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ENTREVISTA - NICK HORNBY

Veja - O sr. se tornou uma espécie de porta-voz do público masculino, especialmente da galera acima dos 30 anos. Como foi a experiência de ter uma mulher como narradora em seu novo romance, Como Ser Legal?
Hornby -
Decidi fazer isso por uma razão de técnica narrativa. A princípio, eu queria narrar na primeira pessoa, como se fosse o personagem David vivendo o seu processo de conversão. Mas percebi que dessa forma ficaria chato, porque ele é um sujeito um tanto cansativo. Foi assim que optei por colocar sua mulher, Katie, como narradora. As pessoas insistem em me perguntar se não me senti desconfortável dando voz a ela. O que posso dizer é que já convivi com tantas mulheres - amigas, namoradas - que escrever sob a visão delas foi uma coisa natural, sem traumas. Não houve maiores dificuldades. De qualquer forma, tomei o cuidado de mostrar o livro para várias mulheres que conheço antes de publicá-lo, para ver se estava verossímil.

Veja - O sr. classificaria seus livros como literatura com L maiúsculo ou como entretenimento? Acha que poderia ganhar um prêmio como Booker Prize algum dia?
Hornby - Nunca pensei nas coisas por esse ângulo. Meus livros significam mais para mim - e imagino que para meus leitores - do que apenas entretenimento. Mas isso não significa que eles sejam literatura. Quanto ao Booker Prize, é um prêmio dado a livros tão chatos que não conseguem cumprir a função básica da literatura, que é atrair os leitores.

Veja - Livros como Febre de Bola e Alta Fidelidade tem um forte componente autobiográfico. Isso também ocorre em Como Ser Legal?
Hornby - Sim, o livro faz referência a algumas experiências que vivi, especialmente as de um período difícil - a época em que descobri que meu filho, Danny, era autista, e enfrentei um processo de divórcio. Quando estava com dificuldades, fui até procurado por gurus, tal e qual acontece com David no livro, mas não embarquei nessa, felizmente. Além disso, me identifico um pouco com David porque, à medida que minha conta bancária ficou mais gorda, passei a sentir um certo peso na consciência... De qualquer forma, a relação entre a minha vida e os livros não é tão direta quanto a maioria das pessoas pensa.

Veja - Seus livros fazem muita referência a eventos e coisas típicas dos dias atuais, como o futebol e a cultura pop. Não há o perigo de se tornar um autor datado?
Hornby - Eu quero ser lido aqui e agora. Costumava ficar intrigado ao notar que a maioria dos escritores contemporâneos evita fazer referências ao que está acontecendo, seja na música, na literatura ou na TV. E então percebi que eles fazem isso porque estão preocupados em posar para a posteridade. Talvez meus livros não sejam lidos daqui a cinqüenta anos, mas nem me preocupo com isso.

 


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