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Entrevista
publicada em 27/5/1992
"O
PC é o testa-de-ferro do Fernando"
Na
tarde da última quarta-feira Pedro Collor tomou um avião
em Maceió e chegou a São Paulo após uma escala
no Recife. Em companhia da mulher. Maria Tereza, e de uma irmã,
Ana Luiza, Pedro Collor deu uma entrevista de duas horas a VEJA.
A seu pedido, o encontro ocorreu nas dependências da revista.
A mulher e a irmã de Pedro Collor foram testemunhas de suas
declarações, e chegaram a colaborar em algumas respostas.
Além de fazer novas denúncias sobre a atividade de
PC Farias no governo, Pedro Collor diz que ele é "testa-de-ferro"
do presidente Fernando Collor. Diz que o jornal Tribuna de Alagoas,
que PC Farias quer lançar em Maceió, na verdade pertence
a seu irmão. Também garante que um apartamento de
Paris que se supunha ser propriedade do empresário na realidade
pertence a Fernando Collor. Para Pedro Collor, existe uma "simbiose
profunda" entre os dois. Os principais trechos da entrevista:
VEJA
- O senhor se considera louco?
Pedro
Collor -
Não, de jeito nenhum.
VEJA
- Se a sua própria mãe está falando isso,
é o caso de perguntar. Já fez algum tratamento psiquiátrico?
Pedro
Collor - Não,
nunca fiz tratamento psiquiátrico ou psicanálise.
Essa pressão toda tem um objetivo claro. O objetivo foi passar
para a opinião pública a sensação de
que não tenho credibilidade, que estou sob forte comoção.
Convenceram mamãe a assinar aquela carta. Ela é muito
ingênua nesse sentido.
VEJA
- As suas afirmações e denúncias, os documentos
que o senhor levantou contra Paulo César Farias e as críticas
que vem fazendo ao Presidente colocam o governo e o país
numa situação delicada. O senhor está ciente
disso?
Pedro
Collor - Absolutamente
consciente.
VEJA
- O senhor tem dito que suas revelações podem acabar
com o governo do seu irmão. E isso que o senhor quer?
Pedro
Collor - Não,
mas qual foi o principal mote da campanha do Femando? Quem roubava
ia para a cadeia. Na prática, estou vendo uma coisa completamente
diferente. Ninguém pode enrolar todo mundo o tempo todo.
VEJA
- Essa briga começou em torno do lançamento de
um novo jornal, que concorreria com a Gazeta de Alagoas, das organizações
Arnon de Mello?
Pedro
Collor - Em
janeiro de 1991, levei ao Fernando, no Palácio do Planalto,
o plano de se montar um novo jornal em Alagoas. Seria um jornal
vespertino. Já houve no passado vespertinos no Estado, e
que pararam por um motivo ou outro, agora não há nenhum.
Como achei que havia uma brecha no mercado, e a gráfica do
nosso grupo estava ociosa, fiz a proposta ao Fernando. Expliquei
que o novo jornal não faria parte do grupo da Gazeta, seria
uma iniciativa à parte.
VEJA
- O que o presidente achou da idéia?
Pedro
Collor - Ele
me disse o seguinte: "Não, não leve a idéia
do jornal adiante porque eu vou montar uma rede de comunicação
paralela em Alagoas com o Paulo César, e essa rede terá
um jornal". O Fernando falou que o jornal iria se chamar Tribuna
de Alagoas. Disse também que a Tribuna seria impressa na
imprensa oficial do Estado. Então perguntei por que ele não
imprimia esse novo jornal na gráfica do nosso grupo. O Femando
respondeu: "Não".
VEJA
- A rede de comunicação seria de PC Farias?
Pedro
Collor - O PC seria o testa-de-ferro. Era uma empresa
de testa-de-ferro, que teria o jornal e de doze a catorze emissoras
de rádio.
VEJA
- Qual foi a sua reação a essa rede?
Pedro
Collor -
Raciocinei que, se o novo jornal ia ser impresso na imprensa oficial,
seria em preto-e-branco, um jornal para ocupar espaço, evitar
que grupos adversários na política entrassem na área.
Dizia-se que não era um jornal para concorrer efetivamente
com a Gazeta e, de repente, compraram um maquinário exatamente
igual ao nosso, e me tomam funcionários pagando três
ou quatro vezes mais do que eles ganham conosco. Então é
um negócio para destruir o nosso, certo? Foi aí que
a coisa começou. Houve também um problema corri a
instalação de rádios. Na mesma reunião
em que falei do novo jornal com o Fernando, eu disse que precisávamos
também de duas rádios, FMs pequenas ou médias,
na periferia de Maceió.
VEJA
- Como o senhor conseguiria essas rádios?
Pedro
Collor - Pelas
vias normais. Essas duas rádios já existiam no plano
traçado pelo governo.
VEJA
- E obteve as rádios?
Pedro
Collor - Obtive
duas negativas. Simultaneamente, eles mexeram no plano, a ponto
de contemplar todas as cidades que até então não
estavam com rádios FM.
VEJA
- Isso foi feito por quem?
Pedro
Collor - Por
solicitação do deputado Augusto Farias, irmão
do PC. Vejam bem: converso com ele tentando montar um jornal, falo
das rádios que podem entrar. Negam para mim. E viabilizam
para eles umas doze rádios que nem estavam cogitadas no plano.
VEJA
- O senhor tentou chegar a um acordo sobre o jornal antes de
começar a recolher documentos sobre os negócios de
PC?
Pedro
Collor - Houve
tentativas que não deram certo, porque a intenção
não era montar um jornal assim ou assado, mas montar um jornal
para destruir o nosso. Em fevereiro passado, saiu aquela reportagem
do Eduardo Oinegue, em VEJA, sobre o assunto, em que eu chamava
o PC de lepra ambulante. Eu estive então com o Cláudio
Víeira (secretário particular de Collor, afastado
do governo na reforma ministerial). O Cláudio me disse que
há cinco dias o Fernando não despachava com ele, nem
com o general Agenor, nem com o Marcos Coimbra. O Cláudio
Víeira me contou que no dia anterior o Fernando havia se
reunido, durante uma hora e meia. com o procurador-geral da República,
Aristides Junqueira. Segundo o Cláudio me contou, o procurador
disse ao Fernando que, se eu não desmentisse a reportagem
de VEJA, o Junqueira iria instaurar um inquérito, e que isso
derrubaria o governo. Eu respondi ao Cláudio que não
tinha intenção de derrubar o governo de ninguém,
que minha intenção era me preservar e alertar que
o PC era uma bomba atômica ambulante, independentemente de
jornal ou coisa que o valha. Esclareci que não poderia desmentir
a reportagem pura e simplesmente, e pedi um compromisso firme de
que o PC não iria tentar acabar com nossa organização.
Sugeri que a Gazeta arrendasse a gráfica da Tribuna, pagasse,
e nós imprimíssemos o jornal. Cheguei a conversar
depois sobre essa proposta com o PC, e ele disse que adorou. Na
hora de formalizar o acordo, sumiu. O Cláudio Vieira então
me disse que o Paulo César estava com outras idéias
e ia me procurar. Estou esperando até hoje.
VEJA
- Por que o presidente Collor, se é ele que está
por trás dessa rede de comunicações montada
pelo PC, estaria interessado em prejudicar e até
destruir os negócios da família?
Pedro
Collor -
É uma questão que só Freud explica. (Tereza,
mulher de Pedro Collor. pede para falar)
Tereza
- O Fernando Collor faz isso porque o Pedro não se submete
a ele. O Fernando viu que não podia tirar o Pedro da administração
dos negócios da família. Foi o Pedro quem geriu, e
bem, as empresas durante esses anos todos. O Fernando quer o meio
de comunicação e instrumento político, enquanto
o Pedro tem a responsabilidade de administrá-lo como empresa.
É daí que nasceu a divergência.
VEJA
- O senhor acha mesmo que o PC é um testa-de-ferro do
presidente nos negócios?
Pedro
Collor -
Eu não acho, eu afirmo categoricamente que sim. O Paulo César
é a pessoa que faz os negócios de comum acordo com
o Fernando. Não sei exatamente a finalidade dos negócios,
mas deve ser para sustentar campanhas ou manter o status quo
VEJA
- De quem é o apartamento de Paris onde funciona a S.CI
. de Guy des Longchamps e Ironildes Teixeira?
Pedro
Collor -
É dele.
VEJA
- Dele, quem?
Pedro
Collor -
Dele. Do Fernando, claro.
VEJA
- O senhor não tem dúvidas?
Pedro
Collor -
Não tenho a menor dúvida.
VEJA
- De quem é o jatinho Morcego Negro?
Pedro
Collor - Acho
que é do Paulo César, mas não posso afirmar.
VEJA
- O presidente Collor sairá mais rico do governo?
Pedro
Collor -
Em patrimônio pessoal, sai. Sem dúvida nenhuma.
VEJA
- O presidente está envolvido na sua denúncia de
que o Paulo César recebeu unta comissão de 22% sobre
os negócios entre a empresa IBF e o governo para a implantação
da raspadinha federal?
Pedro
Collor - O
Fernando não entra no varejo da coisa. Ele apenas orienta
o negócio.
VEJA
- O que acontece com o dinheiro?
Pedro
Collor -
O Paulo César diz para todo mundo que 7O% é do Fernando
e 3O% é dele.
VEJA
- O senhor acredita nisso?
Pedro
Collor -
Eu não sei se a porcentagem exata é essa.
VEJA
- Mas o senhor sustenta que existe uma sociedade entre os dois?
Pedro
Collor -
Tenho certeza de que é assim. Existe urna simbiose aí.
Eu não estendo as acusações ao Fernando diretamente.
Uma coisa é você concordar. Outra coisa é operacionalizar.
São duas coisas distintas. Operacionalizar, no sentido do
dolo, no sentido do ilícito, isso é muito do temperamento
do PC. Ele tem prazer nisso. O Fernando é incapaz de sentar
em uma mesa e dizer assim: O negócio é o seguinte:
preciso de uma grana para a minha campanha. Me ajuda. Pode
estar nu e sem sapato que não pede ajuda. Já o PC
toma. Deixa você nu se for possível.
VEJA
- O senhor já ouviu do Paulo César que ele tem
essa associação com o seu irmão?
Pedro
Collor -
Sim, já ouvi dele.
VEJA
- E do presidente?
Pedro
Collor - Não,
do Fernando, não.
VEJA
- O PC é uma pessoa digna de crédito?
Pedro
Collor -
Se ele foi o tesoureiro de duas campanhas do Fernando, se age com
age publicamente, se ele mesmo fala isso, eu só posso concluir
que é verdade.
VEJA
- Qual foi a última vez em que o senhor e o presidente
conversaram sobre as atividades de PC Farias?
Pedro
Collor - Em
janeiro deste ano. Eu tinha acabado de chegar do exterior e o Fernando
me chamou para almoçar. Foi uma conversa afável, embora
o Fernando, tenha se mostrado cuidadoso ao mencionar o nome do PC.
Pisava em ovos. Eu reclamei da maneira como o PC vinha tentando
destruir o nosso jornal em Alagoas, chamando nossos funcionários.
Foi uma conversa sobre os problemas com o jornal.
VEJA
- O senhor mencionou as denúncias de corrupção
sobre PC?
Pedro
Collor - Com
o Fernando, exatamente, não. Falei "n" vezes com
os meus irmãos Leopoldo e Leda, com o Cláudio Vieira
e o Marcos Coimbra.
VEJA
- Por que nunca falou diretamente com o presidente?
Pedro
Collor -
Eu sentia que, se eu falasse, ele iria ter uma explosão violentíssima.
O Fernando não gosta de escutar críticas.
VEJA
- Por que o senhor passou a envolver o presidente Collor nas
suas denúncias contra o PC?
Pedro
Collor -
Eu comecei a receber ameaças de morte dos irmãos do
PC através de interlocutores comuns. Cheguei a falar com
o Cláudio Vieira sobre tudo o que estava acontecendo. Concluí
que o PC não estava agindo por conta própria. É
o estilo típico do Fernando usar instrumentos. Ele não
ataca de frente.
VEJA
- O senhor não acredita que exista uma vontade política
real do presidente em investigar as atividades de PC Farias. Afinal,
a Receita Federal foi acionada para vasculhar o imposto de renda
de PC?
Pedro
Collor - Não
acredito nisso. Acho que a investigação ia ser empurrada
com a barriga e seria apenas retórica.
VEJA
- Qual a diferença entre o PC Farias e o Pedro Paulo Leoni
Ramos, o PP? Ou entre o PC e o Cláudio Vieira? Ou entre eles
e o Claudio Humberto?
Pedro
Collor -
São os métodos. O PC é o erudito do roubo,
da corrupção, da chantagem. Os outros têm uma
aspiração, mas também têm um teto. O
PC não tem limites.
VEJA
- Mas o PC vai até onde?
Pedro
Collor - Ele
é capaz de matar para extorquir.
VEJA
- O senhor apresentou o PC Farias ao Fernando Collor. Quando
começou a afastar-se dele? Por quê?
Pedro
Collor -
Na época eu não o via como hoje. Ele era um sujeito
enrolado com negócios, mas apenas isso. Não pagava
as contas. Mas era um sujeito jeitoso, muito insinuante, muito simpático.
Ele é muito envolvente em negócios. Comecei a me afastar
quando o Fernando se tornou governador do Estado.
VEJA
- O senhor tem alguma coisa contra o cidadão Fernando
Collor, seu irmão?
Fernando
Collor - Pessoalmente,
o Fernando é um sujeito extremamente talentoso, carismático,
magnético e, em alguns momentos, é uma criatura fantástica,
cheia de energia. Ao mesmo tempo, é rancoroso, vingativo
e adora manipular as pessoas. Ele gosta das pessoas subservientes.
VEJA
- O senhor chegou a falar que o seu irmão Fernando tentou
se insinuar junto a sua mulher, Tereza. Como foi isso?
Pedro
Collor -
Não foi exatamente isso. Eu e Tereza tínhamos passado
por uma crise conjugal, o que acontece muitas vezes entre casais.
Isso foi em 1987, quando Fernando era governador de Alagoas. Nesta
ocasião, eu estava no Canadá. Tive a informação
de que ele chamou Tereza para conversar no palácio. Conversaram
durante um bom tempo. Ali era o lugar onde ele tinha intercurso,
com algumas moças. Houve fofocas sobre isso e eu fui informado.
Tereza foi depois para Paris e Fernando me chamou para dizer que
havia conversado com ela e que eu me preparasse porque ela iria
se separar de mim. Disse que eu havia pisado muito na bola e que
me preparasse. Em paralelo, eu sabia que ele estava telefonando
para ela em Paris, naturalmente utilizando a fragilidade da relação
para telefonar e talvez até fazer a cabeça dela. Eu
consegui as contas telefônicas do palácio que comprovaram
essas ligações.
VEJA
- Houve uma tentativa explícita de sedução?
Pedro
Collor -
Eu acredito que implicitamente ele tentava mapear a situação,
diante de uma pessoa fragilizada emocionalmente pela perspectiva
de uma ruptura de casamento. Uma voz simpática. um ombro
amigo...
VEJA
- Tereza, houve uma tentativa de sedução?
Pedro
Collor - Não,
ele tem esse jeito de falar que é meio fraternal, meio conselheiro.
VEJA
- Apesar de sua suspeita de paquera por que continuou freqüentando
seu irmão? Por que esteve na posse dele como presidente?
Pedro
Collor -
Porque não se deve sair arrebentando portas. Tive controle
emocional.
VEJA
- Pelo que se deduz, o senhor coloca esse episódio como
um entre vários através dos quais seu irmão
tenta atingi-lo. É isso?
Pedro
Collor -
O que ele quer é me ver distante do comando administrativo
das empresas que temos. Para colocar uma pessoa dele lá dentro,
por uma questão política.
VEJA
- O senhor nomeou alguém para o governo federal?
Pedro
Collor -
Nem para a prefeitura de Maceió nem para o governo de Alagoas
nem para o governo federal.
VEJA-
Por quê?
Pedro Collor - Não é do meu feitio.
VEJA
- O que o senhor acha das nomeações do Leopoldo
(irmão mais velho de Collor)?
Pedro
Collor -
Eu não conheço as nomeações do Leopoldo.
Não converso sobre esse assunto com ele.
VEJA
- O senhor já admitiu que consumiu drogas na juventude.
Como foi isso?
Pedro
Collor - Quando
eu era jovem, era uma coisa que estava na moda, lá por 1968,1969,197O.
VEJA
- Em 1968, o senhor estava com 16 anos de idade.
Pedro
Collor -
Mas é isso.
VEJA
- Que tipo de droga?
Pedro
Collor - Cocaína.
VEJA
- Seu irmão Fernando também?
Pedro
Collor -
Sim.
VEJA
- Foi ele que o induziu a experimentar cocaína?
Pedro
Collor -
Não é que induziu, nem apresentou nem nada. As pessoas,
por serem de faixa etária um pouco acima, naturalmente têm
mais acesso a esse tipo de coisa. Foi assim que aconteceu.
VEJA
- LSD também tinha?
Pedro
Collor - Teve
também LSD, umas duas ou três vezes.
VEJA
- O senhor largou isso quando?
Pedro
Collor - Logo
depois. Senti que me fazia mal. Emagreci muito.
VEJA
- Quanto ao presidente, o senhor tem notícia de que ele
tenha consumido drogas após essa época na Juventude?
Pedro
Collor -
Não, depois dessa época. não.
VEJA
- O senhor já ouviu falar em Allan Mishai Fauru?
Pedro
Collor -
Conheço desde menino do Rio. Um belo dia, o Fernando já
governador, me parece, o Allan o convidou para ser padrinho do casamento
dele. Depois ele se mudou para Maceió, anos mais tarde, e
montou um boteco. Soube depois que ele tinha ligações
com traficantes, vendia, repassava. Mas ele não tem qualquer
relação com o Fernando, absolutamente.
VEJA
- O senhor não acha que as instituições
brasileiras correm algum risco com assuas denúncias?
Pedro
Collor -
Acho que nossas instituições agüentam o tranco.
Se eu começar a entrar muito em considerações
a respeito do governo, eu não dou um passo. Tenho de fazer
aquilo que acho correto. Que os outros façam as partes deles.
VEJA
- O senhor acredita que, com as últimas mudanças
no ministério, o PC é menos influente no governo?
Pedro
Collor -
Sim. Ele perdeu toda ou quase toda a sustentação.
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