Livros
19 de janeiro de 2005
 
 

Trecho do livro Trainspotting,
de Irvine Welsh

A turma da heroína, Jean-Claude Damme e a Madre Superiora.

O Sick Boy tava jorrando suor; ele tava tremendo. Eu só tava sentado ali, concentrado na tevê, tentando não reparar no viado. Ele tava me deprimindo. Tentei manter minha atenção no vídeo do Jean-Claude Van Damme.

Como sempre acontece nesses filmes, eles começaram com uma obrigatória cena dramática de abertura. Daí acumulavam tensão na etapa seguinte, apresentando o vilão canalha e costurando uma trama toda esburacada. Mas quando menos se espera, o bom e velho Jean-Claude Van Damme tá pronto pra cair na porrada com tudo.

- Rents. Preciso ver Madre Superiora - arfou o Sick Boy, sacudindo a cabeça.

- Tá - respondi. Eu queria que o maluco simplesmente sumisse da porra da minha frente, que fosse sozinho e me deixasse com o Jean-Claude. Por outro lado, não ia demorar muito para eu também ficar na fissura, e se aquele viado fosse sozinho e comprasse a heroína, depois ia me deixar na mão. Não chamam ele de Sick Boy porque ele tá sempre torto de abstinência de heroína, e sim porque é mesmo um cara doente.

- Vamolá, porra - ele berrou, desesperado.

- Peraí um segundo - eu queria ver o Jean-Claude arrebentar um fiadaputa arrogante. Se a gente fosse agora, não ia dar mais pra assistir. Eu estaria detonado demais quando voltasse pra casa, e de qualquer modo isso provavelmente só ia acontecer daqui a alguns dias. Isso queria dizer que eu ia pagar uma porra duma multa na locadora por causa de um filme que eu nem tinha assistido.

- Tenho que ir nessa, cara! - ele grita, ficando de pé. Vai até a janela e se apóia por lá, com a respiração pesada, parecendo um animal acuado. Os olhos dele não demonstram nada além de fissura.

Desliguei a tevê com o controle. - Que porra de desperdício. É isso aí, uma porra dum desperdício - rosnei pro viado. Que canalha irritante.

Ele joga a cabeça pra trás e aponta os olhos pro teto. - Eu dou a grana pra cê devolver o filme. É só isso que cê tá com essa porra dessa cara de bunda? Cinqüenta miseráveis centavos de libra, que fortuna!

Esse viado tem um jeito especial de fazer cê se sentir mesquinho e pequeno.

- Não tem nada a ver com isso - respondi, sem muita convicção.

- Sei. A questão é que eu tô aqui, sofrendo pra caralho, e o cara que se diz meu amigo fica arrastando os pés de propóstio, tirando prazer de cada segundo - os olhos dele tão do tamanho duma bola de futebol, e parecem hostis mais suplicantes ao mesmo tempo; evidências pungentes da minha suposta traição. Se eu conseguir viver o bastante pra ter um filho, espero que ele nunca me olhe do mesmo jeito que o Sick Boy. O viado é irresistível quando tá assim.

- Eu não tava...- protestei.

- Então envia a porra dessa jaqueta!

Não havia táxis no largo da Walk. Eles só se juntavam ali quando ninguém precisava deles. Em tese era agosto, mas a porra das minhas bolas tavam congelando lá fora. Ainda não tava passando mal, mas não ia demorar, isso era certo.

- Era pra ter um ponto aqui. Era pra ter a porra dum ponto de táxi. Nunca se encontra um no verão. Tão levando aqueles viados gordo e rico que vêm pro festival, preguiçosos demais pra caminhar cem metros de uma igreja metida a besta até a outra, pra ver as porra de espetáculo deles. Motoristas de táxi. Canalhas achacadores de grana... - o Sick Boy resmungava sozinho, delirante e sem fôlego, com os olhos saltados e os tendões do pescoço tensionados enquanto esticava a cabeça pra observar a Leith Walk.

Enfim, aparece um táxi. Um grupo de caras jovens vestindo abrigos esportivos e jaquetas de aviador tava ali em pé antes da gente. Duvido que o Sick Boy tenha sequer enxergado eles. Se jogou direto pro meio da Walk gritando: - TÁXI!

- Ei! Mas que porra é essa? - perguntou um cara de cabelo à escovinha, vestindo um abrigo preto, roxo e verde-água.

- Cai fora. A gente tava aqui primeiro - disse o Sick Boy, abrindo a porta do taxi. - Tem outro chegando - apontou pra um táxi preto que avançava pela Walk.

- Sorte de vocês. Fiadasputa.

- Vai se fuder, ô viadinho de merda! Vai arranjar mulher! - rosnou o Sick Boy quando nos enfiamos num táxi.

- Pra Tollcross, parceiro - falei pro motorista, enquanto um cuspe atinge a janela lateral.

- Vem pro mano a mano então, fiadaputa! Vamolá, seus covardes de merda! - gritou o cara do abrigo esportivo. O motorista do táxi não achou graça. Parecia um cara de bem. A maioria deles parece. Esses autônomos que pagam impostos são realmente a forma mais baixa de verme que existe no mundão de deus.

O táxi fez um retorno e acelerou pela Walk.

- Olha o que cê fez, falastrão. Na próxima vez que um de nós estiver voltando pra casa a pé, vai ter briga com esses loucos aí - eu não tava nem um pouquinho feliz com o Sick Boy.

- Cê não tem medo daqueles bostinhas de merda, tem?

O viado tá realmente me tirando do sério. - Sim! Sim, tenho de estar na minha e ser cercado por um esquadrão inteiro de sujeitos de abrigo! Tá pensando que eu sou o Jean-Claude Van Damme? Um tremendo dum viado, é isso que cê é, Simon - chamei ele de "Simon", ao invés de "Si" ou "Sick Boy", pra enfatizar a seriedade do que tava dizendo.

 

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