Está
mais difícil que antes
Jader
se enrola para explicar seus
30
milhões e fica ainda pior com a
roubalheira
de seus amigos na Sudam
Maurício Lima e Ana d'Angelo
Ana Araujo
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| Jader
Barbalho: trajetória política marcada por amigos que, volta
e meia, se envolvem em escândalos |
Na
semana passada, o senador Jader Barbalho sentiu sob os pés
o tremor da pedreira em que se meteu. Pela primeira vez, desde que
se elegeu presidente do Senado, há um mês, Jader acusou
em público as dificuldades que enfrenta para exercer plenamente
seu novo cargo. Na segunda-feira, o senador divulgou um estudo feito
por uma consultoria, a Boucinhas & Campos, cujo objetivo era
provar que seu patrimônio pessoal é inferior aos 30
milhões de reais, apontados por VEJA em reportagem publicada
em outubro do ano passado. Apresentou o relatório num discurso
no Senado, mas acabou soterrado pelo anúncio de outra novidade
no mesmo dia. O governo divulgou o resultado de uma auditoria parcial
num dos feudos políticos do senador, a Superintendência
de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), cuja sede fica em
Belém. A auditoria, que levou três meses para ser concluída,
constatou que pelo menos 108 milhões de reais foram desviados
da Sudam nos últimos dois anos.
Consolidado em 193 páginas, o saldo da investigação
é pesadíssimo e só não causou mais espanto
porque até as árvores da Amazônia sabem que
a Sudam é uma usina de mutretas. A auditoria achou 108 milhões
de reais de desvios ao analisar apenas 95 projetos, que envolvem
1,6 bilhão de reais. Como existem outros 453 projetos, totalizando
2,2 bilhões de reais, pode imaginar-se que o rombo seja bem
maior. Se a taxa de desvio desses outros projetos se mantiver no
"padrão Sudam", o rombo ultrapassa 250 milhões de
reais. No fundo, é pior que isso. A auditoria desconsiderou
as fraudes que já estão sob investigação
da Polícia Federal. Só numa delas, apura-se a suspeita
de que um empresário de Mato Grosso, José Osmar Borges,
produziu um rombaço de 133 milhões de reais. Com tudo
isso, é lícito afirmar que a Sudam não era
uma agência de desenvolvimento. Era um covil. Será
extinta até o fim do mês. Sua congênere para
o Nordeste, a Sudene, por via das dúvidas, também
sumirá do mapa.
A leitura do relatório é um passeio por todos os tipos
de golpe. A Sudam liberou recursos para empresários que não
tinham CPF. Uma empresa, a Agropecuária Rio Novo de Altamira,
ganhou um projeto de 9,8 milhões de reais para cultivar cupuaçu,
açaí e pimenta-do-reino. Conseguiu pôr a mão
em 1,9 milhão. Comprou trator e caminhão com notas
frias. Fez cozinha, comprou esterco, adquiriu mudas de bananeira
tudo, de novo, com notas frias. Teve caso de empresa que
apresentou nota de compra de material de construção
em Tocantins mas as notas eram do Maranhão. Até
barco se falsificava. Uma empresa, Tunasa, num prodígio da
engenharia náutica, fez com que um velho pesqueiro, construído
em 1985 com 19 metros de comprimento, reaparecesse nos papéis
da Sudam como um pesqueiro novinho em folha, com 30 metros de comprimento,
avaliado em 1,6 milhão de reais. É óbvio que
tamanha bandalheira só vingava com o conluio de funcionários.
A auditoria pede que sejam investigadas as condutas de uma massa
de vinte servidores e vinte conselheiros.
O nome de Jader Barbalho não aparece na auditoria uma única
vez. Só o nome de seus amigos. Desde 1996, o senador é
um gigante na Sudam. De lá para cá, o superintendente
da autarquia tem sido sempre um de seus afilhados políticos.
O mais longevo foi seu amigo de adolescência José Artur
Guedes Tourinho, que comandou a Sudam de 1996 a 1999 até
ser levado por uma cachoeira de corrupção. Colegas
de ginásio em Belém, Jader e Tourinho militaram juntos
no movimento estudantil nos anos 60. "Jader não gostava nem
de jogar bola. O negócio dele já era política",
diz Tourinho. Em 1988, Jader pôs o velho amigo na direção
do Banco da Amazônia, onde Tourinho ficou oito anos
período em que a diretoria foi acusada de desviar 30 milhões
de dólares dos cofres da instituição, mas todo
mundo saiu ileso. Depois disso, Tourinho apareceu na Sudam.
Num de seus primeiros atos no comando da Sudam, Tourinho firmou
um convênio, ou "autoconvênio". Dava 320.000 reais por
ano a uma empresa, a CTI Amazônia, para fomentar o turismo
na região. O chato é que a CTI Amazônia era
presidida pelo próprio Tourinho. Depois, soube-se que um
dos reis da Sudam era o empresário José Osmar Borges
o do rombaço de 133 milhões. Nos últimos
anos, as empresas de Borges conseguiram nada menos que 327 milhões
de reais de incentivo na Sudam. Um pouco depois, apareceu um cheque
de 39.000 reais depositado por Borges na conta de Tourinho. Este
explicou que o depósito era o pagamento pela venda de um
sítio. Como ninguém achou um sítio sendo vendido
a Borges, Tourinho explicou que o negócio fora desfeito na
última hora. Afastado da Sudam, ele hoje se dedica a presidir
o Payssandu Sport Club, um time do Pará.
Com a queda de Tourinho na Sudam, Jader Barbalho indicou Maurício
Benedito Vasconcelos. Formado em engenharia, Vasconcelos é
técnico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES). No início dos anos 90, quando Jader assumiu
o governo do Pará pela segunda vez, ele foi nomeado presidente
da Celpa, a companhia elétrica do Estado. Na Sudam, onde
estreou em outubro de 1999, Vasconcelos fez a festa. Era superintendente
da autarquia quando saíram os recursos para o projeto Usimar,
um dos mais podres da Sudam, de acordo com a auditoria do governo.
O projeto, de quase 1,4 bilhão de reais, previa a implantação
de um complexo industrial em São Luís, no Maranhão.
A auditoria achou catorze irregularidades. Entre as principais,
o contrato foi aprovado a jato e os empresários não
deram sua parte no negócio nem tinham condições
financeiras de fazê-lo, dado para o qual a Sudam não
atentou antes de fechar o negócio. Pior: quase 45 milhões
de reais foram liberados para a obra, há um ano, e até
hoje só apareceu no local um canteiro de obras. Nem o galpão
para o começo das obras foi concluído.
Seria injusto acusar Jader Barbalho pela ação de seus
afilhados. Com toda a razão, o senador pode alegar que os
julgava honestos e idôneos, mas que eles traíram sua
confiança. O que chama a atenção é a
freqüência com que Jader se cerca de amigos traidores.
Quando governou o Pará pela primeira vez, de Jader, como de praxe, nomeou a diretoria do Banco do Pará
(Banpará), do qual ele é acusado de ter desviado 10
milhões de reais um processo que o Banco Central insiste,
há duas semanas, em manter na gaveta. Na época, o
homem forte do Banpará era Hamilton Guedes, que ocupava a
diretoria financeira e administrativa. Guedes, colega de colégio
de Jader, era também no banco o diretor mais íntimo
do então governador. No Banpará, Guedes envolveu-se
na emissão dos cheques que pararam nas contas de Jader e
familiares e na sua própria. Também foi acusado
de criar a carteira de clientes especiais, de amigos do então
governador, com empréstimos para lá de generosos.
Tanto fez que o BC, no final dos anos 80, o expulsou de seu quadro
de funcionários. Hoje, aos 55 anos, Guedes tem um escritório
de representação e lobby em Belém.
Outro que pode ter traído a confiança do senador é
Antônio Pinho Brasil, que integrou o primeiro governo de Jader
como diretor do Departamento de Estradas e Rodagem (DER). Depois,
quando Jader virou ministro da Reforma Agrária, Pinho Brasil
passou a ser seu secretário de Recursos Fundiários
um período que rendeu vários processos judiciais
por desapropriações fraudulentas. Mais tarde, quando
Jader assumiu o cargo de ministro da Previdência Social, Pinho
Brasil ganhou a presidência do Iapas, a autarquia que antecedeu
o INSS. Sua passagem pelo Iapas foi memorável. Pinho Brasil
é citado na CPI de fraudes da Previdência, de 1994,
por envolvimento com o megafraudador César Arrieta, que causou
um rombo de 1,5 bilhão de dólares nos cofres da Previdência,
assunto que, desde então, está na mira do Ministério
Público.
Com amigos tão enrolados, Jader tentou na semana passada
desenrolar a si próprio ao divulgar o estudo da Boucinhas
& Campos mostrando que seu patrimônio pessoal, hoje, é
de 2,6 milhões de reais e não 30 milhões,
como noticiou VEJA. Com nove páginas, cinco das quais descrevem
o currículo da consultoria, o estudo não é
propriamente uma "auditoria", como o senador a chamou, mas uma "revisão
especial". A peça lista todo o patrimônio declarado
de Jader em 1989 e diz que, tudo somado, em "valor de mercado",
o total chega a 6,9 milhões de reais. Só que, no tal
valor de mercado da consultoria, há coisas do arco-da-velha:
um trator Valmet aparece cotado em 7,70 reais; ações
de uma granja, a Pará-Goiás, por 0,04 real; ações
na empresa Novo Pará Ltda. por 1,10 real; e jóias
assim mesmo, no plural por 0,14 real, quantia com
a qual não se compra nem uma bijuteria de arame.
Tem mais. Na avaliação do patrimônio do senador
na década de 90, a consultoria não lista os bens e
só observa se os rendimentos justificam o crescimento patrimonial
de um ano para o outro. E conclui: está tudo certo. VEJA
exibiu o estudo da Boucinhas a dois especialistas e ambos chegaram
à conclusão de que se trata de "uma piada". Isso porque
a consultoria calculou a evolução patrimonial, entre
1990 e 1999, com base nos valores atribuídos pelo próprio
Jader em sua declaração de renda sem atualizá-los.
Assim, a consultoria computou ações numa rádio
por 354 reais, terreno nos arredores de Belém por 492 reais
e assim por diante (veja quadro abaixo). Com valores tão
irrisórios, ficou fácil concluir que o patrimônio
de Jader era de 2,6 milhões de reais em 1999. A divulgação
da "auditoria" pode ter sido uma péssima idéia do
senador. Afinal, ficou claro que, se Jader tivesse como explicar
os 30 milhões, simplesmente teria explicado. Como recorreu
a um subfaturamento descomunal, é sinal de que 30 milhões
não têm explicação.
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O
subfaturamento
O
estudo da consultoria Boucinhas & Campos informa que o
patrimônio de Jader Barbalho era de 2,6 milhões
de reais em 1999. Para chegar a um valor tão baixo,
o estudo considera que
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A
participação de 25% que o senador possui
na Belém Radiodifusão, uma de suas três
emissoras de rádio, vale apenas 354 reais |
Os
21,25% que Jader possui na Carajás FM, uma das
rádios com maior audiência em Belém, são
avaliados em apenas 1 437 reais |
Um
terreno em Ananindeua, região metropolitana de Belém,
aparece declarado por apenas 492 reais |
Uma
fazenda de 749 hectares, localizada numa das melhores
regiões do Pará, é avaliada em apenas 11
985 reais |
Um
terreno em Salinas, a praia mais freqüentada no Pará,
aparece na declaração do senador com o valor de
2 700 reais |
Com
reportagem de Lourenço Flores
Saiba
mais |
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