|
Livres,
leves e soltos
Enquanto
Collor e PC levam uma
vida de cidadãos de bem, o país
escandaliza-se com a lentidão da
Justiça e a ciranda da impunidade
Ninguém
acredita na Justiça brasileira. Uma pesquisa do Ibope,
que ouviu 3.650 pessoas em fevereiro passado em todo o país,
mostra que o brasileiro tem um duro veredicto a dar sobre
a máquina criada para defender a lei e a ordem e garantir
o estado de direito no lugar da selvageria. Para 86% das pessoas
entrevistadas, o cidadão que infringe as leis tem boas
chances de se safar sem ser punido. Para 87%, a Justiça
é lenta demais. A esmagadora maioria dos brasileiros
acredita que, ao contrário do que se lê nos manuais
de advocacia e se avista nas tradicionais estátuas
fincadas na porta dos tribunais, a Justiça não
é cega. Para 80% dos entrevistados, ela persegue os
pobres e protege os ricos. O povo, infelizmente, está
certo.
Tente
lembrar de um tubarão que foi cumprir pena atrás
das grades. Impossível. Pense na sucessão de
escândalos que, há mais de uma década,
rendem manchetes nos jornais e provocam indignação,
como Coroa-Brastel, Capemi, Ferrovia Norte-Sul e tantos outros.
Ninguém foi punido. O brasileiro já tem, na
ponta da língua, uma lista de campeões da ladroagem.
Conforme apurou o Ibope, que convidou seus entrevistados a
apontar o nome do político mais desonesto do país,
o primeiro colocado é o presidente do PMDB, Orestes
Quércia, o tesoureiro PC Farias é o vice-campeão
e o ex-ministro Antonio Rogério Magri encontra-se em
terceiro lugar. A trinca está solta. Quércia
foi inocentado nos processos contra ele que foram levados
até o fim. Mas a maioria não acredita na inocência
do presidente do PMDB. O processo contra PC e Collor está
encalacrado no Supremo Tribunal Federal. Já Magri vai
bem, obrigado, está soltinho da Silva. A imagem da
Justiça nacional piora, e muito, quando comparada ao
que ocorre agora na Itália. Há doze meses, irrompeu
na Itália um vulcão de maracutaias bastante
semelhante ao da quadrilha Collor-PC. Só existe uma
diferença. Em um ano de investigações,
mais de 1.000 grandes empresários, políticos
e altos funcionários públicos passaram pelo
menos uma noite na cadeia, e cerca de 300 figurões
foram indiciados.
HUMILHAÇÃO
- Chega a ser humilhante, ainda, constatar que o único
envolvido no caso Collor-PC punido pela Justiça até
agora é um americano. Na mesma época em que
Pedro Collor denunciava a quadrilha, William Black, um mecânico
aposentado de 63 anos que mora na Flórida, foi pego
falsificando um punhado de certificados para exportar aviões.
Falsificou três desses documentos para PC Farias. Quem
deu a pista para o FBI caçá-lo foi o Departamento
de Aviação Civil do Brasil, que constatou a
entrada de aviões com documentos falsos no país.
"Os meus clientes sabiam que meu trabalho era ilegal.
Só que custava 4.000 dólares mais barato",
diz o americano. Passados dez meses, Black já foi condenado
a 21 meses de prisão, recorreu do tamanho da sentença
para ver se pega três meses menos, mas seu futuro próximo
é assunto resolvido. No dia 30 de abril, Black sairá
de sua casa rumo à prisão federal na base aérea
de Eggland, na Flórida. Na França também
se descobriu um esquema semelhante ao de Collor-PC até
pelo aspecto logístico. Um ricaço chamado Pierre
Botton, tesoureiro de várias campanhas eleitorais,
que mantinha empresas fantasmas para esconder a origem criminosa
de sua fortuna, foi denunciado em maio do ano passado, no
mesmo mês em que Pedro Collor deu sua entrevista a VEJA.
Botton ainda não foi condenado, mas seis meses depois
o recolheram a uma cela em Lyon, onde passa os dias na companhia
apenas de um aparelho de televisão. Ele aguarda julgamento
na cadeia porque se temia que, em liberdade, pudesse criar
obstáculos à ação da Justiça.
Quem sabe Botton não reunisse amigos para forjar uma
Operação Uruguai?
Por
que a maioria não acredita na Justiça brasileira?
Há uma montanha de problemas acumulados. As leis penais
brasileiras são de 1940 e não servem para o
Brasil de hoje. Há décadas se discute a necessidade
de promover uma reforma do Código Penal para livrá-lo
de dezenas de anacronismos. Todo ministro da Justiça
toma posse dizendo-se solenemente preocupado com a tarefa,
mas nenhum consegue ao menos encaminhar as dificuldades mais
prementes. Além disso, há carências enormes
mesmo para cumprir as leis que estão em vigor, o que
já seria um tremendo progresso. Com 150 milhões
de pessoas, o Brasil tem 7.000 juízes, enquanto a Alemanha
tem 120.000 para uma população de 80 milhões.
Como é óbvio que, além de ter mais juízes,
os alemães têm menos criminosos de todos os tipos
espalhados por seu país, cria-se uma situação
absurda.
AUDIÊNCIA
DE 10.000 DÓLARES - "Essa deficiência
torna a Justiça morosa e provoca o descrédito
da sociedade", diz o ministro Antonio Torreão
Braz, do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília,
encarregado de dar a sentença final para casos que
não foram resolvidos nas instâncias inferiores.
Na semana passada, o STJ dispunha de 33 juízes encarregados
de examinar 34.000 processos. Supondo-se, numa hipótese
radiante de otimismo, que cada um deles seja capaz de examinar
e despachar um caso a cada dois dias, não irão
encerrar o trabalho antes do ano 2000 - quando, naturalmente,
uma nova pilha de processos, quase do mesmo tamanho, já
estará acumulada em seus gabinetes. A pesquisadora
Maria Tereza Sadek, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos,
Idesp, ouviu 351 juízes de todo o país e colheu
uma unanimidade: 100% dos juízes acham que os processos
são lentos demais. Mais: 68% acreditam que há
excesso de formalidades nos fóruns.
Quando
não há falta de profissionais, há excesso
de profissionais mal formados. Em São Paulo, o Instituto
dos Advogados chegou a criar um curso para preparar candidatos
a juiz ou promotor. Todo ano, são cerca de 2.000 bacharéis
à procura de matrícula para aprender o que deveriam
saber ao deixar a universidade. "O pior é que
a cada ano a qualidade dos matriculados cai", diz o advogado
Jorge Lauro Celidônio, diretor do curso. Coroando a
precariedade geral do sistema judiciário, existem problemas
menos conhecidos: a corrupção e a vassalagem.
Nos tribunais superiores, onde juízes e ministros são
indicados por presidentes e governadores, em diversos casos
observa-se a existência de um código de submissão
e obediência ao padrinho. A corrupção,
que a Justiça deveria punir, é outra chaga no
caminho da impunidade. Em São Paulo, o juiz federal
João Carlos da Rocha Mattos, afastado de suas funções
há três meses, responde a uma sindicância
pela suspeita de tentar vender por 2 milhões de dólares
uma sentença de absolvição, num processo
de narcotráfico. O titular de uma das cinco maiores
bancas de advocacia de São Paulo conta que, numa ocasião,
precisou de um habeas-corpus urgente para seu cliente, um
diretor de uma multinacional. Voou até Brasília
e quis conversar com o juiz. Só para ter acesso ao
gabinete do juiz, teve de desembolsar 10.000 dólares.
O habeas-corpus, em compensação, foi assinado
antes que o advogado aterrissasse de volta em Guarulhos.
A
polícia, que deveria reunir provas de que os juízes
necessitam para condenar um criminoso, tem um problema idêntico.
Numa tese apresentada na Universidade de São Paulo,
constata-se que de 60.000 inquéritos recebidos pela
Justiça paulista 17.000 foram mandados de volta à
polícia para investigações complementares
e 19.000 arquivados por falta de provas - sinônimo de
incompetência policial. "A polícia hoje
não faz investigação. Apenas apura burocraticamente
o que a imprensa denuncia", afirma Francisco Garisto,
presidente da Associação dos Policiais Federais.
Em São Paulo, por exemplo, existem 2.000 inquéritos
para cada delegado. É claro que a maioria nunca foi
examinada. Mesmo nos casos em que a polícia cumpre
seu papel e a Justiça envia o criminoso para a cadeia,
surge outra dificuldade. O sistema penitenciário está
falido. Juntas, as delegacias de polícia e as 210 prisões
do Brasil têm capacidade para 51.000 presos, mas abrigam
126.000. Para piorar, existem 175.000 mandados de prisão
para ser cumpridos no país. Ou seja: para prender todos
seria preciso erguer 700 presídios.
"IDENTIFICAÇÃO
DE CLASSE" - O melhor retrato do trabalho da Justiça
e da polícia, no Brasil, encontra-se nas penitenciárias.
Em 1988 o advogado Técio Lins e Silva, ex-secretário
de Justiça do Rio de Janeiro, fez uma pesquisa junto
a 8.700 presos nesse Estado. Descobriu que 67% eram negros
ou pardos, e as profissões mais comuns eram de operário
da construção civil, vendedor, feirante e camelô,
que, em sua maioria, haviam cometido assaltos e pequenos furtos.
O levantamento de Lins e Silva também teve o mérito
de mostrar com que crimes a Justiça está preocupada.
O advogado observou que delitos menores, como a vadiagem,
mereceram 221 menções nas fichas dos prisioneiros,
mas não havia um único preso por uso irregular
do dinheiro público ou exploração de
prestígio. Ou seja: não havia um PC na prisão.
"Os crimes do colarinho-branco são raramente punidos,
porque seus criminosos são pessoas próximas
do poder e da elite que faz as leis", acusa Lins e Silva.
O
Conselho de Política Penitenciária e Criminal,
órgão do Ministério da Justiça,
está concluindo um censo sobre os presos no Brasil.
Chegou a números idênticos. Dos 126.000 prisioneiros,
93% são absolutamente pobres. Tão pobres que
95% não têm condições de pagar
um advogado para defendê-los, dado que é decisivo
no destino de um criminoso. "Nos crimes convencionais,
como roubo, furto, homicídio e seqüestro, só
há impunidade quando a polícia não descobre
o autor", afirma o advogado Evaristo Moraes Filho, que
defendeu o ex-presidente Collor até sua renúncia.
"Os juízes não têm identificação
de classe com esses criminosos. Eles geralmente pertencem
a outro meio sócio-econômico. Quando se trata
do colarinho-branco, a situação é diferente",
completa.
A
PENA DOS RICOS - A opção preferencial pelos
bandidos pobres já criou algumas situações
patéticas toda vez que policiais e juízes foram
colocados diante de criminosos mais endinheirados. Recentemente,
uma gerente de banco foi levada à frente de um delegado
da Polícia Federal que investigava o caso Collor-PC
para dar explicações sobre o mercado do dólar.
"O delegado não entendia nada. Cada vez que um
documento do Banco Central era mencionado, precisávamos
explicar tudo tintim por tintim", diz o advogado Marcio
Thomaz Bastos. "Ele simplesmente não fora treinado
para apurar crimes financeiros." Em março de 1991,
quando ocorreu o escândalo do café na Bolsa de
Nova York, o primeiro da era Collor, a Polícia Federal
despachou um delegado para investigar a mutreta. Ao chegar
a Nova York, o delegado quis saber onde estavam estocadas
as sacas de café. Não sabia que, nos negócios
da bolsa, circulam papéis e não mercadorias.
Sua conversa com as autoridades americanas encerrou-se aí.
Episódios
assim podem criar a impressão de que a polícia
brasileira é geneticamente incapaz de apurar casos
de corrupção, que seriam mais difíceis
de destrinchar e ainda mais complicados de demonstrar com
provas inquestionáveis diante de um juiz. Não
é verdade. No censo penitenciário do Ministério
da Justiça descobriu-se que 5% dos presos foram condenados
por falcatruas envolvendo o Erário. São fiscais
que pediram propina, funcionários públicos que
solicitaram um "por fora" na repartição.
Entre eles não se encontra nenhum figurão. "Isso
mostra que a Justiça só funciona para os pobres
e a única pena dos ricos hoje em dia é pagar
um bom advogado", afirma Edmundo Oliveira, diretor do
Conselho Penitenciário do ministério.
ESPECIALISTAS
EM CHICANAS - Num país de leis antiquadas e Justiça
lenta, advogados caros e imensas desigualdades sociais, desenvolveu-se
uma tecnologia peculiar em nome da lei e da ordem. A sonegação
de impostos é estimada em 50 bilhões de dólares
por ano, mas desde 1988 ninguém é preso por
fraudar o Fisco. Em qualquer caso, raramente um empresário
ou político conhecido é levado aos tribunais
para se defender das acusações que pesam contra
ele. O processo se encerra antes, quando ocorre a prescrição
da pena. Para tanto, um bom advogado promove o que se chama
de chicana jurídica - apegar-se a formalidades e artifícios
que façam o processo se arrastar e acabar caducando.
"Com leis envelhecidas e todos os problemas que se conhecem,
estamos formando especialistas em chicanas", afirma o
advogado Saulo Ramos, um dos mais caros e respeitados do país.
Desde
1989 o empresário Naji Nahas, por exemplo, responde
a um processo por ter passado um cheque sem fundos de 29 milhões
de dólares na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Seus
advogados conseguiram levar o processo da primeira instância,
na Justiça Federal, para o Superior Tribunal de Justiça,
em Brasília. No início do mês, o STJ concluiu
que a perícia que incriminava o empresário fora
malfeita, anulou uma sentença de prisão por
quatro anos, determinada anteriormente, e o caso voltou à
estaca zero. Ponto para Nahas. Vai começar tudo de
novo. As mesmas testemunhas serão ouvidas, os agentes
da Polícia Federal farão novas investigações,
os peritos repetirão seu trabalho. O empresário
já conseguiu arrastar o caso por quatro anos. Se ganhar
mais seis, o crime prescreve. "Os advogados nem tentam
mais provar a inocência de seus clientes", afirma
o ministro da Justiça, Maurício Corrêa.
"Preferem gastar suas energias e conhecimentos em artimanhas
para ganhar tempo."
Na
situação a que chegou, a Justiça perdeu
seu principal poder, que é ter a palavra final sobre
um acusado. Pode condená-lo ou não, mas sua
sentença sempre será colocada em dúvida.
O fato é que ela perdeu a credibilidade para informar,
ao cidadão comum, quem é inocente e quem é
culpado. É uma situação vexatória
para as vítimas de calúnia e bastante confortável
para os culpados em liberdade. Por que acreditar que Nahas
é culpado se José Ermírio de Moraes,
que admitiu ter pago propina a PC Farias, pode ficar solto,
ou vice-versa? Por que duvidar da inocência de Orestes
Quércia se Alceni Guerra foi inocentado e PC Farias
continua expandindo seus negócios?
Na
verdade, o problema crucial da Justiça é mais
antigo que o país. Rouba-se, no Brasil, desde os tempos
da colônia. Não é de hoje que se constata
a falta de juízes nem foi ontem que se descobriu que
existem leis anacrônicas no Código Penal. Diferente
da Itália pela cultura, pelo tamanho do PIB e pela
paisagem social, é óbvio que o Brasil não
poderia ter uma Justiça capaz de funcionar da mesma
maneira. Mas algo pode ser feito. Já. É estabelecer
o consenso de que não se pode construir um país
envenenado pela impunidade, pela desigualdade e pela hipocrisia.
E essa é uma questão mais profunda que constatar
o despreparo da polícia ou a lentidão do Judiciário.
A pergunta é: por que o país convive há
tanto tempo com policiais despreparados e com uma Justiça
emperrada? Por que não se toma nenhuma providência
para resolver o problema?
Isso
acontece porque a população pode ficar indignada,
mas a nação, como um conjunto, ainda não
se convenceu de que a lei e a ordem são indispensáveis
para um convívio civilizado. Cidadãos que trabalham
honestamente de manhã até a noite para sustentar
a família consideram-se no direito de manter esquadrões
da morte para executar bandidos. Figuras de sobrenome ilustre
e gabinetes bem decorados mantêm um caixa dois semelhante
ao de banqueiros do jogo do bicho. Essa é a questão
central que o país precisa resolver. Com a falta de
consenso, os brasileiros com o privilégio de viver
no topo da pirâmide sentem-se acima da lei. A ex-prefeita
de São Paulo Luiza Erundina, condenada a ressarcir
os cofres públicos em 1,3 milhão de dólares,
revoltou-se contra a sentença. "Saí da
prefeitura mais pobre do que quando entrei. Tenho um apartamento
em São Paulo e uma casa velha na Paraíba. Não
dá para bancar uma conta de bilhões", afirmou.
A ex-prefeita não compreendeu que a Justiça
não avaliou seu patrimônio pessoal, mas sua decisão
sobre gastar dinheiro público com publicidade para
defender o aumento do IPTU. Quando se estabeleceu o consenso
de que não era mais possível viver sob o regime
militar, iniciou-se a campanha pelas diretas e o país
retornou à democracia. Ao se constatar que a corrupção
da quadrilha da Dinda levaria a nação à
ruína, destituiu-se o presidente. Falta fazer o mesmo
com a Justiça.
|