| Trecho
do livro Onde Encontrar a Sabedoria, de Harold Bloom Sabedoria Todas
as culturas do mundo — da Ásia, da África, do Oriente Médio,
da Europa, do hemisfério ocidental — preconizam escritos sapienciais. Há
mais de meio século estudo e ensino a literatura decorrente do monoteísmo
e sua subseqüente secularização. Onde Encontrar a Sabedoria?
resulta de uma necessidade pessoal, e reflete a busca de um saber que possa aliviar
e esclarecer os traumas do envelhecimento, do convalescimento após doença
grave, e do pesar causado pela perda de amigos queridos. Recorro
a apenas três critérios em relação ao que leio e ensino:
esplendor estético, força intelectual e sapiência. Pressão
social e modismos jornalísticos conseguem obscurecer, durante algum tempo,
tais padrões, mas Obras Datadas jamais sobrevivem. A mente sempre volta
às suas próprias necessidades de beleza, verdade, discernimento.
A mortalidade flutua no ar, e todos aprendemos que o tempo triunfa. "Vivemos
um intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece." Cristãos
que crêem, muçulmanos que obedecem, judeus que confiam — em Deus
ou na vontade de Deus — têm seus próprios critérios de sabedoria,
mas cada grupo precisa normatizar a questão, separadamente, para que as
palavras de Deus possam iluminar e consolar. Os secularistas assumem um outro
tipo de responsabilidade, e sua busca da literatura da sapiência é,
por vezes, mais melancólica, ou angustiada, dependendo do seu temperamento.
Sejamos religiosos ou não, todos aprendemos a almejar a sabedoria, onde
quer que seja encontrada. No
início do século XXI da Era Comum, os Estados Unidos e a Europa
Ocidental se apartam, em decorrência de um número de fatores quase
igual àquele que os mantêm na condição de aliados apreensivos.
Na realidade, o Novo Mundo tem uma existência tão secular quanto
a maioria da Europa, mas os norte-americanos costumam separar a vida exterior
da interior. Muitos chegam a conversar com Jesus, e seus testemunhos podem ser
persuasivos (em termos absolutos). Para tais indivíduos, a religião
não é o ópio, é a poesia da humanidade, motivo pelo
qual rejeitam o que sabem a respeito de Marx, Darwin e Freud. No entanto, essas
mesmas pessoas têm sede de sabedoria laica, para suplementar-lhes os encontros
com o divino. Os
escritos sapienciais, a meu ver, possuem padrões implícitos de força
estética e cognitiva. O presente livro se propõe a apresentar normas
que interessam a mulheres e homens alfabetizados, "leitores comuns",
conforme os chamava Virginia Woolf, seguindo Samuel Johnson. O aviltamento de
sábias tradições inunda o mercado: divas do mundo pop
ostentam objetos supostamente cabalísticos, invocando assim a tradição
oculta do Zohar, obra-prima do esoterismo judaico. A sabedoria de Kierkegaard,
marcantemente urgente apesar da camuflagem irônica, pára diante da
fronteira do esotérico, diante do que o grande estudioso da Cabala, Moshe
Idel, denomina "a Perfeição que absorve". Com sutileza,
Idel se antepõe ao seu heróico precursor em estudos cabalísticos,
o eminente Gershom Scholem, que falara da "luz intensa do canônico,
da Perfeição que destrói". A sabedoria, seja esotérica
ou não, parece constituir uma Perfeição capaz de nos absorver
ou destruir, dependendo do aporte que a ela trazemos. 2 Qual
será a utilidade da sabedoria, se esta só pode ser alcançada
na solidão, na reflexão acerca de leituras? A maioria de nós
é consciente de que a sabedoria voa janela afora, quando nos encontramos
em crise. A idéia de ser como Jó constitui, para a maioria de nós,
uma experiência menor: mas a casa de Jó desaba, seus filhos são
mortos, seu corpo é coberto de furúnculos, e a esposa, extraordinariamente
lacônica, o adverte: "Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa
a Deus e morre duma vez!" (2,9). Isso é tudo o que ela diz, mas é
difícil resistir a tais palavras. O Livro de Jó encerra uma estrutura
dotada de crescente autoconsciência, em que o protagonista passa a ver a
si mesmo em relação a um Javé que se fará ausente
quando bem lhe convier. E esse livro, que é o mais sábio da Bíblia
Hebraica, não nos oferece conforto algum, na aceitação de
tal sabedoria. O
rei Davi inicia o Salmo 22 lamentando-se — "Senhor, por que me desamparaste?";
trata-se do clamor de seu descendente, Jesus Nazareno, na cruz. O Salmo 23 é
cantado por Sir John Falstaff, no leito de morte, em Henrique V,
segundo o relato de Mistress Quickly, que confunde os versos "Deitar-me faz
em verdes pastos" e "Preparas a mesa perante mim, na presença
dos meus inimigos", e nos fala de "mesa de verdes pastos". W. H.
Auden pensava que Falstaff era para Shakespeare uma imagem do Cristo. Tal noção
me parece, igualmente, confusa, mas é preferível à rejeição
de Falstaff como velho glutão beberrento, senhor da desordem. A pungência
de Auden expressa certa sabedoria, ao passo que estudiosos que denigrem Falstaff
são mortos-vivos, na melhor das hipóteses. Não
acho que a literatura da sapiência traga conforto: Jó não
foi capaz de consolar Herman Melville e seu capitão Ahab; antes, provocou
em ambos uma reação furiosa, diante da pergunta retórica
que Deus lhe faz: "Poderás pescar com anzol o Leviatã?"
Quanto a mim, reajo com indignação ainda maior às palavras
de Deus — "Fará ele aliança contigo?" —, a despeito de
valorizar o fato de o poeta que escreve o Livro de Jó invocar, de modo
tão esplêndido, o Javé que consta do início dos escritos
de "j", autor(a) primordial do palimpsesto que hoje lemos sob os títulos
de Gênesis, Êxodo e Números. Caprichoso, e até sarcástico,
esse Javé sinistro deve ser temido, temor que constitui o início
da sabedoria. Jó
e Eclesiastes, Homero e Platão, Cervantes e Shakespeare preconizam uma
sabedoria severa, suspensa entre a ironia e a tragédia. A ironia de uma
era, ou de determinada cultura, dificilmente corresponderá a qualquer outra,
mas toda ironia se propõe a afirmar algo cujo sentido é diverso
do óbvio. A tragédia, mesmo que seja vista como jubilosa, conforme
a percebia W. B. Yeats, não era aceitável a Platão, que repudiou
a visão da Ilíada que a maioria de nós considera trágica.
Crescimento e mortalidade não configuram sabedoria, para Platão,
a quem Cervantes e Shakespeare seriam ainda mais censuráveis do que Homero. 3 A
literatura da sapiência nos ensina a aceitar os limites naturais. O saber
secular de Cervantes e Shakespeare (ambos forçados a esconder o ceticismo)
beira a transcendência, em Dom Quixote e Hamlet, mas o Cavaleiro
Tristonho sucumbe ao desencantamento sensato de um túmulo cristão,
e o Príncipe alcança a apoteose tão-somente no silêncio
tranqüilo do aniquilamento. Desde
a infância, encontro conforto na sabedoria talmúdica, que se concentra
no Pirke Aboth, "Provérbios dos Patriarcas". Na terceira
idade, sempre recorro ao Aboth, que vem a ser uma suplementação
tardia do extenso Mishná, a "Torá Oral", volume poderoso
que nos ensina a seguir as advertências rabínicas. O Pirke Aboth
é inteiramente composto de epigramas, aforismos, provérbios, e mitiga
o implacável Mishná, marcado por debates de natureza legal e moral.
Existem duas excelentes traduções comentadas do Pirke Aboth
em língua inglesa, realizadas pelo unitarianista inglês R. Travers
Herford (1925) e pelo grande erudito Judah Goldin (1957). Lembro-me de que Goldin,
ao me presentear com um exemplar do livro, disse que admirava o trabalho de Herford,
mas que gostaria de dispor de uma versão mais talmúdica do Aboth.
Ambos os livros são esplêndidos, e aqui os utilizarei indiscriminadamente. Hillel
costumava dizer: Se eu não for por mim, quem o será? E quando sou
por mim, o que sou? E se não for agora, quando será? (Herford) Hillel
costumava dizer: Se eu não for por mim, quem então? E, sendo por
mim, o que sou? E se não for agora, quando será? (Goldin) Eis
uma sabedoria perfeita, equilibrada. Eu afirmo a mim mesmo, mas se sou apenas
por mim, o posicionamento é inadequado; e se o apoio que ofereço
a mim mesmo e a terceiros não ocorrer no presente, quando haverá
de ocorrer? Hillel também observou: "Não digais, quando eu
tiver um tempo livre, vou estudar — talvez, jamais tereis um tempo livre."
Quem pode esquecer as palavras de Hillel: "Onde não houver homens,
esforçai-vos para agir como um homem"? Espirituoso, mesmo quando irritado,
Hillel é absolutamente memorável: Ele
costumava dizer: Mais carne, mais vermes; mais riqueza, mais preocupação;
mais mulheres, mais feitiçaria; mais criadas, mais lascívia; mais
criados, mais roubo; mais Torá, mais vida; mais assiduidade, mais sabedoria;
mais conselho, mais entendimento; mais caridade, mais paz. Aquele que adquire
boa reputação o faz apenas para si. Aquele que faz aquisições
a partir da Torá garante, para si, vida no mundo que há de vir. Meu
aforismo predileto é uma advertência sutil do rabino Tarphon: "Não
sois obrigado a concluir a obra, mas tampouco estais livre para desistir dela."
A despeito do número de aulas que eu precisava ministrar, e da quantidade
de escritos que precisava concluir, quando me encontrava enfermo, deprimido ou
exausto, a melodia cognitiva de Tarphon sempre me animava. Mas, chego ao final
dessas reflexões introdutórias, invocando aquele que é hoje
considerado a maior figura entre os fundadores do judaísmo — o rabino Akiba
—, martirizado pelos romanos, por ter inspirado a insurreição de
Bar Kochba contra Roma, no século II da Era Comum. Ele
costumava dizer: Tudo é oferecido como penhor, e a rede é lançada
sobre todos os vivos; a loja se encontra aberta e o lojista oferece crédito,
e o livro contábil está aberto e a mão escreve, e que todos
os que desejem tomar emprestado venham fazê-lo; e os credores circulam,
diariamente, e obtêm pagamentos dos devedores, com ou sem o seu conhecimento.
E eles têm em que se basear, e o julgamento é verdadeiro, e tudo
é preparado para o banquete. (Herford) Ele
costumava dizer: tudo é dado em penhor e uma rede é lançada
sobre todos os seres: a loja está aberta, o lojista oferece crédito,
o livro-razão fica aberto, a mão escreve, e quem deseja pedir empréstimo
pode vir fazê-lo; e os credores circulam, diariamente, e obtêm pagamentos,
com ou sem o consentimento do devedor. Eles têm em que basear as cobranças.
E o julgamento é verdadeiro. E tudo está preparado para o festim. (Goldin) Tais
palavras marcam a Aliança, e são poucas as palavras que o fazem
tão bem. Se sabedoria é confiar na Aliança, não posso
conceber como a sabedoria haverá de avançar. capítulo
1 Hebreus: Jó e Eclesiastes Nenhum
estudioso duvida que a literatura da sapiência produzida no passado de Israel
tenha sido influenciada por precursores egípcios e sumérios. Ambas
as modalidades de sabedoria — prudente e cética — foram legadas aos hebreus,
a primeira nos Provérbios; e a busca sombria pela justiça de Deus
foi dispensada em Jó e no Eclesiastes. Os cânones da ortodoxia oriental
e do catolicismo romano incluem tais modalidades, bem como a Sabedoria de ben
Sirach (século II antes da Era Comum) e a Sabedoria de Salomão (século
I antes da Era Comum), ambos lidos por Shakespeare, na apocrifia da Bíblia
protestante de Genebra, e por muitos de nós, na apocrifia da Bíblia
traduzida sob as ordens do rei Jaime. Imprimirei maior ênfase a Jó
e ao Eclesiastes, obras-primas literárias, sendo Jó uma categoria
à parte. Sábios
se fazem presentes em quase todas as tradições espirituais do mundo,
tanto no Oriente quanto no Ocidente. Às vezes, a sabedoria de uma tradição
é atribuída a um único indivíduo, representativo do
todo. Sabemos que os cinco livros de Moisés não foram escritos por
Moisés, e cabe a suposição de que os hebreus também
o soubessem. O rei Davi era poeta, mas dificilmente poderia ter escrito todo o
Livro dos Salmos. O fundador da sabedoria hebraica foi, supostamente, o filho
de Davi, o rei Salomão, que não escreveu o Cântico dos Cânticos,
nem os Provérbios, nem o Eclesiastes, muito menos a Sabedoria de Salomão.
Ainda assim, Salomão dominava uma cultura sofisticada, e os poetas e sábios
de sua corte, ao que tudo indica, orgulhavam-se de atribuir as próprias
palavras à autoridade e à égide do rei. Mais do que Davi,
Salomão era dotado de largueza de espírito, e consta que sua corte
tenha produzido o Livro de J, ou Texto Javista, que vem a ser a obra mais contundente
composta em hebraico antigo, bem como a história magnífica que conhecemos
como II Samuel. O
Livro dos Provérbios, embora alguns dos aforismos ali incluídos
pertençam à era salomônica, provavelmente, sucede à
era do Redator, termo utilizado para designar o editor genial que coligiu a estrutura
que compreende de Gênesis a Reis, na Bíblia Hebraica, conforme hoje
a conhecemos. O Livro dos Provérbios é uma espécie de colagem,
tratando com desatenção a história e suas calamidades. Os
primeiros 22 capítulos (aproximadamente) referem-se, de certo modo, à
corte de Salomão; o que se segue é uma miscelânea. O primeiro
conjunto é mais sábio e mais célebre. Nenhum termo formal
é mais adequado do que "aforismo", mas os provérbios pouco
têm em comum com as tradições francesa e alemã que
convergem nos aforismos de Goethe e Nietzsche, tradição que, a meu
ver, alcança o apogeu na extraordinária eloqüência antifreudiana
de Karl Kraus, satirista vienense de origem judaica: "A psicanálise,
em si, é a doença que ela mesma se propõe a curar." A
sabedoria prudente, cuja apoteose é alcançada em Samuel Johnson
e Goethe, não é facilmente assimilável ao ceticismo fascinante
(por assim dizer) encontrado em Jó e no Eclesiastes. O Livro de Jó
costuma ser definido como teodicéia, à semelhança de Paraíso
Perdido, de John Milton, sendo o suposto objetivo de ambas as obras justificar
os atos de Deus diante de homens e mulheres. Jó constitui o maior triunfo
estético da Bíblia Hebraica, mas a reputação de teodicéia
deixa-me aturdido. O "paciente Jó", na verdade, é tão
paciente quanto o Rei Lear, e nem a obra bíblica nem Rei Lear nos
apresentam um Deus ou deuses justificados. E, o que é mais vital, os dois
poemas demonstram que carecemos de uma linguagem adequada aos nossos confrontos
com o Divino. Ken
Frieden, em um ensaio bastante útil (reimpresso na obra por mim organizada
sob o título Interpretações Críticas Modernas:
O Livro de Jó [Modern Critical Interpretations: The Book of Job,
1988], focaliza a questão dos nomes: de Jó, do Adversário,
de Deus. O nome de Jó parece estar relacionado à palavra árabe
awah, o que retorna a Deus, mas a interpretação rabínica
entende que o nome seja, em si mesmo, antitético, significando, simultaneamente,
"justo" e "inimigo" (de Deus). Javé, no Prólogo
e no Epílogo, é mencionado em discurso direto, mas ao longo do poema
é chamado de El, Elosh, Elohim e Shaddai, por
Jó e seus companheiros. Temos, ainda, Ha-Satan, Adversário
ou Acusador, embora não seja Satanás, no sentido miltônico. Os
comentaristas mais contundentes do Livro de Jó, na minha opinião,
continuam a ser João Calvino, nos sermões, e Kierkegaard, mas deixo-os
para o final da presente discussão, pois expressam complexas posições
protestantes. Jó é um dos grandes poemas da humanidade, ainda que
complicado e ambivalente. Um leitor comum, diante da Bíblia na chamada
versão do rei Jaime, depara-se com uma obra dividida em cinco partes, segundo
as competentes analogias propostas na tradução e nos comentários
de Marvin H. Pope (Anchor Bible, Job, terceira edição, 1985).
Temos um Prólogo (em dois capítulos), um Debate (capítulos
3-31), as extraordinárias admoestações de Eliú (capítulos
32-37), a Voz de Javé no Redemoinho (capítulos 38-41) e, finalmente,
um dúbio Epílogo (capítulo 42). O
célebre Prólogo focaliza um diálogo impressionante entre
Javé e Satanás, que aqui não é um marginal, mas um
Acusador do Pecado, que atua com a devida autorização: Houve
um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, e veio
também Satanás entre eles. Então
o Senhor disse a Satanás: "De onde vens?" E Satanás respondeu
ao Senhor, e disse: "De correr a Terra, de um lado ao outro, de cima, até
embaixo." E
disse o Senhor a Satanás: "Observaste meu servo Jó?, porque
ninguém há na Terra semelhante a ele, homem íntegro e reto,
temente a Deus, e que se desvia do mal." Então
respondeu Satanás ao Senhor, e disse: "Teme Jó a Deus sem motivo? "Porventura
tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo que ele possui?
Abençoaste a obra de suas mãos, e seus bens têm aumentado
na terra. "Mas
estende a tua mão, e toca-lhe em tudo que possui, e ele há de blasfemar
contra ti na tua face." E
disse o Senhor a Satanás: "Eis que tudo o que ele possui está
sob o teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão."
E Satanás saiu da presença do Senhor. (Jó
1, 6-12) |