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11 de dezembro de 1968
Edson, o superpelé

O herói dos heróis é Pelé. Com uma vantagem: ele existe. Mas aí começa o seu problema. O Super-Homem, quando não está em atividade, esconde-se em Clark Kent (que já foi Edu Kent), um simples repórter que não chega a interessar nem a Míriam Lane, eterna apaixonada do herói enquanto herói. Com isto, ele tem toda a liberdade. Batman (ex-Homem Morcego) sai de serviço e passa a ser Bruce Wayne, a quem ninguém pede autógrafo. Mandrake continua ele mesmo, quando tira a cartola e o traje que chamam a atenção, mas isso não é vantagem: ele é magico. Só Pelé às vezes quer ser Edson Arantes do Nascimento e não consegue não ser o Pelé.

Pelé, o herói dos heróis, está cansado de ser um mito. A filha chora, não quer que ele vá, mas o pai tem que viajar, está na hora. Sai reclamando: "Já não suporto mais essa vida de sair de casa e deixar minha filha brincando sozinha. Coitada, ela não tem culpa de ser filha de Pelé, um sujeito que adora a família mas nasceu para andar de um lado a outro a se exibir para uma porção de gente". Pelé está há doze anos no Santos. Há doze anos ele viaja: "Isso acaba com a gente". Quando não é o time, é a seleção. No início tudo era alegria: "A primeira vez que eu saí numa delegação nem dormi direito, de ansiedade. Agora é tudo bem diferente. Torço para não ir a lugar nenhum". Com o casamento, principalmente quando nasceu Kelly Cristina, Pelé mudou: "Agora sei que ela e Rose estão à minha espera e fico louco, pensando na hora de chegar em casa".

PELÉ, O BOBALHÃO - "Eu vou dizendo fogo, sou um bobalhão. A Kelly Cristina faz o que quer de mim, muitas vezes fico de quatro no chão para ela brincar de cavalinho", informa Pelé. "Para dizer a verdade, a melhor coisa do mundo é ser pai. Quando estou com minha mulher e minha filha, passo as horas mais felizes da minha vida."

Mas são poucas horas. Rose quer que ele pare de jogar, fala muito nisto, argumenta com o que Pelé já tem. Pelé concorda: o dinheiro do futebol não faria falta, mas por enquanto quer aproveitar o seu futebol. Ele acha que pode jogar até os 33 anos, mas tem um sonho: começou a carreira campeão do mundo, quer encerrar campeão do mundo. (Depois do México ele estará com trinta anos.) Se o Brasil ganhar a Copa em 1970, é muito possível que Edson Arantes do Nascimento chegue em casa e diga para a mulher: "Acabou, Rose; agora sou de vocês, deixei o futebol". E, daí em diante, só estaria à disposição para jogar com Zito, Formiga, Olavo, nos veteranos do Santos: "Acho que eles me arranjavam uma vaguinha". Zito (José Eli de Miranda, 36 anos) acha que Pelé está melhor do que nunca: antes jogava para a glória, era garoto, queria aparecer, fazer jogadas espetaculares, ficar com os aplausos; hoje já tem tudo, passou a jogar mais para o time, ficou mais útil. Zito não acredita que ele esteja saturado de bola: "Ele adora uma bola; está cansado é da fama, é um homem sem descanso, sem uma vida normal, sem poder sair com a família, sem tranqüilidade, vivendo fechado, às escondidas". Com isto, falta a Pelé motivação para jogar: ele já alcançou tudo no futebol, não tem mais ilusões, e isso é fundamental em qualquer profissão. Quantas pessoas agüentariam isso sem afundar? Ele não afundou porque tem metas. Isso dá para sentir a força da sua personalidade.

PELÉ, O FOMINHA - Pensando no dia de parar, Pelé guardou alguma coisa, aplicou o dinheiro. Perdeu 350.000 cruzeiros novos com a Sanitária Santista. Agora, seus negócios são a Construtora Netuno e a Fiolax, uma firma dele e do Zito (fitas de náilon). Tem vários apartamentos e terrenos em Bauru, Santos e São Paulo. Grande parte dos aluguéis vai para o pai e a mãe. Ele não se queixa dos contratos com o Santos; diz que podiam ter sido melhores, mas a casa que o clube lhe deu valia 60.000, agora vale 250.000. 0 apartamento (que o Santos ajudou a comprar) valia 90.000, agora vale 200.000.

Os contratos de publicidade também rendem bastante: fazer anúncio de açúcar, da Monark, da Atma, emprestar o nome para chuteiras, isso dá um bom dinheiro. Agora Pelé acertou com a Gillette fazer propaganda na Europa. Uma promoção para a Copa do Mundo. Se tudo correr bem, Pelé vai arrecadar 10.000 por mês.

E ainda tem a televisão, o contrato da Excelsior garantindo 20.000 mensais, durante dois anos, a partir de janeiro, para ser apresentador, entrevistador, propagandista e ator. Em resumo: o que ganha obriga a pagar 6.000 por mês de imposto de renda. É por isso mesmo que dizem que Pelé já não é o mesmo. E ele: "Sou; sou o mesmo de sempre. Eu sou fominha de bola".

Toninho (Antônio Ferreira, 26 anos) diz que a torcida vaia sem perceber que Pelé é bom até quando joga mal: "Muitas vezes a gente tem chance de fazer uma jogada só porque ele se deslocou sem bola, levando dois ou três". Mas Toninho tem uma queixa: "De vez em quando ele esquece que é bom demais e pensa que os outros também podem fazer o que ele faz. Quando a gente não consegue, ele se irrita".

PELÉ, O SARRAFEADO - "Eu sou o mesmo, sim, só que agora tenho 28 anos e sei que quando acaba uma partida tenho que estar em campo novamente dentro de 48 horas", diz Pelé. "Antes, não. Antes, o time estava dando de três ou quatro e eu ficava correndo, de uma ponta a outra, querendo fazer mais. Às vezes eu não tinha forças para me levantar no dia seguinte pela manhã. Agora sei cuidar mais do corpo. Quando colocamos uma diferença de dois gols, normalmente começo a pensar no jogo seguinte."

E, depois, vem o capítulo dos pontapés. "Eu não tenho medo de levar chute. Se me chutam covardemente, podem esperar que na primeira dividida eu vou firme em quem me atingiu. Mas o que não é lógico é ficar levando sarrafada para ganhar de cinco ou seis."

Pelé queria que, pelo menos por um dia, todo jogador fosse Pelé, "para ele sentir como eu apanho". Não é máscara, e ele nem queria que se dissesse isso, mas qualquer um que joga contra ele quer "fazer o nome": "Não há jogo fácil para mim". Quando marcam na bola, ainda passa, mas o que acontece em geral é que "a coisa é um sarrafo tremendo".

PELÉ, O ACABADO - De vez em quando os críticos tentam derrubar o mito: não conseguem chegar até ele e procuram fazê-lo baixar ao nível dos comuns. E quando Pelé se "invoca" - como ele diz -, passa a dar tudo, o mito renasce com mais força. Depois da Copa de 1966 não faltou quem anunciasse a morte do Rei. "Pois é", diz Pelé, "hoje eu estou mais inteligente, mas mesmo assim ainda não sei dizer não, continuo a sofrer no futebol." Uma vez, no Peru, estava machucado no joelho, saiu no início do segundo tempo. A torcida queria queimar o estádio. Pelé mudou de roupa novamente e voltou a campo.

Outra vez, no México, com a clavícula doendo muito, os torcedores, aos gritos de "Pelé, Pelé, Pelé", não o deixaram sair de campo. Na seleção brasileira também jogou com febre, com a cabeça enfaixada, com o joelho machucado. Agora mesmo, contra a Fifa, estava com febre, resfriado, mas os dirigentes insistiram: "Você é uma festa, Pelé". "É sempre assim, e eu acabo jogando, porque sou fominha mesmo, adoro jogar futebol, vibro com uma bolinha nova, um campo gramadinho, o estádio cheio."

PELÉ, O DA TABELINHA - Porque eu não faço mais tanto gol? Porque não me deixam. Antes era fácil: eu pegava a bola e saía driblando pra dentro da área, um de cada vez. Agora isso acabou. As defesas têm sempre dois ou três bem pertinho, enquanto um vai para o sacrifício, o outro toma a bola ou derruba a gente, ainda tem um na sobra." E porque havia um Pagão (centroavante do Santos de 1955 a 1962). "Eu com o Pagão nos entendíamos que era uma beleza. Ele era inteligentíssimo, me botava sempre na cara do gol. Pagão tocava na bola e botava onde queria." Quando Pelé chegou ao Santos, o time já era grande, ganhava oito em cada dez jogos, começava a aparecer no cenário internacional. O ambiente interno era excelente: a torcida, muito pequena mesmo em Santos, não pressionava. Diz Paulo César de Araújo (34 anos), o Pagão, que "estava tudo pronto para aparecer uma grande estrela".

Para ele, Pelé só poderia ter aparecido no Santos; e naquela época. No começo era um jogador comum, e quando seu futebol cresceu não teve sobre si o peso da responsabilidade, não precisava dar vitória ao clube. O time, por sua vez, não sentiu o peso da sua fama: todos os jogadores eram experimentados, não dependiam dele para ganhar jogo. E Pelé sempre teve juízo, sempre foi humilde, mesmo quando voltou da Europa campeão do mundo, com dezessete anos; continuou sem máscara, respeitando os mais experientes. De repente começaram a dizer que era Pagão quem fazia Pelé. (Foi quem o ensinou a fazer "tabelinha".) Pelé começou a querer mostrar que ele era bom mesmo, que não dependia de ninguém; Pagão acabou saindo do time, mas diz que "a reação de Pelé foi subconsciente, muito natural. Ele era bom mesmo e queria provar isso".

Só que, agora, Pelé está cansado da glória e Pagão acha que ele em certos momentos deve detestar a fama que tem. Quando o Santos excursiona, ninguém gosta de sair com o Pelé, porque sua popularidade não deixa ficar à vontade, fazer compras, passear. Uma ocasião, no Chile, Pagão e Pelé entraram disfarçadamente no teatro. No meio de um ato o espetáculo foi interrompido e anunciou-se a presença de Pelé, enquanto um holofote focalizava seu lugar na platéia. Palmas, assovios, e o cerco na saída. "Isso deixa até quem está com ele nervoso, imagina agüentar na pele essa coisa todo dia."

PELÉ, O ENFARADO - Depois, houve Coutinho. Pelé ri: "Aquele gordinho era demais. Muitas vezes, na Europa, os beques ficavam rindo da maneira como a gente chegava até o gol trocando passes. Mesmo contra defesas fechadas. Nós batíamos na bola com rapidez, passávamos tão rápido, que os homens não tinham tempo nem de virar". Pelé acha que ainda hoje, com um Pagão ou um Coutinho, "eles" podiam botar oito ou dez "lá atrás", que não adiantaria. E o time ainda tinha dois extremas velozes como Dorval e Pepe.

Para Pepe (José Macia, 34 anos), Pelé não serve para ser líder porque grita demais, fala demais, nem sempre na hora certa e com as palavras certas. Mas é o maior jogador do mundo. Só que enfarado. E conta: "Uma vez, no Chile, ele resolveu ir ao cinema, em frente ao hotel. Pouco depois sentou-se ao lado dele um cara com um gravador, querendo suas impressões sobre o filme, para os queridos ouvintes. Pelé quase bateu no sujeito".

PELÉ, DA SELEÇÃO - Para Pelé, a seleção do Brasil ainda não acertou. Motivo: muitos jogadores não estão nos seus lugares. "Como em 1958. Os donos das posições foram entrando devagarinho, acabamos ganhando. Em 1962 estávamos com um conjunto formidável." Segundo Pelé, "não adianta botar em campo um time formidável, sem conjunto. Conjunto é que ganha jogo".

Diz ele que, até agora, foi feito muito pouco visando a Copa de 1970. E que não adianta nada andar jogando amistosos, montando time às pressas, "para quebrar um galho". Uma previsão: "O Brasil não arma time enquanto ficar com essa mania de fazer tudo só para agradar alguém, em cima da hora".

Pelé só gosta de discutir futebol e sistemas com o pai, o ex-jogador Dondinho: "Ele manja o fino do futebol, e se eu discordar dele ninguém diz que eu estou querendo inventar. Eu inclusive evito de ser capitão de time e de falar sobre tática porque senão vão dizer que já estou com máscara de técnico". Mas na última conversa com o pai os dois chegaram a uma conclusão: qualquer time ou seleção, para ganhar hoje no exterior, precisa ter dois pontas bem velozes, porque só nas extremas existe campo para se jogar bola. "Sabe como é? Eu pego a bola no meio de campo e solto para uma das pontas; o ponta tem que estar lá para dar logo o pique e pegar a defesa ainda se recompondo. Se demoramos um pouco com a bola nos pés, não se ataca mais. Os laterais também precisam fazer o mesmo, só com mais cuidado nas descidas." Pelé é contra ponta recuado no time: "A gente acaba ficando com jogadores quase no mesmo lugar, acumulando marcadores um perto do outro." Líbero também não é problema: "Se o adversário tem um na sobra, é claro que nós temos um sobrando. É só atacar com mais um".

Preparo físico? Ah, aí está um problema: "Hoje em dia é preciso estar muito bem fisicamente, para poder correr em campo o tempo que for necessário, o tempo todo, se for possível. Ninguém pode mais ficar parado. Veja como o Dirceu Lopes corre. Ele dá uma movimentação tremenda ao Cruzeiro. 0 Gérson faz o mesmo no Botafogo".

Pelé não se conforma com Gérson atrás, como jogou na seleção, plantado diante dos zagueiros: "Um jogador como ele, capaz de entrar na área capaz de entrar na área trocando passes e de chutar forte, nunca podia ficar lá atrás". A seleção de Pelé seria convocada com muita antecedência, uns quinze dias de férias, passeios, desintoxicação, exames médicos. Depois, um mês de física, "mas física mesmo, porque o nosso fraco é esse". (Antes da Copa de 1966 Pelé disse ao presidente João Havelange que com aquele estado atlético não dava para vencer. Havelange não acreditou.) Quando o time estivesse capaz de correr noventa minutos, entrariam no treino de conjunto, com os titulares já definidos, em princípio. Mais dois meses de treino. "Com o time certo, treinado e descansado, ninguém ganha da gente. Ninguém."

PELÉ, O TÉCNICO - Diz Antônio Fernandes, o Antoninho, técnico do Santos (e que conhece Pelé desde o tempo em que era técnico dos juvenis), que ser o maior jogador de futebol do mundo não afetou psicologicamente o atleta. "Ele não pretende ser o técnico, aceita determinações melhor do que a maioria, é inteligente, é muito consciente." Antoninho não tem problema com o mito; acha até que Pelé não é um mito. "Ele é um homem. Todas as qualidades humanas que ele demonstra são autênticas. Só para dar uma idéia de quem é ele fora do campo, entre o Pelé jogador de futebol e o Pelé homem, eu prefiro o homem."

 
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