CRIME
21 de março de 2007
  

Tiro na universidade

Na manhã de 5 de maio de 2003, a estudante de enfermagem Luciana Gonçalves de Novaes hesitou ao entrar no ônibus que a levaria à aula. O Morro do Turano, que fica atrás da Universidade Estácio de Sá, na zona norte do Rio de Janeiro, estava em pé de guerra e os traficantes ameaçavam o comércio da região. Mas, com receio de perder a bolsa de estudos de 50%, não quis faltar às duas provas agendadas para aquele dia. Filha de um motorista e uma merendeira aposentada, Luciana foi a primeira integrante da família Novaes a chegar a um curso superior. Encerrado o primeiro tempo de aula, foi até a cantina e pediu seu lanche habitual dos intervalos: mate e pão de batata. Essa é a última memória que tem antes do momento em que foi ferida por uma bala perdida dentro do campus. O projétil entrou pelo maxilar e atingiu a medula e o bulbo cerebral, deixando Luciana tetraplégica.

Aos 23 anos, ela vive presa à cadeira de rodas e só consegue respirar por, no máximo, cinco minutos sem a ajuda de um aparelho portátil. "A casa e o mundo desabaram sobre a gente", diz o pai da vítima, José Almir de Novaes. Enérgica, Luciana consegue narrar seu drama sem perder o bom-humor e o otimismo. "No início, diziam que eu não iria voltar a falar nem a comer alimentos sólidos", lembra ela, que evitou durante dois anos ver noticiários na TV. Depois de ser baleada, Luciana passou um ano e nove meses internada num hospital e fica feliz por estar agora em casa, um imóvel de dois quartos, com portas largas e pequenas rampas na entrada dos cômodos, na Zona Oeste do Rio. O lar - adaptado às suas necessidades e com um serviço de home care 24 horas - é até agora sua grande conquista na Justiça. Ela move um processo contra a universidade e espera receber também uma indenização por danos morais e estéticos e uma pensão até o fim da vida, mas os dois lados ainda não chegaram a um acordo de valores.

Enquanto a ação se arrasta nos tribunais, Luciana faz sessões de fisioterapia de segunda a segunda. Seis enfermeiras, três fisioterapeutas e uma fonoaudióloga se revezam em sua rotina de tratamentos. Em seu tempo livre, a jovem é peça-chave de uma rede informal formada por vítimas da violência e seus parentes, que relatam seus casos e prestam apoio mútuo. Quando a jovem Priscila Aprígio foi baleada durante um assalto a uma agência do Banco Itaú, em São Paulo, Luciana logo ligou para a família. Ela também fez questão de ir à missa de sétimo dia do menino João Hélio Fernandes, arrastado até a morte por bandidos, no Rio. "Sobrevivi e acredito agora ter a missão de passar a minha experiência. Minha grande tristeza é ver que, assim como o meu, outros casos de bala perdida permanecem impunes", diz. Chama a atenção na decoração do quarto de Luciana a sua adoração pelo Rio, mesmo depois do passou: nas paredes há uma pintura da praia de Ipanema e uma fotografia que mostra a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, em 360 graus. "Continuo amando a beleza, o sol e o mar da minha cidade."

 

No meio do tiroteio

Ter a vida estraçalhada pela violência, tentar levar uma rotina normal e não esmorecer ao longo dos anos é um tremendo desafio. A carioca Camila Lima, 20 anos, é exemplo de força de vontade. Em setembro de 1998, seu caminho cruzou com o de bandidos que tinham assaltado uma joalheria e fugiam perseguidos por seguranças pelas ruas de Vila Isabel, bairro da Zona Norte carioca. Vítima de uma bala perdida no confronto, ela ficou tetraplégica. A cena de Camila estirada no chão, reproduzida na primeira página de diversos jornais, chocou o país. Filha única de um engenheiro e de uma funcionária pública aposentada, a menina nunca tinha voltado da escola sem a companhia dos pais. Naquele dia, porém, ia fazer um trabalho com amigas de colégio na casa de uma delas.

A maratona que pratica desde então inclui sessões diárias de fisioterapia e busca por novas técnicas de reabilitação. "Há oito anos vivo 24 horas em função dela: sou a enfermeira, a motorista e ainda faço as vezes de fisioterapeuta e de psicóloga quando é necessário", diz a mãe de Camila, Anna Lúcia Lima. Até agora, os esforços valeram a pena: hoje, a filha, que sonhava ser modelo, já tem de volta o movimento da parte superior do corpo e consegue dar os primeiros passos com a ajuda de um andador.

Num feito raro, Camila conseguiu, em 2005, que o estado do Rio de Janeiro arcasse com um tratamento de medula na Alemanha. A busca por técnicas que possam trazer de volta os movimentos inferiores não parou por aí. Em setembro passado, ela passou por uma cirurgia de implante de células-tronco em Portugal - dessa vez, custeada através de um empréstimo de 35 000 euros feito pelos pais. Se der certo, os resultados serão percebidos no prazo de um ano e meio.

Camila tenta levar a vida como outras meninas da sua idade: namora, tirou carteira de motorista, participou de desfiles beneficentes e não deixou os estudos para trás. Ela cursa Ciências Sociais na PUC carioca e, recentemente, começou a estagiar na Petrobras. Para angariar doações para seus tratamentos e divulgar suas melhoras, ela criou um site onde relata suas experiências. "Com o acidente, precisei mudar meus objetivos de vida e não posso deixar a peteca cair", diz.


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