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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Newton Cardoso, o vice de 150 milhões
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Acordo bom aumenta o salário mínimo
Acordo ruim envia dinheiro para obras irregulares
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Compensando esse "conto-do-vigário", Newtão diz ter feito recentemente um "negócio da China". Comprou da Vale do Rio Doce sete fazendas no norte de Minas, 72.000 hectares no total, metade deles com eucalipto e pinus. Gastou 16,8 milhões de reais, "financiados e com um ano de carência". Nem começou a pagar, já está vendendo resina a um grupo português que desembolsa 540.000 dólares para explorar 3% da reserva de pinus. "Os portugueses me disseram que a área vale no mínimo 60 milhões de reais." Especialistas concordam com uma avaliação pela metade desse valor. Newtão sabe cuidar da terra como ninguém. Sua primeira aquisição em solo mineiro, a Fazenda Rio Rancho, na cidade de Pitangui, era um sítio chinfrim na década de 70. À medida que o dono foi ascendendo na política, a propriedade foi aumentado e se sofisticando. Hoje, o imóvel tem 495 hectares e está avaliado em 6,4 milhões de reais. Tem heliponto, quadras, lago, piscina com cascatas, chalés e minizoológico com leões, tigres, lhamas, macacos e aves de várias espécies. Lá está guardada a coleção de carros do vice-governador, com cerca de vinte modelos. A fazenda abriga ainda uma central de inseminação artificial e 600 cabeças de gado bovino de elite, de várias raças. "A Rio Rancho é meu xodó", ele diz.

 
Henry Yu
A FAZENDA ABROLHOS
Uma faixa de 3 quilômetros de praia, com coqueirais, no município de Nova Viçosa, numa das mais valorizadas regiões do litoral baiano. Nos fundos, passa uma rodovia asfaltada, o que eleva o potencial turístico da área

As outras fazendas dele também são muito chiques. Abrigam cerca de 13.000 cabeças de gado, que produzem 6.000 litros de leite por dia. Juntas, fazem também 4.000 bezerros a cada ano. A Veredão, na divisa com a Bahia, é um oásis no paupérrimo Vale do Jequitinhonha, cheia de poços artesianos e equipada com uma pista de pouso asfaltada, com 1,5 quilômetro de extensão e 30 metros de largura. Pelos custos da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeronáutica, uma pista igual sai por 8 milhões de reais. Como Newtão conseguiu impulsionar tão bem seus negócios pessoais enquanto se entretinha em defender os interesses de seus eleitores?, perguntam todos os que tomam conhecimento de sua história de sucesso. "Se não é banqueiro nem dono de poços de petróleo, este cidadão deve ser um mago das finanças", espanta-se, por exemplo, o tributarista Osiris Lopes Filho, ex-secretário da Receita Federal, confrontado com os dados de sua evolução patrimonial.

VEJA apresentou os números de Newtão a outro especialista, Leopoldo Barretto Júnior, que trabalha com gestão de fortunas e é consultor da Sul América Investimentos. Barretto Júnior também ficou admirado, mesmo não recebendo maiores detalhes que pudessem identificar o personagem. "Para chegar aonde chegou, ele teria de ser uma versão brasileira do Warren Buffett", comentou Barretto Júnior. Buffett ficou milionário em Wall Street jogando dinheiro de uma ação para outra. Só fazia isso, catorze horas por dia. Outros analistas financeiros acham que um jeito de enriquecer assim depressa é saber usar informações privilegiadas ou beneficiar-se de cargos públicos para fazer bons negócios. Falam em tese, é claro. Newtão, ao contrário, acha que a política tem entupido sua veia empresarial. "Sobra pouco tempo para exercer minha vocação de comerciante", afirma. De vez em quando, ele aproveita uma viagem oficial para fazer um negócio, usa um secretário para cuidar de uns papéis, chama um diretor de empresa pública para ajudar na contabilidade das fazendas. Mas isso só de vez em quando.

Num desses momentos em que a condição de político ajudou na vida de empresário, ele ganhou uma concessão de televisão do então presidente José Sarney, por ter feito sua parte para auxiliar a aprovar o mandato de cinco anos na Constituinte de 1988. Quando ficou sem mandato nenhum, entre 1991 e 1994, Newtão vendeu a TV. Não diz por quanto. O contrato tem valor equivalente a 10 milhões de reais. Mais recentemente, ele vendeu também sua frota de seis aeronaves, entre as quais um Learjet 55 e um helicóptero. Embolsou mais de 12 milhões de reais.

Apelidado de "Trator", por ter um estilo de administrar peculiar, Newtão gosta de ver canteiros de obras florescendo em suas administrações. Logo no segundo ano de seu primeiro mandato foi pedida sua cassação em Contagem, porque ele teria usado funcionários da prefeitura para trabalhar num sítio de sua propriedade. Também diziam que ele aplicava dinheiro público sem autorização da Câmara Municipal e que tinha aprovado um loteamento em troca de apoio financeiro. Esse processo não foi adiante. Em 1983, voltou a ser prefeito, depois de uma eleição que lhe deu 92,6% dos votos. Ainda responde a duas ações judiciais remanescentes desse período. Uma por desapropriar pagando quase 1.000% acima do preço um terreno que era de seu então chefe de gabinete, Gil Antônio Diniz, o Teteco. Essa ação está no Tribunal de Justiça desde 1994, parada. A outra, que está no Superior Tribunal de Justiça, decorreu da compra de presentinhos para secretárias da prefeitura – pingentes e correntinhas de ouro. "Uma história ridícula", ele afirma. Até hoje as contas desse seu segundo mandato em Contagem ainda não foram auditadas pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais.

Durante os quatro anos em que ficou no Palácio da Liberdade, de 1987 a 1990, Newtão também enfrentou uns probleminhas. "A maioria das obras que ele fazia era superfaturada e as licitações eram de cartas marcadas", afirma o ex-deputado Antônio Milton Salles, que publicava em primeira mão – antes de serem abertas as propostas – os resultados de concorrências do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas. Assim demonstrava fraudes. Essas e outras denúncias deram num processo de impeachment na Assembléia Legislativa, mas o governador se saiu muito bem. "Eu nunca temi ser afastado, pois tenho o nome da maioria dos deputados no canhoto de meu cheque", disse na ocasião, comemorando a vitória.

Em 1997, outra vez prefeito de Contagem, Newtão mandou pagar indenização de 6 milhões de reais à empresa Road Indústria e Construções, referente à desapropriação de um terreno que havia ocorrido seis anos antes. O beneficiário era Teteco – e Newtão diz que apenas cumpria decisão judicial. Em alguns documentos obtidos por VEJA, o vereador Teteco aparece, no passado, como sócio em vários empreendimentos do hoje vice-governador. Há três anos, ele transferiu um dos braços da própria Road, especializado na abertura de poços artesianos, para a NC Participações e Consultoria, uma das holdings de Newtão. A empresa, que tem uma frota de 24 veículos – entre os quais dezesseis caminhões –, está avaliada em 1,5 milhão de reais e é dirigida atualmente pela mulher de Newtão, a deputada federal Maria Lúcia Cardoso.

Em campanha para voltar ao governo do Estado, Newtão é líder ou segundo colocado em todas as pesquisas. Parece ter dado certo sua estratégia de ficar na sombra de Itamar, com quem fez as pazes na última eleição. No passado, os dois trocaram todo tipo de acusação. "Newton foi extremamente hábil", diz o cientista político Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi. "Percebeu que havia risco para sua imagem e soube se recolher." O que ainda não se pode avaliar é o que o eleitorado vai achar quando Newtão sair totalmente da sombra, com seus 150 milhões de reais de patrimônio.

 

A empresa que ele diz que não tem

Charles Duarte/Ag. 1º Plano
Área industrial da Magnesita: líder do mercado brasileiro de refratários

Uma das coisas de que se fala muito sobre Newton Cardoso é que ele tem sociedade na Magnesita – a mineradora que lhe deu o primeiro emprego, na década de 50, e na qual ele ocupa hoje o posto de diretor para assuntos governamentais. Perguntado se tem mesmo, ele responde que não. Questionado se não seria proprietário de uma empresa num paraíso fiscal – uma off shore, como se diz –, a qual seria dona de ações da Magnesita, ele reafirma que não. Indagado sobre por que, então, sua mulher, a deputada federal Maria Lúcia Cardoso, ocupa na empresa um cargo normalmente reservado a acionistas, no conselho de administração, ele perde a paciência. "É uma homenagem que a Magnesita presta a quem ajudou a construí-la", diz. "Além disso, sou feito de MgCO3 (carbonato de magnésio, a composição química do mineral magnesita)."

Para outros diretores da Magnesita, perguntas semelhantes geram respostas muito diferentes. Em agosto de 1997, um dos vice-presidentes da empresa, Eduardo Carlos Guimarães, disse numa entrevista ao jornal Hoje em Dia que a NC Participações e Consultoria, uma holding de Newtão, havia se tornado acionista da Magnesita. "Estou lá como diretor-acionista, pois a NC comprou ações da companhia", disse, na mesma época, o então diretor de qualidade da Magnesita, Perouse Cardoso, um dos irmãos de Newtão. Há quinze dias, numa entrevista realizada na matriz da mineradora, o diretor administrativo da companhia, José Tarcísio Guimarães Guerra, acrescentou alguns detalhes a essa história. "Há cerca de quatro anos, Newton Cardoso assumiu o comando da off shore Ovante Trading, que é dona de 28% do capital da Partimag, a holding controladora da Magnesita", esclareceu.

Na Bolsa de Valores de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia (Bovmesb) está registrado que a holding Partimag S/A é dona de 50,2% das ações ordinárias da Magnesita, que estão avaliadas em 94,5 milhões de reais. Ou seja, aqueles 28% da Ovante valem cerca de 26 milhões de reais. Isso é o mínimo, porque ações de empresas rentáveis sempre são vendidas com ágio. Essa parte do patrimônio de Newtão não consta das tabelas que ilustram esta reportagem, porque não é tão "visível" quanto os demais bens do vice-governador cuja paternidade é fácil comprovar.

 

 
 
   
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