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trecho de A Loucura de Churchill, de Christopher Catherwood Capítulo
Um De
Abraão a Allenby Em
março de 1921, Winston Churchill, recém-nomeado secretário
de Estado para as Colônias, convocou uma grande equipe de assessores
para um encontro num hotel de luxo no Cairo. Durante alguns dias, os especialistas
ali reunidos, entre eles luminares como T. E. Lawrence (Lawrence da Arábia)
e a eminente arqueóloga Gertrude Bell, criaram um país completamente
novo, o Iraque. Desde sua criação em 1922, seu nome tem estado ligado
a guerras, intrigas, opressão e violências de toda sorte. Mas a terra
ocupada pelo Iraque tem uma história que nos é muito familiar, especialmente
se algum dia estudamos a história antiga ou ouvimos na escola relatos de
histórias da Bíblia.
A
herança comum da história bíblica explica a indignação
internacional com o saque dos museus de Bagdá em 2003. São poucos
os museus importantes do Ocidente que hoje não abrigam em seu acervo objetos
encontrados nas grandes expedições arqueológicas feitas à
região no início do século XX (entre elas as que foram dirigidas
por dois dos principais assessores de Churchill, Gertrude Bell e T. E. Lawrence).
O número de leitores da Bíblia, sobretudo na Europa ocidental, é
muito menor hoje do que entre os contemporâneos de Churchill na década
de 1920, que mesmo não freqüentando a igreja regularmente na vida
adulta muito provavelmente haviam aprendido as histórias bíblicas
ainda na infância. Por
causa de nossas memórias da infância, muitos de nós achamos
que conhecemos a história da região, mas aquilo de que nos lembramos
muitas vezes é enganoso. Veja-se
por exemplo o seguinte: Abraão
era um exilado iraquiano que se transferiu para Israel... Trata-se,
logo percebemos, de um anacronismo, tal como nos famosos versos do Júlio
César de Shakespeare em que um dos conspiradores ouve as badaladas
de um relógio, mecanismo que só seria inventado mais de um milênio
depois da morte de César. Infelizmente,
a história está cheia desses anacronismos, não faltando quem
projete realidades e disputas atuais na tela do passado. Tragicamente, no século
XX, milhões de pessoas foram massacradas com base simplesmente em tais
leituras da história tema de muitos livros recentes e um dos principais
temas deste livro: Churchill inventou o Iraque, e o país que hoje leva
este nome não existia antes de sua iniciativa. Para avaliar quão
anacrônica é esta afirmação, precisamos apenas nos
transportar para os tempos pré-históricos da região geográfica
que hoje comporta as fronteiras do Iraque. Para enxergar os perigos dessa visão
da história, precisamos apenas considerar um dos seus principais praticantes
ninguém menos que Saddam Hussein, que abusou do passado para se aferrar
ao poder. Abraão,
o pai da nação judaica, indiscutivelmente era originário
de Ur, cidade que hoje fica no Iraque; mas considerá-lo iraquiano seria
naturalmente ridículo. Saddam Hussein, contudo, não hesitou em se
comparar ao grande governante assírio Nabucodonosor. Saddam chegou a gastar
uma enorme fortuna para reconstruir a antiga cidade de Babilônia, mandando
inscrever seu próprio nome nas fachadas dos prédios reconstruídos,
exatamente como os antigos governantes da cidade haviam deixado os seus nas construções
originais. As pretensões de Saddam eram tão absurdas quanto considerar
Abraão um iraquiano, mas ele não hesitou em se apropriar da poderosa
imagística de grandes regimes do passado para manter seu controle repressivo
sobre a população, até ser deposto em 2003. É
vital ter sempre em mente essa perspectiva histórica enquanto sobrevoamos
a história das terras entre os dois rios o Tigre e o Eufrates, berço
de boa parte da civilização mundial. Nenhuma
história do Iraque foi escrita antes de sua criação por Churchill,
e nos memorandos que enviou a funcionários do Ministério das Colônias
ele precisava lembrar-lhes que usassem o nome do novo Estado, e não o antigo
nome de origem grega da região, Mesopotâmia, que significa terra
entre os rios. Ele também é chamado de Crescente Fértil,
pois as terras que cercam o vale do Tigre e do Eufrates propriamente dito formam
essencialmente um deserto inabitável. Unificar
a história dessa região geográfica também poderia
ser considerado um anacronismo, pois não é algo que teriam feito
povos de tempos anteriores. Por exemplo, embora boa parte do Iraque de hoje estivesse
a certa altura entre as terras do grande califado Abássida ou, posteriormente,
do não menos poderoso Império Otomano, outras áreas do atual
país passaram séculos sob o domínio de diferentes governantes
da Pérsia, hoje sucedida como Estado pelo Irã. Com
isto em mente, damos uma rápida olhada no passado incrivelmente rico e
complexo da terra entre os rios, a região em que foram descobertos alguns
dos mais primitivos indícios da civilização. Embora hoje
tenhamos conhecimento de outros lugares não menos antigos, como Mohenjo
Daro, no vale do Industão, podemos continuar nos referindo à cultura
mesopotâmica como um "berço da civilização",
embora já não possamos falar de "o berço". Algumas
das mais antigas formas de escrita (conhecidas como cuneiformes) foram descobertas
em tabuletas de argila em algumas das mais antigas cidades do mundo, na Mesopotâmia.
Muitos de nossos mais venerados mitos, como a história da inundação,
o Épico de Gilgamesh, também procedem de histórias narradas
milhares de anos atrás em cidades como Ur. Podemos ter como certo que aquilo
que no Ocidente chamamos de civilização judaico-cristã originou-se
há vários milênios nas planícies inundadas dos rios
Tigre e Eufrates. Também
foi lá que surgiram alguns dos maiores promulgadores de leis da humanidade:
o código de Hamurabi pode ter já milhares de anos de idade, mas
nele reconhecemos uma antiga tentativa de criar um sistema de justiça que,
preocupando-se tanto com os ricos e privilegiados quanto com os pobres e renegados,
revelava-se extraordinariamente progressista. Hamurabi, o soberano legislador,
infelizmente foi outra das antigas personalidades históricas que teve o
nome usurpado por Saddam Hussein, que batizou uma de suas divisões militares
com seu nome. As
ruínas de Ur, a cidade caldéia de Abraão, podem ser visitadas
atualmente no Iraque, e embora não seja correto referir-se aos judeus como
exilados iraquianos, eles inquestionavelmente pertencem aos maiores grupos semíticos
dos povos da região. Os
signos do zodíaco provavelmente eram conhecidos de Abraão, assim
como a semana de sete dias. Tudo isto, mais uma vez, devemos aos primeiros mesopotâmios. Sabemos
pela Bíblia que Saddam não foi o primeiro agressor a surgir na região.
Um dos primeiros exemplos de conquista estrangeira no Velho Testamento é
a submissão da Mesopotâmia no século VIII a.C. pelo monarca
assírio Tiglath-Pileser III, cujos métodos sanguinários de
captura de cidades parecem ter uma conotação terrivelmente contemporânea. O
povo hoje conhecido como assírio converteu-se ao cristianismo, e, ao contrário
da maioria dos povos vizinhos, manteve-se fiel a esta fé ao longo da era
islâmica. (Os aterrorizados refugiados assírios cristãos tornaram-se
uma das maiores preocupações de Churchill na Conferência do
Cairo em 1921.) Sendo cristãos, muitos assírios mostravam-se menos
antagônicos à interferência ocidental cristã, e hoje,
no século XXI, a nada desprezível minoria cristã do Iraque
naturalmente encara com receio o possível advento de um Estado declaradamente
islâmico. O
famoso quadro Festim de Baltazar, de Rembrandt, retratando o monarca em
ansiosa leitura da advertência de Deus inscrita na parede, lembra-nos que
até mesmo o agressivo e belicoso império assírio não
podia durar para sempre. Todavia, como o passado da Mesopotâmia faz parte
de nossa herança cultural, a história da Assíria também
é nossa. Ao
longo de toda a história registrada pelo homem, as terras entre os rios
constituíram campo de batalha entre impérios. Nos séculos
anteriores a Cristo, as batalhas freqüentemente opunham o grande Império
Romano e o amplo Império Sassânida a leste, por muito tempo sediado
em Ctesifonte, hoje uma cidade arruinada, não muito distante da atual Bagdá.
A Mesopotâmia era um disputado território de fronteira, às
vezes dividida entre os dois impérios em guerra e outras submetida essencialmente
ao controle de um deles. Por milhares de anos, nem uma única vez o território
do atual Iraque chegou a pertencer inteiramente a um dos impérios rivais. No
Ocidente, esquecemos que embora o Império Romano do Ocidente tenha sido
conquistado no século V por invasores bárbaros, o Império
Romano do Oriente, mais conhecido como Império Bizantino, de uma forma
ou de outra perdurou de maneira quase contínua até ser derrotado
em 1453. E não apenas isto: os bizantinos, apesar de falarem grego, consideravam-se
romanos, embora sua ligação com o Império Romano original
de fala latina viesse a tornar-se tênue e distante. Governantes
e possíveis conquistadores entraram e saíram da região mesopotâmica
durante milênios, mas em uma coisa havia continuidade: o permanente estado
de guerra na fronteira com povos que controlavam o território que hoje
constitui o Irã, país cuja história política é
uma das poucas (juntamente com a da China) que podem ser consideradas contínuas
ao longo de milhares de anos. Isto não quer dizer que as dinastias que
governavam o Irã não mudaram ou que os governantes fossem compatriotas
dos povos que governavam. Mas o Irã efetivamente tem uma história
cultural ininterrupta, o que não é tão verdadeiro em relação
aos árabes das terras entre o Tigre e o Eufrates. Por
volta do século VII d.C., não surpreende que a guerra milenar entre
o principal império no controle da região hoje conhecida como Oriente
Médio o bizantino e aquele que acaso estivesse no controle do Irã
estivesse já deixando esgotados ambos os lados. Significava isto que, apesar
de sua antigüidade, os dois adversários eram altamente vulneráveis
a qualquer novo poder que surgisse na região. Em
622 d.C., veio a surgir esse poder: o Islã. O
próprio Maomé chegou da região hoje conhecida como Arábia
Saudita. Não é objetivo deste livro detalhar minuciosamente as espetaculares
conquistas árabes de conversão que se seguiram. Basta dizer que
em questão de poucos anos os árabes criaram um império que
se estendia do Hindu Kush, a leste, ao litoral atlântico da Espanha, a oeste.
(Por sinal, eles também proporcionaram ao Irã a rara experiência
de ser apenas parte de um império maior, pela primeira vez desde as conquistas
de Alexandre, o Grande, novecentos anos antes.) Como
hoje em dia a esmagadora maioria dos iraquianos é de muçulmanos,
devemos deter-nos no exame de certos acontecimentos de especial significado nos
primórdios da história do Islã, aqueles mesmos que geraram
grandes divisões na sociedade e na cultura iraquianas. Maomé,
o fundador do Islã, morreu em 632, depois de conquistar a maior parte da
península arábica. Foi sob o comando dos seus quatro principais
sucessores, os Quatro Califas*, que teve início efetivamente uma expansão
exponencial da nova fé em si mesma e das terras sobre as quais reinavam
seus seguidores. Infelizmente,
Maomé não legou uma clara linha sucessória, e alguns devotados
muçulmanos acreditavam, como acreditam ainda hoje, que o cargo de califa
(sucessor militar/político/teológico) deveria ser eletivo, sendo
o califa escolhido pela uma (a comunidade dos fiéis). Outros consideram
que a linha sucessória natural a partir de Maomé deve passar pela
família do próprio profeta. Mas também aqui encontramos dificuldades,
pois ainda em vida de Maomé alguns de seus primeiros opositores se encontravam
em sua própria família o ramo ou clã dos coraixitas. Como
Maomé não teve filhos, tratava-se de saber que ramo masculino da
família dos Quraish deveria ser escolhido como sucessor (a descendência
feminina não era levada em consideração, a menos que também
estivesse ligada a um parentesco de linhagem masculina). Tudo
isto pode parecer remoto para nós no século XXI, mas vem a ser a
causa da primeira grande divisão no interior do Islã, uma divisão
ainda hoje substantiva: a que aconteceu entre os sunitas e os xiitas. Como essa
divisão teve um forte impacto nas decisões tomadas pelos britânicos
no Cairo em 1921, constituindo ainda hoje uma questão da maior relevância
na política iraquiana, não podemos ignorá-la. Não
demorou para que os exércitos árabes conquistassem a maior parte
dos territórios que hoje constituem a Síria, o Iraque, o Egito e
a Pérsia, vindo a maior parte dos atuais territórios da Espanha
e de Portugal a cair igualmente em poder dos exércitos islâmicos
pouco depois, no início do século VIII. Em certo sentido, portanto,
pode-se dizer que desde então o Iraque tem feito parte do mundo islâmico.
Entretanto, para simplificar uma história das mais complexas, basta dizer
que se manifestaram divergências entre os diferentes clãs árabes,
e a época privilegiada das primeiras conquistas teve um forte elemento
negativo. Embora
os exércitos islâmicos obtivessem grandes êxitos nos campos
de batalha, dois dos três primeiros califas tiveram morte violenta nos quatorze
anos subseqüentes à morte do profeta, sendo um deles assassinado pelo
filho do primeiro califa, Abu Bakr. Ali, parente sangüíneo próximo
do profeta (primo de linhagem masculina, além de marido de Fátima,
filha de Maomé), tornou-se o quarto califa, mas sua autoridade veio a ser
desafiada em suas próprias fileiras, recusando-se o poderoso clã
dos omíadas a reconhecê-lo como califa. Com seu assassinato por membros
de um outro clã, seu filho primogênito Hassan veio a sucedê-lo,
mas, corrompido pelos omíadas, entregou o cargo. Muawiia, do clã
dos omíadas, foi feito califa, e o califado foi transferido para Damasco,
a velha cidade do território que hoje conhecemos como Síria, batizada
com o nome da província romana homônima. O
segundo filho de Ali, Hussein, revelou-se mais valente, entrando em guerra com
os omíadas. Seus seguidores eram chamados de Shiat Ali, o partido
de Ali, e é desse nome que deriva a designação de muçulmanos
xiitas conferida a todos os subseqüentes seguidores. Hoje
em dia, associamos o Islã xiita ao Irã, mas se trata de um anacronismo,
pois a vasta maioria dos primeiros xiitas eram, como o próprio Hussein,
árabes, ao contrário dos persas (mais tarde, iranianos). O coração
do Islã xiita ainda hoje se encontra no território que hoje identificamos
como o Iraque, e é nessa parte do mundo muçulmano que se encontram
os mais sagrados locais do xiismo. Somente séculos depois é que
o islamismo xiita seria feito religião oficial do Irã por um xá. Não
obstante a impecável linhagem de Hussein, a maioria dos uma muçulmanos
seguiram os omíadas. Em 680, Hussein e suas forças foram derrotados
na batalha de Karbala, na qual ele perdeu a vida. É a sua morte ou seu
martírio, segundo os xiitas que ainda hoje é comemorada pelos
xiitas do Iraque e do Irã (nas comemorações de fevereiro
de 2004 no Iraque, eles foram atingidos por explosões que ceifaram muitas
vidas). Se no momento em que este livro estiver sendo lido eleições
tiverem sido realizadas no Iraque, com a implantação de um regime
de maioria xiita, será uma das raras vezes em que os xiitas jamais terão
controlado o núcleo do território sagrado do Islã xiita. Tendo
o Partido de Ali firmado sua posição, a maioria dos muçulmanos
seguiu os omíadas, e hoje essa maioria é conhecida como a dos muçulmanos
sunitas, nome derivado de suna, os principais ensinamentos e o exemplo
de Maomé. Hoje, 80 a 85% dos muçulmanos de todo o mundo são
sunitas, entre eles os árabes da região central do moderno Iraque
(o "triângulo sunita") e a minoria curda, etnicamente diferenciada,
do norte do país. Os xiitas constituem a vasta maioria dos iranianos, dos
azerbaijanos e 60% a 65% dos iraquianos de etnia árabe que vivem predominantemente
no sul do país. A
maioria dos xiitas são os chamados "dos Doze", o que significa
que reconhecem que Maomé teve doze sucessores ungidos (imãs),
a começar por Ali. Uma minoria entre os xiitas reconhece um número
menor de imãs, sendo o mais conhecido dentre esses grupos o dos ismaelitas,
que hoje têm como líder espiritual o Aga Khan, descendente de Maomé.
A maioria dos xiitas iraquianos é "dos Doze". É importante
ter em mente que durante muitos anos ao longo da Idade Média o Egito também
foi controlado por uma dinastia xiita, a dos fatímidas; é este outro
motivo pelo qual seria incorreto associar o Islã xiita exclusivamente ao
Irã, pois longe está de ser esta a verdade histórica. Os
curdos, um povo antigo ao qual é atribuída ascendência indo-européia,
são etnicamente próximos dos atuais iranianos; não são,
portanto, árabes. Há quem os associe aos hititas dos tempos bíblicos,
mas não seria possível esperar precisão tanto tempo depois.
Têm levado uma vida de nômades na maior parte de sua história,
e nunca tiveram um Estado forte próprio. As regiões por eles habitadas
são fronteiriças entre os grandes impérios romano e bizantino,
a oeste, e os territórios iranianos a leste, abrangendo hoje as regiões
fronteiriças do Irã, do Iraque e da Turquia (cujos governos, suspeitamos
fortemente, gostariam que desaparecessem). O
curdo mais famoso da história é provavelmente Saladino, o general
e governante muçulmano que derrotou os exércitos de cruzados europeus
no século XII. Saddam Hussein costumava comparar-se aos heróis do
passado, e entre eles estava Saladino o que parecia particularmente apropriado,
na medida em que Saladino derrotou as forças do Ocidente. Entretanto, Saddam
reprimiu brutalmente os curdos, e em 1987 e 1988 usou gás venenoso para
matar milhares de aldeãos curdos especialmente na aldeia de Halabja,
em março de 1988 , e portanto não deixa de ser irônico que
usasse o mais famoso curdo da história para tentar fortalecer a imagem
de seu poder. Em
termos teológicos, os curdos optaram antes pelo Islã sunita do que
pelo xiita, e Faiçal, o primeiro rei do Iraque, pretendia contrabalançar
a maioria muçulmana xiita do sul do Iraque com árabes sunitas no
centro e curdos sunitas no norte. Os planos de Faiçal constituíram
um dos principais fatores da infeliz decisão britânica de integrar
territórios curdos ao Iraque na década de 1920, em vez de conceder
independência aos curdos; ao longo do século XX, a decisão
haveria de custar muito aos britânicos. Seja como for, um Estado curdo independente
mesmo que viesse a incluir os territórios curdos da Turquia e do Irã
seria praticamente inviável em termos econômicos sem o petróleo
de Mosul. Para
voltar ao nosso tema central, a história dos califados é longa e
complicada; resumindo, contudo, os primeiros sucessores de Maomé, os califas
omíadas, logo criaram um império que se estendia do atual território
do Irã ao da Espanha. Não fosse pela batalha ocorrida em 732 perto
das cidades francesas de Tours e Poitiers, poderiam ter conquistado igualmente
toda a Europa. Em 749, contudo, os omíadas foram derrubados e substituídos
por califas de outro ramo da família do profeta, os descendentes de seu
tio, Abas. A dinastia abássida sucedeu aos omíadas, que fugiram
para a Espanha, na época sob controle muçulmano, ali criando uma
das culturas mais esplêndidas e sofisticadas dentre todas as dinastias islâmicas. Os
novos califas abássidas são importantes por terem transferido a
capital (o califado) de Damasco para uma cidade nova e até então
quase desconhecida: Bagdá. Aprendemos com a história, a arqueologia
e contos de fadas como As mil e uma noites que o período abássida
em Bagdá representou a época de ouro do Islã. Em certo sentido,
podemos dizer que desde esse período o Islã nunca mais voltou a
ter a mesma grandeza, o mesmo grau de esplendor e civilização. Nós,
ocidentais, não devemos jamais esquecer que durante essa era o mundo islâmico
estava muito à frente da civilização ocidental em
praticamente todos os terrenos: educação, medicina, tecnologia,
artes e ciências. O califado com sede em Bagdá era um dos grandes
centros da civilização mundial, numa época em que o Ocidente
parecia comparativamente atrasado. Sem chegarmos no entanto a considerar a questão
em detalhes, o fato é que o poder dos abássidas logo também
viria a declinar. A
civilização abássida era árabe, com forte mistura
de influências persas/iranianas, mas logo um povo turaniano da Ásia
central, o dos turcos, tendo-se convertido ao Islã, começaria a
exercer impacto sobre a dinastia abássida. Muitos turcos eram usados pelos
califas como guarda-costas de elite, exatamente como os imperadores romanos, tanto
do Ocidente quanto bizantinos, empregavam mercenários germânicos
ou nórdicos, como a guarda varangiana. Os que faziam a guarda dos califas
eram chamados de mamelucos, e com o tempo sua influência aumentaria
lenta e imperceptivelmente, mas com constância. Viriam a tornar-se tão
influentes que se apoderaram das rédeas do verdadeiro poder, confinando
seus impotentes senhores abássidas em funções basicamente
decorativas. Em certos períodos, as dinastias de origem persa (do atual
Irã) também vieram a exercer poder sobre o califado. Os
califas eram tanto árabes quanto muçulmanos. Depois da selvagem
conquista mongol de Bagdá em 1258, no entanto, nunca mais a civilização
árabe voltaria a ser a mesma. Com o tempo, os mongóis se converteram
ao Islã, e pela altura do século XV surgira um poderoso império
islâmico: o dos turcos otomanos. Seus sultãos, estabelecidos simbolicamente
naquela que fora até então a capital cristã de Constantinopla
(hoje Istambul), adotaram o velho título de califa, embora, ao contrário
de seus antecessores, não fossem árabes nem descendessem de Maomé. Os
otomanos seriam a mais duradoura e de longe a mais poderosa de todas as grandes
dinastias turcas. Eles próprios recém-convertidos, não só
conquistaram o centro do Islã como se livraram do grande império
bizantino cristão que por bem mais de sete séculos constituíra
a principal defesa do Ocidente cristão contra uma invasão islâmica
vinda de sudeste. Constantinopla, uma poderosa cidade refundada pelo próprio
Constantino, o Grande no século IV, foi tomada pelos otomanos em 1453.
Por essa época, boa parte do território balcânico também
fora tomada, e em 1526 até mesmo a maior parte do território da
Hungria veio a tornar-se, por mais de um século, parte do Império
Otomano. Em 1529, a tentativa dos otomanos de tomar a própria Viena, a
capital dos sacros imperadores romanos, só fracassou por muito pouco, e
caberia perfeitamente sustentar que ao longo dos 160 anos subseqüentes os
otomanos mantiveram sua vantagem sobre os exércitos da Europa cristã.
Mostraram-se igualmente bem-sucedidos a leste, recuperando aos iranianos boa parte
dos territórios perdidos para eles pelas dinastias turcas ao longo dos
séculos anteriores. Os
otomanos também se proclamaram califas dos fiéis, embora fossem
turcos e não árabes e ainda houvesse legítimos descendentes
árabes do profeta, particularmente o ramo hachemita do próprio clã
coraixita de Maomé, que vivia na Arábia. Logo, no entanto, com a
ascensão do poder otomano e o evidente sucesso do novo super-Estado muçulmano,
poucos seriam os muçulmanos inclinados a contestar a autoridade islâmica
da nova dinastia de califas. Tratava-se de um império turco, e não
árabe, mas o orgulho muçulmano fora perfeitamente revigorado
com sua supremacia. A
força do Império Otomano em seus primeiros anos pode ser vista claramente
em sua capacidade de conduzir uma guerra em duas frentes contra os europeus
a oeste e os iranianos a leste , não raro ao mesmo tempo. Mais uma vez
deixando de lado os detalhes, constatamos que o controle direto sobre a região
atualmente ocupada pelo Iraque não pôde ser obtido com rapidez, e
houve momentos, por exemplo, em que os iranianos conseguiram recapturar territórios
perdidos, entre eles a própria cidade de Bagdá. Pela altura do século
VIII, contudo, a atual fronteira iraquiano-iraniana, que era então a fronteira
otomano-persa, já era mais ou menos a mesma de hoje. Cabe
supor, entretanto, que a partir de 1689, quando os exércitos otomanos invasores
fracassaram na tentativa de tomar Viena, o Império Otomano já estava
em declínio, deixando de conquistar territórios aos europeus e passando
a perdê-los para eles. Chegado o século XIX, o outrora poderoso Império
Otomano passou a ser conhecido como "o doente da Europa", o que certamente
era verdade no que diz respeito à parte européia do império.
O território da Grécia foi gradativamente perdido a partir da década
de 1830, e na década de 1850 a Sérvia também viria a recuperar
considerável grau de independência. Depois da década de 1870,
o fio dágua transformou-se em enchente, e por volta de 1913 já
estavam perdidas quase todas as possessões otomanas na Europa. Mais
de 500 anos após as primeiras conquistas otomanas nos Bálcãs,
as possessões otomanas periféricas no norte da África também
haviam sido perdidas. A partir da década de 1830, os franceses conquistaram
áreas cada vez maiores do atual território da Argélia; no
início do século XX, territórios que hoje constituem países
como a Líbia e a Tunísia também haviam caído sob controle
europeu. Mas
a maior perda dos otomanos terá sido provavelmente o Egito, cujo controle
efetivo perderam já na década de 1820. (Cabe aqui lembrar
que a soberania otomana teórica e nominal sobre o Egito durou
até 1914.) A primeira derrota deu-se frente a um muçulmano albanês
de implacável poder conquistador, Mehmet Ali. Sua chegada ao poder no Egito
na década de 1820 foi um desastre quase completo para os otomanos, pois
ele conquistou não apenas o Egito, como também boa parte dos territórios
hoje ocupados pela Palestina (inclusive Israel), o Líbano e a Síria.
Era um passo suficientemente largo para deixar preocupados os dirigentes europeus,
de tal modo que, sofrendo grande pressão, Mehmet foi obrigado a devolver
suas conquistas fora do Egito; mas o fato é que nunca mais o Egito voltaria
ao controle otomano direto. Com
a construção do canal de Suez pela França e o Egito, tiveram
início muitas décadas de direta interferência européia
na região, culminando, em 1914, com a pura e simples anexação
do Egito pela Grã-Bretanha, então em guerra com o Império
Otomano. A
importância do canal de Suez para os britânicos não pode ser
subestimada: até o grande desastre de 1956, o canal provavelmente constituía
ao lado da Índia, a jóia da coroa do Império Britânico
a mais importante posição estratégica a ser protegida
e defendida pelo império. Até que tivesse início a produção
de petróleo no Iraque, em 1927, nenhuma outra possessão britânica
teria importância comparável à do canal de Suez. O motivo
disto estava no fato de reduzir drasticamente, e de maneira muito conveniente,
o tempo levado pelas embarcações britânicas fossem navios
de passageiros, cargueiros ou navios de guerra da marinha real para fazer o
percurso entre a Grã-Bretanha e a Índia. A partir do momento em
que os navios britânicos não mais precisavam contornar todo o território
africano para fazer este percurso vital, o canal de Suez tornou-se a mais importante
de todas as artérias imperiais. Como
sabem os admiradores de Rudyard Kipling (especialmente de Kim), o maior
rival da Grã-Bretanha na Ásia central no século XIX era a
Rússia. Era a época do "Grande Jogo", no auge da rivalidade
entre espiões britânicos e russos em regiões as mais obscuras
do Hindu Kush. (O que fica patente na estranha forma territorial do Afeganistão,
a zona neutra entre os dois impérios.) A Rússia não constituía
uma ameaça para os britânicos apenas no Himalaia, mas também
nos Bálcãs. Os russos tinham motivos para se considerar a potência
guardiã dos súditos otomanos predominantemente cristãos ortodoxos
da região balcânica. Assim é que boa parte do século
XIX foi ocupada pela chamada "questão oriental", o desejo da
Rússia de expandir-se e criar Estados clientes nos Bálcãs,
por um lado, e por outro o empenho das potências européias, entre
elas a Grã-Bretanha, no sentido de impedir esta expansão. O
maior anteparo contra a expansão russa nos Bálcãs era o Império
Otomano. Foi para conter a Rússia que a Grã-Bretanha e outros países
europeus passaram décadas escorando o doente da Europa, não tanto
porque desejassem ajudar um império muçulmano repressor, mas por
temerem as conseqüências da expansão imperial russa. Analisando
retrospectivamente, constatamos que foi um erro; como denunciaria no fim do século
XIX o primeiro-ministro britânico Salisbury, o país estava na realidade
apostando no cavalo errado. Tudo
isto está estreitamente ligado ao Iraque, pois a matriz do Império
Otomano permaneceu sob firme controle otomano até 1918. Estavam aí
incluídos os territórios árabes centrais do Hijaz (a parte
ocidental da península Arábica, à beira do mar Vermelho),
onde ficam as cidades sagradas islâmicas de Meca e Medina, a Palestina,
a Síria e a região então conhecida como Mesopotâmia
(que hoje chamamos de Iraque). Quando teve início em 1914 a guerra em defesa
do Império Otomano, a maioria dos árabes manteve-se leal a seus
soberanos muçulmanos, os otomanos; os curdos também tomaram o seu
lado e, estimulados pelos otomanos, massacraram centenas de milhares de armênios.
Por isto é que tendo instintivamente a desconfiar da escola historiográfica
que poderíamos denominar escola da inevitabilidade, segundo a qual o fim
do poderio turco foi uma bênção chegando inclusive a discordar
do grande e justificadamente festejado autor Bernard Lewis e dos muitos trabalhos
sobre o Islã que escreveu antes e depois do 11 de setembro. É
inegavelmente um fato histórico que o Império Otomano na Europa
começou a declinar em 1689, e que, não fosse a ajuda britânica
(e em parte também francesa e austro-húngara), teria sucumbido completamente
a insurreições apoiadas pelos russos a partir da década de
1820. Seja como for, só em 1913, com a primeira guerra balcânica,
os otomanos vieram a ser decisivamente expulsos da maior parte dos Bálcãs,
muito embora, na segunda guerra balcânica, naquele mesmo ano, conseguissem
recuperar pequena parte do território perdido. A mesma tendência
de declínio do domínio otomano pode ser constatada na África
a partir da década de 1830, com a perda da Argélia, levando até
a perda da Líbia pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Seja
como for, até 1918 os territórios centrais do Oriente Próximo
(para usar uma expressão muito empregada na época) permaneceram
sob firme controle otomano. E mais: embora o império tivesse perdido certos
territórios caucasianos para a Rússia no início do século
XIX, sua fronteira com o Irã não chegou a ser afetada desde então. Apesar
disso, tendo em vista a crescente debilidade dos otomanos, os britânicos
e os franceses estavam constantemente exortando à adoção
de reformas na viciada administração do império. O que teria
algumas boas conseqüências em termos políticos, o domínio
otomano tornou-se mais eficiente e outras ruins em termos econômicos,
o império estava quase falido, deixando de honrar em 1875 dívidas
gigantescas. Não muito depois, uma grande rebelião nos Bálcãs
levou a uma invasão russa. Só a intervenção das outras
potências européias no Congresso de Berlim, reunido em 1878 para
evitar a expansão russa e dar sustentação ao cambaleante
Império Otomano, permitiu a sobrevivência do império. Cabe
notar, entretanto, que esse declínio se verificava na parte européia
do império, cujos habitantes eram em sua maioria cristãos ortodoxos.
Nenhuma rebelião em larga escala como essa ocorreu no núcleo predominantemente
islâmico dos domínios otomanos no Oriente Próximo. Até
o fim do século XIX, a maior parte do Império Otomano era controlada
por gestão indireta, como no Raj* britânico na Índia.
Neste, os britânicos usavam marajás e outros governantes nativos,
ao passo que os otomanos restabeleceram grande parte do poder dos magnatas locais.
Todavia, a administração indireta freqüentemente gerava graves
problemas de ineficiência e corrupção o que potencialmente
significava um risco, pois até os magnatas que ostensivamente ofereciam
maior lealdade nem sempre estavam totalmente livres das seduções
da rebelião. Em conseqüência, foi necessário instituir
um grau muito maior de administração direta, o que indispôs
muitos dos dirigentes locais, que até então podiam fazer mais ou
menos o que bem queriam, sem a interferência de Constantinopla. Assim foi
que a eficiência também gerou insatisfação cada vez
maior. Pior
ainda, a centralização também acarretou uma crescente "turquificação",
ou qualquer outro nome que se queira dar ao fenômeno. Até o fim do
século XIX, o Império Otomano, apesar de etnicamente heterogêneo,
era sobretudo um império muçulmano. Quaisquer que fossem
seus muitos defeitos, entre eles uma eventual tendência a massacrar seus
próprios súditos, os otomanos praticamente não alimentavam
preconceitos contra os povos não turcos. Muitos dos ilustres vizires e
outros graduados funcionários otomanos provinham dos diferentes grupos
raciais, étnicos e religiosos que constituíam o império.
Qualquer que fosse, entretanto, a origem dos altos funcionários, o fato
é que, com o passar do tempo, eles eram sobretudo bons muçulmanos.
Além disso, o fato de o sultão otomano, apesar de não ser
árabe, ser igualmente califa dos fiéis significava que muitos súditos
muçulmanos do Império Otomano, quaisquer que fossem suas origens,
sentiam-se espiritualmente ligados a seu governante. É significativo que,
à parte os muçulmanos bósnios e a maioria dos albaneses,
o mesmo não acontecesse no perímetro europeu do império.
O fato de o fenômeno se dar nos territórios árabes constitui
uma significativa diferença. Depois
de 1908, contudo, transformando-se o Comitê de União e Progresso
(CUP) numa força capaz de promover reformas, viria a aumentar constantemente
o número de funcionários muçulmanos devotados que também
eram turcos. Embora grande parte dos primeiros nacionalistas árabes proviesse
de minorias cristãs nada inclinadas a aceitar um domínio muçulmano,
muito menos turco, os árabes muçulmanos, que não haviam tido
problemas com a soberania otomana, também começaram a considerá-la
opressora. À
medida que aumentava o poder do CUP, também conhecido como movimento dos
Jovens Turcos, paralelamente ao chauvinismo turco, a situação do
Império Otomano continuou a declinar. A instabilidade do governo otomano
levou a Áustria-Hungria a anexar a Bósnia e a Herzegovina; revoltas
eclodiram nos Bálcãs; e as grandes potências mantinham-se
permanentemente de olho nos territórios otomanos remanescentes. Durante
a maior parte do século XIX, o Império Otomano fora sustentado graças
ao apoio da Grã-Bretanha e da França. Lembram-se da guerra da Criméia?
Os britânicos e os franceses lutaram ao lado dos otomanos contra o velho
inimigo desse império, a Rússia. No início do século
XX, contudo, verificou-se uma grande revolução diplomática.
Tradicionalmente, a Grã-Bretanha considerava a Rússia um inimigo,
especialmente na Índia, onde os dois impérios entraram em confronto.
Em 1907, no entanto, o Reino Unido e o império russo resolveram todas as
suas disputas e se reconciliaram. A guerra nos remotos desfiladeiros e montanhas
do Hindu Kush deixava de ser uma possibilidade. Essas
reaproximações tiveram uma conseqüência adicional inesperada.
Tanto a Rússia quanto a França há muito mostravam-se altamente
desconfiadas com razão, caberia dizer do agressivo e expansionista
império alemão, governado pelo desequilibrado Kaiser (imperador)
Guilherme II, um homem sedento de glória. Ele havia cortejado ativamente
o Império Otomano, do qual a Grã-Bretanha e a França haviam
capturado nas décadas anteriores aquelas que os otomanos consideravam as
jóias de sua coroa: a Argélia, o Egito, Chipre e mais tarde o Marrocos. Por
volta de 1911, o Império Otomano tremia nas bases em conseqüência
dos atritos em suas próprias terras, das intrigas políticas internas
e da ameaça de uma Alemanha cada vez mais ativa. A França, a Grã-Bretanha
e a Rússia estavam agora alinhadas. O CUP precisava desesperadamente de
um aliado, e fez movimentos na direção da Grã-Bretanha, da
França e da Alemanha, que não se mostraram interessadas numa aliança
com os otomanos, embora Winston Churchill apoiasse a proposta no parlamento. Em
1911, Churchill acabava de ser nomeado primeiro lorde do almirantado, o chefe
político da poderosa marinha real. Ele entrara para a política em
1900 como membro do Partido Conservador o mesmo em que seu pai, lorde Randolph
Churchill, fora destacado membro na década de 1880. Mas Winston acabou
mudando de lado, passando-se para os liberais por causa da questão do livre-comércio,
iniciativa que, embora perfeitamente coerente com suas convicções,
deu-lhe fama de inconstância política. Ele passou a chefiar uma secretaria
ministerial no governo liberal que assumiu o poder em 1905, e logo viria a integrar
o gabinete como ministro do Interior, encarregado da manutenção
da ordem. Foi quando seus métodos discutíveis como o emprego de
força militar excessiva para reprimir uns poucos anarquistas agravou
sua fama de temperamento algo aventureiro. Sua orientação política
tornou-se cada vez mais radical, sendo seu maior aliado no governo David Lloyd
George, o inflamado dirigente radical galês que, como ministro da Fazenda,
praticamente lançou o Estado previdenciário a partir de 1908 e 1909. Um
dos problemas no exame de uma figura extraordinária como Winston Churchill
é que tendemos a ver tudo pelo prisma de seus anos heróicos de primeiro-ministro,
entre 1940 e 1945; facilmente esquecemos que durante boa parte da vida ele era
considerado um gênio caprichoso, indubitavelmente brilhante, mas totalmente
destituído de discernimento. Para começo de conversa, embora Churchill
fosse um dos mais destacados membros do Partido Liberal no parlamento durante
o período abarcado por este livro, ele começara sua vida política
nas fileiras dos conservadores, tal como seu pai, como já mencionamos.
Ninguém gosta de vira-casacas, e a maioria dos conservadores que participaram
da coalizão de guerra com os liberais de David Lloyd George consideravam
Churchill um traidor. Na realidade, após o fim de nossa história,
em 1922, Churchill mais uma vez mudaria de partido, voltando às fileiras
conservadoras. Fica evidente, assim, sua visão basicamente pragmática
da questão partidária, o que não podia ser apreciado pelos
ideólogos que costumam formar o núcleo de qualquer partido. Da
mesma forma, embora tanto admiremos as ousadas histórias de Churchill na
África do Sul, os fascinantes livros que ele escreveu sobre suas muitas
proezas como soldado deixam a impressão de um narcisista muito bem dotado
para a autopromoção. Muitas pessoas preferem o indivíduo
sólido e estável que, sem poder oferecer a mesma excitação,
parece mais confiável e de pés no chão. Churchill teve de
sofrer até 1930 com a fama de aventureiro e político sem discernimento
e portanto indigno de confiança. Isto talvez não importasse tanto
se as coisas tivessem corrido bem para ele; mas na Primeira Guerra Mundial elas
saíram espetacularmente errado, com conseqüências quase fatais
para sua carreira política. Em
1914, a Rússia entrou em guerra com a Alemanha; a Grã-Bretanha e
a França se alinharam com a Rússia; e o Império Otomano viu
que tinha um problema nas mãos. Até então, a Grã-Bretanha
e a França vinham protegendo os otomanos, precisamente contra a Rússia.
Agora os russos, os britânicos e os franceses estavam todos do mesmo lado,
e os otomanos mostravam-se profundamente divididos entre permanecerem neutros
ou entrarem na guerra do lado da Alemanha. Foi quando o jovem e ambicioso Winston
Churchill, primeiro lorde do almirantado, mobilizou a esquadra britânica
sem autorização do gabinete e capturou dois importantes navios de
guerra que estavam sendo construídos em estaleiros britânicos para
a esquadra otomana, entregando-os à real marinha britânica. As intrigas
que então se multiplicavam por toda parte obscurecem o impacto que a iniciativa
de Churchill pode ter tido na decisão, que logo depois seria tomada pelos
otomanos, no sentido de se alinhar com a Alemanha em sua guerra contra a Grã-Bretanha,
a França e a Rússia. |