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Compensando
esse "conto-do-vigário", Newtão diz ter feito recentemente
um "negócio da China". Comprou da Vale do Rio Doce sete fazendas
no norte de Minas, 72.000 hectares no total,
metade deles com eucalipto e pinus. Gastou 16,8 milhões de reais,
"financiados e com um ano de carência". Nem começou a pagar,
já está vendendo resina a um grupo português que desembolsa
540.000 dólares para explorar 3% da
reserva de pinus. "Os portugueses me disseram que a área vale no
mínimo 60 milhões de reais." Especialistas concordam com
uma avaliação pela metade desse valor. Newtão sabe
cuidar da terra como ninguém. Sua primeira aquisição
em solo mineiro, a Fazenda Rio Rancho, na cidade de Pitangui, era um sítio
chinfrim na década de 70. À medida que o dono foi ascendendo
na política, a propriedade foi aumentado e se sofisticando. Hoje,
o imóvel tem 495 hectares e está avaliado em 6,4 milhões
de reais. Tem heliponto, quadras, lago, piscina com cascatas, chalés
e minizoológico com leões, tigres, lhamas, macacos e aves
de várias espécies. Lá está guardada a coleção
de carros do vice-governador, com cerca de vinte modelos. A fazenda abriga
ainda uma central de inseminação artificial e 600 cabeças
de gado bovino de elite, de várias raças. "A Rio Rancho
é meu xodó", ele diz.
Henry Yu
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A
FAZENDA ABROLHOS
Uma faixa de 3 quilômetros de praia, com coqueirais, no município
de Nova Viçosa, numa das mais valorizadas regiões do
litoral baiano. Nos fundos, passa uma rodovia asfaltada, o que eleva
o potencial turístico da área |
As outras
fazendas dele também são muito chiques. Abrigam cerca de
13.000 cabeças de gado, que produzem
6.000 litros de leite por dia. Juntas, fazem
também 4.000 bezerros a cada ano. A
Veredão, na divisa com a Bahia, é um oásis no paupérrimo
Vale do Jequitinhonha, cheia de poços artesianos e equipada com
uma pista de pouso asfaltada, com 1,5 quilômetro de extensão
e 30 metros de largura. Pelos custos da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura
Aeronáutica, uma pista igual sai por 8 milhões de reais.
Como Newtão conseguiu impulsionar tão bem seus negócios
pessoais enquanto se entretinha em defender os interesses de seus eleitores?,
perguntam todos os que tomam conhecimento de sua história de sucesso.
"Se não é banqueiro nem dono de poços de petróleo,
este cidadão deve ser um mago das finanças", espanta-se,
por exemplo, o tributarista Osiris Lopes Filho, ex-secretário da
Receita Federal, confrontado com os dados de sua evolução
patrimonial.
VEJA apresentou
os números de Newtão a outro especialista, Leopoldo Barretto
Júnior, que trabalha com gestão de fortunas e é consultor
da Sul América Investimentos. Barretto Júnior também
ficou admirado, mesmo não recebendo maiores detalhes que pudessem
identificar o personagem. "Para chegar aonde chegou, ele teria de ser
uma versão brasileira do Warren Buffett", comentou Barretto Júnior.
Buffett ficou milionário em Wall Street jogando dinheiro de uma
ação para outra. Só fazia isso, catorze horas por
dia. Outros analistas financeiros acham que um jeito de enriquecer assim
depressa é saber usar informações privilegiadas ou
beneficiar-se de cargos públicos para fazer bons negócios.
Falam em tese, é claro. Newtão, ao contrário, acha
que a política tem entupido sua veia empresarial. "Sobra pouco
tempo para exercer minha vocação de comerciante", afirma.
De vez em quando, ele aproveita uma viagem oficial para fazer um negócio,
usa um secretário para cuidar de uns papéis, chama um diretor
de empresa pública para ajudar na contabilidade das fazendas. Mas
isso só de vez em quando.
Num desses
momentos em que a condição de político ajudou na
vida de empresário, ele ganhou uma concessão de televisão
do então presidente José Sarney, por ter feito sua parte
para auxiliar a aprovar o mandato de cinco anos na Constituinte de 1988.
Quando ficou sem mandato nenhum, entre 1991 e 1994, Newtão vendeu
a TV. Não diz por quanto. O contrato tem valor equivalente a 10
milhões de reais. Mais recentemente, ele vendeu também sua
frota de seis aeronaves, entre as quais um Learjet 55 e um helicóptero.
Embolsou mais de 12 milhões de reais.
Apelidado
de "Trator", por ter um estilo de administrar peculiar, Newtão
gosta de ver canteiros de obras florescendo em suas administrações.
Logo no segundo ano de seu primeiro mandato foi pedida sua cassação
em Contagem, porque ele teria usado funcionários da prefeitura
para trabalhar num sítio de sua propriedade. Também diziam
que ele aplicava dinheiro público sem autorização
da Câmara Municipal e que tinha aprovado um loteamento em troca
de apoio financeiro. Esse processo não foi adiante. Em 1983, voltou
a ser prefeito, depois de uma eleição que lhe deu 92,6%
dos votos. Ainda responde a duas ações judiciais remanescentes
desse período. Uma por desapropriar pagando quase 1.000%
acima do preço um terreno que era de seu então chefe de
gabinete, Gil Antônio Diniz, o Teteco. Essa ação está
no Tribunal de Justiça desde 1994, parada. A outra, que está
no Superior Tribunal de Justiça, decorreu da compra de presentinhos
para secretárias da prefeitura pingentes e correntinhas
de ouro. "Uma história ridícula", ele afirma. Até
hoje as contas desse seu segundo mandato em Contagem ainda não
foram auditadas pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais.
Durante
os quatro anos em que ficou no Palácio da Liberdade, de 1987 a
1990, Newtão também enfrentou uns probleminhas. "A maioria
das obras que ele fazia era superfaturada e as licitações
eram de cartas marcadas", afirma o ex-deputado Antônio Milton Salles,
que publicava em primeira mão antes de serem abertas as
propostas os resultados de concorrências do Departamento
de Estradas de Rodagem de Minas. Assim demonstrava fraudes. Essas e outras
denúncias deram num processo de impeachment na Assembléia
Legislativa, mas o governador se saiu muito bem. "Eu nunca temi ser afastado,
pois tenho o nome da maioria dos deputados no canhoto de meu cheque",
disse na ocasião, comemorando a vitória.
Em 1997,
outra vez prefeito de Contagem, Newtão mandou pagar indenização
de 6 milhões de reais à empresa Road Indústria e
Construções, referente à desapropriação
de um terreno que havia ocorrido seis anos antes. O beneficiário
era Teteco e Newtão diz que apenas cumpria decisão
judicial. Em alguns documentos obtidos por VEJA, o vereador Teteco aparece,
no passado, como sócio em vários empreendimentos do hoje
vice-governador. Há três anos, ele transferiu um dos braços
da própria Road, especializado na abertura de poços artesianos,
para a NC Participações e Consultoria, uma das holdings
de Newtão. A empresa, que tem uma frota de 24 veículos
entre os quais dezesseis caminhões , está avaliada
em 1,5 milhão de reais e é dirigida atualmente pela mulher
de Newtão, a deputada federal Maria Lúcia Cardoso.
Em campanha
para voltar ao governo do Estado, Newtão é líder
ou segundo colocado em todas as pesquisas. Parece ter dado certo sua estratégia
de ficar na sombra de Itamar, com quem fez as pazes na última eleição.
No passado, os dois trocaram todo tipo de acusação. "Newton
foi extremamente hábil", diz o cientista político Marcos
Coimbra, do Instituto Vox Populi. "Percebeu que havia risco para sua imagem
e soube se recolher." O que ainda não se pode avaliar é
o que o eleitorado vai achar quando Newtão sair totalmente da sombra,
com seus 150 milhões de reais de patrimônio.
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A
empresa que ele diz que não tem
Charles Duarte/Ag. 1º Plano
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| Área
industrial da Magnesita: líder do mercado brasileiro
de refratários |
Uma
das coisas de que se fala muito sobre Newton Cardoso é que
ele tem sociedade na Magnesita a mineradora que lhe deu o
primeiro emprego, na década de 50, e na qual ele ocupa hoje
o posto de diretor para assuntos governamentais. Perguntado se tem
mesmo, ele responde que não. Questionado se não seria
proprietário de uma empresa num paraíso fiscal
uma off shore, como se diz , a qual seria dona de ações
da Magnesita, ele reafirma que não. Indagado sobre por que,
então, sua mulher, a deputada federal Maria Lúcia
Cardoso, ocupa na empresa um cargo normalmente reservado a acionistas,
no conselho de administração, ele perde a paciência.
"É uma homenagem que a Magnesita presta a quem ajudou a construí-la",
diz. "Além disso, sou feito de MgCO3 (carbonato
de magnésio, a composição química do
mineral magnesita)."
Para
outros diretores da Magnesita, perguntas semelhantes geram respostas
muito diferentes. Em agosto de 1997, um dos vice-presidentes da
empresa, Eduardo Carlos Guimarães, disse numa entrevista
ao jornal Hoje em Dia que a NC Participações
e Consultoria, uma holding de Newtão, havia se tornado acionista
da Magnesita. "Estou lá como diretor-acionista, pois a NC
comprou ações da companhia", disse, na mesma época,
o então diretor de qualidade da Magnesita, Perouse Cardoso,
um dos irmãos de Newtão. Há quinze dias, numa
entrevista realizada na matriz da mineradora, o diretor administrativo
da companhia, José Tarcísio Guimarães Guerra,
acrescentou alguns detalhes a essa história. "Há cerca
de quatro anos, Newton Cardoso assumiu o comando da off shore Ovante
Trading, que é dona de 28% do capital da Partimag, a holding
controladora da Magnesita", esclareceu.
Na
Bolsa de Valores de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia
(Bovmesb) está registrado que a holding Partimag S/A é
dona de 50,2% das ações ordinárias da Magnesita,
que estão avaliadas em 94,5 milhões de reais. Ou seja,
aqueles 28% da Ovante valem cerca de 26 milhões de reais.
Isso é o mínimo, porque ações de empresas
rentáveis sempre são vendidas com ágio. Essa
parte do patrimônio de Newtão não consta das
tabelas que ilustram esta reportagem, porque não é
tão "visível" quanto os demais bens do vice-governador
cuja paternidade é fácil comprovar.
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