Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Especial
Plasma ou LCD?
Como será sua próxima televisão

Com novo design, grande qualidade de
imagem e preços em queda, os televisores
voltaram a ser objetos de desejo. E ainda
vem aí a revolução digital


Carlos Rydlewski e Ricardo Valladares

 

Montagem sobre fotos Fabiano Accorsi e divulgação


NESTA REPORTAGEM
Quadro: As diferenças tecnológicas entre os tipos mais modernos de televisor
Quadro: A guerra dos padrões
Quadro: O verdadeiro show de bola
Quadro: Analógico X digital
Quadro: O que muda nas gravações
Quadro: O que muda na transmissão

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É extraordinária a presença da televisão na casa dos brasileiros. Nada menos do que 90,3% têm no mínimo um aparelho. São mais TVs do que geladeiras, por exemplo – presentes em 87,4% das casas. Considerado indispensável, o televisor também ocupa um espaço de honra na maioria das salas. O consumidor o quer grande, bonito e repleto de funções. Está sempre disposto a trocá-lo por um mais moderno, embora ele seja um bem durável, com vida útil de duas décadas ou mais. Em 2005, 9,8 milhões de televisores saíram das lojas no Brasil. A previsão de crescimento nas vendagens é de 12% para 2006. Mas esse processo natural de troca deve se acelerar nos próximos anos, devido a duas revoluções.

• A primeira já está em andamento: é a revolução do design. Arte de criar objetos sedutores, o design é um dos pilares da economia atual. O atrativo das formas é uma chave para o sucesso de qualquer produto. Ora, poucos bens de uso popular mudaram de aparência tão radicalmente quanto os televisores nos últimos tempos. O uso de dois novos materiais, o plasma e o cristal líquido, além de aumentar sua definição de imagem, permitiu que eles perdessem em profundidade, tornando-se peças esbeltas, que podem até ser penduradas na parede, como quadros. Essas TVs, finas e leves, atiçam os desejos de consumo.

• A segunda revolução é tecnológica. Terá grandes implicações. É a popularização da transmissão digital dos sinais de TV. A TV digital é mais que um salto na qualidade do som e da imagem. Significa que será possível assistir a programas em telefones celulares – uma novela, um jornal, um jogo de futebol. E ainda que será possível interagir com as emissoras com um toque no controle remoto – votar num show de auditório, participar de uma pesquisa, comprar os produtos do intervalo comercial. A estimativa é que, em dez anos, essa reviravolta tenha gerado vendas de 200 bilhões de reais – entre aparelhos receptores, transmissores e conversores.

Atualmente, as telas de cristal líquido (ou LCD, na sigla em inglês) e plasma representam apenas 0,6% do mercado brasileiro de televisores. No ano passado, 58.000 foram compradas em todo o Brasil. É pouco – quase nada. Mas o número representa um crescimento de 500% em relação a 2004. Para 2008, a indústria projeta vendas de 230.000 aparelhos. Quem colocou na mira uma TV "fininha" deve estar alerta para certas características. Elas têm ângulo de visão um pouco mais restrito que o de um aparelho convencional – o que significa que quem está ao lado do console tem maior dificuldade para enxergar a imagem. Questões técnicas, contudo, vão sendo resolvidas com presteza. Até recentemente, imagens em movimento costumavam deixar um rastro nas telas de LCD, enquanto as imagens estáticas, como aquelas tirinhas de notícia fixas na parte de baixo do vídeo, podiam estragar os televisores de plasma. Nas novas gerações de aparelhos, esses problemas quase sumiram. Um dispositivo simples que faz a tela vibrar, por exemplo, reduziu os riscos de defeito nas TVs de plasma. A diminuição dos intervalos entre os pulsos de luz nas telas de LCD também espantou os "fantasmas". No quesito resolução e nitidez de imagem, modelos de cristal líquido ainda leva alguma vantagem, mas é difícil encontrar quem sinta mesmo a diferença: é como falar do desvão entre uma imagem extraordinária e outra excepcional.

 
Antonio Cruz
Evelson de Freitas/AE
UMA DECISÃO COMPLEXA
Costa (à esq.) quer o sistema japonês. Furlan, o europeu. Qual é o melhor para os consumidores brasileiros? Aquele que não vede a porta a inovações e abra o maior leque de opções de conteúdo

Com isso, a relação mais significativa para o consumidor é aquela entre o tamanho da tela e o preço. O plasma hoje em dia sai ganhando. Os aparelhos mais comuns no mercado começam nas 42 e vão até 50 polegadas (mas é possível encontrar exemplares de 71 polegadas ao custo de 270.000 reais, o equivalente a um apartamento de três dormitórios). No caso do LCD, as telas em geral ficam entre as 15 e as 42 polegadas. A queda nos preços das TVs de plasma pode ser descrita como vertiginosa. Uma televisão que chegava a custar 30.000 reais em 2003 agora é encontrada por 9.000, numa redução de mais de 200%. Uma razão para isso é que o Brasil já produz telas de plasma, que representam entre 60% e 70% do preço final do produto. O barateamento do LCD e o aumento de suas telas dependem de que se resolva uma equação industrial: reduzir o desperdício no corte das placas de cristal líquido com que se faz o aparelho.

Quer opte pelo plasma, quer pelo LCD, quem comprar hoje um novo televisor de alta resolução terá dado um passo para aproveitar os ganhos de imagem que a mudança para o sistema digital de transmissão de TV brevemente vai trazer. Mas ainda terá de adquirir um decodificador de sinal (um aparelho semelhante àquele da TV a cabo) – assim como todos os brasileiros que decidirem se manter fiéis aos aparelhos tradicionais. Vai levar tempo para que os televisores saiam da fábrica trazendo embutido o conversor compatível com o padrão digital que o Brasil vai adotar. Pois é: há três padrões diferentes em operação no mundo, o americano, o japonês e o europeu. Eles têm muitas semelhanças e algumas diferenças relevantes, sobretudo no que diz respeito à transmissão de dados para celulares (veja quadro na pág. 66). A escolha de um desses padrões é motivo de uma luta política que já dura vários meses. Há lobbies de todos os lados: representando os países que detêm as matrizes tecnológicas de cada modelo, os interesses das emissoras de TV nacionais e os das empresas de telefonia. Há também visões conflitantes no interior do governo. Mas o debate parece estar chegando ao fim. O anúncio do padrão eleito deverá ser feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no próximo dia 10.

Mesmo que a data de 10 de março não seja cumprida, pequenos grupos no Brasil terão o gostinho do que é assistir a um grande evento em formato digital, em transmissões experimentais e em demonstrações fechadas para convidados. A Copa do Mundo de 2006, que acontece em junho, na Alemanha, vai ser também uma festa da TV de última geração. Por iniciativa dos anfitriões e de fabricantes de produtos eletrônicos, pela primeira vez todos os 64 jogos do campeonato serão transmitidos com qualidade digital. O fato é que o Brasil não está muito atrás do restante do mundo nesse terreno. Só 14 milhões dos endereços ao redor do globo estão equipados com televisores de alta definição – e 80% deles não recebem programas em formato digital, segundo a empresa de consultoria IMS Research. A Copa é uma oportunidade extraordinária para conquistar mais adeptos para essas tecnologias.

"As características do futebol e os atributos da TV digital fazem um casamento perfeito", disse a VEJA Dominik Schmid, diretor da Infront, empresa contratada pela Fifa para a transmissão televisiva e a comercialização dos direitos da Copa do Mundo de 2006. O monitor panorâmico 16:9 – 16 unidades aleatórias de largura por 9 de altura – dos televisores preparados para o sistema digital foi concebido para manter simetria com o formato retangular da câmera cinematográfica. Mas ele obedece também às proporções dos campos de futebol. Isso significa que o enquadramento é mais amplo, há menos corte nas margens. "Fica mais fácil acompanhar a construção das jogadas e explicar a tática das equipes", diz Arsène Wenger, técnico do time inglês Arsenal e comentarista do canal francês TF1. O potencial interativo da transmissão digital também vai ser posto à prova. O canal pago alemão Premiere, por exemplo, vai oferecer a seus assinantes a possibilidade de optar entre várias câmeras para acompanhar os lances de um jogo. E há muitas delas. Os gramados dos doze estádios alemães onde se disputará o título máximo do futebol mundial serão esquadrinhados por 25 câmeras de alta resolução. O número é ainda mais expressivo quando se sabe que oito câmeras digitais fazem o trabalho de vinte das convencionais. Numa cobertura tradicional, a grande quantidade de câmeras serve para "contar bem" a história do jogo. Elas são posicionadas em diversos pontos em torno do campo. Um grupo opera com planos abertos e outro com enquadramentos fechados. Os lances são mostrados sob ângulos diferentes e, por meio de close-ups, enfatizam-se as ações e revelam-se os detalhes. O editor de imagem passa o tempo, freneticamente, entre alternâncias e cortes. Na transmissão digital, a freqüência dos cortes e das mudanças de câmera é muito menor. Isso porque uma imagem maior não requer tantos close-ups. O plano mais amplo admite duração mais longa, não há necessidade de ficar saltando de uma câmera para outra. E, quanto menos uma câmera gira, mais se percebe a movimentação em campo. A percepção do telespectador fica mais próxima da visão do torcedor que assiste ao jogo no estádio.

Assim como no futebol, as transformações acarretadas pela adoção de um padrão digital serão sentidas no futuro numa outra paixão brasileira – as telenovelas. A maior nitidez das imagens obtidas dessa maneira vai obrigar as emissoras a redobrar os cuidados com a produção. Estima-se que o aumento nos custos de um folhetim pode chegar a 20%. Foram-se os tempos em que pequenos truques – como imitar a textura de uma parede de tijolos com papel – eram aceitáveis. O resultado tosco salta aos olhos numa tela de alta definição. As técnicas de maquiagem também terão de ser melhoradas. Manchas e imperfeições da pele ficarão bem mais visíveis. Um congresso recente de maquiadores de cinema e TV, nos Estados Unidos, trouxe à tona esse fato: há muitas celebridades apavoradas com aquilo que uma câmera digital e um televisor de alta resolução podem, em conjunto, revelar.

As emissoras brasileiras já vêm se preparando faz algum tempo para entrar na era digital. Têm comprado equipamentos para captação e transmissão de imagens nesse formato. Entre elas, existe um consenso quase completo (a Bandeirantes expressa alguma dissidência) em torno da idéia de que o padrão japonês é o melhor a adotar. O xis da questão é a transmissão de programas para telefones celulares. No padrão japonês, o sistema favorece o uso exclusivo das emissoras de TV. No padrão europeu, ele pode ser usado por vários fornecedores de conteúdo. As empresas de telefonia, por exemplo, poderiam se beneficiar desse novo canal (além de suas redes próprias de transmissão de dados) para oferecer filmes e outros tipos de atração a seus clientes. "Com a adoção da tecnologia digital vai sobrar espaço no espectro de transmissão. O governo não pode dar isso de graça às TVs", afirma Cesar Rômulo Silveira Neto, superintendente executivo da Telebrasil, entidade que reúne as companhias do setor de telecomunicações. Já as emissoras de televisão temem a competição das telefônicas – multinacionais com enorme capacidade de investimento.

Dentro do governo Lula, o maior defensor do padrão japonês é o ministro das Comunicações, Helio Costa. "O único sistema que atende a todos os requisitos que o Brasil quer na TV digital é o japonês. As teles têm de fazer telefonia, não televisão", costuma dizer Costa. Mas ele vem advogando sua causa de maneira afoita e desastrada. Seu desempenho numa audiência pública na Câmara dos Deputados no fim de janeiro dá a medida de sua falta de jeito. Ao defender o modelo japonês, disse que havia colocado "a bola na marca do pênalti". Cabia ao presidente "chutar devagar e olhar a bola entrar de mansinho" ou "chutar para fora". O governo criou um grupo que reúne os ministros da Casa Civil, Dilma Rousseff, da Fazenda, Antonio Palocci, do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e o próprio Hélio Costa para ouvir todos os interessados na TV digital. Foram dez reuniões ao todo, e o setor de telefonia esteve com o governo em pelo menos três ocasiões. "A discussão melhorou muito depois que a Casa Civil começou a participar das reuniões", afirma o presidente da Philips na América Latina, Marcos Magalhães. "Antes não havia neutralidade."

As implicações comerciais imediatas da escolha de um padrão de TV digital são enormes, e é claro que não se pode desconsiderá-las. Basta lembrar os valores envolvidos na mudança. Como tudo o que envolve transformações tecnológicas, contudo, também é vital ter em mente um cenário mais amplo e de mais longo prazo. Há outras revoluções em andamento – como a do "wireless" e da "TV via internet" –, e elas vão varrer amanhã arranjos que os políticos se digladiaram para alinhavar hoje. O que é certo é que a transmissão digital deve crescer rápido e transformar a relação dos brasileiros com sua amada TV.

 

A língua das TVs

A imagem é boa, mas a terminologia associada aos novos aparelhos de televisão e às tecnologias mais recentes é para lá de hermética. Conheça alguns termos.

TV digital – É um sistema que transmite dados por meio de um código digital, compatível com a língua dos computadores.

Set-top box – É o decodificador usado pelos aparelhos de televisão para receber o sinal digital. Com o advento da TV digital, todos os televisores vão precisar desse tipo de equipamento. Depois de definido o padrão, ele até poderá ser embutido nas TVs.  

HDTV (High definition TV) – São as TVs de alta definição. Têm resolução de 1 920 pontos (pixels) na horizontal por 1 080 pontos na vertical. Mas uma televisão moderna de cristal líquido tem boa resolução a partir de 1 024 por 768 pixels. No caso de plasma, consegue boa resolução a partir de 852 por 480 pixels. Os aparelhos convencionais, de baixa resolução, são conhecidos como LDTV (low definition).  

HDTV ready – É o termo usado nas lojas para vender televisores ao mercado de TV digital. O fato é que nenhum aparelho está "pronto" para esse segmento. Todos vão precisar de um decodificador para funcionar no novo sistema. Normalmente, o que esse termo quer dizer é que os equipamentos têm tela e resolução que de alguma maneira vão mostrar ganhos de qualidade com o advento da TV digital.  

Televisão interativa – Algumas operadoras de televisão a cabo oferecem a possibilidade a seus assinantes de receber os sinais já digitalizados, mas não ainda em alta definição. Esse serviço, como a TVA Digital e a Net Digital, permite ao assinante interagir com a operadora, comprando programas com instruções dadas diretamente no vídeo.

 

Veja como vai ser seu próximo...

Os aparelhos da era digital têm em comum a permanente incorporação de inovações, tanto de novas funções como de aprimoramento de qualidade. Veja alguns itens que estão para chegar às prateleiras mundiais

 
Yoshikazu Tsuno/AFP
MOUSE
A novidade é o Mouse Talk, que tem uma qualidade insólita: recebe ligações pela internet

 
CÂMERA DIGITAL
Modelo da Kodak com enquadramento mais versátil: uma lente afasta quem está perto e a outra aproxima quem está mais distante
Fotos divulgação

 

APARELHO DE DVD
O DVD atual grava duas horas de vídeo, enquanto o Blu-Ray tem capacidade para armazenar até 25 horas

 

LIVRO
Agora, na cola do iPod, a Sony faz uma nova tentativa para lançar um aparelho portátil de leitura para livros digitalizados. Pode armazenar até 80 títulos

 

Luis Gene/AFP
TELEFONE CELULAR
Aparelho lançado pela Nokia transmite até cinqüenta canais e tem como alvo o mercado de TV digital

Com reportagem de Leandra Peres e Antonio Ribeiro, de Paris

 
 
 
 
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