Livros
22 de junho de 2005
 
 

Trecho do livro Norwegian Wood,
de Haruki Murakami

Capítulo 1

Eu tinha 37 anos e estava a bordo de um Boeing 747. A imensa aeronave descia atravessando densas nuvens carregadas de chuva, preparando-se para aterrissar no aeroporto de Hamburgo. Sob a chuva fina e fria de novembro, tingindo a terra de um tom escuro, tudo se revestia do ar melancólico das paisagens retratadas nas pinturas da escola de Flandres: os operadores de terra em capas impermeáveis, a bandeira no mastro em cima da sóbria construção do aeroporto, um outdoor da BMW. Alemanha, eis-me de volta, pensei.

Uma vez o avião pousado, os sinais de proibido fumar se apagaram e uma música de fundo começou a tocar suavemente pelos alto-falantes do teto. Era "Norwegian Wood" dos Beatles, numa lânguida execução orquestrada. A melodia me perturbou, como sempre. Mas desta vez ela me emocionou bem mais que o usual, revolvendo violentamente algo dentro de mim.

Dobrei o corpo para a frente, permanecendo imóvel nessa posição, o rosto coberto com as mãos para tentar impedir a cabeça de explodir. Não demorou muito para a comissária de bordo alemã aparecer perguntando em inglês se eu estava passando mal. Respondi que estava tudo bem, que era só uma leve tontura.

– Está realmente tudo bem?

– Sim, não se preocupe. Obrigado – agradeci.

A comissária sorriu gentilmente e se afastou, e a música mudou para uma canção de Billy Joel. Ergui o rosto e, contemplando as nuvens negras que pairavam sobre o mar do Norte, refleti sobre as muitas coisas perdidas no curso da minha vida até aquele momento. O tempo perdido, pessoas mortas ou desaparecidas, emoções que eu nunca mais experimentaria.

A aeronave parou por completo. Enquanto os passageiros começavam a desafivelar os cintos de segurança e a retirar sua bagagem de mão e casacos de dentro dos compartimentos superiores, eu estava na pradaria. Inalava o aroma do capim, sentia o vento na pele, ouvia o trinar dos pássaros. Era

o outono de 1969 e eu estava prestes a completar 20 anos.

A mesma comissária de antes se aproximou e, sentando-se ao meu lado, perguntou se eu havia melhorado.

– It’s all right now, thank you, I only felt lonely, you know (Estou bem, obrigado, estava só um pouco deprimido) – disse esboçando um sorriso.

– Well, I feel the same way, the same thing, once in a while. I know what you mean (Às vezes também acontece o mesmo comigo. Entendo como se sente) – disse ela balançando a cabeça e, levantando-se da poltrona, dirigiu-me um magnífico sorriso. – I hope you’ll have a nice trip. Auf Wiedersehen! (Desejo-lhe boa viagem. Até qualquer dia.)

– Auf Wiedersehen! – exclamei também.

 

Mesmo hoje, passados 18 anos, ainda sou capaz de relembrar nitidamente a paisagem da pradaria. A superfície da montanha, cuja poeira acumulada durante o verão havia sido completamente lavada pela chuva fina que persistia por vários dias, revestia-se então de um tom esverdeado denso e vívido, as espigas das eulálias balançavam por toda parte ao sabor da brisa de outubro e uma nuvem comprida aderia perfeitamente ao domo azul enregelado. O céu se erguia tão alto que contemplá-lo chegava a provocar dor nos olhos. O vento cortava a pradaria, agitava levemente os cabelos dela, entrando em seguida bosque adentro. Nos ramos das árvores, as folhas murmuravam, e ao longe ouvia-se o latido de um cão. Parecia uma voz miúda e indistinta vinda da entrada de um outro mundo. De resto, completo silêncio. Nenhum outro ruído nos chegava aos ouvidos. Não cruzávamos com ninguém. Vimos apenas dois pássaros vermelhos levantarem vôo de dentro da pradaria em direção ao bosque, como se algo os tivesse assustado. Enquanto caminhávamos, Naoko me contou sobre o poço.

Que fascinante é a memória. Enquanto eu estava dentro dessa paisagem praticamente não prestei atenção nela. Não poderia sequer imaginar que 18 anos mais tarde a relembraria em seus pormenores, apesar de nada ter visto nela de tão impressionante. Para ser sincero, na época a paisagem não me causou nenhum interesse em particular. Eu pensava apenas em mim, na linda garota caminhando ao meu lado, no nosso relacionamento e novamente em mim. Estava numa idade na qual não importa o que presenciasse, sentisse e pensasse, tudo no final voltava às minhas mãos como um bumerangue. Como se isso não bastasse, eu estava apaixonado. Uma paixão complicada. Não me sobrava tempo para prestar atenção à paisagem a meu redor.

Agora, porém, a primeira coisa a me vir à mente é a cena da pradaria. O cheiro do capim, a brisa fresca, a silhueta das montanhas, o latido do cão: eram essas coisas que antes de mais nada me assaltavam a memória. Muito distintamente. De tão nítidas, eu tinha a impressão de que se estendesse o braço poderia traçar com o dedo o contorno de cada uma delas. Entretanto, não se via ninguém dentro dessa paisagem. Ninguém. Nem Naoko nem eu. Pergunto-me aonde afinal fomos parar. Como algo assim aconteceu? Aonde foram parar as coisas aparentemente tão importantes: eu, ela, meu mundo? No momento, sequer consigo recordar de imediato o rosto de Naoko. O que tenho entre as mãos é apenas uma paisagem deserta.

É claro que, com tempo suficiente, sou capaz de recordar seu rosto. Suas pequenas mãos frias, os lindos cabelos lisos e macios ao toque, a pequena pinta logo abaixo do lóbulo redondo e delicado da orelha, o casaco chique de pêlo de camelo que ela costumava usar no inverno, o hábito de sempre encarar o ouvinte ao fazer uma pergunta, a voz por vezes ligeiramente trêmula por algum motivo (como se ela estivesse falando de cima de um morro castigado pelo vento): se eu sobrepusesse uma a uma essas imagens, seu rosto logo surgiria naturalmente. Em primeiro lugar, vem-me à memória seu perfil, provavelmente pelo fato de eu e Naoko sempre caminharmos lado a lado. Portanto, o que lembro dela antes de tudo é sempre o contorno lateral do rosto, e, em seguida, ela se vira para mim, sorrindo docemente, meneando de leve a cabeça, conversando, encarando-me. Exatamente como se procurasse a sombra de um peixinho cruzando ao acaso o fundo de uma fonte límpida.

Mas demora algum tempo até o rosto de Naoko surgir em minha mente dessa forma. Com o passar dos anos, o tempo necessário gradualmente se alonga. Triste, mas é a pura verdade. Os cinco segundos de início suficientes para recordar seu rosto logo se transformaram em dez, 30, um minuto. Encompridaram-se exatamente como sombras ao anoitecer. E provavelmente as sombras terminarão dragadas pela absoluta escuridão noturna. Minhas lembranças sem dúvida se distanciam cada vez mais do local onde Naoko costumava estar. Sem dúvida se afastam do lugar onde eu próprio costumava estar no passado. Apenas a paisagem, unicamente essa paisagem da pradaria em outubro, aparece em minha mente repetidas vezes, verdadeira cena simbólica cinematográfica. Sempre que aparece, essa cena dá um chute em alguma parte de meu cérebro. Vamos, acorde, eu continuo aqui; vamos, acorde e analise a razão de eu ainda permanecer por aqui. O chute nunca dói. Não há nenhum tipo de dor. A cada novo chute, apenas um som subsiste ecoando no vazio. E mesmo esse som provavelmente desaparecerá algum dia. Assim como todo o resto se extinguiu no final das contas. Entretanto, dentro da avião da Lufthansa, no aeroporto de Hamburgo, a paisagem chutava meu cérebro de maneira mais demorada e forte que o usual. Acorde, analise a razão. Por isso mesmo escrevo este livro. Sou do tipo de pessoa incapaz de entender bem alguma coisa, seja lá o que for, se não a puser por inteiro no papel.

 

 

Sobre o que mesmo ela falava então?

Lembrei: contava-me sobre o poço no campo. Eu não saberia dizer se esse poço realmente existiu. Talvez não passasse de uma imagem ou símbolo, mero fruto de sua imaginação, tal qual as inúmeras outras criações de sua mente naqueles dias sombrios. Todavia, após ouvir sua história, tornei-me incapaz de relembrar a paisagem da pradaria sem associá-la invariavelmente à imagem do poço. Na realidade, em minha mente a imagem do poço que eu nunca vira formava parte indissociável da paisagem. Eu não teria dificuldades em descrever suas características em todos os pormenores. O poço ficava exatamente na divisa onde termina a pradaria e começa o bosque. A grama cobria o buraco escuro de apenas um metro de diâmetro aberto na terra, escondendo-o engenhosamente. Não havia cercas ou contorno mais elevado de pedras a seu redor. Era um mero buraco abrindo sua boca. Expostas às intempéries, as pedras da beirada haviam adquirido uma coloração branca estranhamente turva. Apresentavam rachaduras e falhas em alguns pontos. Podia-se ver uma lagartixa esverdeada esgueirar-se por uma fenda entre elas. Mesmo tentando me curvar para espiar o interior do buraco, eu nada enxergava. Deduzia apenas que era pavorosamente profundo. De uma fundura além da imaginação. E em seu interior a escuridão comprimia-se em tal densidade que era como se todos os tipos de escuridão existentes no mundo houvessem sido destilados até o último grau.

– Garanto que é muito fundo, muito fundo mesmo – disse Naoko escolhendo cuidadosamente as palavras. Ela às vezes se expressava desse jeito. Falava pausadamente, procurando as palavras exatas. – É fundo mesmo, mas ninguém sabe onde fica. É certo que fica em algum lugar aqui por perto.

Com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de lã, ela me olhava e seu sorriso parecia dizer: "Estou falando a verdade!"

– Mas então deve ser muito perigoso – concluí. – Um poço profundo, mas que ninguém sabe onde fica. Se alguém cair lá dentro é o fim de tudo.

– Com certeza, não há escapatória. Ahhhhhhh, plof! Tudo terminado.

– Será que essas coisas acontecem mesmo?

– Eventualmente. Talvez uma vez a cada dois ou três anos. Alguém desaparece de repente e todas as buscas não dão em nada. Nesses casos os habitantes da região costumam dizer: Aquele caiu no poço do campo!

– Não é um jeito agradável de morrer – afirmei.

– É um jeito terrível! – exclamou Naoko, livrando-se dos pedacinhos de grama pregados ao casaco. – Seria melhor simplesmente quebrar o pescoço e morrer, mas no caso de ser apenas uma torção do pé você não pode fazer nada. Pode gritar até perder a voz e ninguém vai escutá-lo, não há chance de ser encontrado, centopéias e aranhas passeiam sobre o seu corpo, há ossos de pessoas mortas espalhados pelo chão, está escuro e úmido. E bem lá em cima flutua um pequeno círculo de luz, realmente diminuto, como se fosse a lua no inverno. Você morre ali sozinho aos poucos.

– Fico arrepiado só de imaginar – falei. – Alguém precisa descobrir onde fica o poço e construir uma cerca em volta dele.

– Mas ninguém consegue descobrir. Por isso, tome cuidado para não sair do caminho certo.

– Eu prometo não me afastar.

Naoko tirou a mão esquerda do bolso e segurou a minha.

– Está tudo bem. Não se preocupe. Você poderia caminhar por aqui às cegas durante uma noite escura e nunca cairia no poço. E contanto que eu fique grudada em você, também não vou cair.

– De jeito nenhum?

– De jeito nenhum.

– Como você pode ter tanta certeza?

– Intuição – disse Naoko segurando minha mão com mais força. Por algum tempo, continuamos caminhando em silêncio. – Tenho intuição para esse tipo de coisa. Nada baseado na lógica, só uma sensação. Por exemplo, agora não sinto medo nenhum colada assim a você. Nem o mal nem a escuridão poderiam me seduzir.

– É tudo muito simples então: basta continuar para sempre comigo – disse eu.

– Está falando sério?

– Claro que estou.

Naoko parou de repente. Parei também. Ela pousou as mãos sobre os meus ombros e me encarou. No fundo de suas pupilas, um líquido negro e pesado descrevia um redemoinho de estranho formato. Esse par de lindas pupilas passou um longo tempo investigando o mais fundo de mim. Em seguida, Naoko ergueu-se na ponta dos pés e encostou carinhosamente o rosto no meu. Foi um naravilhoso gesto de carinho que fez meu coração parar por um instante.

– Obrigada – disse Naoko.

– Não há por que agradecer – respondi.

– Fico feliz de ouvir você dizer isso. Feliz de verdade – disse ela esboçando um sorriso tristonho. – Mas infelizmente é impossível.

– Impossível? Por quê?

– Seria errado. Seria cruel. Seria... – Naoko fez uma pausa e, em silêncio, recomeçou a marcha. Percebi que várias recordações rodopiavam por sua mente, e, tentando não me intrometer, continuei a caminhar calado a seu lado. – É... seria injusto. Tanto para você quanto para mim – completou ela rompendo o longo período de silêncio.

– Por que injusto? – murmurei.

– Porque é impossível para uma pessoa passar toda a sua vida zelando por outra. Suponhamos que fôssemos casados. Você certamente trabalharia em uma empresa, certo? Quem cuidaria de mim enquanto estivesse fora trabalhando? Quando viajasse a trabalho, quem cuidaria de mim? Será que eu poderia passar cada minuto da minha vida colada a você? Não seria desigual? Que tipo de relacionamento seria esse? Você acabaria enjoando de mim. Você se perguntaria o que está fazendo com a própria vida, vivendo apenas para servir de ama-seca a uma mulher. Para mim seria insuportável. Não resolveria nenhum dos meus problemas.

– Mas os seus problemas não vão durar a vida toda – falei, tocando suas costas. – Um dia vão terminar. E nesse dia, vamos parar e repensar nossas vidas. Vamos resolver o que fazer a partir daí. Quem sabe, quando essa hora chegar, seja você quem precise me ajudar? A nossa vida não é um livro de contabilidade. Se você precisa de mim neste momento, pode me usar. Está entendendo? Por que você vê tudo de forma tão rígida? Tente relaxar mais. Essa tensão acaba forçando você a ver as coisas do modo mais pessimista. Relaxe o corpo e você toda vai se tornar mais leve.

– Como você pode dizer isso? – perguntou Naoko com a voz pavorosamente seca.

Ao ouvi-la, percebi ter cometido um deslize.

– Por quê? – perguntou ela olhando fixamente para o chão a seus pés. – Não é novidade para mim que se eu relaxar o corpo toda eu me tornarei mais leve. De que adianta me falar isso? Pois ouça bem o que lhe digo: se eu relaxar agora, eu me despedaço. É assim que sempre vivi e que deverei continuar a viver. Se eu relaxar por um segundo, nunca mais conseguirei voltar à condição original. Eu me despedaçaria, e os fragmentos acabariam sendo soprados para algum lugar. É tão difícil para você compreender isso? Se nem isso você consegue entender, como pode então falar em cuidar de mim?

Fiquei calado.

– Minha perturbação é muito mais profunda do que você imagina. Sinto-me no escuro, com frio, confusa... Mas me diga uma coisa: por que você foi para a cama comigo daquela vez? Por que simplesmente não me deixou sozinha?

Caminhávamos agora por um bosque de pinheiros terrivelmente silencioso. Pela superfície do caminho espalhavam-se carcaças completamente ressecadas de cigarras mortas ao fim do verão, que eram trituradas sob nossos pés. Naoko e eu caminhávamos por esse bosque lentamente e olhando para o chão como se procurássemos alguma coisa perdida.

– Desculpe – disse Naoko, segurando delicadamente meu braço e sacudindo repetidamente a cabeça. – Não quis magoar você. Não ligue para o que eu disse. Desculpe, de verdade. Eu só estava aborrecida comigo mesma.

– Talvez eu ainda não seja capaz de entender você de verdade – desabafei. – Não sou muito inteligente e levo tempo para entender as coisas. Mas, com um pouco mais de tempo, acho que vou conseguir entender você perfeitamente, muito melhor do que qualquer outra pessoa neste mundo.

Paramos de andar e começamos a perscrutar o silêncio ao nosso redor. Eu rolava com a ponta do sapato as carcaças das cigarras e as pinhas, ou erguia os olhos para o céu visível por entre os galhos dos pinheiros. Imersa em pensamentos, Naoko mantinha as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, o olhar ausente.

– Toru, você me ama?

– Claro – respondi.

– Poderia então me fazer dois favores?

– Até três, se for o caso.

Naoko sacudiu a cabeça rindo.

– Só dois. Já será suficiente. Um deles é que eu gostaria que você entendesse o quanto estou agradecida por você ter vindo se encontrar comigo aqui. Isso me deixa feliz, e muito... me ajuda. Pode não parecer, mas é verdade.

– Prometo vir mais vezes – falei. – E qual é o outro favor?

– Eu gostaria que você nunca se esquecesse de mim. Você vai se lembrar para sempre que eu existi e estive assim ao seu lado como agora?

– Claro. Vou me lembrar para sempre – respondi.

Sem dizer mais nada, ela começou a caminhar à minha frente. A claridade outonal trespassava os galhos indo dançar suavemente nos ombros de seu casaco. Ouviu-se novamente o latido do cão que aparentava estar mais próximo de nós do que antes. Naoko subiu a parte mais elevada de uma pequena colina e saiu do bosque, descendo a passos ágeis uma encosta não muito íngreme. Eu a seguia a uma distância de dois ou três passos.

– Volte. O poço pode estar em algum lugar por aqui – disse eu atrás dela.

Naoko parou e, sorrindo, segurou meu braço delicadamente. Continuamos andando lado a lado pelo resto do caminho.

– Você promete mesmo nunca me esquecer? – perguntou ela numa voz débil como um sussurro.

– Nunca esquecerei você – falei. – Como poderia?

 

Mesmo assim, as lembranças sem dúvida se distanciam, e eu já me esqueci de inúmeras coisas. Por vezes, sou assaltado pela imensa apreensão de escrever este relato baseado na memória. Isso porque de repente imagino ter provavelmente deixado escapar da memória as partes mais importantes. Não teriam todas as recordações fundamentais se acumulado num local obscuro de meu corpo, numa espécie de limbo, transformando-se em lama inconsistente?

De qualquer forma, no momento isso é tudo que tenho. Aperto fortemente contra o peito as recordações imperfeitas que se dissiparam e continuam a se dissipar a cada novo segundo, escrevendo este livro como um homem faminto chupando ossos. Esse é o único modo de cumprir a promessa que fiz a Naoko.

Quando ainda jovem e com as lembranças ainda vívidas em minha memória, tentei várias vezes escrever sobre Naoko. Mas na época fui incapaz de produzir uma linha sequer. Eu bem sabia que, se a primeira linha aparecesse, provavelmente poderia escrever tudo com facilidade, mas ela não surgia de maneira alguma. Tudo era evidente demais e eu não sabia por onde começar. Da mesma forma que um mapa muito fiel acaba se tornando inútil por ser exageradamente fiel. Porém, agora compreendo. No final das contas, creio eu, só poderei preencher o receptáculo imperfeito das frases com lembranças e recordações imperfeitas. E penso que, quanto mais as lembranças de Naoko se dissiparem dentro de mim, mais profundamente eu poderei compreendê-la. Entendo também agora a razão de ela ter me pedido para nunca esquecê-la. Obviamente Naoko sabia. Ela sabia que na minha mente as lembranças dela iriam desaparecer gradualmente. Por isso me pediu para nunca esquecê-la e para me lembrar sempre que ela existiu.

Pensar nisso me deixa insuportavelmente triste. Porque Naoko nunca chegou sequer a me amar.

 

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