|
|
Edição 1 620 - 20/10/1999
|
A longo prazoDoenças da vida adulta podem ser produto Há muito tempo se relacionam doenças como obesidade, diabetes, câncer e problemas no coração a dois fatores básicos: herança genética, que são os traços passados nos genes de pai para filho, e meio ambiente, no qual o que conta é o tipo de vida da pessoa. Agora, os primeiros resultados de um amplo estudo realizado nos últimos anos vieram acrescentar um terceiro fator à equação: o ambiente fetal. Aqueles nove meses na barriga da mãe são determinantes para a saúde do filho no resto da vida, numa escala que parece impressionante. "Estamos comprovando que a interação dos genes com o meio começa ainda no útero", explicou a VEJA o epidemiologista inglês David Barker, professor da Universidade de Southampton e precursor dessa linha de pesquisa. "O que a mãe come e não come, como ela vive e o que ela faz podem determinar como se desenvolvem certos órgãos e programar a resposta que eles darão futuramente a toda uma série de problemas." Reunido no livro Life in the Womb (Vida no Útero), de Peter Nathanielsz, professor da universidade americana Cornell, um conjunto de estudos com o aval das universidades de Oxford, na Inglaterra, e Harvard, nos Estados Unidos, indica que um adulto com problemas cardíacos pode ter sido um feto mal alimentado, cujo fígado não se desenvolveu o suficiente para regular os níveis de colesterol. Outro exemplo arrepiante é o da mulher que teoricamente desenvolve câncer na mama porque a mãe engordou demais durante a gravidez e transmitiu a ela, ainda no útero, doses muito altas de estrogênio. "O meio intra-uterino pode influenciar, mas é só um dado a mais, tão importante quanto a herança genética e o meio ambiente", ameniza Antonio Fernandes Moron, fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Fetal. "Hoje em dia, ninguém questiona mais que o cigarro, o álcool e outras drogas geram bebês de baixo peso e com malformações. Mas ainda é cedo para ir muito além disso", diz ele, recém-chegado de uma conferência na Inglaterra sobre o tema. Exagero – Os próprios autores das pesquisas alertam que as primeiras conclusões ainda têm de ser corroboradas por muito estudo, o que levou alguns médicos a criticar a pressa com que estão sendo divulgadas. Uma das mais assustadoras indica que a grávida que pega uma gripe produz anticorpos para combater o vírus que podem alterar o desenvolvimento do cérebro do bebê e levá-lo, na vida adulta, à esquizofrenia. "Fazer uma afirmação dessas neste momento é um exagero que serve apenas para deixar os futuros pais malucos de preocupação", analisa Erasmo Barbante Casella, neurologista infantil da Universidade de São Paulo. O lado bom dos estudos é que, se comprovada a importância da vida no útero na saúde futura do bebê, as novas descobertas poderão prevenir muitas doenças. Quem nasceu magrinho, por exemplo, pode fazer exames periódicos e manter sob controle sua tendência para o stress. "É uma arma a mais na prevenção de doenças", explica o endocrinologista Alfredo Halpern. "Sabendo que é mais predisposto a determinadas patologias, o indivíduo tem muito mais chance de evitá-las se as combater desde a infância."
|
|
|