC (Bauru Atlético Clube), onde jogava aquele meia-direita, às vezes centroavante, raramente meia-esquerda, que "ficava louco quando o time estava perdendo. Começava a gritar, empurrar, xingar todo mundo. Podia ser o treininho mais sem importância, mas ele queria sempre ganhar".

Uma obsessão que se estendia às partidas de futebol de botão: as comemorações dos gols de Zoca, imitando o ruído da torcida e correndo em volta da mesa, braços erguidos, eram invariavelmente punidas com uma surra pelo irmão inconformado.

Derrotado, fica-lhe sempre a impressão de não ter lutado o suficiente. Sua atitude é perfeccionista: "Se não for possível fazer bem uma coisa, é melhor parar".

Por isso, depois de algumas tentativas, desistiu de ser cantor e compositor. "Ele não se deslumbrou com a gravação de sua música", afirma Roberto Menescal, responsável pela produção do compacto simples "Tabelinha", com Elis Regina e Pelé, autor das músicas. "Nem permitiu promoção em torno de seu nome como compositor."

No próprio disco, como parte da gravação, Pelé desculpa-se: "Não dá para eu cantar, Elis. Eu não tenho voz para cantar". No entanto, continua a compor - "por necessidade de criação", diz Menescal. Só que agora suas músicas têm um público bem menor e infinitamente mais compreensivo: a família.

FUGIR NO RISCO - Além das canções, inspiradas mas despretensiosas, Pelé quer dar um pouco mais para a família: seu tempo, que ele dedicou sempre ao futebol. "Em cinco anos de casados, passamos juntos apenas um ano, três meses e alguns dias", conta sua esposa, Rosemeri. Ela sabe, porém, que não deve manter muitas esperanças de ver o marido em casa com mais freqüência do que antes. Pelé precisa encontrar agora alguma outra forma de se manter em evidência, sem ser através do futebol: "Ele parece não acreditar que quem chegou até onde ele chegou pode parar com tudo que será sempre lembrado".

Talvez não seja bem assim. "Se eu tivesse deixado o futebol em 1966, depois da derrota em Londres, alguém correria atrás de mim, pedindo-me para continuar?" - pergunta Pelé, duvidando do amor eterno da torcida. E se, em 1970, o Brasil não ganhasse a Copa?


No México, Edson jogou todo o seu prestígio - o passado e o futuro de Pelé - num esforço quase desesperado. "Pelé está com problemas na vista", afirmara João Saldanha, técnico da seleção antes da Copa do Mundo. O apressado diagnóstico marcou profundamente o jogador: "Tudo o que fiz, todo o meu sacrifício, foi esquecido de repente".

Ele precisava ganhar a Copa e, de certa forma, foi o seu exemplo de dedicação e humildade na fase da preparação do selecionado que influiu na seriedade com que os jogadores mais novos chegaram ao México.

Mas não lhe bastava ganhar. Era preciso continuar buscando a perfeição para agradar ao público, e criar sempre, como um artista de talento inesgotável. Por isso, além de tudo o que fez, tentou marcar um gol do meio do campo no goleiro Viktor, da Checoslováquia. Um tipo de gol famoso por não ter acontecido: é o único que Pelé confessa jamais ter conseguido marcar.

Ele sabia que, se a seleção perdesse, os adoradores talvez abandonassem o ídolo. Com o tricampeonato, Edson não deixou de ser Pelé e, agora, não quer correr o risco novamente: "Quem me garante que amanhã não surgirão novas críticas, novas acusações? Não, não vale a pena".

O tricampeonato é o alto da montanha - dali, todos os caminhos levam para baixo. Edson prefere que se lembrem dele apenas como o homem que conquistou a montanha.

Mas, acostumado à glória, ele constata a dificuldade de deixá-la para trás. Conhece a experiência de companheiros que foram famosos: "O Zito e o Pepe, não eram ídolos no Santos? Hoje ninguém fala mais neles. Os dois também sentem falta do amor da torcida. Eu vou sentir mais ainda, e por isso procuro uma outra motivação, para me ajudar nessa fase".

Essa motivação ele parece estar encontrando no cinema. É a sua segunda tentativa de sobreviver como ator, junto ao público. Em 1969 participou de uma novela no antigo Canal 9, de São Paulo. Na época, Pelé não convenceu como intérprete. E nem recebeu tudo o que fora combinado: a empresa faliu.

A CONSCIÊNCIA DA RAÇA - "Leilão que eu gostaria de arrematar é esse: trezentos escravos, com a fazenda toda, a menos de 30 quilômetros daqui." Chico Bondade fala comovido, os olhos fixos nos homens que negociam os negros. "Corta!" - grita Oswaldo Sampaio, diretor do filme "A Marcha", rodado em Bragança Paulista, interior de São Paulo. "Saiu ótimo. Perfeito."

Chico Bondade tira o casaco marrom, senta-se numa cadeira de palhinha, cabeça baixa, chapéu na mão. É de novo Edson Arantes do Nascimento: "Sabe que fiz esta cena com muita vontade? Parecia que eu estava vivendo naquela época. Já pensou a alegria da gente em poder libertar de uma só vez um monte de escravos, que sofria sem ter nenhuma esperança?"

Ídolo desde os dezessete anos, quando foi campeão do mundo, na Suécia, Edson jamais viveu problema algum por ser negro. Muitas vezes perguntaram-lhe se já participara de algum movimento contra o racismo.

"Eu fico sem jeito de responder. Mas a verdade é que nunca senti nada que pudesse me motivar a tomar qualquer medida em defesa da cor. As figuras mais importantes dos países onde estive sempre me trataram com carinho e respeito. Sendo assim, como é que eu ia reclamar de alguma coisa?"

Como jogador e atração mundial, viveu alheio a essas questões. Agora, através de Chico Bondade, está descobrindo problemas insuspeitados. "Gosto do personagem. Como Chico Bondade, sou gente, um outro sujeito. Um cara que pode e deva lutar pelos outros. Sinto-me feliz fazendo isso."

"O Pelé é um sujeito impressionante", afirma o ator Paulo Goulart, que participa do filme. "Durante uma cena em que um escravo é surrado e aparecem outros negros acorrentados, a gente vê no rosto dele uma revolta indescritível - como se aquilo estivesse acontecendo de verdade. Tenho notado que realidades antigas o chocam. Às vezes a filmagem acabou faz algum tempo, mas ele ainda parece magoado." Segundo Oldemário Toguinhó, jornalista e amigo pessoal do jogador, Pelé está tomando contato com situações que jamais teve tempo para sentir: "Agora, com mais tempo dedicado ao Edson, ele passou a se interessar por muitas coisas além do futebol". Na última excursão do Santos, aos Estados Unidos e Canadá, Pelé levou dois livros sobre a questão da escravatura no Brasil para ler na viagem, e entender melhor as preocupações do personagem.

"No 'Rei Pelé' era tudo igual ao que fazia no Santos. Agora é diferente: sinto meu papel, sofro os problemas de Chico Bondade. Olho os escravos nos campos ou acorrentados e tudo parece ser verdade: sinto-me na obrigação de lutar por eles."

AS RAZÕES PRÁTICAS - Apesar de todo o seu atual entusiasmo pelo cinema, Pelé sabe que será um pobre substituto para o futebol: "Não há nada igual ao futebol. Estádio cheio, enfeitado por milhares de bandeiras. A bola, branquinha, em nossa frente. Um chute certo. Gol. A festa começa ali no campo, continua nas arquibancadas. Todos vibram juntos. Quando eu corro e comemoro, olho para a torcida. Estamos na mesma alegria. Não há nada comparável a esse momento.

"No cinema, a gente só sente a reação de uma vitória ou de uma boa interpretação horas ou dias depois. Jamais esquecerei dos domingos de futebol. São parte de mim. Lá em casa guardo fotos e filmes para me lembrar deles."

Além das razões emotivas, ser ator tem, para Pelé, finalidades práticas. É uma maneira de manter seu nome em evidência - e bons contratos sempre acompanham a fama. É dela que depende a maior parte de sua renda.

"Quando marcamos a gravação do disco", lembra Menescal, "e a conversa entrou por um terreno em que poderia aparecer dinheiro, o crioulo mudou de figura. Deixou as brincadeiras e quis logo saber como era 'esse negócio de direitos autorais'. Na hora da assinatura do contrato, leu item por item. Ele é inteiramente profissional."

OS CONTRATOS - Hoje, Pelé ganha mais como modelo ou anunciante do que como jogador de futebol. "Seu salário mensal no Santos chega a 45.000 cruzeiros. Além disso, ele recebe uma cota fixa de 2.500 dólares (quase 13.000 cruzeiros) nos amistosos no exterior (no ano passado foram vinte partidas) e de 3.000 a 5.000 cruzeiros no Brasil.

Como diretor de relações públicas no Banco de Campina Grande, onde trabalha algumas horas, às sextas-feiras, ganha 6.000 cruzeiros mensais. Da Puma - firma alemã de material esportivo, com grandes fábricas também na França - recebe 15.000 cruzeiros mensais. Da Ducal-Sparta, mais 5.000 cruzeiros mensais, além de uma cota não revelada cada vez que é lançado um artigo novo. As fotos em que aparece cercado de aparelhos de TV Colorado RQ lhe dão 20.000 cruzeiros mensais. Para dizer que usa pilhas Ray-O-Vac, mais 20.000 por mês. Vários produtos da Atma usam o nome Pelé: 4.000 cruzeiros por mês. Até agora, o único contrato que Pelé lamenta ter feito foi com a Dulcora: 500 cruzeiros mensais. "Naquela ocasião, eu não sabia bem como fazer negócio e assinei por seis anos", justifica-se.

Ele não tem mais a mesma ingenuidade comercial. Para garantir a imagem do ídolo, Pelé de novo chegou perto da perfeição: contratou a empresa de publicidade Walter J. Thompson, incumbindo-a de servir de intermediária em negócios, estudar propostas de contrato de publicidade (inclusive verificar as possibilidades financeiras dos contratantes) e até responder cartas. Nos próximos dias a Thompson fará os primeiros contatos para campanhas publicitárias na África, um mercado promissor.

O MENINO INGÊNUO - O homem que deixa a seleção é muito diferente do menino de meias escorregando pelas canelas finas que Waldemar de Brito, ex-craque de futebol e ex-técnico do BAC, levou para o Santos em 1956. Está mais maduro, experiente e, principalmente, mais calculista. Herança maior que lhe deixou uma frustrada amizade: a de José Ozores, Pepe Gordo, o procurador que o tirou da pensão de dona Jô, ajudou-o a crescer e afinal quase o leva à ruína.

"Cuide dele como se fosse seu filho. Mas, se for preciso, use o cabo da vassoura." Jorgina Rodrigues Teixeira repete hoje a recomendação do técnico do Santos, Luís Alonso Perez, o Lula, feita em agosto de 1956, para provar que, desde aquela época, o clube se preocupava até com a formação moral de Pelé. Ela tinha uma pensão, para onde foram enviados vários jogadores que o Santos não podia mais abrigar. "Um menino humilde, calmo e educadinho, que não falava muito e tinha medo de sair sozinho", lembra dona Jô, olhando para o retrato de onde Pelé lhe sorri e diz numa dedicatória: "À minha querida mãe, uma recordação do filho que a estima, Edson Arantes".

Jorgina Rodrigues, uma paraense com 33 anos na época, era a pessoa que se preocupava com o conforto dos jogadores e lhes dava conselhos, geralmente obedecidos. Além disso, programava festinhas nos fins de semana, fórmula eficiente de vigiá-los. Para Edson, foram tempos felizes. A glória chegava fácil, a vida na pensão corria alegre e começavam as viagens. Sua única preocupação: marcar gols, ser aplaudido.

"Na pensão moravam alguns dos jogadores mais famosos do Brasil", lembra dona Jô. "Todos solteiros e, por isso, sempre procurados pelas moças."

Pelé cultivava idéias bastante definidas sobre suas relações com as fãs. "Ele sempre dizia que precisava ter cuidado, muito novo não queria pensar em casamento", conta Dorval. "Mas tinha sempre um sorriso para elas."

Gostar de meninas era um velho costume de Edson. "No carnaval, ele costumava fantasiar-se de mulher para enganar as garotas e roubar beijos na praça de Bauru", diz, rindo, o irmão Jair Arantes do Nascimento, o Zoca.

O CASTIGO DO CRIOULO - Com os gols, a seleção, a fama, chegou também o dinheiro. Inexperiente e sem tempo para cuidar dos negócios que começavam a aparecer, Pelé entregou-os nas mãos de Pepe Gordo, um espanhol amigo do médio-volante José Ely de Miranda, o Zito. Pepe era homem ativo, rápido nas decisões, sempre por perto para resolver o que fosse preciso. Além disso, tratava Pelé com um carinho desconhecido para o menino que saíra de casa com menos de quinze anos e fora morar numa cidade distante e de vida diferente.

Em pouco tempo, seduzido pela figura paternal e protetora de Pepe Gordo, Pelé acabou deixando a pensão e indo morar com a família do espanhol. Sua confiança era total: "Dei a ele uma procuração que não se dá nem para o pai". Pepe podia vender, trocar, assinar cheques. Essa foi uma fase ruim na vida de Pelé, que pouco pode aprender: Pepe Gordo fazia tudo. Até nos vestiários, depois dos jogos, enquanto Pelé se enxugava, o espanhol ficava agressivamente à sua frente, afastando com violentos empurrões todos os que queriam se aproximar do jogador.

José Ozores tinha uma preocupação especial: reforçar a imagem do mito. "Não foi difícil", ele diz hoje. "Embora de pouca cultura, Pelé aprendia com facilidade algumas regras básicas: não fazer propaganda de bebidas ou cigarros; respeitar a pátria e a bandeira; gostar de criancinhas e visitá-las sempre; nunca tomar partido."

Com uma força irresistível, porém, o ídolo Pelé continuava crescendo e acabou ficando grande demais para Pepe. Na segunda-feira de carnaval, em 1966, contrariando objeções iniciais de Pepe Gordo, Pelé - que já morava com os pais em Santos - se casou com Rosemeri Cholbi, filha de um estivador aposentado moça de forte personalidade sob uma aparência enganosamente frágil. Longe do jogador, combatido pelos pais e a esposa de Pelé, derrotado ainda mais pelos maus negócios, Pepe acabou perdendo irremediavelmente a luta pelo domínio do protegido. Por má administração, a Sanitária Santista, a mais importante firma de Pelé e Pepe Gordo, teve um prejuízo de 300 mil cruzeiros. "Ele reconheceu que não agi com desonestidade. Mas nunca me procurou para ajudar, mesmo sabendo que eu tinha perdido tudo", queixa-se Pepe Gordo. Ele guarda ainda um retrato a crayon de Pelé. Só que, agora, o quadro está voltado para a parede. Explicação do espanhol: "O crioulo está de castigo. E vai ficar aí, até aprender".

AMIGOS E AMIGOS - Mais do que 300 mil cruzeiros de prejuízo, Pepe Gordo representou para Pelé a súbita proximidade com um destino de que fugia desde o começo. De moço, rico, famoso, temeu se transformar num dos velhos exemplos de jogador fracassado. Seu medo era quebrar uma perna, sofrer um acidente qualquer que o impedisse de continuar jogando futebol para pagar as dívidas e se reerguer.

E Pelé descobriu que também fora dos campos tinha de planejar suas jogadas: "Quando a gente é mordido, fica vacinado. Comecei a tomar cuidado com empresários; apareciam muitos, querendo tomar conta de tudo, me orientar".

Pelé, Administração de Imóveis e Promoções Ltda., uma empresa que está sendo criada e onde ele mesmo tomará as decisões, será, paradoxalmente, o primeiro passo para Pelé ser Edson Arantes do Nascimento, um homem independente. Antes, sua vida esteve sempre presa a alguém. "O jogador tem isso de ruim", explica ele. "Nos clubes há sempre alguém para cuidar de tudo, da roupa à saúde. Falta tempo para tomar iniciativas."

A sua independência continua não sendo total, mas isso agora, pelo menos, é mais compreensível. A maioria de suas decisões, hoje Pelé as toma numa conversa de travesseiro com Rose. "Ela me ajudou bastante, nesta fase em que procuro me libertar do Pelé", afirma Edson. "Chega até a servir de secretária, batendo os ofícios e contratos." Assim Rose tem a melhor garantia de que o marido não está sendo enganado. E é também a fórmula que ela encontrou para se sentir mais perto de Pelé.

O POUCO TEMPO - "Bem que ele podia reservar uma hora por semana para rever os velhos amigos", queixa-se Dalmo Gaspar, antigo companheiro de Pelé. De certa forma, é a mesma reclamação de todos os que se sentem abandonados pelo velho amigo. Dependuradas nas paredes de seu apartamento, Coutinho guarda ainda as fotografias de Pelé: "Só sei onde ele mora por informações dos outros".

Oldemário Toguinhó afirma que o problema é exatamente este: tempo. Durante seis dias ele acompanhou Pelé. E anotou esta absurda semana:

"Domingo: jogo contra o Guarani, em Campinas (a 172 quilômetros de Santos), pelo campeonato paulista. Após o jogo, viagem para Bragança Paulista, a 69 quilômetros.

"Segunda-feira: 7 horas, início das filmagens. Várias trocas de roupa. Pelé anda a cavalo cerca de 2 quilômetros. Fica filmando até 14 horas. Almoço às 14h10. 15h10, novamente a cavalo. Filmagem até 17h30. 18 horas, sanduíches e maquiagem. 22 horas, ensaio. 2 da madrugada, tomada das primeiras cenas. 8 horas, fim das filmagens.

"Terça-feira: 10 horas, vários representantes da TV Colorado RQ preparam um salão, na casa onde Pelé dorme, arrastando oito aparelhos de televisão para todos os lados. 13 horas, Pelé, mal toma café, começa a fotografar para publicidade. Termina às 4 da tarde. 4 e meia, viagem de Volkswagen para São Paulo, onde encontra com Rose às 19 horas. Viagem para Santos, jantar com amigos e convidados. Vai dormir às 2 da madrugada.

"Quarta e quinta-feiras: 8 horas, segue para o Rio; o vôo atrasa e só chega às 13 horas. 14 horas, almoço no hotel. 15h15, campo do Flamengo. Milhares de crianças. Troca de roupa e vai ser juiz na festa mundial da televisão. Acaba o jogo e é entrevistado durante uma hora e meia. Vai direto a um sítio tirar fotos para a Ducal, acaba depois das 9 da noite. 22 horas, encontro com dirigentes do Banco de Campina Grande. 23h30, jantar em restaurante. 3 horas da madrugada, entra no hotel e, no apartamento em frente ao seu quarto, duas câmaras de TV esperam uma entrevista para a. Argentina. Sorrindo, Pelé fala em espanhol, durante quase uma hora. Vai dormir às 4.

"Sexta-feira: Segue para o aeroporto às 7 horas."

"Aí, eu parei", diz Oldemário. "À tarde o crioulo ainda ia treinar no Santos, para o jogo de domingo contra o Corinthians. Eu não agüentava mais, fui dormir."

Se não o tivesse acompanhado todo o tempo, o jornalista duvidaria desse ritmo de vida: Edson parecia sempre descansado, atendendo a todos com o sorriso de quem tem a obsessiva necessidade de ser querido.

INDISCIPLINA DO ADEUS - Talvez por isso, Edson, na semana passada, reagiu com violência à acusação de "indisciplina esportiva" que uma misteriosa "fonte governamental" distribuiu a alguns jornais. Enquanto jogador do Santos, dizia a informação, Pelé era obrigado a atender aos chamados da CBD, e por isso o governo não promoveria qualquer homenagem oficial em sua despedida.

Para ele, a notícia era o sinal do início da ingratidão - o começo do esquecimento de quem disputara 1.034 partidas (108 pela seleção brasileira) e marcara 1.085 gols (94 com a camisa da CBD), conquistando trinta títulos de campeão - oito para o Brasil. E, em Bragança Paulista, o ator Edson abandonou por um momento o personagem Chico Bondade para desabafar: "Se continuarem me pressionando assim, largo agora o futebol profissional, de vez".

Vieram explicações. Primeiro, tudo não passaria de uma manobra de João Havelange, presidente da CBD, preocupado em não perder a ajuda do cabo eleitoral Pelé em suas tentativas de chegar à presidência da FIFA. Depois, a versão oficial, do ministro Jarbas Passarinho, da Educação: haveria a impressão inicial de que Pelé deixaria a CBD e o Santos ao mesmo tempo; como era só a seleção, as homenagens do governo ficariam para a despedida definitiva.

Explicações aceitas, o travo amargo ficou: mais uma vez, Edson sentiu a presença das forças que sempre o impediram de ser dono da própria vida - e como Pelé, marcador implacável, estava destinado a persegui-lo até o fim da partida.

 
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