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Trecho
do livro O Homem que Comeu de Tudo, de Jeffrey Steingarten
Introdução
"Meu
primeiro impulso foi agredir o cozinheiro", escreveu
Edmondo de Amicis, um viajante que, no século xix,
visitou o Marrocos. "Num instante, entendi perfeitamente
como uma raça que se alimentava daquela maneira tinha
de acreditar em outro Deus e ter uma visão da vida
humana essencialmente diferente da nossa. [
] Havia gosto
de sabão, cera, pomada de cabelo, ungüentos, tinturas,
cosméticos; em resumo, de tudo o que é mais
inadequado para entrar na boca humana."
Era justamente assim que eu me sentia em relação
a toda uma vasta gama de comidas, em particular sobremesas
de restaurantes indianos, até 1989, ano em que eu,
então advogado, fui nomeado crítico gastronômico
da revista Vogue. Ao contemplar as assustadoras responsabilidades
de meu novo posto, fiquei prostrado. Porque, da mesma forma
que todas as pessoas que conhecia, eu sofria de um conjunto
poderoso, arbitrário e debilitante de atrações
e aversões alimentares. Temia que não conseguisse
ser mais objetivo que um crítico de arte que detestasse
o amarelo ou sofresse de daltonismo. Na ocasião, eu
tinha amizade com uma respeitada e poderosa editora de livros
de receitas; ela tanto se enjoara do sabor do coentro que
levava consigo um par de pinças para, em restaurantes
mexicanos e indianos, separar meticulosamente até o
último pedacinho desse condimento antes de dar a primeira
garfada. Imaginem-se as dúzias de Julias Childs e Marys
Fishers potenciais cujos livros de culinária ela irritadamente
rejeitou e cujas carreiras ela sufocou na infância!
Jurei não seguir-lhe os passos.
De repente, sentimentos acirrados para com a comida, fossem
fobias, fossem manias, pareceram-me a mais séria de
todas as limitações pessoais. Naquele mesmo
dia, esbocei um Programa de Seis Passos para liberar meu paladar
e minha alma. Assegurei a mim mesmo que nenhum cheiro ou gosto
é repulsivo de nascença e que aquilo que foi
aprendido pode ser esquecido.
O passo um foi organizar uma lista com comentários.
Minhas fobias alimentares:
1.
Comidas que não tocaria nem se estivesse faminto numa
ilha deserta.
Nenhuma, exceto, talvez, insetos. Muitas culturas consideram
os insetos extremamente nutritivos e adoram sua textura crocante.
Os astecas pré-hispânicos assavam vermes de diversas
maneiras diferentes e faziam caviar amassando ovos de mosquitos.
Isso prova que nenhuma programação humana inata
me impediria de comê-los também. Objetivamente,
devo parecer tão tolo quanto aqueles bosquímanos
do deserto do Kalahari que enfrentam a fome de tempos em tempos
porque se recusam a comer três quartos das 223 espécie
animais que existem em volta deles. Lidarei com essa fobia
depois de terminar com as fáceis.
2.
Comidas que não tocaria nem se estivesse faminto numa
ilha deserta, até que absolutamente todas as demais
opções tivessem se esgotado.
Kimchi, a conserva nacional coreana. Repolho, gengibre, alho
e pimenta vermelha - adoro tudo isso, mas não quando
é fermentado em conjunto durante muitos meses para
se transformar em kimchi. Quase 41 milhões de sul-coreanos
comem kimchi três vezes ao dia. Quando alguém
vai fotografá-los, dizem "Kimchi!" em vez
de "Giz!". Eu digo: "Fiquem vocês com
o kimchi".
Qualquer
coisa em que se inclua endro. O que poderia ser mais anódino
que o endro?
Peixe-espada. Esse é um dos pratos prediletos da turma
que se alimenta de acordo com um propósito específico
qualquer; gostam disso grelhado até ficar com a consistência
de sapatos de pregos e acreditam que lhes faça bem.
Um amigo meu come peixe-espada cinco vezes por semana e nega
ter qualquer tipo de fobia alimentar. Quem está enganando
quem? Retornar obsessivamente a algumas comidas é idêntico
a ter fobia de todo o resto. Isso talvez explique a Moda da
Comida Confortável. Mas a meta das artes, culinárias
ou de outro tipo qualquer, não é aumentar nosso
conforto. Essa é a meta das espreguiçadeiras.
Em minha fase da pralina, que durou três anos, eu pedia
qualquer sobremesa do cardápio que contivesse avelãs
caramelizadas e deixava o resto de lado. Fiquei tão
obsessivo que quase perdi a moda da crème brûlée
que, na época, varria o país. Depois que minha
fase da pralina amainou, cai numa fixação em
crème brûlée, da qual só consegui
me desvencilhar, à força, seis meses depois.
Anchovas. Conheci minha primeira anchova em 1962, numa pizza.
Depois disso, passaram-se sete anos até que eu reunisse
a coragem de chegar perto de outra. Sou conhecido por atravessar
a rua sempre que vejo uma anchova vindo em minha direção.
Por que alguém decidiria conscientemente comer uma
minúscula tira marrom de couro salgada e empapada de
óleo?
Banha.
A menção dessa palavra faz minha garganta se
fechar e gotas de suor surgirem em minha testa.
Sobremesas em restaurantes indianos. O gosto e a textura de
cremes faciais pertencem à penteadeira, não
ao prato. Ver acima.
Também: missô, moca, chutney, ouriços-do-mar
crus e falafel (aquelas pequenas bolas de grão-de-bico
duras, secas e fritas que, inexplicavelmente, são apreciadas
nos países do Oriente Médio).
3.
Pratos que seria capaz de comer se estivesse passando fome
numa ilha deserta, mas só se a geladeira tivesse apenas
chutney, ouriços-do-mar e falafel.
Cozinha grega. Sempre considerei "culinária grega"
uma contradição. Países são como
pessoas. Alguns são bons na cozinha, ao passo que outros
têm talento para a música, o beisebol ou a fabricação
de chips. Os gregos são de fato bons em filosofia pré-socrática
e estátuas brancas. No entanto, desde o século
v a.C., quando Siracusa, na Sicília, era a capital
mundial da gastronomia, eles não têm se notabilizado
como bons cozinheiros. Típicos da culinária
grega moderna são o queijo feta e o vinho retsina.
Qualquer país que conserve o queijo nacional em salmoura
e adultere o vinho nacional com resina de pinheiro deveria
mandar buscar o jantar no restaurante chinês e economizar
suas energias para outras coisas. Os ingleses viajam à
Grécia só pela comida, o que, para mim, já
diz muito. Você provavelmente pensará duas vezes
antes de comprar um televisor argelino ou russo. Pensei dez
anos antes de pedir minha última refeição
grega.
Mariscos. Sinto moderado horror do que se esconde na escuridão
molhada por entre as conchas de todos os bivalves, mas os
mariscos são os únicos de que não gosto.
Será devido a sua consistência (semelhante à
da borracha) ou a seu repugnante sabor subterrâneo?
Ou será que o horror vai mais fundo do que tenho consciência?
Comida azul (exceto ameixas e framboesas). É possível
que seja uma aversão racional, porque tenho bastante
certeza de que Deus tinha a intenção de reservar
a cor azul principalmente para comida estragada.
Também: oxicocos, rins, quiabo, sorgo, sorvete de café,
feijões requentados e muitas formas de iogurte.
Isso precisa parar por aqui.
O passo dois foi submergir na literatura científica
sobre as escolhas humanas de comida.
Tanto pela constituição quanto pelo destino,
os seres humanos são onívoros. Nossos dentes
e nosso sistema digestivo servem para tudo e estão
prontos para qualquer coisa. Nossos genes não ditam
quais comidas devemos julgar gostosas ou repulsivas. Entramos
no mundo com um pendor pelos doces (os recém-nascidos
são capazes de distinguir até mesmo entre glicose,
frutose, lactose e sacarose) e uma fraca aversão pelo
amargor; em quatro meses, desenvolvemos pendor pelo sal. Algumas
pessoas nascem particularmente sensíveis a um gosto
ou odor; outras têm dificuldade para digerir açúcar
de leite ou glúten de trigo. Uma minúscula parcela
dos adultos, entre 1% e 2%, tem alergias alimentares verdadeiras
(e de fato perigosas). Todas as culturas humanas consideram
pêlo, papel e cabelo impróprios como alimento.
E isso mais ou menos cobre o assunto. Todo o resto é
aprendido. Recém-nascidos não se sentem repelidos
nem sequer pela visão e cheiro de carne putrefata recoberta
de vermes.
A beleza de ser onívoro é que podemos tirar
nutrição de uma infinita variedade de floras
e faunas e facilmente conseguimos nos adaptar a um mundo variável
- quebras de safra, secas, migrações de rebanhos,
fechamento de restaurantes e coisas assim. Os leões
e tigres passariam fome num bufê de saladas, assim como
as vacas numa churrascaria, mas nós não. Diferentemente
das vacas, que permanecem bem nutridas comendo só grama,
os seres humanos precisam de grande diversidade de alimentos
para continuar saudáveis.
Lá pelos doze anos, todos passamos a sofrer de uma
coleção fortuita de aversões alimentares
que variam da repulsa à indiferença. O mais
difícil de ser onívoro é que vivemos
em perigo de nos envenenar. Os bagres possuem papilas gustativas
nos bigodes, mas não temos essa sorte. Em vez disso,
nascemos com uma cautelosa ambivalência diante de comidas
novas, um equilíbrio precário entre neofilia
e neofobia. Basta uma dor de barriga ou ataque de enjôo
depois do jantar para surgir uma aversão poderosa -
mesmo quando o causador do problema não foi o prato
que comemos e mesmo quando sabemos disso. Uma urticária
ou erupções cutâneas podem, racionalmente,
nos levar a evitar o alimento que as causou, mas só
o enjôo e uma barriga perturbada resultam numa sensação
de desagrado que é irracional, duradoura, vitalícia.
Fora isso, os psicólogos sabem muito pouco sobre a
origem dos vigorosos gostos e aversões que as crianças
carregam consigo até a idade adulta - digamos que estejam
todos reunidos sob o rótulo "fobias alimentares".
Ao impedirmos nosso próprio acesso às generosidades
da natureza, tornamo-nos onívoros fracassados. Com
isso, desmerecemos o time dos onívoros. No Gênesis,
logo após o dilúvio de Noé, Deus afirma
que devemos comer tudo o que está sob o sol. Aqueles
que desconsideram tais instruções não
são melhores que os pagãos.
Quanto mais refleti sobre as fobias alimentares, mais me convenci
de que as pessoas que costumam evitar comidas comprovadamente
deliciosas são pelo menos tão perturbadas quanto
as que evitam o sexo ou não têm prazer nenhum
com ele. A única diferença é que essas
últimas provavelmente procurarão auxílio
psiquiátrico, ao passo que os fóbicos alimentares
racionalizam seu problema apelando para heranças genéticas,
alergias, vegetarianismo, questões de gosto, nutrição,
segurança alimentar, obesidade ou uma natureza sensível.
A variedade de neuroses antialimentares encheria vários
volumes, mas o leite é um bom lugar para começar.
De um dia para o outro, todo mundo se tornou intolerante à
lactose. Esse é o medo alimentar chique do momento.
Mas a verdade é que pouquíssimos de nós
somos afligidos tão seriamente a ponto de não
poder tomar um copo de leite por dia sem sofrer efeitos deletérios.
Conheço várias pessoas que deixaram de comer
queijo para evitar a lactose. No entanto, queijos fermentados
não contêm lactose! A lactose é o açúcar
presente no leite; 98% dela é drenada quando se filtra
o coalho (o queijo é feito com o que resta dessa coagem),
e os 2% restantes são rapidamente consumidos pelas
bactérias produtoras de ácido láctico
no ato da fermentação.
Mais três exemplos: as pessoas retiram o sal da dieta
(e o sabor da comida) para evitar a pressão alta e
incontáveis moléstias imaginadas. Entretanto,
a porcentagem da população que é sensível
ao sal não passa de 8%. Apenas a gordura saturada,
proveniente sobretudo de animais, pode causar doenças
cardíacas ou câncer, mas a Nabisco, e mais quem
escreve sobre nutrição, enriquece pelo cultivo
do medo de comer qualquer tipo de gordura. Nunca, jamais,
comprovou-se que o açúcar branco causa a síndrome
de hiperatividade - e não foi por falta de tentativas.
Na famosa pesquisa de New Haven, era a presença dos
pais, e não a do açúcar branco, o que
causava o problema; a maioria das crianças se tranqüilizava
quando os pais deixavam o recinto.
Não consigo entender por quê, mas a atmosfera
norte-americana de hoje recompensa esse tipo de auto-engano.
O medo e a suspeita quanto a comidas se tornaram norma. Jantares
entre amigos quase desapareceram e, com eles, a sensação
de festividade e compartilhamento, de comunidade e sacramento.
As pessoas deveriam ficar profundamente envergonhadas das
fobias alimentares irracionais que as impedem de compartilhar
a comida. Em vez disso, tornaram-se orgulhosas e isoladas,
arrogantes e agressivamente mal informadas.
Mas não eu.
O
passo três foi escolher minha arma. Existem cinco maneiras
de extinguir fobias alimentares. Qual funcionaria melhor comigo?
Cirurgia
cerebral. Lesões bilaterais praticadas na região
basolateral da amígdala parecem funcionar com ratos
e, creio, macacos - eliminando velhas aversões, prevenindo
a formação de novas e aumentando a aceitação
de novos alimentos pelos animais. Mas a bibliografia especializada
não informa se a operação diminui a habilidade
de tais bichos para, digamos, acompanhar uma receita. Se essas
cobaias pudessem falar, continuariam capazes de entender a
tal receita? Algum voluntário?
Regime de fome. Como Aristóteles afirmou e a ciência
moderna confirmou, o gosto de qualquer comida melhora quanto
mais fome se tem. Mas, como confessei recentemente a meu médico,
o qual me avisou que determinada pílula só devia
ser tomada de estômago vazio, a última vez que
meu estômago esteve vazio foi em 1978. Em minha ficha,
ele rabiscou "hiperfagia", o nome que os médicos
conferem às pessoas que dão espetáculo
na mesa. Ele faz jogging.
Bombons. Por que não me recompensar com um pequeno
e delicioso chocolate toda vez que termino uma anchova, um
prato de kimchi ou uma cumbuca de sopa de missô? As
mães têm usado recompensas desde a invenção
do espinafre. É possível que o expediente de
dar às crianças mais tempo para brincar a cada
vez que elas terminam com a verdura funcione por algum tempo.
Mas oferecer-lhes uma barra de chocolate em troca de comer
mais espinafre tem efeitos refratários: o espinafre
fica cada vez mais repelente, e o chocolate, mais atraente.
Dependência de drogas. Animais de laboratório
cheios de não-me-toques adquirem mais gosto por alimentos
novos após uma dose de clordiazepóxido. Segundo
um antigo manual de referência médica, isso nada
mais é que Librium, aquele tranqüilizante que
já foi popular. O rótulo adverte de enjôos
e depressão e recomenda não operar maquinaria
pesada. Eu disse não à droga.
Exposição pura e simples. Os cientistas nos
dizem que as aversões desaparecem quando, a intervalos
moderados, ingerimos doses moderadas dos alimentos odiados,
em especial se a comida nos é complexa e nova. (Não
tente isso com alergias, mas também não trapaceie:
poucas pessoas têm alergias alimentares genuínas.)
A exposição trabalha para superar nossa neofobia
inata, o temor do onívoro em relação
a comidas novas, que compensa o desejo biológico de
explorá-las. Você sabia que bebês amamentados
no peito terão menos dificuldade com comidas novas
do que crianças alimentadas na mamadeira? A variedade
de sabores que chegam ao leite do peito a partir da dieta
da mãe prepara a criança para as surpresas culinárias
que a esperam na vida. A maioria dos pais desiste de dar novas
comidas aos bebês depois de duas ou três tentativas,
e reclamam com o pediatra; essa é, talvez, a causa
mais comum de as pessoas terem pruridos alimentares - ou seja,
de serem onívoros manqués. A maioria dos bebês
aceita quase qualquer coisa após oito ou dez tentativas.
Claramente, a exposição pura e simples era a
única esperança para mim.
O passo quatro foi fazer oito ou dez reservas em restaurantes
coreanos, comprar oito ou dez anchovas, procurar no guia Zagat
oito ou dez restaurantes com nomes como Pártenon ou
Olímpia (que, acredito, sejam exigidos por lei para
restaurantes gregos) e ferver uma panela de água para
preparar oito ou dez grãos-de-bico. Assim, meu plano
era simples: todo dia, durante os seis meses seguintes, eu
comeria ao menos uma comida que detestava.
Aqui
estão alguns dos resultados:
Kimchi. Depois de provar repetidamente dez das sessenta variedades
de kimchi, a conserva nacional coreana, ela também
se tornou minha conserva nacional.
Anchovas. Comecei a me relacionar com as anchovas alguns meses
atrás, no Norte da Itália, onde todos os dias
pedi bagna cauda - molho feito de alho, manteiga, azeite e
anchovas picadas, um antepasto do Piemonte servido pelando
sobre pimentões vermelhos e amarelos. Minha fobia desapareceu
quando percebi que as anchovas que vivem nas pizzarias norte-americanas
não têm nenhuma relação com as
tenras anchovas da Espanha e Itália, curadas em sal
marinho seco e um pouco de pimenta. Logo me tornei capaz de
distinguir entre uma boa bagna cauda e uma excepcional bagna
cauda. Em minha próxima viagem à Itália,
procurarei pelas anchovas frescas do Adriático grelhadas
na brasa, aquelas de que sempre ouvimos falar.
Mariscos. Meu primeiro assalto aos mariscos foi numa lanchonete
chamada Lunch, perto do extremo de Long Island, onde consumi
uma porção de fried bellies e uma de fried strips.
Minha aversão aumentou abruptamente.
Oito mariscos e algumas semanas depois foi a vez de feijões
brancos ao molho de mariscos brancos num excelente restaurante
de cozinha meridional italiana no quarteirão de minha
casa. Tal qual eu passaria a fazer com freqüência
no futuro, mesmo à custa de minha popularidade, insisti
com meus acompanhantes para que se desfizessem de suas fobias
alimentares pedindo ao menos um prato que imaginavam detestar.
Se eles topassem minha experiência, eu concordaria em
não pedir nada de que gostasse.
Todos concordaram, menos uma pessoa, uma bailarina esbelta
e adorável que protestou que seu corpo lhe dizia exatamente
o que comer, e que eu seria a última pessoa no universo
habilitada a interferir naquelas mensagens sagradas. Respondi
que, tratando-se de onívoros, a sabedoria inata do
corpo é total ficção. Logo tive a prova
certa de que minha amiga era uma fóbica enrustida quando
ela gastou cinco minutos separando meticulosamente seu antepasto
em dois montinhos. Uma pilha, composta de pimentas grelhadas,
erva-doce e berinjela, permaneceu imóvel no prato até
que seu mortificado marido e eu terminamos com aquilo. Ela
ficou tão desorientada com a comida, ou com meu conselho
impiedoso, que comeu um bom punhado de arranjo floral enquanto
esperávamos por nossos casacos.
Quanto a mim, a noite foi um sucesso. O molho de mariscos
brancos era leve, com ervas, limão e sal, de modo que
minha fobia a mariscos foi banida num piscar de olhos. Hoje
em dia, há por aí muito macarrão banal
com molho de mariscos. Se você tem fobia a mariscos,
aqui estão duas soluções infalíveis:
peça entre oito e dez pizzas de mariscos brancos no
Frank Pepe de New Haven, Connecticut, talvez a melhor pizza
dos eua e, certamente, a melhor coisa de qualquer tipo que
existe em New Haven, Connecticut. Ou tente a receita maravilhosa
de linguini com mariscos e gremolata do Chez Panisse pasta,
pizza & calzone cookbook (Random House) uma vez por semana
durante oito semanas consecutivas. Garante-se que isso opera
milagres.
Cozinha grega. Minha mulher, que se considera carente de comida
grega, ficou em estado de euforia quando a convidei para irmos
ao restaurante grego de nosso bairro, amplamente resenhado
como o melhor da cidade. Enquanto andávamos pela rua,
ela me abraçou apertado, como as mulheres dos comerciais
de tv que acabam de ser presenteadas com um diamante somente
"por você ser quem é", e embarcou numa
declamação do único clássico grego
que ela conhece, algo sobre a ira de Aquiles. Meu ânimo
se iluminou quando vi que a carta de vinhos era conspurcada
por um único retsina: todos os demais vinhos eram feitos
na Ática, na Macedônia ou em Samos, com uvas
nativas da própria Grécia, mas fermentados à
maneira francesa ou californiana. A temida sopa de ovo e limão
não foi vista em parte alguma, e o queijo feta foi
essencialmente mantido no armário.
Pedimos uma multidão de antepastos e três pratos
principais. Só o pegajoso calamar, uma folha dura de
parreira que se hospedou entre meus dentes e o Liquid Smoke
com que alguém banhou a berinjela assada ameaçaram
despertar minha fobia adormecida. O resto, na maioria das
vezes simplesmente grelhado com limão e azeite, estava
delicioso, e foi com redobrado prazer que me lancei naquilo
que ainda parece uma jornada infindável rumo à
aceitação do quiabo.
Mais tarde, naquela noite, minha adorável mulher foi
mantida acordada por um estômago inquieto, e eu fui
mantido acordado por minha mulher. Ela jurou nunca mais comer
comida grega.
Banha. O magnífico The cooking of South-West France
(Dial Press), de Paula Wolfert, me levou a adorar a banha
com sua receita de confit de porc - grossos pedaços
de 250 g de lombo de porco temperado com tomilho, alho, cravo
e pimenta, cozidos durante 3 horas em 2 litros de banha em
fogo baixíssimo e depois amaciados por até 4
meses em cápsulas de banha endurecida. Quando o lombo
é devolvido à vida e dourado de leve em sua
própria gordura, o resultado é absolutamente
delicioso, saboroso e aromático. Eu nunca fizera esse
prato porque, seguindo o conselho de Paula Wolfert, sempre
evitei usar banha comercial, aqueles pedaços de meio
quilo de gordura ligeiramente rançosa e repleta de
conservantes que residem na geladeira do açougueiro.
Então, numa tarde nevada, encontrei-me sozinho numa
cozinha com 2 kg de lombo de porco, igual quantidade de pura
e branca gordura de porco e algumas horas livres. Seguindo
as instruções simples de Paula para fazer banha,
piquei a gordura, coloquei-a numa panela funda com um pouco
de água, alguns cravos e cascas de canela, enfiei a
panela num forno aquecido a 100 °C e acordei 3 horas mais
tarde. Depois de coar as partes sólidas e as especiarias,
fiquei com um elixir aromático, translúcido
e dourado, que perfumou minha cozinha da mesma forma que,
daqui por diante, perfumará minha vida.
Sobremesas em restaurantes indianos. Oito jantares indianos
me ensinaram que nem toda sobremesa indiana tem textura e
gosto de creme facial. Longe disso. Algumas têm textura
e gosto de bolas de tênis. Essas atendem pelo nome gulab
jamun, algo que o cardápio descrevia como "massa
leve feita com leite seco e mel". O rasmalai tem a textura
de goma de mascar velha de um dia e se recusa a ceder à
ação dos dentes. Do lado mais animador, várias
vezes consegui terminar meu kulfi, o sorvete indiano tradicional,
e adoraria revisitar a halva de cenoura, toda caramelizada
e picante. Mas creio que já viajei por essa estrada
até onde a justiça exige.
O passo cinco é o exame final e a cerimônia de
graduação.
Em
exatos seis meses, consegui me purgar de quase todas as minhas
repulsões e preferências, tornando-me um onívoro
mais perfeito. Isso ficou claro um dia em Paris, França
- cidade para a qual meus árduos deveres profissionais
freqüentemente me levam. Estava experimentando um agradável
restaurante novo e, quando o garçom trouxe o cardápio,
vi-me num estado que jamais experimentara - algo como o Zen,
se quiserem. Tudo no cardápio, todos os antepastos,
quentes e frios, todas as saladas, todos os peixes e aves
e pedaços de carne, era muitíssimo atraente,
mas nenhum mais que os outros. Eu não tinha absolutamente
nenhum modo de escolher. Embora desvanecido com a perspectiva
de comer, vi-me impossibilitado de pedir o jantar. Lembrei-me
da parábola religiosa medieval a respeito do asno que
estava eqüidistante entre dois fardos de feno e, por
não terem os animais livre-arbítrio, morreu
de fome. Um homem, supostamente, não morreria.
A Igreja Católica estava totalmente errada. Eu teria
ficado com fome se quem me acompanhava não houvesse
salvado o dia, pedindo por nós dois. Creio que comi
uma salada feita de pequenas fatias de foie gras, uma sole
meunière perfeita e sweetbreads [o timo de animais
jovens, como o vitelo e o cordeiro]. Tudo estava delicioso.
O passo seis foi reaprender a humildade. O fato de você
ter se tornado um onívoro perfeito não o autoriza
a ostentá-lo. Inebriado com minha própria realização,
comecei a me portar mal, sobretudo em jantares. Quando sentava
ao lado de um conviva especialmente enjoado, costumava me
divertir indo direto à jugular. Muitas vezes, começava
de modo maroto, fitando durante tempo ligeiramente prolongado
a comida que sobrava em seu prato, e depois perguntava se
ele gostaria de tomar meu garfo emprestado. Às vezes,
lançava-me numa agressão direta, perguntando
havia quanto tempo ele tinha horror a pão. E, às
vezes, eu o enganava, dando início a uma conversa abstrata
sobre alergias. Aí, recostava-me na cadeira e, complacente,
ouvia sua confusão de desculpas e explicações:
conselho de um personal trainer, intolerância ao glúten
de trigo, uma fé patética em Dean Ornish [ver
capítulo "Dor sem ganho"], a aguda - até
dolorosa - sensibilidade das papilas gustativas, insinuações
de maus-tratos durante a infância. E aí eu lhe
contava a verdade.
Acredito que a compaixão e a generosidade chegam ao
ápice quando praticamos esse tipo de amor severo em
vizinhos de jantar que são menos onívoros que
nós. Mas o onívoro perfeito sempre tem de lembrar
que, para permanecer onívoro, é absolutamente
necessário ser convidado de novo.
maio
de 1989,
agosto de 1996
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