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A classe média negraDe cada seis negros que se mexem na pirâmide Daniela Pinheiro
O cirurgião plástico mineiro Odo Adão tem 63 anos, é bem-sucedido (cobra
de 6.000 a 8.000 reais por operação) e negro. Quando compara os desafios
que enfrentou para chegar aonde chegou ao que está acontecendo com os
negros hoje em dia, Adão identifica um avanço notável: "Não dá para
dizer que o negro viva um momento espetacular atualmente, porque o preconceito
existe e a sociedade terá de avançar muito até corrigir isso. O que percebo,
no entanto, é que algo de novo está acontecendo. As portas começam a se
abrir com menor resistência para aqueles que são competentes. E isso é
uma vitória", afirma.
Diretor do Hospital do Câncer de Uberaba e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, amigo de Ivo Pitanguy, Adão foi o primeiro aluno negro na história da escola onde se formou, a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. Também foi um dos primeiros negros brasileiros a fazer especialização em cancerologia no exterior (Houston, Estados Unidos). O fato de ser uma exceção em cada etapa de sua vida é motivo de orgulho pessoal. Seu pai trabalhava como operário na construção de ferrovias pelo interior do país e sua mãe era dona de casa. Em sua trajetória, Adão enfrentou toda sorte de preconceito. Numa ocasião, um funcionário da alfândega tentou impedi-lo de viajar para a Europa. "Ele ficava me perguntando como eu tinha conseguido comprar o bilhete aéreo", lembra Adão. "Hoje em dia, sinto que isso diminuiu sensivelmente. Afinal, com o aumento do número de profissionais negros bem-sucedidos em várias áreas, aumentou também o número de negros que viajam para o exterior."
A percepção de mudança que o doutor Adão tem sobre a realidade do negro no país é amparada por dados significativos. Um trabalho recente divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, órgão do Ministério do Planejamento, mostra que a classe média negra das capitais brasileiras teve um crescimento relativo de 10% nos últimos sete anos. Crescimento relativo quer dizer que a classe média negra tem uma fatia 10% maior do que a que tinha na classe média em 1992. "É um contingente expressivo de pessoas que entram no mercado consumidor e de trabalho", destaca o economista Marcelo Neri, um dos autores do estudo. Estima-se que essa classe média negra movimente por ano quase 50 bilhões de reais – e está crescendo. O resultado é que se tornou cena freqüente encontrar uma moça negra na sala vip do aeroporto ou um senhor negro esperando mesa em restaurante cinco estrelas. Até muito pouco tempo atrás, esse era um privilégio reservado a negros artistas ou atletas. Segundo um levantamento recente preparado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, de cada grupo de dez negros, quatro estão parados na pirâmide social. Dos seis que estão se mexendo, cinco estão subindo.
No mercado de trabalho, o desempenho dos negros também tem se superado nos últimos tempos. Há dez anos, apenas 10% deles eram empregadores. Hoje dobrou. Os patrões negros representam 22% do total. O paulista Rubens Araújo Reis, de 35 anos, é um deles. Formado em administração de empresas e pós-graduado em publicidade e propaganda, comanda quinze pessoas em sua empresa de incorporações imobiliárias. Possui dois carros importados, um coreano Daewoo e um italiano Alfa Romeo, e mora num apartamento de três suítes em um bairro nobre de São Paulo. Recorda-se de ter sofrido discriminação racial uma única vez, quando foi maltratado por um funcionário de uma concessionária de veículos. Não teve dúvida: entrou com um processo na Justiça. Rico, bem-sucedido, Reis tem preocupações que ele mesmo considera inimagináveis para a geração de seus pais. Uma delas, o medo de ser seqüestrado. "Procuro levar uma vida discreta, sem badalações, para evitar problemas. Sou um alvo para bandidos como outro qualquer", afirma. Mesmo para quem não atingiu esse altíssimo padrão de vida a realidade é mais amena hoje em dia. Na década de 70, não havia um único negro registrado como piloto comercial no Sindicato Nacional dos Aeronautas. Hoje eles são vinte. É um número ridículo, se comparado ao total de pilotos comerciais em atuação (cerca de 5.000), mas passa a ser um bom indicador de ascensão social. Detalhe: um curso para a obtenção do brevê pode custar até 20.000 reais. Por tradição, famílias negras no Brasil costumam ganhar muito menos do que as brancas. O que significa que para gastar o mesmo valor têm de suar muito mais. O comandante Sérgio Pedro Marques, o Piatã, é um deles. Aos 38 anos, dono de um salário de 7.000 reais, faz parte do time de pilotos da TAM que voam a ponte aérea Rio–São Paulo. Piatã mantém uma casa no Rio e um apartamento em São Paulo, onde costuma passar a semana. Nos feriados, ruma com a família para sua casa na praia. Formado em matemática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Piatã é tão seguro quanto a sua posição social que faz até piadas com a própria cor da pele: "O pessoal diz que vai voar com o Neguinho, como me chamam. Você acha que eu ligo? Eu acho até carinhoso", conta.
O crescimento da classe média negra fez surgir um novo filão no mercado. Há quatro anos, a empresária Vilma Warner montou em São Paulo a Biashara Escola de Idiomas, voltada para alunos negros. "Aceitamos alunos brancos, mas 90% são negros", diz Vilma. Além de inglês, espanhol, francês, português para estrangeiros, oferece cursos de línguas africanas como swahili e ioruba. A agência de casamentos Twins Souls, também de São Paulo, é outra que se especializou. De seu cadastro com mais de 350 pessoas, a esmagadora maioria é de negros. "Atendemos um público selecionadíssimo", garante a proprietária, Maria Regina Carvalho. Para fazer parte do cadastro o interessado tem de desembolsar 750 reais. Em oito meses, a agência já viabilizou 32 namoros. No cadastro, há setenta estrangeiros brancos à procura de brasileiras negras.
O problema racial no Brasil está longe de ser resolvido. Estima-se que os negros ocupem apenas 1% dos postos estratégicos do mercado de trabalho, quando representam quase metade da população. Outro estudo do Ipea mostra que, entre dois profissionais igualmente preparados, o branco tem 30% mais chance de conseguir uma ocupação do que o negro. Há duas razões para a diferença porcentual, aponta o estudo: o preconceito e o histórico familiar. O branco candidato ao emprego em geral vem de uma família estabilizada socialmente e o negro deu o grande salto. Para quem já está no mercado, a situação não é diferente. Na hora de receber o contracheque, negros e brancos estão em descompasso. De acordo com dados da Fundação Seade, de São Paulo, o salário médio de um branco na capital paulista é de 760 reais. Na mesma função, um negro ganha menos da metade: cerca de 350 reais. "O negro tem de ser dez vezes melhor do que o branco para ter acesso a uma educação que permita a ele competir e ultrapassar quem sempre esteve em vantagem", diz o cientista político Sérgio Abranches. As estatísticas sobre o espaço social e econômico dos negros na sociedade brasileira devem ser encaradas com cuidado. A maioria dos estudos oficiais ignora a cor da pele dos cidadãos, o que dificulta as análises. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística pede às pessoas que digam, elas próprias, qual é o tom de sua pele. As respostas são inacreditáveis. Tem-se um espectro de cores que vai desde um impreciso "café-com-leite" até um incompreensível "pardo bebê". Em 1995, o Instituto Datafolha perguntou a um grupo de pessoas qual a cor de sua pele. Surgiram mais de 100 respostas diferentes. Há uma razão técnica para que a cor não seja definida pelo pesquisador. Como não existe um conceito biológico e catalogável de raças, a mudança no critério poderia ser – e tudo indica que seria – tão subjetiva quanto o atual sistema, dando espaço até mesmo para o preconceito do pesquisador. "Mas é necessário fazê-la, pois muitas vezes aponta para outras características, como escolaridade e renda", afirma o demógrafo Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE. A deficiência estatística para contabilizar a etnia esconde o tamanho do preconceito. O Conselho Federal de Medicina, por exemplo, orgulha-se de não saber quantos são os médicos negros. A Ordem dos Advogados do Brasil também não tem idéia do rol de negros em seus quadros. Nem o Sindicato dos Professores de São Paulo nem tampouco o Conselho Federal dos Engenheiros têm essa informação. O argumento é que a raça não importa no desempenho da profissão. Até aí, perfeito. Mas como não se sabe exatamente quantos são os negros, pardos, morenos, mulatos, e afins e nem onde eles estão, ninguém fica sabendo também como eles estão se saindo no mercado de trabalho. Nos anos 40, o sociólogo Oracy Nogueira decifrou a charada: no Brasil, o preconceito é de cor da pele, enquanto para os americanos é de origem. Portanto, o sujeito que se diz "café-com-leite" no Brasil pode até ser considerado "quase branco". Já nos Estados Unidos, ele é negro porque invariavelmente tem ascendência negra. Essa clara definição da raça fez dos Estados Unidos um espelho de organização sócio-econômica para os negros brasileiros. Sem dúvida, é ali que se encontra o maior mercado segmentado para negros do planeta. De roupas e cosméticos a canais de TV, há de tudo para o público negro. Uma conquista duríssima que levou anos para se firmar. As chamadas "políticas afirmativas", o sistema de cotas nas universidades e na administração pública, fizeram com que a classe média negra americana dobrasse nos últimos vinte anos. No entanto, o resultado foi diferente do esperado. A sociedade dividiu-se e a disputa racial adquiriu alguns aspectos inéditos. Sob a pecha de ser paternalistas e injustas, argumentos usados pelos brancos, as cotas dão motivo a embates intermináveis. Um branco sempre pode alegar ter perdido um bom emprego não porque o negro com quem disputou a vaga era mais capacitado, mas porque a lei o favoreceu. "Morte à princesa Isabel" – Os estudiosos do sistema de cotas se dividem. Há defensores ferrenhos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil (veja quadro). Outros vêem a adoção do sistema com preocupação. A sociedade americana vive um clima de disputa racial num ambiente em que as leis garantem vagas em número proporcional ao contingente de negros no total da população: 12%. O que aconteceria se o modelo fosse importado para o Brasil, onde negros e pardos somam 45% da população? De acordo com o professor Anthony Marx, da Universidade Columbia, que lançou recentemente um livro sobre o assunto, Construindo uma Raça e uma Nação – Uma Comparação entre Estados Unidos, África do Sul e Brasil, ainda inédito no país, o sistema não iria funcionar. Ele afirma que a segregação racial no Brasil não é explícita simplesmente porque não há como identificar raças pela aparência física. Não há um negro negro nem um branco branco. Por essa razão, reservar cotas para uma raça específica e definida é quase uma utopia. Ainda assim, chovem propostas de reserva de mercado para negros. Há algumas semanas, o Tribunal de Justiça de São Paulo aprovou uma medida que obriga a participação de 25% de atores e modelos negros em todas as propagandas oficiais do governo estadual.
Até agora, tem sido confortável para os brancos festejar o sucesso dos negros já estabilizados na profissão. Mas uma coisa é aplaudir quando o número de negros bem-sucedidos é pequeno. Outra é continuar o aplauso no momento em que um contingente expressivo de negros bem preparados começar a tomar postos de trabalho de altos salários da fatia mais clara da população. A gerente financeira da Mitsubishi, Conceição Vianna, de 45 anos, sabe do que se trata. Logo que se formou, foi disputar uma vaga de contadora com um colega, homem e branco. Ficou com o emprego, mas guarda na memória um comentário que preferiria ter esquecido. "Quando ele soube do resultado, virou-se para mim e disse que, se pudesse, entraria numa máquina do tempo e mataria a princesa Isabel", lembra Conceição. É nessa hora que o preconceito aflora em sua medida extrema. "Aqui se diz que o discriminado é o pobre. Mentira. Nos pequenos detalhes, vemos que quem é mesmo discriminado é o negro", afirma Sueli Carneiro, do Geledés – Instituto da Mulher Negra, de São Paulo.
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