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trecho do livro Razão Áurea, de Mario Livio PRELÚDIO
PARA UM NÚMERO Inumeráveis
são as maravilhas do mundo. Sófocles
(495-405 a.C.) O
famoso físico britânico lorde Kelvin (William Thomson; 1824-1907),
em cuja homenagem foram batizados os graus da escala de temperatura absoluta,
disse certa vez em uma conferência: "Quando não podemos expressar
algo em números, nosso conhecimento é de um tipo escasso e insatisfatório."
Kelvin estava, obviamente, se referindo ao conhecimento exigido para o avanço
da ciência. Mas números e matemática têm a curiosa propensão
a contribuir até para o entendimento de coisas que são, ou pelo
menos parecem ser, extremamente distantes da ciência. Em O mistério
de Marie Rogêt, de Edgar Allan Poe, o famoso detetive Auguste Dupin
diz: "Nós fazemos da sorte uma questão de cálculo absoluto.
Submetemos o não-procurado e o não-imaginado às fórmulas
matemáticas das escolas." Num nível ainda mais simples, considere
o seguinte problema que o leitor pode ter encontrado ao se preparar para uma festa:
há uma barra de chocolate composta de doze pedaços; quantas quebras
são necessárias para separar todos os pedaços? A resposta
é, na verdade, mais simples do que você pode ter pensado e não
envolve quase nenhum cálculo. Toda vez que se faz uma quebra, tem-se um
pedaço a mais do que antes. Portanto, se você precisa terminar com
doze pedaços, terá que quebrar onze vezes. (Verifique isso por si
mesmo.) De modo mais geral, qualquer que seja o número de pedaços
que formam a barra de chocolate, o número de quebras é sempre um
a menos que o número de pedaços.
Mesmo
que você não seja um apreciador de chocolate, perceberá que
esse exemplo demonstra uma regra matemática simples que pode ser aplicada
em muitas outras circunstâncias. Mas, além das propriedades, fórmulas
e regras matemáticas (muitas das quais sempre acabamos esquecendo), existem
alguns números especiais que são tão onipresentes que nunca
deixam de nos surpreender. O mais famoso deles é o número Pi (π),
que é a razão entre a circunferência de qualquer círculo
e seu diâmetro. O valor de Pi, 3,14159..., tem fascinado muitas gerações
de matemáticos. Embora tenha sido originalmente definido na geometria,
o Pi aparece muito freqüente e inesperadamente no cálculo de probabilidades.
Um exemplo famoso é conhecido como a Agulha de Buffon, em homenagem ao
matemático francês George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788),
que, em 1777, propôs e resolveu o seguinte problema matemático. Leclerc
perguntou: suponha que você tenha uma grande folha de papel no chão,
pautada com linhas retas paralelas separadas por uma distância fixa. Uma
agulha de comprimento exatamente igual ao espaçamento entre as linhas é
jogada ao acaso sobre o papel. Qual é a probabilidade de que a agulha caia
de tal maneira que cruze uma das linhas (por exemplo, como na Figura 1)? Surpreendentemente,
a resposta é o número 2/π. Portanto, em princípio, você
pode avaliar π repetindo esta experiência muitas vezes e observando
em que fração do total de jogadas você obtém uma interseção.
(Mas existem maneiras menos tediosas de encontrar o valor de Pi.) Hoje em dia,
Pi se tornou uma palavra tão familiar que até inspirou o cineasta
Darren Aronofsky a fazer, em 1998, um thriller intelectual com esse título.
Menos conhecido que o Pi é um outro número, o Fi (Φ), que,
em muitos aspectos, é ainda mais fascinante. Suponha que eu lhe pergunte:
o que o encantador arranjo de pétalas numa rosa vermelha, o famoso quadro
"O Sacramento da Última Ceia", de Salvador Dalí, as magníficas
conchas espirais de moluscos e a procriação de coelhos têm
em comum? É difícil de acreditar, mas esses exemplos bem díspares
têm em comum um certo número, ou proporção geométrica,
conhecido desde a Antiguidade, um número que no século XIX recebeu
o título honorífico de "Número Áureo", "Razão
Áurea" e "Seção Áurea". Um livro publicado
na Itália no começo do século XVI chegou a chamar essa razão
de "Proporção Divina". No
dia-a-dia, usamos a palavra "proporção" ou para a relação
comparativa entre partes de coisas com respeito a tamanho ou quantidade, ou quando
queremos descrever uma relação harmoniosa entre diferentes partes.
Na matemática, o termo "proporção" é usado
para descrever uma igualdade do tipo: nove está para três assim como
seis está para dois. Como veremos, a Razão Áurea nos fornece
uma intrigante mistura das duas acepções, já que, embora
seja matematicamente definida, considera-se que revela qualidades agradavelmente
harmoniosas. A
primeira definição clara do que mais tarde se tornou conhecido como
a Razão Áurea foi dada por volta de 300 a.C. pelo fundador da geometria
como sistema dedutivo formalizado, Euclides de Alexandria. Retornaremos a Euclides
e suas fantásticas realizações no Capítulo 4, mas
agora quero observar apenas que é tão grande a admiração
inspirada por Euclides que, em 1923, a poetisa Edna St. Vincent Millay escreveu
um poema intitulado "Somente Euclides viu a Beleza Nua". Na verdade,
até as notas de aula de Millay do seu curso de geometria euclidiana foram
preservadas. Euclides definiu uma proporção derivada da simples
divisão de uma linha no que ele chamou de sua "razão extrema
e média". Nas palavras de Euclides: Diz-se
que uma linha reta é cortada na razão extrema e média quando,
assim como a linha toda está para o maior segmento, o maior segmento está
para o menor. A C B Figura
2 Em
outras palavras, se observarmos a Figura 2, a linha AB certamente é maior
que o segmento AC. Ao mesmo tempo, o segmento AC é maior que o CB. Se a
razão do comprimento de AC para o comprimento de CB for igual à
razão de AB para AC, então a linha foi cortada na razão extrema
e média, ou numa Razão Áurea. Quem
poderia imaginar que essa divisão de linha aparentemente tão inocente,
que Euclides definiu com objetivos puramente geométricos, poderia ter conseqüências
em temas que vão do arranjo de folhas em botânica à estrutura
de galáxias que contêm bilhões de estrelas, ou da matemática
às artes? A Razão Áurea nos fornece, portanto, um maravilhoso
exemplo do sentimento de total espanto que o famoso físico Albert Einstein
(1879-1955) valorizava tanto. Nas palavras do próprio Einstein: "A
melhor coisa que podemos vivenciar é o mistério. Ele é a
emoção fundamental que está no berço da ciência
e da arte verdadeiras. Aquele que não o conhece e não mais se maravilha,
não sente mais o deslumbramento, vale o mesmo que um morto, que uma vela
apagada." Como
veremos calculado neste livro, o valor exato da Razão Áurea (a razão
de AC para CB na Figura 2) é o número que nunca termina e nunca
se repete 1,6180339887..., e esses números que nunca terminam têm
intrigado os homens desde a Antiguidade. Diz uma história que quando o
matemático grego Hipasos de Metaponto descobriu, no século V a.C.,
que a Razão Áurea é um número que não é
nem inteiro (como os familiares 1, 2, 3...) nem razão de dois números
inteiros (como as frações 1/2, 2/3, 3/4,..., conhecidos coletivamente
como números racionais), isso deixou totalmente chocados os outros
seguidores do famoso matemático Pitágoras (os pitagóricos).
A visão de mundo dos pitagóricos (que descreveremos em detalhe no
Capítulo 2) era baseada numa admiração extrema pelos arithmos
— as propriedades intrínsecas dos números inteiros ou suas razões
— e seu suposto papel no Cosmo. A descoberta de que existiam números como
a Razão Áurea que continuam para sempre sem exibir qualquer repetição
ou padrão causou uma verdadeira crise filosófica. Reza a lenda que,
aturdidos com a estupenda descoberta, os pitagóricos sacrificaram, apavorados,
cem bois, embora isso pareça ser bastante improvável, já
que os pitagóricos eram estritamente vegetarianos. Devo enfatizar neste
ponto que muitas dessas histórias são baseadas em material histórico
insuficientemente documentado. A data exata da descoberta de números que
não são inteiros nem frações, conhecidos como números
irracionais, não é conhecida com grau algum de certeza. Mesmo
assim, alguns pesquisadores situam a descoberta no século V a.C., o que
é pelo menos coerente com a datação das histórias
que acabamos de contar. O que é claro é que os pitagóricos
basicamente acreditavam que a existência de tais números era tão
horrível que devia (a existência) representar algum tipo de erro
cósmico, algo que deveria ser suprimido e guardado em segredo. O
fato de a Razão Áurea não poder ser expressa como uma fração
(como um número racional) significa simplesmente que a razão entre
os dois comprimentos AC e CB na Figura 2 não pode ser expressa como uma
fração. Em outras palavras, por mais que procuremos, jamais encontraremos
uma medida cujo valor, multiplicado, digamos, por 31, coincida com a medida de
AC, e multiplicado por 19 coincida com a de CB. Dois comprimentos com esta propriedade
são chamados de incomensuráveis. A descoberta de que a Razão
Áurea é um número irracional, portanto, era, ao mesmo tempo,
a descoberta da incomensurabilidade. Em Sobre a vida pitagórica
(cerca de 300 d.C.), o filósofo e historiador Iâmblico, um descendente
de uma nobre família da Síria, descreve a violenta reação
a essa descoberta: "Eles
diziam que o primeiro [humano] a revelar a natureza da comensurabilidade e da
incomensurabilidade para aqueles que não eram dignos de compartilhar a
teoria era tão odiado que não só foi banido da associação
e do modo de vida [pitagórico], como também teve seu túmulo
construído, como se o antigo colega tivesse sido apartado da vida entre
o gênero humano." Na
literatura matemática profissional, o símbolo habitual para a Razão
Áurea é a letra grega tau (t, do grego tomή, to-mž, que significa
"o corte" ou "a seção"). Entretanto, no início
do século XX, o matemático americano Mark Barr deu à razão
o nome de Fi (Φ), a primeira letra grega no nome de Fídias, o grande
escultor grego que viveu entre 490 e 430 a.C. As maiores realizações
de Fídias foram o "Partenon de Atenas" e o "Zeus" no
templo de Olímpia. Tradicionalmente, considera-se também que ele
foi o responsável por outras esculturas do Partenon, embora seja bastante
provável que muitas delas, na verdade, tenham sido feitas por seus alunos
e assistentes. Barr decidiu homenagear o escultor porque alguns historiadores
da arte sustentavam que Fídias fazia uso freqüente e meticuloso da
Razão Áurea nas suas esculturas. (Examinaremos detalhadamente afirmações
semelhantes neste livro.) Usarei os nomes Razão Áurea, Seção
Áurea, Número Áureo, Fi e o símbolo Φ livremente
ao longo do livro, pois esses são os nomes mais freqüentemente encontrados
na literatura matemática recreativa. Algumas
das maiores mentes matemáticas de todos os tempos, de Pitágoras
e Euclides na Grécia antiga, passando pelo matemático italiano da
Idade Média Leonardo de Pisa e o astrônomo renascentista Johannes
Kepler, até figuras científicas do presente, como o físico
de Oxford Roger Penrose, passaram horas sem fim trabalhando com esta simples razão
e suas propriedades. Mas a fascinação pela Razão Áurea
não se restringe aos matemáticos. Biólogos, artistas, músicos,
historiadores, arquitetos, psicólogos e até místicos têm
examinado e debatido as bases de sua ubiqüidade e seu apelo. De fato, provavelmente
é correto dizer que a Razão Áurea tem inspirado pensadores
de todas as disciplinas mais do que qualquer outro número na história
da Matemática. Uma
imensa quantidade de pesquisa, principalmente do matemático canadense Roger
Herz-Fischler (descrita no seu excelente livro Uma história matemática
do número áureo), tem sido dedicada até à simples
questão da origem do nome "Segmento Áureo". Dado o entusiasmo
que essa razão tem gerado desde a Antiguidade, poderíamos pensar
que o nome também tem origens antigas. De fato, alguns livros competentes
de história da matemática, como O nascimento da matemática
na era de Platão de François Lasserre, e Uma história
da matemática, de Carl B. Boyers, situam a origem desse nome nos séculos
XV e XVI, respectivamente. Mas não parece ser esse o caso. Pelo que posso
dizer depois de examinar boa parte das tentativas de se achar dados históricos,
essa expressão foi usada pela primeira vez pelo matemático alemão
Martin Ohm (irmão do famoso físico Georg Simon Ohm, autor da Lei
de Ohm no eletromagnetismo) na segunda edição, de 1835, do seu livro
Die Reine Elementar-Mathematik (A matemática elementar pura). Ohm
escreve em uma nota de rodapé: "Essa divisão de uma linha arbitrária
em duas partes também costuma ser chamada de seção áurea."
A linguagem de Ohm claramente nos deixa com a impressão de que não
foi ele quem inventou a expressão, mas que, em vez disso, usou um nome
comumente aceito. Porém, o fato de que ele não a utilizou na primeira
edição do livro (publicada em 1826) pelo menos sugere que o nome
"Razão Áurea" (ou, em alemão, "Goldene Schnitt")
só ganhou popularidade por volta de 1830. A expressão pode ter sido
usada oralmente antes disso, talvez em círculos não-matemáticos.
Mas não há dúvida de que, após o livro de Ohm, a expressão
"Seção Áurea" começou a aparecer freqüente
e repetidamente na literatura alemã sobre matemática e história
da arte. Ela pode ter feito sua estréia em inglês em um artigo de
James Sully sobre estética, publicado na nona edição da Enciclopédia
Britânica, em 1875. Sully faz referência à "interessante
enquete experimental... instituída por (Gustav Theodor) Fechner — um físico
e psicólogo pioneiro alemão do século XIX — sobre a suposta
superioridade da ‘seção áurea’ como uma proporção
visível". (Discutirei os experimentos de Fechner no Capítulo
7.) O uso mais antigo em inglês em contexto matemático parece ter
ocorrido em um artigo intitulado "O Segmento Áureo" (de E. Ackermann),
publicado em 1895 no American Mathematical Monthly e, mais ou menos na
mesma época, no livro Introdução à álgebra,
de 1898, do conhecido professor e escritor G. Chrystal (1851-1911). Apenas como
curiosidade, deixe-me observar que a única definição de "Número
Áureo" que aparece na edição de 1900 da enciclopédia
francesa Nouveau Larousse Illustré é: "Um número
usado para indicar cada um dos anos do ciclo lunar." Isto se refere à
posição de um calendário anual dentro do ciclo de dezenove
anos após o qual as fases da Lua retornam às mesmas datas. Evidentemente,
a expressão levou um tempo maior para entrar na nomenclatura matemática
francesa. Mas
por que tanto alvoroço em torno disso? O que faz desse número, ou
proporção geométrica, algo tão interessante que deva
merecer toda essa atenção? A
atratividade do "Número Áureo" origina-se, antes de mais
nada, do fato de que ele tem um jeito quase sobrenatural de surgir onde menos
se espera. Pegue,
por exemplo, uma maçã qualquer, fruta freqüentemente associada
(provavelmente de modo equivocado) com a árvore do conhecimento que aparece
de forma tão proeminente na descrição bíblica da queda
da humanidade do Paraíso, e corte-a pela sua circunferência. Você
irá encontrar as sementes da maçã arrumadas num padrão
de estrela de cinco pontas ou pentagrama (Figura 3). Cada um dos cinco triângulos
isósceles que formam as pontas do pentagrama tem a propriedade de que a
razão entre o comprimento de seu lado mais comprido e do mais curto (a
base) é igual à Razão Áurea, 1,618... Mas o leitor
pode achar que isso talvez não seja assim tão surpreendente. Afinal,
já que a Razão Áurea foi definida como uma proporção
geométrica, talvez não devêssemos ficar espantados demais
ao descobrir essa proporção em algumas formas geométricas. Essa,
porém, é só a ponta do iceberg. De acordo com a tradição
budista, em um dos sermões do Buda ele não emitiu uma única
palavra. Ele simplesmente segurava uma flor diante de sua platéia. O que
uma flor pode nos ensinar? Uma rosa, por exemplo, quase sempre é considerada
um símbolo de simetria, harmonia, amor e fragilidade naturais. Em Religião
do homem, o poeta e filósofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941)
escreve: "De alguma maneira, sentimos que, por intermédio de uma rosa,
a linguagem do amor chega aos nossos corações." Suponha que
você queira quantificar a aparência simétrica de uma rosa.
Pegue uma rosa e a disseque para ver como suas pétalas se sobrepõem
às suas antecessoras. Como descrevo no Capítulo 5, você vai
descobrir que as posições das pétalas estão arrumadas
de acordo com uma regra matemática que se baseia na Razão Áurea. Passando
agora ao reino animal, todos nós conhecemos a beleza impressionante das
estruturas espirais das conchas de muitos moluscos, como o náutilo (Nautilus
pompilius; Figura 4). De fato, o Shiva dançante dos mitos hindus segura
um desses náutilos em suas mãos, como um símbolo de um dos
instrumentos do início da criação. Essas conchas também
têm inspirado muitas construções arquitetônicas. O arquiteto
americano Frank Lloyd Wright (1869-1959), por exemplo, baseou o desenho do
Museu Guggenheim de Nova York na estrutura do náutilo com câmaras.
Dentro do museu, os visitantes sobem uma rampa em espiral, seguindo adiante quando
suas capacidades imaginativas ficam saturadas pela arte que vêem, tal como
o molusco constrói sucessivas câmaras espirais à medida que
ocupa totalmente seu espaço físico. Descobriremos no Capítulo
5 que o crescimento das conchas espirais também obedece a um padrão
que é orientado pela Razão Áurea. A
essa altura, não precisamos ser místicos de numerologia para começar
a sentir um certo assombro por essa propriedade da Razão Áurea de
surgir em situações e fenômenos que aparentemente não
têm relação entre si. Além disso, como mencionei no
começo deste capítulo, a Razão Áurea pode ser encontrada
não só em fenômenos naturais mas também em uma variedade
de objetos feitos pelo homem e em obras de arte. Por exemplo, na pintura de Salvador
Dalí de 1955, "Sacramento da Última Ceia" (na National
Gallery, Washington D.C.; Figura 5), as dimensões da pintura
(aproximadamente 270 cm × 167 cm) estão numa Razão Áurea
entre si. Talvez ainda mais importante, parte de um enorme dodecaedro (um sólido
regular de 12 faces no qual cada face é um pentágono) é visto
flutuando acima da mesa, engolindo-a. Como veremos no Capítulo 4, sólidos
regulares (como o cubo) que podem ser perfeitamente encaixados numa esfera (com
todos os seus vértices encostados nela), e o dodecaedro em particular,
estão intimamente relacionados com a Razão Áurea. Por que
Dalí decidiu exibir a Razão Áurea de maneira tão destacada
nessa pintura? Sua observação de que "a Comunhão deve
ser simétrica" apenas começa a responder a essa pergunta. Como
mostrarei no Capítulo 7, a Razão Áurea figura (ou, pelo menos,
afirma-se que ela figura) em obras de muitos outros artistas, arquitetos e desenhistas,
e até em famosas composições musicais. Em termos gerais,
a Razão Áurea foi usada em algumas dessas obras para que elas obtivessem
o que poderíamos chamar de "efetividade visual (ou auditiva)".
Uma das propriedades que contribuem para essa efetividade é a proporção
— a relação de tamanho das partes entre si e com o todo. A história
da arte mostra que, na longa busca pelo elusivo cânone da proporção
"perfeita", a que poderia de algum modo conferir automaticamente qualidades
estéticas agradáveis a todas as obras artísticas, a Razão
Áurea provou ser a mais duradoura. Mas por quê? |