26
de janeiro de 1983
O mágico sai de campo
Melancólico,
solitário, o ponta-direita
que encantou o mundo sucumbe à bebida
e leva milhares de torcedores para o último adeus no
Maracanã
"Se
há um deus que regula o futebol, esse deus é
sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de
seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos
estádios. Mas, como é também um deus
cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber
sua condição de agente divino. Foi um pobre
e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar
suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e
não há outro Garrincha disponível. Precisa-se
de um novo, que nos alimente o sonho."
Carlos Drummond de Andrade, em sua crônica publicada
no Jornal do Brasil de sábado passado
No Estádio de Rasunda, em Estocolmo, milhares de faces
rosadas contraíram-se ao pressentir que, naquela tarde
de 29 de junho de 1958, um balé devastador iria recomeçar.
O apoiador Zito, da Seleção Brasileira, recebera
a bola na intermediária e a entregara a Garríncha
na ponta direita. O mulato de pernas tortas ficou alguns segundos
parado diante de Gustavsson, beque da Seleção
da Suécia - e estava dada a senha para a dança.
"Eu parei quando ele parou", lembra o centroavante
Vavá. "Para jogar com Garrincha, era preciso entender
suas gingas e dribles." Vavá entendia perfeitamente
o peculiaríssimo dialeto inventado pelo maior ponta-direita
da história do futebol. Por isso, sabia o que iria
acontecer.
Num
movimento maroto, Garrincha encurtou a distância que
o separava de Gustavsson e o zagueiro sueco entendeu que ali
estava a sua chance. Chutou o vazio. O corpo inteiramente
apoindo na perna direita, o ponteiro já disparara rumo
à linha de fundo enquanto Vavá, escoltado por
Pelé, marchava para a área. "A bola veio
na medida e eu só escorei de direita, minha perna boa",
recorda o centroavante. O Brasil acabara de marcar o segundo
gol contra a Suécia. Desempatava a partida e começava
a ganhar sua primeira Copa do Mundo. Desde o momento em que
Garrincha dera a senha, Vavá e Zito sabiam: era inevitável.
Na
tarde de quarta-feira passada, 25 anos depois da consagração
em Estocolmo, Garrincha cambaleava, bêbado, nas ruas
do bairro de Bangu, no Rio de Janeiro. A 70 quilômetros
dali, em sua casa na Praia de Saquarema, na conipanhia de
quatro filhos e dois netos, Vavá, hoje um bem-sucedido
técnico de futebol, prosseguia o descanso iniciado
em dezembro, quando terminou seu contrato com a CBF para treinar
as seleções de juniores e novos. No fim da tarde,
enquanto Garrincha era internado numa clínica carioca,
Zito encerrava o expediente em sua fábrica de artefatos
de borracha em Ribeirão Pires, na região do
ABC paulista. Na manhã de quinta-feira, em meio a seu
cooper em Saquarema, Vavá foi abordado por um desconhecido
que trazia uma informação: Garrincha morrera.
Quase no mesmo instante, já de volta à casa
onde mora, em Santos, Zito soube pelo rádio que o fantástico
time de 1958 estava para sempre desfalcado do dono da camísa
7. Vavá e Zito ficaram bastante chocados, mas compreenderam
que não houvera exatamente uma surpresa. Era inevitável.
HEMATOMA
NO OLHO - Era inevitável, sabiam todos, mas o país
parecia afagar a esperança de que alguém pudesse
conter a angustiante corrida para o fim, na qual se haviam
engajado as pernas tortas que encantaram o mundo - seu dono,
nos últimos anos, transformara-se num caso terminal
de alcoolismo. Também aí, como nos velhos tempos,
Garrincha driblou todos os que tentaram interceptá-lo.
Aos amigos, dizia que iria dormir - e marchava para a ronda
dos bares. Aos companheiros dos times mambembes, cuja camisa
7 vestiu na última desesperada fase de sua de sua passagem
pelos campos, prometia internar-se para tratamentos definitivos
e, minutos depois, debruçava-se sobre mais uma dose
de conhaque Dubar, sua bebida preferida nos últimos
meses. Aos médicos e enfermeiros encarregados de tratá-lo,
jurava bom comportamento - e pulava a janela das clínicas
tão logo relaxavam a vigilância.
Na
tarde de quarta-feira passada, aos 49 anos, depois de três
casamentos e treze filhos, faltaram a Manoel Francisco dos
Santos forças e mesmo frestas de lucidez para essas
pequenas espertezas. Perto das 2 horas, Garrincha chegou bêbado
e trôpego à casa do bairro de Bangu que dividia
com a mulher, Vanderléia de Oliveira Vieira, 32 anos,
a filha do casal, Lívia, de 2 anos, e Wendel, de 7,
filho do primeiro casamento de Vanderléia com o ex-ponta-direita
do Vasco, Jorginho Carvoeiro, morto de câncer em 1977.
Vanderléia telefonou para a superintendência
do Inamps e, pouco depois, uma ambulância estacionava
na Rua dos Estampadores, diante de sua casa mais famosa -
uma construção de bom aspecto, recém-pintada
de amarelo e branco, com ar condicionado nos dois quartos.
Na
ambulância estavam o médico Edevaldo Moreno e
o enfermeiro Jatão ltagalan Jefferson, 39 anos, fã
de Garrincha desde a época em que o maior pointa-direita
de todos os tempos atormentava os laterais de seu Vasco no
gramado do Maracanã, e ultimamente amigo do ídolo.
A amizade nascera das constantes chamadas de enfermeiros à
casa de Manoel Francisco dos Santos. "Ele estava muito
mal, jogado na cama, com um hematoma no olho direito, como
se tivesse levado um soco", lembra Jefferson, que estranhou
a recusa de Vanderléia em acompanhá-los. "No
percurso Garrincha não falou nada, só resmungava",
diz o enfermeiro. O paciente começou a mostrar-se agitado
e Jefferson resolveu levá-lo ao posto de assistência
médica de Bangu, onde lhe foi ministrada uma injeção
de Diazepan. Dali a ambulância seguiu para a Casa de
Saúde Dr. Eiras, em Botafogo.
MOLDURA
PERFEITA - "Eu deixei o Garrincha sentado numa cadeira,
às 8 da noite, e fui embora", conta Jefferson.
Pouco depois, médicos de plantão conduziram
o paciente para um quarto no sétimo andar e Garrincha
não tardou a dormir. Às 6 horas da manhã
do dia de São Sebastião, feriado de sol no Rio
de Janeiro, um anônimo funcionário da clínica
constatou que ali jazia, só, há horas, um homem
morto, vítima de extensas lesões no fígado
e no pâncreas, causadas pelo consumo excessivo de álcool.
"Ele estava há três dias sem se alimentar",
lembra Vanderléia.
Morrera
o craque, que, sobretudo entre 1958 e 1963, havia extasiado
o mundo com seu estilo singularíssimo - Garrincha parecia
entrar em campo como quem chega a uma festa, leve e alegre,
exclusivamente preocupado em divertir-se e divertir - que
lhe valera um segundo apelido, "Alegria do Povo".
Coberto por um lençol, e equivocadamente identificado
como pertencente a "Manoel da Silva", o corpo seguiu
para o Instituto Médico Legal e, feita a autópsia,
para um emocionado e turbulento velório no Maracanã.
Tratava-se de uma moldura perfeita para as despedidas ao craque.
Fora ele sempre o mais amado pelas arquibancadas e gerais.
E ali esculpira dezenas de vezes a cena descrita nos versos
do soneto O Anjo das Pernas Tortas, de Vinicius de Moraes:
Num
só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende:
Gooooool!
A
nostalgia desse grito parece universal. Com manchetes, jornais
e emissoras de rádio e televisão do mundo inteiro
choraram o grande morto, entre palavras e imagens que reproduziam
as jogadas e histórias responsáveis pela construção
da lenda. Nos Estados Unidos, por exemplo, The New York Times
dedicou a Garrincha um reverente obituário. Na Itália,
a televisão reservou-lhe espaço equivalente
ao da morte de Nikolai Podgorny, ex-presidente da União
Soviética. Milhões de estrangeiros que haviam
sofrido com Garrincha vivo sofreram com a sua morte. E pareceram
especialmente chocados com a solidão que sublinhou
os últimos dias do ídolo.
CORO
DE PALAVRÕES - Garrincha viveu sua agonia em virtual
isolamento e morreu só, mas seu corpo seria disputado,
no velório, por clubes, bandeiras e famílias.
Parentes do morto, entre acusações a dirigentes,
quiseram impedir que bandeiras do Botafogo e da CBF envolvessem
o caixão, até o ex-lateral Nilton Santos, velho
amigo de Garrincha, convencê-los de que aquela era uma
homenagem dos torcedores. Haveria ainda outras brigas, com
rancor e amargura. Antônia Francisco dos Santos, irmã
de Garrincha, atirou-se sobre o cadáver acusando Vanderléia
de "assassina". A última mulher do herói
só não foi agredida por sobrinhos, irmãos
e cunhados do morto - "Você matou o Mané!",
berravam - graças à intervenção
de policiais da PM.
O
clima do velório, organizado pelo cantor e deputado
federal eleito Agnaldo Timóteo, configurou um vigoroso
contraponto para a alma cândida de Garrincha, um modelo
acabado do que os brasileiros chamam de "bom sujeito".
Torcedores bradavam insultos aos cartolas. Outros atribuíam
o destino do morto a seu frustrado casamento, em 1965, com
a cantora Elza Soares - que o levou a separar-se de sua primeira
mulher, Nair, falecida em 1975. Muitos criticavan asperamente
a ausência de companheiros dos tempos de glória,
e cismaram especialmente com Pelé - um herói
de destino exatamente oposto, paradigma do sucesso pessoal
e capaz, uma vez encerrados os dias de glórias nos
estádios, de continuar levando uma vida brilhante,
vitoriosa e milionária. Temeroso de hostilidades, Pelé,
que estava no Rio no dia da morte de Garrincha, preferiu não
comparecer ao velório nem ao enterro. E o caixão
baixou à sepultura no cemitério de Pau Grande,
depois de percorrer alguns quilômetros entre milhares
de pessoas que cantavam o Hino Nacional, sob um coro que,
frustrado com o destino trágico do ídolo, fazia
extravasar suas emoções disparando palavrões
contra Pelé.
Com
as próprias mãos, o povo de Pau Grande ajudou
a acabar de escavar a sepultura do cemitério do povoado
que recebia de volta o filho famoso. Garrincha fizera questão
de ser enterrado na terra natal, perto das matas onde gostava
de caçar passarinhos e dos toscos gramados que viram
nascer a magia do seu futebol. Ele visitara Pau Grande pela
derradeira vez em 15 de novembro, para votar em Leonel Brizola
e rever as filhas. "Nesse dia ele não bebeu nada,
mas também não comeu", conta Adenir, 28
anos, mãe de Alexandra, uma das cinco netas de Garrincha.
"Só tomou muito cafezinho." Também
conversou um pouco com o velho amigo Avenir Pimentel, o "Compadre
Careca", e deixou-lhe a impressão de que gostaria
de voltar para Pau Grande. "Se fizesse isso, o Mané
não estaria em cima daquela mesa ali", repetia
Pimentel durante o velório no Maracanã.
TRISTEZA
NA PRAÇA - Assim também pensava o neurologista
Carlos Henrique Melo Reis, que assistia Garrincha desde 1978.
"Quando ele estava argamassando sua personalidade, foi
guindado ao estrelato e perdeu as referências básicas
de Pau Grande, como a pelada, ou a conversa na calçada",
disse Melo Reis a VEJA em novembro passado, depois do penúltimo
intemamento de Garrincha. "Acho que ele só ficará
curado quando for restituído ao seu cicio natural e
histórico de vida, voltar à simplicidade, à
paz, como em Pau Grande." Segundo Melo Reis, levar o
craque envelhecido para "jogos de gratidão"
- ou exibi-lo num desfile de escola de samba, como um bicho
raro - era um "exercício de sadismo". "Ficam
relembrando a ele o que foi e não consegue mais ser",
advertiu o neurologista. "É um erro reforçar
o mito que ele quer enterrar."
Era
tarde demais. Desde novembro, velhos torcedores que moram
em Bangu deprimiam-se com a visão de Garrincha sentado
nos bancos da Praça Primeiro de Maio, o olhar vago,
a fisionomia tristonha. "Ele parecia muito magoado",
depõe o enfermeiro Jefferson. Mesmo nos períodos
de lucidez, Garrincha era apenas uma sombra do macunaíma
dos gramados que só chamava companheiros por apelidos,
reconhecia times adversários apenas pela cor do uniforme
e não tomava conhecimento de quem iria marcá-lo
- qualquer lateral, afinal, era "João". "Lembro
dele como um moço muito bom, que conversava com a gente",
diz sua vizinha Jadith de Souza, 54 anos. "Quando estava
bem, ficava parado um tempo grande no portão da sua
casa, espiando as crianças da rua jogar futebol."
Mais
que as crianças, com quem sempre se entendeu, favorecido
pelos traços infantis do seu caráter, nesses
momentos Garrincha talvez contemplasse a bola - sua mais íntima
conhecida. "Adoro jogar futebol", repetia nas entrevistas.
"E por isso que fico batendo minha bolinha por aí,
não é por dinheiro, não." Entre
1953, quando espantou o grande Nilton Santos enfiando-lhe
uma bola entre as pernas em seu primeiro treino no Botafogo
do Rio de Janeiro, e 1973, ano que marcou sua despedida oficial
dos campos com um jogo entre a Seleção Brasileira
e um time de estrangeiros que atuavam no país, Garrincha
disputou 653 jogos e marcou 265 gols. Mas os bons tempos chegaram
ao fim já em 1963, pouco depois de Garrincha ter deslumbrado
o mundo com seu desempenho na Copa do Chile, quando garantiu
praticamente sozinho o bicampeonato mundial - Pelé
se contundira no jogo de estréia. Fez gols de cabeça,
com a perna esquerda, comandou o time, e, naturalmente, driblou
muito, numa deliciosa coleção de jogadas chaplinianas.
CRIANÇAS
INTRIGADAS - Mas nunca mais seria o mesmo. O joelho direito
doía cada vez mais, a deformação congênita
agravada por contusões dribladas com injeções
destinadas a mantê-lo em campo a qualquer preço.
E a idade já não lhe permitia as desconcertantes
fugas para a linha de fundo, sempre pela direita. Pois ainda
assim Garrincha recusou-se a desistir de provocar o riso nas
gerais. Primeiro, tentou a sorte no Corinthians e no Flamengo,
e o Brasil constatou que a festa acabara. O peso do mito garantiu-lhe
uma vaga na Seleção que disputou a Copa da Inglaterra,
mas então já não provocava calafrios
em zagueiro algum. Depois, circulou por times pequenos, como
o Olaria do Rio. Quando nem mesmo elencos bisonhos lhe ofereceram
vagas, apanhou suas chuteiras e vestiu a camisa 7 do Milionários,
um clube de veteranos de São Paulo - e com ela disputou
cerca de 500 jogos. "Era a nossa grande estrela",
diz João Mendes Toledo, porteiro do Teatro Bandeirantes
e dono do time. "Foi através do Milionários
que o povo brasileiro ficou conhecendo o Garrincha homem",
afirma Cezar Augusto Silva Lemos, ex-centroavante do Flamengo
e do Palmeiras.
Garrincha
desfilou em carro aberto antes de jogar em Tucurui, no Pará,
ou em Barra do Garças, em Mato Grosso. Mas já
não podia retribuir com jogadas os aplausos que marcavam
sua passagem pelas ruas. Nas arquibancadas, pais explicavam
a crianças intrigadas, às vezes céticas,
que aquele homem gordo, um tanto grisalho, que fazia arremedos
de gingas, fora o terror dos laterais do mundo inteiro. Na
quinta e sexta-feiras da semana passada, quando as principais
emissoras de televisão do Brasil dedicaram, em conjunto,
10 horas de transmissão à celebração
do mito de Garrincha, muitas dessas crianças certamente
compreenderam que os pais não exageravam.
A
maior parte do esplêndido futebol de Garrincha, porém,
não sobreviveu até o advento da era da memória
eletrônica. Em novembro, a TV Bandeirantes mostrou durante
30 minutos os gols de Leivinha, um já esquecido artilheiro
que passou pelo Palmeiras no começo dos anos 70. Na
quinta-feira, a emissora, dona do melhor arquivo esportivo
da televisão brasileira, teve de reprisar os mesmos
lances para reunir 5 minutos de jogadas de Garrincha. De qualquer
forma, foram 5 minutos suficientes para que, em milhares de
casas brasileiras, crianças que não puderam
ser pessoalmente apresentadas às mágicas pernas
tortas ouvissem de seus pais: "Eu não dizia?"
MUNDO
A PARTE - O ocaso trouxe para Garrincha a prova definitiva
de que conquistara o carinho nacional. "Ele nunca duvidou
disso", diz o neurologista Melo Reis. "O Garrincha
jamais pagou nada neste país, tudo para ele sempre
foi de graça, em qualquer loja, em qualquer bar."
Também por isso, apesar da inexorável deterioração
da sua vida p6s-futebol, não costumava ter problemas
financeiros dramáticos. O aluguel de sua casa - 40.000
cruzeiros mensais - era pago pela CBF. Ele recebia salários
de 270.000 cruzeiros da Legião Brasileira de Assistência,
teoricamente para ensinar futebol a crianças e possuía
um Chevette 1979. A cada jogo do Milionários ganhava
cachês de 150.000 cruzeiros. Garrincha viveu num pais
e numa época que, discretamente não o deixaram
ficar miserável. Mas no auge da carreira, ganhou muito
dinheiro e poderia ter sido um homem rico - como tantos outros
companheiros - não fosse ele Garrincha.
Depois
da Copa de 1962, interessado em disciplinar a vida financeira
do amigo, Nilton Santos apresentou-lhe o banqueiro José
Luiz Magalhães Lins. Na casa de Garrincha em Pau Grande,
Nilton Santos encontrou, espalhados em gavetas e armários,
cheques antigos, cédulas novas e maços de dólares.
Arrecadou tudo, transformou os dólares em cruzeiros
e entregou o total apurado a Magalhães Lins, que abriu
uma conta em nome de Garrincha no Banco Nacional. Tudo andou
bem até o correntista descobrir que cada folha de papel
do talão de cheques podia ser transformada em dinheiro.
O tamanho das cifras foi aumentando, o saldo, emagrecendo,
e Magalhães Lins achou mais sensato encerrar a conta.
Não era fácil ajudar Mané Garrincha.
Amigos
já o viram pagar 10.000 cruzeiros por uma corrida de
táxi que valia vinte vezes menos, ou 5.000 por uma
dose de conhaque. "Garrincha vivia num mundo à
parte", diz Gilmar, seu companheiro de Seleção
Brasileira em 1958 e 1962. "A esse mundo só tinham
livre acesso os passarinhos e um futebol abstrato e amador,
com muita festa." Tarnbém havia entrada franca
para o sexo feminino. "Ele adorava mulher, ficava incontrolável.
E as mulheres viviam procurando o Garrincha", endossa
o neurologista Melo Reis, que precisou demitir mais de uma
enfermeira de sua clínica para não complicar
a convalescença do irrequieto paciente.
HISTÓRIAS
PICARESCAS - Nas viagens do Botafogo e da Seleção,
pulava as janelas da concentração para só
retornar alta madrugada, um sorriso matreiro ne rosto. Na
Copa do Mundo de 1958, uma dessas escapulidas deu-lhe um filho
sueco, Ulf Lindenberg, hoje com 22 anos. "Não
sei o nome da mãe", dizia Garrincha nas entrevistas.
"Como poderia lembrar?" Essas histórias picarescas
do genial ponta-direita acentuaram a imagem do Garrincha docemente
irresponsável, meio apalermado. Melo Reis discorda.
"Ele nada tinha de tolo, muito menos de débil
mental, como dizia a lenda", esclarece o neurologista.
"Usou isso em proveito próprio. Era uma maneira
de escapar das ordens dos técnicos e, também,
de cultivar uma imagem de desamparado, que agrada as pessoas.
O ex-atacante Paulo Borges, que ficou bastante amigo de Garrincha
em dez anos de excursões do Milionários, tem
uma opinião semelhante. "Tudo o que ele fez foi
por opção própria", acredita Paulo
Borges. "O Garrincha sabia que outros queriam explorar
sua imagem ou ganhar alguma coisa com ela, mas simplesmente
não ligava para isso. Nunca foi levado ingenuamente,
sabia direitinho o que se passava à sua volta."
Nos últimos anos, nem sempre. Em 1980, por exemplo,
acabara de sair de mais uma internação quando
concordou em desfilar com a Mangueira, sobre um carro alegórico
adornado por uma réplica gigante da Copa Jules Rimet.
Foi
um triste espetáculo. Prostrado, semblante abatido,
quase sem forças para saudar o público, Garrincha
percorreu a Marquês de Sapucaí como se quisesse
mostrar a dimensão da própria queda. Mas novamente
pôde constatar o quanto era amado: foi delirantemente
aplaudido ao longo de todo o desfile por uma multidão
emocionada. Terminado o cortejo, Garrincha foi depositado
ao lado de um táxi cujo motorista, informado da direção
que o passageiro pretendia tomar, recusou-se a transportá-lo.
Testemunha da cena, um jornalista avisou ao motorista que
ali não estava um passageiro qualquer - aquele homem
era Mané Garrincha. O motorista prontamente concordou
em transportar a lenda.
FRASE
ESPERANÇOSA - Tantas demonstrações
de carinho, freqüentemente tocantes, às vezes
induziam Garrincha a acreditar que era possível recuperar
a alegria de viver. No dia 13 de janeiro, em sua última
aparição pública, inaugurou uma escolinha
de futebol em São João do Meriti, na Baixada
Fluminense, e comandou uma aula especialmente animada, cheia
de lições sobre dribles, atentamente absorvidas
por meninos pobres do lugar. Parecia o Garrincha que, ao receber
a visita do amigo Arnaud Araújo numa clínica
onde estava internado, fez uma frase esperançosa. "Depois
da meia-noite a tendência é clarear", disse.
"Estou sentindo que passou a minha noite e agora a vida
vai clarear." Dias depois, contudo, Garrincha não
apareceu para a segunda aula: a família avisou que
ele se embriagara.
É
que depois da meia-noite, e antes que clareasse, havia a madrugada
- e Garrincha já não tinha forças para
atravessá-la. A manhã da vida de Garrincha foi
curta, mas bastou para iluminar fortemente o mito. Ele não
repousa apenas no drible incomparável - que, para o
jornalista Armando Nogueira, era a própria negação
do drible, já que este consiste em fingir
uma coisa e fazer outra, e Garrincha simulava precisamente
o que acabaria fazendo. O mito de Mané Garrincha sobreviverá,
por exemplo, enquanto algum jogador empurrar a bola para fora
e permitir que um adversário machucado seja socorrido.
Porque foi ele quem popularizou esse gesto em meio às
batalhas no Maracanã.
O
nome de Garrincha também irá aflorar à
lembranqa dos torcedores sempre que, nas arquibancadas e gerais,
ecoar o grito de "olé". No começo
dos anos 60, na Cidade do México, o Botafogoo destroçou
o River Plate, da Argentina, graças às diabruras
do seu número 7, que levaram ao desespero o zagueiro
Vairo. A cada finta de Garrincha, a platéia mexicana
gritava "olé!" E o estádio quase veio
abaixo quando, ao cabo de uma infernal seqüência
de dribles, o berro coletivo foi precedido por um clarim a
tocar o trecho da ópera Carmen, que costurma animar
os grandes momentos das touradas. Os brasileiros souberam
do "olé" e a novidade conquistou as torcidas
do país.
COMPANHEIROS
DE VIAGEM - Para o botafoguense Agnaldo Timóteo,
que também pagou as despesas do enterro de Garrincha,
esse magnífico legado merecia ter mobilizado todos
os craques do presente para a despedida final. "Você,
o Sócrates, o Roberto, tiveram um comportamento mesquinho
não homenageando Garrincha", acusou Timóteo
numa conversa com Zico pelo telefone. "Vocês são
frutos do futebol-arte que ele implantou e hoje, milionários,
viram as costas ao grande mestre." Na verdade, Zico,
Sócrates e outros craques da atualidade não
tinham nenhum dever de compareccr ao enterro. E, como todos
os brasileiros, presentes ou não ao enterro, de alguma
forma lamentaram a morte da Alegria do Povo.
Além
do mais, ali estavam alguns grandes companheiros de viagem,
como Nilton Santos, o capitão Bellini, o legendário
Ademir Menezes, artilheiro da Copa de 1950, ou o goleiro Barbosa,
que sofreu na final hist6rica o gol de Gighia e, com ele,
a angústia da derrota frente ao Uruguai que silenciou
o Maracanã. O destino, que fez tortas as pernas de
Garrincha, também lhe fez torta a vida, e o gênio
das arrancadas solitárias seria a primeira estrela
da constelação que ganhou a Copa da Suécia
a apagar-se. Também por isso sua morte comoveu o Brasil.
Garrincha não teve tempo de chegar à velhice,
e o país não teve tempo de esquecer suas jogadas.
A tradição oral haverá de perpetuá-las,
e daqui a muitos anos gerações de brasileiros
crescerão sabendo que a mesma época que viu
Pelé viu, também, Mané Garrincha. Foi
outro presente dos deuses dos estádios ao país
do futebol.
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