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Como
o escândalo
foi abafado
"SÓ
CONTO DEZ ANOS DEPOIS DA MINHA MORTE"
Do ministro
da Fazenda, Pedro
Malan, em conversa com
senadores
Dida Sampaio/AE
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Ricardo Stuckert
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| O
ministro Pedro Malan, que ainda sustenta jamais ter sabido de uma
chantagem, e o ex-ministro Clóvis Carvalho, que foi escalado para
monitorar as crises e ameaças veladas de Chico Lopes contra o governo
federal: versão de que os dólares de Chico Lopes eram fruto de herança
paterna |

Veja também |
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Estamos
em abril de 1999. Um grupo de procuradores consegue autorização
para vasculhar o apartamento de Chico Lopes, no Rio de Janeiro
e encontra um bilhete explosivo. O bilhete, manuscrito por Sérgio
Bragança, sócio de Chico Lopes numa consultoria, informava
que o ex-presidente do BC tinha 1,6 milhão de dólares no
exterior. A visita dos procuradores espalha apreensão em Brasília.
Os ministros Pedro Malan, da Fazenda, e Clóvis Carvalho, que ocupava
a Casa Civil, ligam para seu colega da Justiça, Renan Calheiros.
Querem saber o que está acontecendo. Até o presidente Fernando
Henrique, que acabara de chegar à Europa para uma viagem de uma
semana, telefona. Do governo, ouvem-se protestos contra a arbitrariedade
dos procuradores. O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro,
chega a convocá-los a Brasília para tomar satisfações.
Não havia arbitrariedade, a operação era inteiramente
legal mas existia um problema: Chico Lopes podia se revoltar e
contar tudo.
Diante da evidência de que o ex-presidente do BC tinha dólares
no exterior, que jamais foram declarados à Receita, as autoridades,
que até então faziam uma defesa férrea de Chico Lopes,
mudaram o tom. Temendo ser abandonado, Chico Lopes reuniu seus advogados
e definiu uma estratégia: mandar sinais ao governo de que, se fosse
encurralado, poderia abrir o bico. Nessa época, chegou a Brasília
um comentário que Chico Lopes teria feito "estou depressivo
e sou capaz de fazer uma besteira" , logo interpretado como uma
ameaça até de suicídio. Era mesmo uma ameaça,
mas a besteira era outra: admitir a chantagem de que fora vítima,
envolvendo o governo. Clóvis Carvalho, da Casa Civil, foi encarregado
de esfriar os ânimos. Sua primeira providência foi espalhar
que os dólares de Chico Lopes no exterior eram fruto de uma herança
paterna versão que sumiu tão repentinamente quanto
apareceu.
Ana Araujo
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Dida Sampaio/AE
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| Ricardo
Liao e Tereza Grossi, que participaram do acobertamento do socorro
dado pelo Banco Central ao Marka e ao FonteCindam. Na época,
os dois já trabalhavam na área de fiscalização.
De lá para cá, ambos foram promovidos |
Nunca
se soube o que de fato aconteceu nos bastidores do governo quando se descobriu
que Chico Lopes despachara um socorro de 1,6 bilhão de reais para
o Marka e o FonteCindam. Chico Lopes informou seus superiores de que estava
sendo chantageado por Cacciola? O ministro da Fazenda, Pedro Malan, ficou
sabendo de tudo? "Só conto dez anos depois de minha morte", respondeu
Malan, quando perguntado, um mês depois, sobre os verdadeiros motivos
da demissão de Chico Lopes. O presidente Fernando Henrique foi
informado do que se passava? Até hoje, o presidente mantém
a versão de que só demitiu Chico Lopes porque sua gestão
da mudança cambial foi um desastre e que jamais tomara conhecimento
da existência de qualquer esquema de vazamento de informação
no BC.
O certo é que a cúpula do BC tentou esconder do país
a ajuda oferecida aos bancos Marka e FonteCindam. Quando se soube da venda
de dólar mais barato aos dois bancos, o BC não admitiu a
clandestinidade da operação. Disse que o socorro só
saiu porque, no mesmo dia, recebera uma carta da Bolsa de Mercadorias
& Futuro (BM&F) dizendo que a falência dos dois bancos poderia
colocar em risco todo o sistema bancário. Descobriu-se, em seguida,
que a carta fora encomendada pelo próprio BC, seus termos foram
exaustivamente negociados por Tereza Grossi, já então no
setor de fiscalização, e só foi recebida por Ricardo
Liao no dia seguinte à liberação da ajuda. Sabe-se
agora que o BC até orientou fiscais para, em seus relatórios,
informar que o dinheiro saiu por meio da Distribuidora de Títulos
e Valores Mobiliários do Banco do Brasil. A revelação
foi feita pelo então chefe da fiscalização do BC
no Rio, Abelardo Duarte de Melo, em depoimento à Polícia
Federal.
O outro dado indica que Chico Lopes estava demitido logo depois da mudança
cambial de 13 de janeiro de 1999 uma forte sugestão de que
a cúpula do governo tomou conhecimento da chantagem e agiu de imediato.
Uma semana após a desvalorização do real, o ministro
Pedro Malan ligou para o então presidente do Senado com o objetivo
de adiar a sabatina de Chico Lopes, prevista para 28 de janeiro, sem a
qual ele não poderia ser efetivado no comando do BC. Por que Malan
queria adiar? Ninguém sabe, mas, apenas uma semana depois de ser
ouvido pelos senadores, Chico Lopes foi defenestrado do BC. Na semana
passada, Malan disse a VEJA que não sabe de nada. "Nunca ouvi falar
em chantagem." Chico Lopes, consultado pela revista, disse: "Não
tenho nada a declarar sobre esse assunto". O ex-presidente do Banco Central
jamais foi abandonado e responde a processo na Justiça. Tereza
Grossi e Ricardo Liao foram promovidos. Cacciola, foragido na Itália,
foi visto na semana passada assistindo ao tenista Gustavo Kuerten disputar
a final do torneio de Roma. Guga perdeu.
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