Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Especial
VEJA o acompanhou
por 16 meses

Em visitas regulares ao longo de um ano e
quatro meses, repórter de VEJA acompanhou
a saga do empresário William Adas, que atingiu
163 quilos, operou o estômago e agora pesa
quase a metade


Monica Weinberg


Fotos Antonio Milena e Pedro Rubens
Adas, com 98 quilos (à dir.): livre de uma carga equivalente a treze sacos de arroz


NESTA EDIÇÃO
William antes e depois da cirurgia
A semana na casa de William
NA INTERNET
Informações sobre obesidade em VEJA Saúde

Quando reflete a respeito do processo de engorda que o fez dobrar de peso, o empresário paulista William Adas tem a sensação de que inchou de uma hora para outra. "É como se eu fosse o mocinho de um filme de ficção científica e uma força maligna tivesse me sugado para um mundo paralelo onde fui transformado num monstro. Fiquei deformado. Meu pescoço desapareceu, passei a não enxergar meus pés sem ajuda de espelhos, parei de alcançar as costas no banho e meu órgão sexual ficou encoberto", conta. A maior parte das pessoas obesas vê a gordura dessa forma, como um alien que se apossa subitamente de seus corpos. Na verdade, Adas, hoje com 35 anos, levou exatos treze anos para assumir a forma física que ele não deseja nem para seu pior inimigo. Nesse período, o empresário engordou, em média, 6 quilos por ano, ou 500 gramas por mês. Na faculdade de administração, formava entre os alunos de perfil atlético. Com 1,78 metro, mantinha-se com 85 quilos, resultado de até três horas de remo por dia. Convivia com algumas variações de peso próprias da idade, mas nada que o incomodasse, que provocasse comentário dos amigos ou olhares de estranhos. Nada que uma dieta rápida não resolvesse. Em 2002, aos 33 anos, quando procurou um médico para se candidatar a uma cirurgia de redução do estômago, a balança do consultório marcava 163 quilos. "Entrei em pânico, percebi que acabaria morrendo de tanto comer", conta.

Depois de escutar que seu quadro clínico inspirava cuidados, que corria o risco real de morrer em decorrência de doenças ligadas ao excesso de peso, Adas se apavorou. Todos os anos 3.000 pessoas têm o estômago operado no Brasil, e outras 150.000 mundo afora. Do ponto de vista jornalístico, o que torna o caso de Adas único é que, pela primeira vez no país, um paciente foi acompanhado regularmente por uma equipe de reportagem. VEJA monitorou o programa de emagrecimento do empresário por um ano e quatro meses, desde os preparativos para a cirurgia, em novembro de 2002, até a semana passada. A reportagem passou dias inteiros observando seus hábitos, acompanhou-o em consultas médicas, viu de perto seu drama para tentar emagrecer em um spa antes da cirurgia e assistiu à operação. Nesse período, Adas foi entrevistado 25 vezes pessoalmente, sua mulher, Carolina, outras dez, sem contar as conversas semanais com a revista por telefone. A pedido de VEJA, o empresário fez anotações regulares, que se transformaram num diário, cujos trechos podem ser conferidos na pág. 78. De acordo com o médico Arthur Garrido, presidente da Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade e responsável pelo tratamento, Adas vem se comportando como um paciente exemplar. Perdeu 65 quilos, e demonstra estar adaptado à rotina de restrições em que se transformou sua vida alimentar. "William venceu a batalha inicial contra a obesidade", afirma Garrido. "Agora, ingressou na fase de se acostumar ao novo corpo, de se amoldar a um organismo com o qual já não tinha intimidade", diz o médico.

Fotos Antonio Milena
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As dificuldades da vida de gordo...
A seqüência de fotos mostra William em algumas atividades rotineiras, quando pesava 163 quilos. Sair do carro ou da piscina e amarrar os sapatos eram tarefas extremamente difíceis. Para piorar, a vergonha do corpo não o animava a sair de casa. Seu sono era ruim e sua saúde já estava comprometida por causa da gordura

Adas consumiu mais de uma década acostumando-se a um corpo obeso e perdeu esse excesso todo em pouco mais de um ano. Este foi um de seus grandes desafios: disciplinar-se física e mentalmente para viver de novo como um homem magro, e rapidamente. É como se o empresário precisasse ser domesticado. Nos primeiros meses após a operação, ele ainda encolhia a barriga para entrar no boxe do banheiro e, para sair do carro, se agarrava à porta da mesma maneira como fazia antes. "Eu estava condicionado. De vez em quando, minha mulher notava que meus movimentos não combinavam mais comigo", conta. A redução no consumo de proteínas o fez perder cabelos e agora ele precisa consumir algumas vitaminas para equilibrar a dieta. Para Adas, o aprendizado tem sido prazeroso. A grande dificuldade consiste em aprender a pensar como magro. Ele lembra que sua primeira visita à churrascaria com o novo estômago foi uma experiência traumática. "Descobri que eu me sentia poderoso devorando toda aquela comida. Eu adorava a comilança. Quando precisei parar em dois pedacinhos de picanha me senti impotente, um derrotado", diz. Ainda hoje, apesar do sucesso na balança, Adas sente falta de comida, da sensação de estar mastigando, dos sabores e dos rituais. Pode parecer fácil para quem não liga muito para comer. Mas é difícil para quem faz disso sua maior fonte de alegria. Nos primeiros dias, Adas perdia o sono pensando em comida. Uma vez, atacou a geladeira e sacou de lá meio hambúrguer, devorado de forma furiosa. Passou mal durante horas. Até hoje, a idéia de que a mesa se tornou um lugar repleto de restrições o assusta.


Fotos Claudio Rossi
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...e as alegrias da vida de magro
Em seu novo corpo de magro, ele voltou a praticar remo (à dir.), esporte que abandonou quando começou a engordar. Além disso, recuperou a saúde, a vaidade e a alegria de viver. Agora, está aprendendo a apreciar comidas mais leves e refeições balanceadas

Para entender a complexidade do desafio de quem emagrece de forma rápida e radical, é preciso conhecer um pouco da etapa anterior, do caminho rumo ao "mundo paralelo" para o qual o empresário se disse sugado. Ao longo dos anos, Adas recebeu diversos recados de que as coisas não iam bem. Ao completar 21 anos, pesava mais de 100 quilos. A marca não o abalou. Parecia simples queimar o excesso com mais uma dieta e mais dedicação aos exercícios. Vieram o casamento, novas obrigações no trabalho e três filhos. Seus hábitos alimentares mudaram, os esportes ficaram em segundo plano e ele continuou ganhando peso. Na correria, não sobrava tempo para esportes nem ânimo para dietas. Seu peso continuou subindo sem parar. Numa primeira fase, perdeu o fôlego para caminhadas, depois passou a sofrer para subir até mesmo um lance de escada. Alguns minutos de conversa o deixavam sem ar, como se tivesse uma crise asmática. Suas costas começaram a doer constantemente, e seus joelhos fraquejavam sob o excesso de peso. Entrar e sair do carro, amarrar os sapatos, entrar no boxe do banheiro, esfregar as costas se tornaram tarefas difíceis ou impossíveis. Seu corpo sofria com assaduras freqüentes provocadas pelo atrito entre as pernas. A pressão arterial subiu, o sono ficou difícil, pois acordava durante a noite com falta de ar. Sua mulher, Carolina, tinha crises de choro constantes, assustada com a idéia de que o marido pudesse ser vítima de um ataque fulminante provocado pela gordura.

Insatisfeito com o corpo, Adas deixou de ser um tipo alegre e extrovertido e tornou-se um personagem recluso. "Eu tinha vergonha de me expor. Cheguei a ponto de evitar me mexer com medo de a roupa rasgar. Passei dez anos sendo chamado de bolão, rolha de poço, gordão e coisas parecidas. Isso acaba com a auto-estima de qualquer um", diz. Adas se sentia tão deslocado em ambientes públicos que desenvolveu uma espécie de fobia social e até alguns pensamentos paranóicos. A idéia de freqüentar cinemas e lugares fechados o assombrava. "'Tinha medo do que poderia acontecer se o lugar pegasse fogo. Com meu peso, seria o último a sair e acabaria pisoteado", conta. "Eu achava que estava sempre atrapalhando, como um carro quebrado numa avenida movimentada."

Claudio Rossi
A mulher, Carolina, e os filhos, Pedro, Ana Luiza e Gabriel: família unida


A harmonia familiar acabou atingida pelos efeitos da gordura. Como ele evitava sair, afastou-se dos filhos pequenos. Nos fins de semana, sua mulher passeava com as crianças e ele permanecia em casa, diante da TV. Quando concordava em se reunir à família, sugeria que fossem a um restaurante, de preferência uma churrascaria. À mesa, não conversava com ninguém. "Eu só queria comer. Abria a boca apenas para mastigar e fazia isso rapidamente para ingerir ainda mais comida." A vida sexual do casal também foi afetada. Perdeu a agilidade, a freqüência e a qualidade do início do relacionamento. Carolina conta que tomava calmantes para pegar no sono antes de o marido chegar. Isso porque durante o sono ele respirava mal e roncava alto por causa da gordura. Nos Estados Unidos, onde foram realizadas pesquisas a respeito do efeito da gordura sobre o casamento, verificou-se que é bastante alta a taxa de divórcio entre os obesos: quatro de cada dez casamentos terminam em separação. "Acho que só ficamos juntos porque nosso casamento está construído sobre bases muito sólidas", conta ela.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, o número de obesos no mundo vem aumentando em alta velocidade. Nos Estados Unidos, mais de 60% das pessoas estão acima do peso e, entre elas, 30% são diagnosticadas como obesas. Na Europa, a doença também está se espalhando e já atinge 25% da população de alguns países. Na Inglaterra, o grupo de doentes triplicou de tamanho nas duas últimas décadas. Segundo a OMS, a doença atingiu dimensão epidêmica. Uma projeção desalentadora mostra que, caso nada seja feito, os obesos serão a maioria da população em vários países nas próximas décadas. Outro fato assinalado pela OMS é que a obesidade deixou de ser uma típica doença dos países ricos. Em países da América Latina, o total de obesos supera o de desnutridos. No Brasil, o número de pessoas acima do peso dobrou nas últimas três décadas e já afeta 70 milhões, contingente que inclui todos os que têm alguns quilinhos a mais. Cerca de 18 milhões são considerados obesos, ou seja, estão até 45 quilos acima do peso ideal. A partir desse patamar, os médicos diagnosticam a obesidade mórbida. Ou seja, a gordura que mata. Na semana passada, um relatório divulgado pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos, trouxe à tona dados assustadores sobre a obesidade. De acordo com o estudo, as mortes decorrentes da doença já são quase tão freqüentes quanto os óbitos provocados pelo fumo, que há uma década disparavam na frente. Os últimos dados referentes ao assunto mostram que, em 2000, 18% das mortes nos EUA se deveram aos efeitos do cigarro enquanto quase 17% foram atribuídas a doenças associadas à obesidade. O trabalho destaca que a maioria dos obesos tem alimentação inadequada e é sedentária. Em 2020, se a epidemia de obesidade continuar nesse ritmo, 1 de cada 5 dólares gastos com saúde será destinado ao tratamento de pessoas com excesso de peso. Gente como William Adas antes da cirurgia tem doze vezes mais probabilidade de morrer devido a complicações de saúde do que indivíduos com peso normal.

Há outros fatores que entram nessa conta. Ao longo do processo evolutivo, o ser humano adaptou-se a ingerir toda comida disponível e ainda fazer estoques em forma de gordura. Ocorre que nossos ancestrais tinham uma enorme dificuldade de achar comida. Hoje, o alimento é barato e extremamente acessível. Adas formava entre aqueles que sentiam uma compulsão incontrolável por comida. No auge da gordura, chegou a manter uma dieta diária de quase 10.000 calorias, cerca de cinco vezes mais do que se recomenda para um adulto saudável. Em uma única refeição era capaz de engolir quatro Big Mac, 600 gramas de batatas fritas, dois sundaes e 1 litro de refrigerante.

Quem está em paz com a balança não sente o peso do próprio corpo. Para os obesos, mover o corpanzil é um sacrifício. Cada braço de Adas pesava cerca de 15 quilos, cada perna tinha 30 quilos, outros 30 quilos de gordura estavam depositados na barriga. O simples ato de levar um copo à boca correspondia ao esforço de segurar nos braços uma criança de 4 anos. Com 163 quilos, ele tinha um excesso de bagagem de 60 quilos de gordura e 20 quilos de músculos, que se desenvolveram pelo exercício diário de carregar o próprio peso do corpo. Como o organismo não é projetado para trabalhar com esses números, o risco de colapso é grande. Em sua última bateria de exames antes da operação de redução do estômago, os médicos contabilizaram sete problemas graves, ou muito incômodos. Um dos mais preocupantes era a apnéia do sono. A gordura depositada em seu abdômen comprimia o diafragma e o asfixiava. Certa noite, Adas acordou quatro vezes seguidas. "Abri os olhos e vi minha mulher gritando, achando que eu tinha morrido", lembra.

A maioria dos obesos mórbidos passa por uma maratona de dietas antes de partir para soluções tão radicais como a cirurgia para redução de estômago. Nos últimos vinte anos, Adas tentou quinze tipos de dieta e tomou todos os remédios para emagrecer disponíveis no mercado. O resultado era aquele que se sabe: ele perdia peso e acabava ganhando tudo outra vez. Nesse vai-e-vem calcula-se que tenham sido "movimentados" até 400 quilos entre gordura perdida e recuperada nos regimes. De acordo com os médicos, para voltar a ter um peso normal sem cirurgia, Adas precisaria enfrentar uma dieta de guerra. Primeiro teria de reduzir seu consumo diário de calorias a um sexto do que consumia, ou cerca de 1.500 calorias. Além disso, precisaria fazer uma hora de caminhada por dia e tomar inibidores de apetite. Pouca gente consegue vencer o desafio nessas bases. As estatísticas apontam que apenas 5% dos obesos cumprem a prescrição. Nove de cada dez gordos voltam ao peso original depois de quatro anos.

Criada para atender essas pessoas, a cirurgia é uma saída radical e arriscada. Só se justifica mesmo quando o risco de permanecer gordo é um atalho para a morte. A Associação Médica Brasileira classifica os procedimentos em sete níveis de complexidade. Cirurgias cardíacas e operações de câncer estão no topo. A redução do estômago vem logo abaixo. O objetivo dos procedimentos cirúrgicos é restaurar o funcionamento de órgãos do corpo. A redução do estômago mutila. Segundo dados de pesquisas realizadas nos Estados Unidos, cerca de 5% dos pacientes apresentam complicações graves durante a operação ou no pós-operatório. Na cirurgia, os médicos separam o órgão em dois compartimentos. Um deles fica com capacidade para apenas 20 mililitros, equivalente a uma mísera meia xícara de café. Ligada ao intestino por meio de um anel de silicone, essa câmara funcionará como o novo estômago. O outro compartimento fica sem função. Perde-se peso por duas razões. Primeiro, com a redução do estômago, a produção de hormônios associados à sensação de fome é reduzida. Além disso, a nova máquina é incapaz de processar grande quantidade de alimentos.

Com seu novo estômago, Adas consegue ingerir apenas 300 gramas de alimento por refeição e, ainda assim, muito lentamente. Os alimentos são triturados na boca por cerca de meia hora e engolidos em pequenas porções. Alguns pacientes sentem indisposição até com a ingestão de pouca quantidade de comida. Outros vomitam com freqüência, mesmo passado mais de um ano da cirurgia. Depois de operado, o ex-obeso precisa adaptar a cabeça de gordo ao novo corpo. Pessoas com membros amputados continuam tendo as sensações de antes, como se nada houvesse acontecido. Em certa medida, ocorre o mesmo com os que fazem a operação de redução do estômago. Após a cirurgia, a fissura pela comida continua. Adas demorou sete meses para ajustar a fome a sua capacidade de ingestão de alimentos.

A fase de adaptação é tão desgastante que uma parte dos pacientes operados pede que a cirurgia seja desfeita. Outra parte sabota o tratamento, normalmente com a ingestão de doces pastosos. Como resultado, volta a engordar. Ainda há um grupo que cai em depressão. Certos obesos descontam suas frustrações na comida. "Quando descobrem que perder peso não as fez arrumar namorada nova nem mudar de emprego da noite para o dia, algumas pessoas que passam pela cirurgia se desmontam psicologicamente", diz o médico Arthur Garrido. Finalmente, os candidatos à operação precisam ter em mente que, provavelmente, não vão ganhar um corpo de atleta. Em média, consegue-se uma redução de 40% do peso. Ou seja, em muitos casos, a vantagem da cirurgia é transformar obesos em gordos.

Para Adas, a operação de estômago foi um sucesso. Ele está com 98 quilos e sua taxa de gordura estabilizou-se na casa dos 20%, índice ligeiramente elevado para a maioria das pessoas, mas adequado para alguém com seu histórico. Três meses após a cirurgia, o empresário havia perdido quase 40 quilos e sua vida começou a mudar radicalmente. Ele se lembra vivamente da alegria que sentiu na primeira vez em que conseguiu dormir de barriga para cima sem se sentir sufocado. Guarda a emoção das primeiras caminhadas pelo condomínio onde mora e continua experimentando o gosto de pequenas conquistas. Ele dispensou o banquinho que usava para amarrar os sapatos e, no banho, foi capaz de observar "todas as partes" de seu corpo e alcançar as costas com a esponja. Todo o seu guarda-roupa, comprado em lojas especializadas em gordos, foi doado a uma instituição de caridade. "Conheci alegrias até infantis, como um dia me olhar no espelho e rever meu pescoço", conta. Um dos momentos mais marcantes de sua nova vida foi quando levou seus filhos ao clube. "Não que eu tenha ficado com a barriga do Paulo Zulu, mas já tiro a camisa sem dar vexame", diverte-se. Seu casamento também esquentou, e hoje, mais de um ano depois da cirurgia, o casal recuperou a alegria dos primeiros anos. Diz Carolina: "Estamos vivendo uma nova lua-de-mel".

Com reportagem de Camila Antunes

 

Uma epidemia mundial

A China sempre teve uma das menores taxas de obesidade do mundo. Até pouco tempo atrás, apenas 2% da população do país sofria com o excesso de peso. Na França, na Itália, na Inglaterra e no Japão a obesidade também não era vista como um problema de saúde relevante. Nos últimos anos, a população de obesos nesses países começou a crescer em ritmo preocupante. A questão é tão grave que, recentemente, a Organização Mundial de Saúde lançou um alerta no qual a obesidade é apontada como epidemia mundial. O problema aflige países ricos e pobres. Mesmo na África e na América Latina, onde ainda há muitas pessoas comendo aquém do necessário, a proporção de obesos está aumentando. Pesquisas apontam que até em comunidades indígenas cresce o número de obesos. Segundo as autoridades médicas, caso essa tendência não mude, uma das principais causas de mortalidade nos próximos anos serão as doenças associadas ao excesso de peso.

Os estudos indicam que a obesidade se alastra em decorrência de uma combinação de hábitos alimentares pouco apropriados e quase nenhuma atividade física. Inventores do fast food e amantes das dietas ricas em açúcares e gorduras, os Estados Unidos foram os primeiros a sentir o problema. Numa fase seguinte, o mal atingiu o mundo todo. Há um outro detalhe que pesa na balança. No passado, os alimentos eram mais saudáveis e mais difíceis de encontrar. Hoje, é possível achar comida em qualquer esquina, a preços módicos. Já se provou que as pessoas ingerem uma quantidade significativamente maior de calorias. Para os médicos, embora o mal seja coletivo, a solução é individual. Eles sugerem às pessoas que sigam dietas mais balanceadas e que se dediquem às atividades físicas. Não há mágica. Pesquisas já provaram que com uma caminhada diária de apenas meia hora se reduz em 30% o risco de uma pessoa tornar-se obesa. Outra sugestão dos especialistas é observar as crianças. Estatísticas internacionais dão conta de que a doença chega cada vez mais às faixas mais jovens. Nos Estados Unidos, 15% das crianças são obesas.

 

 

O diário de William

Durante dezesseis meses, William fez anotações sobre sua luta para emagrecer. Confira alguns dos principais trechos:


Antonio Milena
No dia da operação de estômago: angústia de não voltar a comer

5 de novembro de 2002
Sinto medo de morrer. Fui atleta na juventude. Nos últimos treze anos, só engordei e acabei com sérios problemas de saúde. Decidi me submeter a uma cirurgia de redução de estômago.

11 de novembro de 2002
Estou tão gordo que preciso perder peso em um spa, antes da operação.

Álbum de família
Ainda magro, em seu casamento: ganho de peso com a nova rotina


17 de novembro de 2002

Perdi 10 quilos no spa. Mas hoje não resisti e devorei uma pizza de atum inteira. Foi a despedida. A cirurgia está marcada para amanhã.

18 de novembro de 2002
A operação correu bem, mas sinto uma dor lancinante na região do estômago. Passei a noite à base de morfina.

19 de novembro de 2002
Em minha primeira refeição depois da cirurgia, tomei um copinho de 20 mililitros de chá em quatro goles. Foi como se eu tivesse comido um churrasco de picanha.

28 de novembro de 2002
Pela primeira vez em muitos anos, consegui fazer uma caminhada sem ficar exausto. Com 15 quilos a menos, começo a sentir diferença.

3 de janeiro de 2003
Fui ao clube com meus três filhos. Não sinto mais vergonha da minha barriga.

15 de janeiro de 2003
Olhei para o espelho e pensei: "Milagre, meu rosto desinchou". Estou vendo meu pescoço de novo! Já consigo amarrar o tênis sem usar um banquinho.

6 de março de 2003
Deixei de ser cliente de loja de roupa para gordo. Pela primeira vez em anos comprei roupas numa butique normal.

Álbum de família
Atleta na juventude: três horas de esportes diariamente


23 de julho de 2003
Estou realizado. Voltei para o remo. Senti falta de fôlego, mas o barco não virou. A sensação foi tão plena quanto a de um beijo apaixonado.

30 de julho de 2003
O regime fez bem até para meu casamento. Eu e minha mulher estamos vivendo uma nova lua-de-mel.

5 de agosto de 2003
Perdi o controle e devorei a metade de um Big Mac. Senti um dos piores enjôos da minha vida.

10 de setembro de 2003
A balança deu 100 quilos. Pulei de alegria feito criança.  

4 de março de 2004
Minha vida está tão boa depois da cirurgia que, quando encontro um obeso na rua, tomo a liberdade de indicar a operação.

 

 
 
 
 
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