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Craques na capa
 
 
26 de janeiro de 1983
O mágico sai de campo

Melancólico, solitário, o ponta-direita
que encantou o mundo sucumbe à bebida
e leva milhares de torcedores para o último adeus no Maracanã

"Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."
Carlos Drummond de Andrade, em sua crônica publicada no Jornal do Brasil de sábado passado


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No Estádio de Rasunda, em Estocolmo, milhares de faces rosadas contraíram-se ao pressentir que, naquela tarde de 29 de junho de 1958, um balé devastador iria recomeçar. O apoiador Zito, da Seleção Brasileira, recebera a bola na intermediária e a entregara a Garríncha na ponta direita. O mulato de pernas tortas ficou alguns segundos parado diante de Gustavsson, beque da Seleção da Suécia - e estava dada a senha para a dança. "Eu parei quando ele parou", lembra o centroavante Vavá. "Para jogar com Garrincha, era preciso entender suas gingas e dribles." Vavá entendia perfeitamente o peculiaríssimo dialeto inventado pelo maior ponta-direita da história do futebol. Por isso, sabia o que iria acontecer.

Num movimento maroto, Garrincha encurtou a distância que o separava de Gustavsson e o zagueiro sueco entendeu que ali estava a sua chance. Chutou o vazio. O corpo inteiramente apoindo na perna direita, o ponteiro já disparara rumo à linha de fundo enquanto Vavá, escoltado por Pelé, marchava para a área. "A bola veio na medida e eu só escorei de direita, minha perna boa", recorda o centroavante. O Brasil acabara de marcar o segundo gol contra a Suécia. Desempatava a partida e começava a ganhar sua primeira Copa do Mundo. Desde o momento em que Garrincha dera a senha, Vavá e Zito sabiam: era inevitável.

Na tarde de quarta-feira passada, 25 anos depois da consagração em Estocolmo, Garrincha cambaleava, bêbado, nas ruas do bairro de Bangu, no Rio de Janeiro. A 70 quilômetros dali, em sua casa na Praia de Saquarema, na conipanhia de quatro filhos e dois netos, Vavá, hoje um bem-sucedido técnico de futebol, prosseguia o descanso iniciado em dezembro, quando terminou seu contrato com a CBF para treinar as seleções de juniores e novos. No fim da tarde, enquanto Garrincha era internado numa clínica carioca, Zito encerrava o expediente em sua fábrica de artefatos de borracha em Ribeirão Pires, na região do ABC paulista. Na manhã de quinta-feira, em meio a seu cooper em Saquarema, Vavá foi abordado por um desconhecido que trazia uma informação: Garrincha morrera. Quase no mesmo instante, já de volta à casa onde mora, em Santos, Zito soube pelo rádio que o fantástico time de 1958 estava para sempre desfalcado do dono da camísa 7. Vavá e Zito ficaram bastante chocados, mas compreenderam que não houvera exatamente uma surpresa. Era inevitável.

HEMATOMA NO OLHO - Era inevitável, sabiam todos, mas o país parecia afagar a esperança de que alguém pudesse conter a angustiante corrida para o fim, na qual se haviam engajado as pernas tortas que encantaram o mundo - seu dono, nos últimos anos, transformara-se num caso terminal de alcoolismo. Também aí, como nos velhos tempos, Garrincha driblou todos os que tentaram interceptá-lo. Aos amigos, dizia que iria dormir - e marchava para a ronda dos bares. Aos companheiros dos times mambembes, cuja camisa 7 vestiu na última desesperada fase de sua de sua passagem pelos campos, prometia internar-se para tratamentos definitivos e, minutos depois, debruçava-se sobre mais uma dose de conhaque Dubar, sua bebida preferida nos últimos meses. Aos médicos e enfermeiros encarregados de tratá-lo, jurava bom comportamento - e pulava a janela das clínicas tão logo relaxavam a vigilância.

Na tarde de quarta-feira passada, aos 49 anos, depois de três casamentos e treze filhos, faltaram a Manoel Francisco dos Santos forças e mesmo frestas de lucidez para essas pequenas espertezas. Perto das 2 horas, Garrincha chegou bêbado e trôpego à casa do bairro de Bangu que dividia com a mulher, Vanderléia de Oliveira Vieira, 32 anos, a filha do casal, Lívia, de 2 anos, e Wendel, de 7, filho do primeiro casamento de Vanderléia com o ex-ponta-direita do Vasco, Jorginho Carvoeiro, morto de câncer em 1977. Vanderléia telefonou para a superintendência do Inamps e, pouco depois, uma ambulância estacionava na Rua dos Estampadores, diante de sua casa mais famosa - uma construção de bom aspecto, recém-pintada de amarelo e branco, com ar condicionado nos dois quartos.

Na ambulância estavam o médico Edevaldo Moreno e o enfermeiro Jatão ltagalan Jefferson, 39 anos, fã de Garrincha desde a época em que o maior pointa-direita de todos os tempos atormentava os laterais de seu Vasco no gramado do Maracanã, e ultimamente amigo do ídolo. A amizade nascera das constantes chamadas de enfermeiros à casa de Manoel Francisco dos Santos. "Ele estava muito mal, jogado na cama, com um hematoma no olho direito, como se tivesse levado um soco", lembra Jefferson, que estranhou a recusa de Vanderléia em acompanhá-los. "No percurso Garrincha não falou nada, só resmungava", diz o enfermeiro. O paciente começou a mostrar-se agitado e Jefferson resolveu levá-lo ao posto de assistência médica de Bangu, onde lhe foi ministrada uma injeção de Diazepan. Dali a ambulância seguiu para a Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo.

MOLDURA PERFEITA - "Eu deixei o Garrincha sentado numa cadeira, às 8 da noite, e fui embora", conta Jefferson. Pouco depois, médicos de plantão conduziram o paciente para um quarto no sétimo andar e Garrincha não tardou a dormir. Às 6 horas da manhã do dia de São Sebastião, feriado de sol no Rio de Janeiro, um anônimo funcionário da clínica constatou que ali jazia, só, há horas, um homem morto, vítima de extensas lesões no fígado e no pâncreas, causadas pelo consumo excessivo de álcool. "Ele estava há três dias sem se alimentar", lembra Vanderléia.

Morrera o craque, que, sobretudo entre 1958 e 1963, havia extasiado o mundo com seu estilo singularíssimo - Garrincha parecia entrar em campo como quem chega a uma festa, leve e alegre, exclusivamente preocupado em divertir-se e divertir - que lhe valera um segundo apelido, "Alegria do Povo". Coberto por um lençol, e equivocadamente identificado como pertencente a "Manoel da Silva", o corpo seguiu para o Instituto Médico Legal e, feita a autópsia, para um emocionado e turbulento velório no Maracanã. Tratava-se de uma moldura perfeita para as despedidas ao craque. Fora ele sempre o mais amado pelas arquibancadas e gerais. E ali esculpira dezenas de vezes a cena descrita nos versos do soneto O Anjo das Pernas Tortas, de Vinicius de Moraes:

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende:
Gooooool!

A nostalgia desse grito parece universal. Com manchetes, jornais e emissoras de rádio e televisão do mundo inteiro choraram o grande morto, entre palavras e imagens que reproduziam as jogadas e histórias responsáveis pela construção da lenda. Nos Estados Unidos, por exemplo, The New York Times dedicou a Garrincha um reverente obituário. Na Itália, a televisão reservou-lhe espaço equivalente ao da morte de Nikolai Podgorny, ex-presidente da União Soviética. Milhões de estrangeiros que haviam sofrido com Garrincha vivo sofreram com a sua morte. E pareceram especialmente chocados com a solidão que sublinhou os últimos dias do ídolo.

CORO DE PALAVRÕES - Garrincha viveu sua agonia em virtual isolamento e morreu só, mas seu corpo seria disputado, no velório, por clubes, bandeiras e famílias. Parentes do morto, entre acusações a dirigentes, quiseram impedir que bandeiras do Botafogo e da CBF envolvessem o caixão, até o ex-lateral Nilton Santos, velho amigo de Garrincha, convencê-los de que aquela era uma homenagem dos torcedores. Haveria ainda outras brigas, com rancor e amargura. Antônia Francisco dos Santos, irmã de Garrincha, atirou-se sobre o cadáver acusando Vanderléia de "assassina". A última mulher do herói só não foi agredida por sobrinhos, irmãos e cunhados do morto - "Você matou o Mané!", berravam - graças à intervenção de policiais da PM.

O clima do velório, organizado pelo cantor e deputado federal eleito Agnaldo Timóteo, configurou um vigoroso contraponto para a alma cândida de Garrincha, um modelo acabado do que os brasileiros chamam de "bom sujeito". Torcedores bradavam insultos aos cartolas. Outros atribuíam o destino do morto a seu frustrado casamento, em 1965, com a cantora Elza Soares - que o levou a separar-se de sua primeira mulher, Nair, falecida em 1975. Muitos criticavan asperamente a ausência de companheiros dos tempos de glória, e cismaram especialmente com Pelé - um herói de destino exatamente oposto, paradigma do sucesso pessoal e capaz, uma vez encerrados os dias de glórias nos estádios, de continuar levando uma vida brilhante, vitoriosa e milionária. Temeroso de hostilidades, Pelé, que estava no Rio no dia da morte de Garrincha, preferiu não comparecer ao velório nem ao enterro. E o caixão baixou à sepultura no cemitério de Pau Grande, depois de percorrer alguns quilômetros entre milhares de pessoas que cantavam o Hino Nacional, sob um coro que, frustrado com o destino trágico do ídolo, fazia extravasar suas emoções disparando palavrões contra Pelé.

Com as próprias mãos, o povo de Pau Grande ajudou a acabar de escavar a sepultura do cemitério do povoado que recebia de volta o filho famoso. Garrincha fizera questão de ser enterrado na terra natal, perto das matas onde gostava de caçar passarinhos e dos toscos gramados que viram nascer a magia do seu futebol. Ele visitara Pau Grande pela derradeira vez em 15 de novembro, para votar em Leonel Brizola e rever as filhas. "Nesse dia ele não bebeu nada, mas também não comeu", conta Adenir, 28 anos, mãe de Alexandra, uma das cinco netas de Garrincha. "Só tomou muito cafezinho." Também conversou um pouco com o velho amigo Avenir Pimentel, o "Compadre Careca", e deixou-lhe a impressão de que gostaria de voltar para Pau Grande. "Se fizesse isso, o Mané não estaria em cima daquela mesa ali", repetia Pimentel durante o velório no Maracanã.

TRISTEZA NA PRAÇA - Assim também pensava o neurologista Carlos Henrique Melo Reis, que assistia Garrincha desde 1978. "Quando ele estava argamassando sua personalidade, foi guindado ao estrelato e perdeu as referências básicas de Pau Grande, como a pelada, ou a conversa na calçada", disse Melo Reis a VEJA em novembro passado, depois do penúltimo intemamento de Garrincha. "Acho que ele só ficará curado quando for restituído ao seu cicio natural e histórico de vida, voltar à simplicidade, à paz, como em Pau Grande." Segundo Melo Reis, levar o craque envelhecido para "jogos de gratidão" - ou exibi-lo num desfile de escola de samba, como um bicho raro - era um "exercício de sadismo". "Ficam relembrando a ele o que foi e não consegue mais ser", advertiu o neurologista. "É um erro reforçar o mito que ele quer enterrar."

Era tarde demais. Desde novembro, velhos torcedores que moram em Bangu deprimiam-se com a visão de Garrincha sentado nos bancos da Praça Primeiro de Maio, o olhar vago, a fisionomia tristonha. "Ele parecia muito magoado", depõe o enfermeiro Jefferson. Mesmo nos períodos de lucidez, Garrincha era apenas uma sombra do macunaíma dos gramados que só chamava companheiros por apelidos, reconhecia times adversários apenas pela cor do uniforme e não tomava conhecimento de quem iria marcá-lo - qualquer lateral, afinal, era "João". "Lembro dele como um moço muito bom, que conversava com a gente", diz sua vizinha Jadith de Souza, 54 anos. "Quando estava bem, ficava parado um tempo grande no portão da sua casa, espiando as crianças da rua jogar futebol."

Mais que as crianças, com quem sempre se entendeu, favorecido pelos traços infantis do seu caráter, nesses momentos Garrincha talvez contemplasse a bola - sua mais íntima conhecida. "Adoro jogar futebol", repetia nas entrevistas. "E por isso que fico batendo minha bolinha por aí, não é por dinheiro, não." Entre 1953, quando espantou o grande Nilton Santos enfiando-lhe uma bola entre as pernas em seu primeiro treino no Botafogo do Rio de Janeiro, e 1973, ano que marcou sua despedida oficial dos campos com um jogo entre a Seleção Brasileira e um time de estrangeiros que atuavam no país, Garrincha disputou 653 jogos e marcou 265 gols. Mas os bons tempos chegaram ao fim já em 1963, pouco depois de Garrincha ter deslumbrado o mundo com seu desempenho na Copa do Chile, quando garantiu praticamente sozinho o bicampeonato mundial - Pelé se contundira no jogo de estréia. Fez gols de cabeça, com a perna esquerda, comandou o time, e, naturalmente, driblou muito, numa deliciosa coleção de jogadas chaplinianas.

CRIANÇAS INTRIGADAS - Mas nunca mais seria o mesmo. O joelho direito doía cada vez mais, a deformação congênita agravada por contusões dribladas com injeções destinadas a mantê-lo em campo a qualquer preço. E a idade já não lhe permitia as desconcertantes fugas para a linha de fundo, sempre pela direita. Pois ainda assim Garrincha recusou-se a desistir de provocar o riso nas gerais. Primeiro, tentou a sorte no Corinthians e no Flamengo, e o Brasil constatou que a festa acabara. O peso do mito garantiu-lhe uma vaga na Seleção que disputou a Copa da Inglaterra, mas então já não provocava calafrios em zagueiro algum. Depois, circulou por times pequenos, como o Olaria do Rio. Quando nem mesmo elencos bisonhos lhe ofereceram vagas, apanhou suas chuteiras e vestiu a camisa 7 do Milionários, um clube de veteranos de São Paulo - e com ela disputou cerca de 500 jogos. "Era a nossa grande estrela", diz João Mendes Toledo, porteiro do Teatro Bandeirantes e dono do time. "Foi através do Milionários que o povo brasileiro ficou conhecendo o Garrincha homem", afirma Cezar Augusto Silva Lemos, ex-centroavante do Flamengo e do Palmeiras.

Garrincha desfilou em carro aberto antes de jogar em Tucurui, no Pará, ou em Barra do Garças, em Mato Grosso. Mas já não podia retribuir com jogadas os aplausos que marcavam sua passagem pelas ruas. Nas arquibancadas, pais explicavam a crianças intrigadas, às vezes céticas, que aquele homem gordo, um tanto grisalho, que fazia arremedos de gingas, fora o terror dos laterais do mundo inteiro. Na quinta e sexta-feiras da semana passada, quando as principais emissoras de televisão do Brasil dedicaram, em conjunto, 10 horas de transmissão à celebração do mito de Garrincha, muitas dessas crianças certamente compreenderam que os pais não exageravam.

A maior parte do esplêndido futebol de Garrincha, porém, não sobreviveu até o advento da era da memória eletrônica. Em novembro, a TV Bandeirantes mostrou durante 30 minutos os gols de Leivinha, um já esquecido artilheiro que passou pelo Palmeiras no começo dos anos 70. Na quinta-feira, a emissora, dona do melhor arquivo esportivo da televisão brasileira, teve de reprisar os mesmos lances para reunir 5 minutos de jogadas de Garrincha. De qualquer forma, foram 5 minutos suficientes para que, em milhares de casas brasileiras, crianças que não puderam ser pessoalmente apresentadas às mágicas pernas tortas ouvissem de seus pais: "Eu não dizia?"

MUNDO A PARTE - O ocaso trouxe para Garrincha a prova definitiva de que conquistara o carinho nacional. "Ele nunca duvidou disso", diz o neurologista Melo Reis. "O Garrincha jamais pagou nada neste país, tudo para ele sempre foi de graça, em qualquer loja, em qualquer bar." Também por isso, apesar da inexorável deterioração da sua vida p6s-futebol, não costumava ter problemas financeiros dramáticos. O aluguel de sua casa - 40.000 cruzeiros mensais - era pago pela CBF. Ele recebia salários de 270.000 cruzeiros da Legião Brasileira de Assistência, teoricamente para ensinar futebol a crianças e possuía um Chevette 1979. A cada jogo do Milionários ganhava cachês de 150.000 cruzeiros. Garrincha viveu num pais e numa época que, discretamente não o deixaram ficar miserável. Mas no auge da carreira, ganhou muito dinheiro e poderia ter sido um homem rico - como tantos outros companheiros - não fosse ele Garrincha.

Depois da Copa de 1962, interessado em disciplinar a vida financeira do amigo, Nilton Santos apresentou-lhe o banqueiro José Luiz Magalhães Lins. Na casa de Garrincha em Pau Grande, Nilton Santos encontrou, espalhados em gavetas e armários, cheques antigos, cédulas novas e maços de dólares. Arrecadou tudo, transformou os dólares em cruzeiros e entregou o total apurado a Magalhães Lins, que abriu uma conta em nome de Garrincha no Banco Nacional. Tudo andou bem até o correntista descobrir que cada folha de papel do talão de cheques podia ser transformada em dinheiro. O tamanho das cifras foi aumentando, o saldo, emagrecendo, e Magalhães Lins achou mais sensato encerrar a conta. Não era fácil ajudar Mané Garrincha.

Amigos já o viram pagar 10.000 cruzeiros por uma corrida de táxi que valia vinte vezes menos, ou 5.000 por uma dose de conhaque. "Garrincha vivia num mundo à parte", diz Gilmar, seu companheiro de Seleção Brasileira em 1958 e 1962. "A esse mundo só tinham livre acesso os passarinhos e um futebol abstrato e amador, com muita festa." Tarnbém havia entrada franca para o sexo feminino. "Ele adorava mulher, ficava incontrolável. E as mulheres viviam procurando o Garrincha", endossa o neurologista Melo Reis, que precisou demitir mais de uma enfermeira de sua clínica para não complicar a convalescença do irrequieto paciente.

HISTÓRIAS PICARESCAS - Nas viagens do Botafogo e da Seleção, pulava as janelas da concentração para só retornar alta madrugada, um sorriso matreiro ne rosto. Na Copa do Mundo de 1958, uma dessas escapulidas deu-lhe um filho sueco, Ulf Lindenberg, hoje com 22 anos. "Não sei o nome da mãe", dizia Garrincha nas entrevistas. "Como poderia lembrar?" Essas histórias picarescas do genial ponta-direita acentuaram a imagem do Garrincha docemente irresponsável, meio apalermado. Melo Reis discorda. "Ele nada tinha de tolo, muito menos de débil mental, como dizia a lenda", esclarece o neurologista. "Usou isso em proveito próprio. Era uma maneira de escapar das ordens dos técnicos e, também, de cultivar uma imagem de desamparado, que agrada as pessoas. O ex-atacante Paulo Borges, que ficou bastante amigo de Garrincha em dez anos de excursões do Milionários, tem uma opinião semelhante. "Tudo o que ele fez foi por opção própria", acredita Paulo Borges. "O Garrincha sabia que outros queriam explorar sua imagem ou ganhar alguma coisa com ela, mas simplesmente não ligava para isso. Nunca foi levado ingenuamente, sabia direitinho o que se passava à sua volta." Nos últimos anos, nem sempre. Em 1980, por exemplo, acabara de sair de mais uma internação quando concordou em desfilar com a Mangueira, sobre um carro alegórico adornado por uma réplica gigante da Copa Jules Rimet.

Foi um triste espetáculo. Prostrado, semblante abatido, quase sem forças para saudar o público, Garrincha percorreu a Marquês de Sapucaí como se quisesse mostrar a dimensão da própria queda. Mas novamente pôde constatar o quanto era amado: foi delirantemente aplaudido ao longo de todo o desfile por uma multidão emocionada. Terminado o cortejo, Garrincha foi depositado ao lado de um táxi cujo motorista, informado da direção que o passageiro pretendia tomar, recusou-se a transportá-lo. Testemunha da cena, um jornalista avisou ao motorista que ali não estava um passageiro qualquer - aquele homem era Mané Garrincha. O motorista prontamente concordou em transportar a lenda.

FRASE ESPERANÇOSA - Tantas demonstrações de carinho, freqüentemente tocantes, às vezes induziam Garrincha a acreditar que era possível recuperar a alegria de viver. No dia 13 de janeiro, em sua última aparição pública, inaugurou uma escolinha de futebol em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, e comandou uma aula especialmente animada, cheia de lições sobre dribles, atentamente absorvidas por meninos pobres do lugar. Parecia o Garrincha que, ao receber a visita do amigo Arnaud Araújo numa clínica onde estava internado, fez uma frase esperançosa. "Depois da meia-noite a tendência é clarear", disse. "Estou sentindo que passou a minha noite e agora a vida vai clarear." Dias depois, contudo, Garrincha não apareceu para a segunda aula: a família avisou que ele se embriagara.

É que depois da meia-noite, e antes que clareasse, havia a madrugada - e Garrincha já não tinha forças para atravessá-la. A manhã da vida de Garrincha foi curta, mas bastou para iluminar fortemente o mito. Ele não repousa apenas no drible incomparável - que, para o jornalista Armando Nogueira, era a própria negação do drible, já que este consiste em fingir
uma coisa e fazer outra, e Garrincha simulava precisamente o que acabaria fazendo. O mito de Mané Garrincha sobreviverá, por exemplo, enquanto algum jogador empurrar a bola para fora e permitir que um adversário machucado seja socorrido. Porque foi ele quem popularizou esse gesto em meio às batalhas no Maracanã.

O nome de Garrincha também irá aflorar à lembranqa dos torcedores sempre que, nas arquibancadas e gerais, ecoar o grito de "olé". No começo dos anos 60, na Cidade do México, o Botafogoo destroçou o River Plate, da Argentina, graças às diabruras do seu número 7, que levaram ao desespero o zagueiro Vairo. A cada finta de Garrincha, a platéia mexicana gritava "olé!" E o estádio quase veio abaixo quando, ao cabo de uma infernal seqüência de dribles, o berro coletivo foi precedido por um clarim a tocar o trecho da ópera Carmen, que costurma animar os grandes momentos das touradas. Os brasileiros souberam do "olé" e a novidade conquistou as torcidas do país.

COMPANHEIROS DE VIAGEM - Para o botafoguense Agnaldo Timóteo, que também pagou as despesas do enterro de Garrincha, esse magnífico legado merecia ter mobilizado todos os craques do presente para a despedida final. "Você, o Sócrates, o Roberto, tiveram um comportamento mesquinho não homenageando Garrincha", acusou Timóteo numa conversa com Zico pelo telefone. "Vocês são frutos do futebol-arte que ele implantou e hoje, milionários, viram as costas ao grande mestre." Na verdade, Zico, Sócrates e outros craques da atualidade não tinham nenhum dever de compareccr ao enterro. E, como todos os brasileiros, presentes ou não ao enterro, de alguma forma lamentaram a morte da Alegria do Povo.

Além do mais, ali estavam alguns grandes companheiros de viagem, como Nilton Santos, o capitão Bellini, o legendário Ademir Menezes, artilheiro da Copa de 1950, ou o goleiro Barbosa, que sofreu na final hist6rica o gol de Gighia e, com ele, a angústia da derrota frente ao Uruguai que silenciou o Maracanã. O destino, que fez tortas as pernas de Garrincha, também lhe fez torta a vida, e o gênio das arrancadas solitárias seria a primeira estrela da constelação que ganhou a Copa da Suécia a apagar-se. Também por isso sua morte comoveu o Brasil. Garrincha não teve tempo de chegar à velhice, e o país não teve tempo de esquecer suas jogadas. A tradição oral haverá de perpetuá-las, e daqui a muitos anos gerações de brasileiros crescerão sabendo que a mesma época que viu Pelé viu, também, Mané Garrincha. Foi outro presente dos deuses dos estádios ao país do futebol.

 
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