Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
Brasil Banco Central

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
 

Salvatore Cacciola chantageou Chico Lopes
O tempo de ACM se esgota
Brindeiro arquiva o caso Banpará
Brasil fica sozinho na luta contra laboratórios
Interesses suspeitos no Conselho Nacional de Educação

Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Notas internacionais
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Como o escândalo
foi abafado

"SÓ CONTO DEZ ANOS DEPOIS DA MINHA MORTE"
Do ministro da Fazenda,
Pedro Malan, em conversa com senadores

 
Dida Sampaio/AE
Ricardo Stuckert
O ministro Pedro Malan, que ainda sustenta jamais ter sabido de uma chantagem, e o ex-ministro Clóvis Carvalho, que foi escalado para monitorar as crises e ameaças veladas de Chico Lopes contra o governo federal: versão de que os dólares de Chico Lopes eram fruto de herança paterna


Veja também
Como funcionava o esquema Chico Lopes
Como Cacciola chantageou o governo

Estamos em abril de 1999. Um grupo de procuradores consegue autorização para vasculhar o apartamento de Chico Lopes, no Rio de Janeiro – e encontra um bilhete explosivo. O bilhete, manuscrito por Sérgio Bragança, sócio de Chico Lopes numa consultoria, informava que o ex-presidente do BC tinha 1,6 milhão de dólares no exterior. A visita dos procuradores espalha apreensão em Brasília. Os ministros Pedro Malan, da Fazenda, e Clóvis Carvalho, que ocupava a Casa Civil, ligam para seu colega da Justiça, Renan Calheiros. Querem saber o que está acontecendo. Até o presidente Fernando Henrique, que acabara de chegar à Europa para uma viagem de uma semana, telefona. Do governo, ouvem-se protestos contra a arbitrariedade dos procuradores. O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, chega a convocá-los a Brasília para tomar satisfações. Não havia arbitrariedade, a operação era inteiramente legal – mas existia um problema: Chico Lopes podia se revoltar e contar tudo.

Diante da evidência de que o ex-presidente do BC tinha dólares no exterior, que jamais foram declarados à Receita, as autoridades, que até então faziam uma defesa férrea de Chico Lopes, mudaram o tom. Temendo ser abandonado, Chico Lopes reuniu seus advogados e definiu uma estratégia: mandar sinais ao governo de que, se fosse encurralado, poderia abrir o bico. Nessa época, chegou a Brasília um comentário que Chico Lopes teria feito – "estou depressivo e sou capaz de fazer uma besteira" –, logo interpretado como uma ameaça até de suicídio. Era mesmo uma ameaça, mas a besteira era outra: admitir a chantagem de que fora vítima, envolvendo o governo. Clóvis Carvalho, da Casa Civil, foi encarregado de esfriar os ânimos. Sua primeira providência foi espalhar que os dólares de Chico Lopes no exterior eram fruto de uma herança paterna – versão que sumiu tão repentinamente quanto apareceu.

 
Ana Araujo
Dida Sampaio/AE
Ricardo Liao e Tereza Grossi, que participaram do acobertamento do socorro dado pelo Banco Central ao Marka e ao FonteCindam. Na época, os dois já trabalhavam na área de fiscalização. De lá para cá, ambos foram promovidos

Nunca se soube o que de fato aconteceu nos bastidores do governo quando se descobriu que Chico Lopes despachara um socorro de 1,6 bilhão de reais para o Marka e o FonteCindam. Chico Lopes informou seus superiores de que estava sendo chantageado por Cacciola? O ministro da Fazenda, Pedro Malan, ficou sabendo de tudo? "Só conto dez anos depois de minha morte", respondeu Malan, quando perguntado, um mês depois, sobre os verdadeiros motivos da demissão de Chico Lopes. O presidente Fernando Henrique foi informado do que se passava? Até hoje, o presidente mantém a versão de que só demitiu Chico Lopes porque sua gestão da mudança cambial foi um desastre – e que jamais tomara conhecimento da existência de qualquer esquema de vazamento de informação no BC.

O certo é que a cúpula do BC tentou esconder do país a ajuda oferecida aos bancos Marka e FonteCindam. Quando se soube da venda de dólar mais barato aos dois bancos, o BC não admitiu a clandestinidade da operação. Disse que o socorro só saiu porque, no mesmo dia, recebera uma carta da Bolsa de Mercadorias & Futuro (BM&F) dizendo que a falência dos dois bancos poderia colocar em risco todo o sistema bancário. Descobriu-se, em seguida, que a carta fora encomendada pelo próprio BC, seus termos foram exaustivamente negociados por Tereza Grossi, já então no setor de fiscalização, e só foi recebida por Ricardo Liao no dia seguinte à liberação da ajuda. Sabe-se agora que o BC até orientou fiscais para, em seus relatórios, informar que o dinheiro saiu por meio da Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários do Banco do Brasil. A revelação foi feita pelo então chefe da fiscalização do BC no Rio, Abelardo Duarte de Melo, em depoimento à Polícia Federal.

O outro dado indica que Chico Lopes estava demitido logo depois da mudança cambial de 13 de janeiro de 1999 – uma forte sugestão de que a cúpula do governo tomou conhecimento da chantagem e agiu de imediato. Uma semana após a desvalorização do real, o ministro Pedro Malan ligou para o então presidente do Senado com o objetivo de adiar a sabatina de Chico Lopes, prevista para 28 de janeiro, sem a qual ele não poderia ser efetivado no comando do BC. Por que Malan queria adiar? Ninguém sabe, mas, apenas uma semana depois de ser ouvido pelos senadores, Chico Lopes foi defenestrado do BC. Na semana passada, Malan disse a VEJA que não sabe de nada. "Nunca ouvi falar em chantagem." Chico Lopes, consultado pela revista, disse: "Não tenho nada a declarar sobre esse assunto". O ex-presidente do Banco Central jamais foi abandonado e responde a processo na Justiça. Tereza Grossi e Ricardo Liao foram promovidos. Cacciola, foragido na Itália, foi visto na semana passada assistindo ao tenista Gustavo Kuerten disputar a final do torneio de Roma. Guga perdeu.

 

 

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS