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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Como Cacciola chantageou
o governo

"CHICO É UM PICARETA, UM SAFADO, UM LADRÃO"
De Salvatore Cacciola, sobre o ex-presidente do BC, Chico Lopes


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O bilhete que Cacciola escreveu a Chico Lopes, com o enigmático "esquecer tudo" no final, e o banqueiro em Roma, onde está foragido, assistindo à final do jogo de Gustavo Kuerten: uma bazuca de chantagem


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Como funcionava o esquema Chico Lopes
Como o escândalo foi abafado

Estamos em agosto de 1998. Com o colapso da Rússia, a economia brasileira sente a turbulência e o mercado fica agitado. O banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, dono do Marka, desconfia que seus informantes junto ao Banco Central andam lhe contando só metade do que sabem. Para certificar-se, resolve apelar para um estratagema ilegal. Numa amistosa conversa com Luiz Augusto Bragança, Cacciola sugere ao interlocutor uma varredura em seus aparelhos para saber se estão grampeados. "É por segurança", diz Cacciola, acrescentando que conhece quem poderia fazer o serviço. Sem perceber o truque, Bragança lhe d&ueiro Salvatore Alberto Cacciola, dono do Marka, desconfia que seus informantes junto ao Banco Central andam lhe contando só metade do que sabem. Para certificar-se, resolve apelar para um estratagema ilegal. Numa amistosa conversa com Luiz Augusto Bragança, Cacciola sugere ao interlocutor uma varredura em seus aparelhos para saber se estão grampeados. "É por segurança", diz Cacciola, acrescentando que conhece quem poderia fazer o serviço. Sem perceber o truque, Bragança lhe dá os números de todos os telefones fixos e celulares seus e dos parceiros no esquema de vazamento de informação. Era a armadilha.

Cacciola contrata a Warranty Security para fazer a varredura. Na empresa, trabalhava um especialista em grampo. Ele mesmo: Temílson de Resende, o Telmo, que mais tarde ganharia fama como suspeito número 1 de ter instalado o grampo no BNDES. Com a escuta nos telefones de Bragança, Cacciola passa a conhecer os meandros do esquema de vazamento do BC. Descobre que os informantes tinham uma relação especial com o banqueiro André Esteves, do Pactual, e repassavam dados sigilosos a outros dois bancos cariocas. Fica sabendo que os clientes do esquema recebiam informações mais completas que as suas. Mas, agora com domínio sobre o que se passava, Cacciola aumentou seu cacife sobre os informantes. E usou-o poderosamente.


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O recibo ao lado derruba a argumentação de Cacciola de que só se aproximou de Bragança em 1999

Em 9 de setembro de 1998, o mercado estava em polvorosa com a crise russa. No dia seguinte, o BC faria uma reunião para discutir a taxa de juros. Cacciola queria saber tudo sobre a reunião. Despachou Bragança para Brasília. Num jatinho da Líder Táxi Aéreo, prefixo PT-WHC, Bragança levantou vôo do aeroporto Santos Dumont às 21h35 e pousou em Brasília às 23h19. Foi para o hotel Saint Paul e hospedou-se no apartamento 1029. Ao chegar, ligou para Rubens Novaes, que se encarregava de repassar as informações aos clientes do esquema. Discou o número 491-3329, no Rio. Falou com Novaes durante cinqüenta minutos. O araponga de Cacciola também gravou o conteúdo desse telefonema.


Antonio Milena
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Jato da Líder: Cacciola negou mas a nota fiscal prova que o banco Marka pagou a viagem de Bragança a Brasília em setembro de 1998

Na manhã seguinte, 10 de setembro, Bragança encontrou-se com Chico Lopes. Na mesma manhã, Chico Lopes tentou tranqüilizar o mercado. Em entrevistas, disse que talvez nem fosse preciso aumentar os juros, que já estavam elevados, 29% ao ano. À tarde, Bragança tomou o mesmo jatinho da Líder de volta ao Rio – mas antes ligou para a namorada, Regina Bittencourt Sampaio, e avisou que não poderia acompanhá-la, como estava combinado, na viagem à Europa. "Problemas na bolsa", justificou. A namorada viajou sozinha. O aluguel do avião de Bragança foi pago pelo Marka de Cacciola: 10.500 reais – detalhe que desmonta a versão do banqueiro, mantida até hoje, de que só se socorreu de Bragança em 1999. Com cartão Mastercard, Bragança pagou o hotel: 222,83 reais. À noite, depois das 22 horas, o BC anunciou um estratosférico aumento dos juros, de 29% para 49%. Cacciola ficou deliciado.

Todos os integrantes do esquema estavam deliciados. Em 22 de setembro, Bragança mandou um fax à namorada, que se encontrava em Roma, explicando que valera a pena o sacrifício de não acompanhá-la na viagem. "Gostaria de comunicar que estou ficando rico, pelo menos bem encaminhado. Nada na vida é gratuito. Perdi a viagem com você, em compensação estou tendo ganhos materiais substanciais." Depois, em outro fax, explicou: "A imagem correta é de um bueiro após uma enchente. Só que aí a água corre para fora. Comigo o aguaceiro está entrando. Que maravilha!!! Vamos gastar (mas não agora), mas em tempo, ao redor do mundo..."

Os meses seguintes seriam de intenso nervosismo. O mercado passou a especular, cada vez com mais intensidade, que o real seria desvalorizado. Com base em suas fontes, Bragança e Novaes apostavam que a guinada cambial não aconteceria antes de fevereiro de 1999 e orientavam seus clientes a manter suas posições. De fato, a idéia inicial do governo era só desvalorizar a moeda em fevereiro, mas as turbulências acabaram precipitando a mudança para 13 de janeiro de 1999. O Marka não foi avisado a tempo – e a virada cambial o levou ao naufrágio. Parece paradoxal que Cacciola tenha naufragado por ter acesso a informação privilegiada – e não o contrário. O próprio banqueiro já disse a amigos que não foi informado a tempo. É provável. A adoção da banda larga que acabou detonando a desvalorização foi precipitada pela fuga de dólares. O Pactual não foi à lona porque nem toda a direção do banco sabia do esquema de informação privilegiada. A diretoria ficou dividida quanto a manter sua aposta na estabilidade do real. Graças a isso, a instituição acabou escapando do terremoto.

Com seu banco triturado pela crise, Cacciola se desesperou. Numa reunião com investidores que haviam perdido quase tudo, o banqueiro anunciou que iria a Brasília com bala na agulha. "Estou indo a Brasília com uma bazuca", disse. No dia seguinte à desvalorização, tomou um jatinho para Brasília junto com Bragança e Novaes. Na viagem, revelou aos dois qual era a bazuca: as fitas com as conversas grampeadas mostrando o vazamento de informações. Ou eles convenciam Chico Lopes a lhe ajudar, ou denunciaria todo o esquema, com provas. Era o começo de uma operação de chantagem que custaria 1 bilhão de reais aos cofres públicos. Outros 600 milhões seriam gastos para salvar outro banco, o FonteCindam. Mas isso são outros quinhentos.

Em Brasília, enquanto Cacciola conversava com técnicos do BC, Bragança fazia sua parte com Chico Lopes. O então presidente resistia a ajudar Cacciola, mas desmoronou quando Bragança lhe contou a novidade: Cacciola tinha um pacote de fitas sobre o vazamento. Encerrada a conversa, Bragança voltou ao hotel, o mesmo Saint Paul de quatro meses atrás, e ligou para uma amiga. No diálogo, resumiu seu drama sem dar detalhes: "Estou sendo chantageado". As negociações, que resultariam na venda de dólar ao Marka por um preço inferior ao de mercado, calculado na medida para que Cacciola perdesse o banco mas preservasse seu patrimônio pessoal, foram tumultuadas. Cacciola escreveu um bilhete a Chico Lopes. Pediu-lhe que tentasse fazer com que os técnicos da fiscalização fossem menos rigorosos. E concluía o bilhete dizendo que, se ajudado, iria recomeçar sua vida e "esquecer tudo".

Cacciola perdeu o banco, chegou a passar quase um mês na prisão e hoje está foragido na Itália. Há três semanas, de Roma, ele conversou com VEJA. Fiel à sua promessa de "esquecer tudo", negou que esteja de posse das fitas, mas não se conteve em falar mais abertamente sobre o esquema. "Todas as quintas-feiras havia uma reunião na casa do Chico Lopes com os Bragança. Chico é um picareta, um safado, um ladrão. Eles repassavam as informações que recebiam. O Luiz (Augusto Bragança) ficava com os banquinhos. O Sérgio (Bragança, irmão de Luiz Augusto), com os bancões. O Pactual ganhou muito dinheiro com as informações da turma do Chico. O único prejudicado nessa história fui eu. Quem montou o esquema foi o Luiz Cesar (Fernandes, ex-presidente do Pactual), que, depois de ganhar muito dinheiro, chantageou seus sócios para vender sua parte no banco. Fui usado em toda essa história. Só não dei um tiro na cabeça não sei por quê. Tenho catorze fitas de reportagem de TV, um disquete e 1 497 folhas de matérias publicadas. Estou juntando tudo para um dia mostrar a verdade."

 



 
 
   
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