Tiro na universidade Na
manhã de 5 de maio de 2003, a estudante de enfermagem Luciana Gonçalves
de Novaes hesitou ao entrar no ônibus que a levaria à aula. O
Morro do Turano, que fica atrás da Universidade Estácio de Sá,
na zona norte do Rio de Janeiro, estava em pé de guerra e os traficantes
ameaçavam o comércio da região. Mas, com receio de perder
a bolsa de estudos de 50%, não quis faltar às duas provas agendadas
para aquele dia. Filha de um motorista e uma merendeira aposentada, Luciana foi
a primeira integrante da família Novaes a chegar a um curso superior. Encerrado
o primeiro tempo de aula, foi até a cantina e pediu seu lanche habitual
dos intervalos: mate e pão de batata. Essa é a última memória
que tem antes do momento em que foi ferida por uma bala perdida dentro do campus.
O projétil entrou pelo maxilar e atingiu a medula e o bulbo cerebral, deixando
Luciana tetraplégica.
Aos 23 anos,
ela vive presa à cadeira de rodas e só consegue respirar por, no
máximo, cinco minutos sem a ajuda de um aparelho portátil. "A
casa e o mundo desabaram sobre a gente", diz o pai da vítima, José
Almir de Novaes. Enérgica, Luciana consegue narrar seu drama sem perder
o bom-humor e o otimismo. "No início, diziam que eu não iria
voltar a falar nem a comer alimentos sólidos", lembra ela, que evitou
durante dois anos ver noticiários na TV. Depois de ser baleada, Luciana
passou um ano e nove meses internada num hospital e fica feliz por estar agora
em casa, um imóvel de dois quartos, com portas largas e pequenas rampas
na entrada dos cômodos, na Zona Oeste do Rio. O lar - adaptado às
suas necessidades e com um serviço de home care 24 horas - é até
agora sua grande conquista na Justiça. Ela move um processo contra a universidade
e espera receber também uma indenização por danos morais
e estéticos e uma pensão até o fim da vida, mas os dois lados
ainda não chegaram a um acordo de valores. Enquanto
a ação se arrasta nos tribunais, Luciana faz sessões de fisioterapia
de segunda a segunda. Seis enfermeiras, três fisioterapeutas e uma fonoaudióloga
se revezam em sua rotina de tratamentos. Em seu tempo livre, a jovem é
peça-chave de uma rede informal formada por vítimas da violência
e seus parentes, que relatam seus casos e prestam apoio mútuo. Quando a
jovem Priscila Aprígio foi baleada durante um assalto a uma agência
do Banco Itaú, em São Paulo, Luciana logo ligou para a família.
Ela também fez questão de ir à missa de sétimo dia
do menino João Hélio Fernandes, arrastado até a morte por
bandidos, no Rio. "Sobrevivi e acredito agora ter a missão de passar
a minha experiência. Minha grande tristeza é ver que, assim como
o meu, outros casos de bala perdida permanecem impunes", diz. Chama a atenção
na decoração do quarto de Luciana a sua adoração pelo
Rio, mesmo depois do passou: nas paredes há uma pintura da praia de Ipanema
e uma fotografia que mostra a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar,
em 360 graus. "Continuo amando a beleza, o sol e o mar da minha cidade." No
meio do tiroteio Ter
a vida estraçalhada pela violência, tentar levar uma rotina normal
e não esmorecer ao longo dos anos é um tremendo desafio. A carioca
Camila Lima, 20 anos, é exemplo de força de vontade. Em setembro
de 1998, seu caminho cruzou com o de bandidos que tinham assaltado uma joalheria
e fugiam perseguidos por seguranças pelas ruas de Vila Isabel, bairro da
Zona Norte carioca. Vítima de uma bala perdida no confronto, ela ficou
tetraplégica. A cena de Camila estirada no chão, reproduzida na
primeira página de diversos jornais, chocou o país. Filha única
de um engenheiro e de uma funcionária pública aposentada, a menina
nunca tinha voltado da escola sem a companhia dos pais. Naquele dia, porém,
ia fazer um trabalho com amigas de colégio na casa de uma delas.
A
maratona que pratica desde então inclui sessões diárias de
fisioterapia e busca por novas técnicas de reabilitação.
"Há oito anos vivo 24 horas em função dela: sou a enfermeira,
a motorista e ainda faço as vezes de fisioterapeuta e de psicóloga
quando é necessário", diz a mãe de Camila, Anna Lúcia
Lima. Até agora, os esforços valeram a pena: hoje, a filha, que
sonhava ser modelo, já tem de volta o movimento da parte superior do corpo
e consegue dar os primeiros passos com a ajuda de um andador. Num
feito raro, Camila conseguiu, em 2005, que o estado do Rio de Janeiro arcasse
com um tratamento de medula na Alemanha. A busca por técnicas que possam
trazer de volta os movimentos inferiores não parou por aí. Em setembro
passado, ela passou por uma cirurgia de implante de células-tronco em Portugal
- dessa vez, custeada através de um empréstimo de 35 000 euros feito
pelos pais. Se der certo, os resultados serão percebidos no prazo de um
ano e meio. Camila tenta levar a vida
como outras meninas da sua idade: namora, tirou carteira de motorista, participou
de desfiles beneficentes e não deixou os estudos para trás. Ela
cursa Ciências Sociais na PUC carioca e, recentemente, começou a
estagiar na Petrobras. Para angariar doações para seus tratamentos
e divulgar suas melhoras, ela criou um site onde relata suas experiências.
"Com o acidente, precisei mudar meus objetivos de vida e não posso
deixar a peteca cair", diz. |