Gastronomia
15 de dezembro de 2004
 
 

Trecho do livro O Homem que Comeu de Tudo, de Jeffrey Steingarten

Introdução

"Meu primeiro impulso foi agredir o cozinheiro", escreveu Edmondo de Amicis, um viajante que, no século xix, visitou o Marrocos. "Num instante, entendi perfeitamente como uma raça que se alimentava daquela maneira tinha de acreditar em outro Deus e ter uma visão da vida humana essencialmente diferente da nossa. […] Havia gosto de sabão, cera, pomada de cabelo, ungüentos, tinturas, cosméticos; em resumo, de tudo o que é mais inadequado para entrar na boca humana."

Era justamente assim que eu me sentia em relação a toda uma vasta gama de comidas, em particular sobremesas de restaurantes indianos, até 1989, ano em que eu, então advogado, fui nomeado crítico gastronômico da revista Vogue. Ao contemplar as assustadoras responsabilidades de meu novo posto, fiquei prostrado. Porque, da mesma forma que todas as pessoas que conhecia, eu sofria de um conjunto poderoso, arbitrário e debilitante de atrações e aversões alimentares. Temia que não conseguisse ser mais objetivo que um crítico de arte que detestasse o amarelo ou sofresse de daltonismo. Na ocasião, eu tinha amizade com uma respeitada e poderosa editora de livros de receitas; ela tanto se enjoara do sabor do coentro que levava consigo um par de pinças para, em restaurantes mexicanos e indianos, separar meticulosamente até o último pedacinho desse condimento antes de dar a primeira garfada. Imaginem-se as dúzias de Julias Childs e Marys Fishers potenciais cujos livros de culinária ela irritadamente rejeitou e cujas carreiras ela sufocou na infância! Jurei não seguir-lhe os passos.

De repente, sentimentos acirrados para com a comida, fossem fobias, fossem manias, pareceram-me a mais séria de todas as limitações pessoais. Naquele mesmo dia, esbocei um Programa de Seis Passos para liberar meu paladar e minha alma. Assegurei a mim mesmo que nenhum cheiro ou gosto é repulsivo de nascença e que aquilo que foi aprendido pode ser esquecido.

O passo um foi organizar uma lista com comentários.

Minhas fobias alimentares:

1. Comidas que não tocaria nem se estivesse faminto numa ilha deserta.

Nenhuma, exceto, talvez, insetos. Muitas culturas consideram os insetos extremamente nutritivos e adoram sua textura crocante. Os astecas pré-hispânicos assavam vermes de diversas maneiras diferentes e faziam caviar amassando ovos de mosquitos. Isso prova que nenhuma programação humana inata me impediria de comê-los também. Objetivamente, devo parecer tão tolo quanto aqueles bosquímanos do deserto do Kalahari que enfrentam a fome de tempos em tempos porque se recusam a comer três quartos das 223 espécie animais que existem em volta deles. Lidarei com essa fobia depois de terminar com as fáceis.

2. Comidas que não tocaria nem se estivesse faminto numa ilha deserta, até que absolutamente todas as demais opções tivessem se esgotado.

Kimchi, a conserva nacional coreana. Repolho, gengibre, alho e pimenta vermelha - adoro tudo isso, mas não quando é fermentado em conjunto durante muitos meses para se transformar em kimchi. Quase 41 milhões de sul-coreanos comem kimchi três vezes ao dia. Quando alguém vai fotografá-los, dizem "Kimchi!" em vez de "Giz!". Eu digo: "Fiquem vocês com o kimchi".

Qualquer coisa em que se inclua endro. O que poderia ser mais anódino que o endro?

Peixe-espada. Esse é um dos pratos prediletos da turma que se alimenta de acordo com um propósito específico qualquer; gostam disso grelhado até ficar com a consistência de sapatos de pregos e acreditam que lhes faça bem. Um amigo meu come peixe-espada cinco vezes por semana e nega ter qualquer tipo de fobia alimentar. Quem está enganando quem? Retornar obsessivamente a algumas comidas é idêntico a ter fobia de todo o resto. Isso talvez explique a Moda da Comida Confortável. Mas a meta das artes, culinárias ou de outro tipo qualquer, não é aumentar nosso conforto. Essa é a meta das espreguiçadeiras.

Em minha fase da pralina, que durou três anos, eu pedia qualquer sobremesa do cardápio que contivesse avelãs caramelizadas e deixava o resto de lado. Fiquei tão obsessivo que quase perdi a moda da crème brûlée que, na época, varria o país. Depois que minha fase da pralina amainou, cai numa fixação em crème brûlée, da qual só consegui me desvencilhar, à força, seis meses depois.

Anchovas. Conheci minha primeira anchova em 1962, numa pizza. Depois disso, passaram-se sete anos até que eu reunisse a coragem de chegar perto de outra. Sou conhecido por atravessar a rua sempre que vejo uma anchova vindo em minha direção. Por que alguém decidiria conscientemente comer uma minúscula tira marrom de couro salgada e empapada de óleo?

Banha. A menção dessa palavra faz minha garganta se fechar e gotas de suor surgirem em minha testa.

Sobremesas em restaurantes indianos. O gosto e a textura de cremes faciais pertencem à penteadeira, não ao prato. Ver acima.

Também: missô, moca, chutney, ouriços-do-mar crus e falafel (aquelas pequenas bolas de grão-de-bico duras, secas e fritas que, inexplicavelmente, são apreciadas nos países do Oriente Médio).

3. Pratos que seria capaz de comer se estivesse passando fome numa ilha deserta, mas só se a geladeira tivesse apenas chutney, ouriços-do-mar e falafel.

Cozinha grega. Sempre considerei "culinária grega" uma contradição. Países são como pessoas. Alguns são bons na cozinha, ao passo que outros têm talento para a música, o beisebol ou a fabricação de chips. Os gregos são de fato bons em filosofia pré-socrática e estátuas brancas. No entanto, desde o século v a.C., quando Siracusa, na Sicília, era a capital mundial da gastronomia, eles não têm se notabilizado como bons cozinheiros. Típicos da culinária grega moderna são o queijo feta e o vinho retsina. Qualquer país que conserve o queijo nacional em salmoura e adultere o vinho nacional com resina de pinheiro deveria mandar buscar o jantar no restaurante chinês e economizar suas energias para outras coisas. Os ingleses viajam à Grécia só pela comida, o que, para mim, já diz muito. Você provavelmente pensará duas vezes antes de comprar um televisor argelino ou russo. Pensei dez anos antes de pedir minha última refeição grega.

Mariscos. Sinto moderado horror do que se esconde na escuridão molhada por entre as conchas de todos os bivalves, mas os mariscos são os únicos de que não gosto. Será devido a sua consistência (semelhante à da borracha) ou a seu repugnante sabor subterrâneo? Ou será que o horror vai mais fundo do que tenho consciência?

Comida azul (exceto ameixas e framboesas). É possível que seja uma aversão racional, porque tenho bastante certeza de que Deus tinha a intenção de reservar a cor azul principalmente para comida estragada.

Também: oxicocos, rins, quiabo, sorgo, sorvete de café, feijões requentados e muitas formas de iogurte.

Isso precisa parar por aqui.

O passo dois foi submergir na literatura científica sobre as escolhas humanas de comida.

Tanto pela constituição quanto pelo destino, os seres humanos são onívoros. Nossos dentes e nosso sistema digestivo servem para tudo e estão prontos para qualquer coisa. Nossos genes não ditam quais comidas devemos julgar gostosas ou repulsivas. Entramos no mundo com um pendor pelos doces (os recém-nascidos são capazes de distinguir até mesmo entre glicose, frutose, lactose e sacarose) e uma fraca aversão pelo amargor; em quatro meses, desenvolvemos pendor pelo sal. Algumas pessoas nascem particularmente sensíveis a um gosto ou odor; outras têm dificuldade para digerir açúcar de leite ou glúten de trigo. Uma minúscula parcela dos adultos, entre 1% e 2%, tem alergias alimentares verdadeiras (e de fato perigosas). Todas as culturas humanas consideram pêlo, papel e cabelo impróprios como alimento.

E isso mais ou menos cobre o assunto. Todo o resto é aprendido. Recém-nascidos não se sentem repelidos nem sequer pela visão e cheiro de carne putrefata recoberta de vermes.

A beleza de ser onívoro é que podemos tirar nutrição de uma infinita variedade de floras e faunas e facilmente conseguimos nos adaptar a um mundo variável - quebras de safra, secas, migrações de rebanhos, fechamento de restaurantes e coisas assim. Os leões e tigres passariam fome num bufê de saladas, assim como as vacas numa churrascaria, mas nós não. Diferentemente das vacas, que permanecem bem nutridas comendo só grama, os seres humanos precisam de grande diversidade de alimentos para continuar saudáveis.

Lá pelos doze anos, todos passamos a sofrer de uma coleção fortuita de aversões alimentares que variam da repulsa à indiferença. O mais difícil de ser onívoro é que vivemos em perigo de nos envenenar. Os bagres possuem papilas gustativas nos bigodes, mas não temos essa sorte. Em vez disso, nascemos com uma cautelosa ambivalência diante de comidas novas, um equilíbrio precário entre neofilia e neofobia. Basta uma dor de barriga ou ataque de enjôo depois do jantar para surgir uma aversão poderosa - mesmo quando o causador do problema não foi o prato que comemos e mesmo quando sabemos disso. Uma urticária ou erupções cutâneas podem, racionalmente, nos levar a evitar o alimento que as causou, mas só o enjôo e uma barriga perturbada resultam numa sensação de desagrado que é irracional, duradoura, vitalícia. Fora isso, os psicólogos sabem muito pouco sobre a origem dos vigorosos gostos e aversões que as crianças carregam consigo até a idade adulta - digamos que estejam todos reunidos sob o rótulo "fobias alimentares".

Ao impedirmos nosso próprio acesso às generosidades da natureza, tornamo-nos onívoros fracassados. Com isso, desmerecemos o time dos onívoros. No Gênesis, logo após o dilúvio de Noé, Deus afirma que devemos comer tudo o que está sob o sol. Aqueles que desconsideram tais instruções não são melhores que os pagãos.

Quanto mais refleti sobre as fobias alimentares, mais me convenci de que as pessoas que costumam evitar comidas comprovadamente deliciosas são pelo menos tão perturbadas quanto as que evitam o sexo ou não têm prazer nenhum com ele. A única diferença é que essas últimas provavelmente procurarão auxílio psiquiátrico, ao passo que os fóbicos alimentares racionalizam seu problema apelando para heranças genéticas, alergias, vegetarianismo, questões de gosto, nutrição, segurança alimentar, obesidade ou uma natureza sensível. A variedade de neuroses antialimentares encheria vários volumes, mas o leite é um bom lugar para começar.

De um dia para o outro, todo mundo se tornou intolerante à lactose. Esse é o medo alimentar chique do momento. Mas a verdade é que pouquíssimos de nós somos afligidos tão seriamente a ponto de não poder tomar um copo de leite por dia sem sofrer efeitos deletérios. Conheço várias pessoas que deixaram de comer queijo para evitar a lactose. No entanto, queijos fermentados não contêm lactose! A lactose é o açúcar presente no leite; 98% dela é drenada quando se filtra o coalho (o queijo é feito com o que resta dessa coagem), e os 2% restantes são rapidamente consumidos pelas bactérias produtoras de ácido láctico no ato da fermentação.

Mais três exemplos: as pessoas retiram o sal da dieta (e o sabor da comida) para evitar a pressão alta e incontáveis moléstias imaginadas. Entretanto, a porcentagem da população que é sensível ao sal não passa de 8%. Apenas a gordura saturada, proveniente sobretudo de animais, pode causar doenças cardíacas ou câncer, mas a Nabisco, e mais quem escreve sobre nutrição, enriquece pelo cultivo do medo de comer qualquer tipo de gordura. Nunca, jamais, comprovou-se que o açúcar branco causa a síndrome de hiperatividade - e não foi por falta de tentativas. Na famosa pesquisa de New Haven, era a presença dos pais, e não a do açúcar branco, o que causava o problema; a maioria das crianças se tranqüilizava quando os pais deixavam o recinto.

Não consigo entender por quê, mas a atmosfera norte-americana de hoje recompensa esse tipo de auto-engano. O medo e a suspeita quanto a comidas se tornaram norma. Jantares entre amigos quase desapareceram e, com eles, a sensação de festividade e compartilhamento, de comunidade e sacramento. As pessoas deveriam ficar profundamente envergonhadas das fobias alimentares irracionais que as impedem de compartilhar a comida. Em vez disso, tornaram-se orgulhosas e isoladas, arrogantes e agressivamente mal informadas.

Mas não eu.

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O passo três foi escolher minha arma. Existem cinco maneiras de extinguir fobias alimentares. Qual funcionaria melhor comigo?

Cirurgia cerebral. Lesões bilaterais praticadas na região basolateral da amígdala parecem funcionar com ratos e, creio, macacos - eliminando velhas aversões, prevenindo a formação de novas e aumentando a aceitação de novos alimentos pelos animais. Mas a bibliografia especializada não informa se a operação diminui a habilidade de tais bichos para, digamos, acompanhar uma receita. Se essas cobaias pudessem falar, continuariam capazes de entender a tal receita? Algum voluntário?

Regime de fome. Como Aristóteles afirmou e a ciência moderna confirmou, o gosto de qualquer comida melhora quanto mais fome se tem. Mas, como confessei recentemente a meu médico, o qual me avisou que determinada pílula só devia ser tomada de estômago vazio, a última vez que meu estômago esteve vazio foi em 1978. Em minha ficha, ele rabiscou "hiperfagia", o nome que os médicos conferem às pessoas que dão espetáculo na mesa. Ele faz jogging.

Bombons. Por que não me recompensar com um pequeno e delicioso chocolate toda vez que termino uma anchova, um prato de kimchi ou uma cumbuca de sopa de missô? As mães têm usado recompensas desde a invenção do espinafre. É possível que o expediente de dar às crianças mais tempo para brincar a cada vez que elas terminam com a verdura funcione por algum tempo. Mas oferecer-lhes uma barra de chocolate em troca de comer mais espinafre tem efeitos refratários: o espinafre fica cada vez mais repelente, e o chocolate, mais atraente.

Dependência de drogas. Animais de laboratório cheios de não-me-toques adquirem mais gosto por alimentos novos após uma dose de clordiazepóxido. Segundo um antigo manual de referência médica, isso nada mais é que Librium, aquele tranqüilizante que já foi popular. O rótulo adverte de enjôos e depressão e recomenda não operar maquinaria pesada. Eu disse não à droga.

Exposição pura e simples. Os cientistas nos dizem que as aversões desaparecem quando, a intervalos moderados, ingerimos doses moderadas dos alimentos odiados, em especial se a comida nos é complexa e nova. (Não tente isso com alergias, mas também não trapaceie: poucas pessoas têm alergias alimentares genuínas.) A exposição trabalha para superar nossa neofobia inata, o temor do onívoro em relação a comidas novas, que compensa o desejo biológico de explorá-las. Você sabia que bebês amamentados no peito terão menos dificuldade com comidas novas do que crianças alimentadas na mamadeira? A variedade de sabores que chegam ao leite do peito a partir da dieta da mãe prepara a criança para as surpresas culinárias que a esperam na vida. A maioria dos pais desiste de dar novas comidas aos bebês depois de duas ou três tentativas, e reclamam com o pediatra; essa é, talvez, a causa mais comum de as pessoas terem pruridos alimentares - ou seja, de serem onívoros manqués. A maioria dos bebês aceita quase qualquer coisa após oito ou dez tentativas.

Claramente, a exposição pura e simples era a única esperança para mim.

O passo quatro foi fazer oito ou dez reservas em restaurantes coreanos, comprar oito ou dez anchovas, procurar no guia Zagat oito ou dez restaurantes com nomes como Pártenon ou Olímpia (que, acredito, sejam exigidos por lei para restaurantes gregos) e ferver uma panela de água para preparar oito ou dez grãos-de-bico. Assim, meu plano era simples: todo dia, durante os seis meses seguintes, eu comeria ao menos uma comida que detestava.

Aqui estão alguns dos resultados:

Kimchi. Depois de provar repetidamente dez das sessenta variedades de kimchi, a conserva nacional coreana, ela também se tornou minha conserva nacional.

Anchovas. Comecei a me relacionar com as anchovas alguns meses atrás, no Norte da Itália, onde todos os dias pedi bagna cauda - molho feito de alho, manteiga, azeite e anchovas picadas, um antepasto do Piemonte servido pelando sobre pimentões vermelhos e amarelos. Minha fobia desapareceu quando percebi que as anchovas que vivem nas pizzarias norte-americanas não têm nenhuma relação com as tenras anchovas da Espanha e Itália, curadas em sal marinho seco e um pouco de pimenta. Logo me tornei capaz de distinguir entre uma boa bagna cauda e uma excepcional bagna cauda. Em minha próxima viagem à Itália, procurarei pelas anchovas frescas do Adriático grelhadas na brasa, aquelas de que sempre ouvimos falar.

Mariscos. Meu primeiro assalto aos mariscos foi numa lanchonete chamada Lunch, perto do extremo de Long Island, onde consumi uma porção de fried bellies e uma de fried strips. Minha aversão aumentou abruptamente.

Oito mariscos e algumas semanas depois foi a vez de feijões brancos ao molho de mariscos brancos num excelente restaurante de cozinha meridional italiana no quarteirão de minha casa. Tal qual eu passaria a fazer com freqüência no futuro, mesmo à custa de minha popularidade, insisti com meus acompanhantes para que se desfizessem de suas fobias alimentares pedindo ao menos um prato que imaginavam detestar. Se eles topassem minha experiência, eu concordaria em não pedir nada de que gostasse.

Todos concordaram, menos uma pessoa, uma bailarina esbelta e adorável que protestou que seu corpo lhe dizia exatamente o que comer, e que eu seria a última pessoa no universo habilitada a interferir naquelas mensagens sagradas. Respondi que, tratando-se de onívoros, a sabedoria inata do corpo é total ficção. Logo tive a prova certa de que minha amiga era uma fóbica enrustida quando ela gastou cinco minutos separando meticulosamente seu antepasto em dois montinhos. Uma pilha, composta de pimentas grelhadas, erva-doce e berinjela, permaneceu imóvel no prato até que seu mortificado marido e eu terminamos com aquilo. Ela ficou tão desorientada com a comida, ou com meu conselho impiedoso, que comeu um bom punhado de arranjo floral enquanto esperávamos por nossos casacos.

Quanto a mim, a noite foi um sucesso. O molho de mariscos brancos era leve, com ervas, limão e sal, de modo que minha fobia a mariscos foi banida num piscar de olhos. Hoje em dia, há por aí muito macarrão banal com molho de mariscos. Se você tem fobia a mariscos, aqui estão duas soluções infalíveis: peça entre oito e dez pizzas de mariscos brancos no Frank Pepe de New Haven, Connecticut, talvez a melhor pizza dos eua e, certamente, a melhor coisa de qualquer tipo que existe em New Haven, Connecticut. Ou tente a receita maravilhosa de linguini com mariscos e gremolata do Chez Panisse pasta, pizza & calzone cookbook (Random House) uma vez por semana durante oito semanas consecutivas. Garante-se que isso opera milagres.

Cozinha grega. Minha mulher, que se considera carente de comida grega, ficou em estado de euforia quando a convidei para irmos ao restaurante grego de nosso bairro, amplamente resenhado como o melhor da cidade. Enquanto andávamos pela rua, ela me abraçou apertado, como as mulheres dos comerciais de tv que acabam de ser presenteadas com um diamante somente "por você ser quem é", e embarcou numa declamação do único clássico grego que ela conhece, algo sobre a ira de Aquiles. Meu ânimo se iluminou quando vi que a carta de vinhos era conspurcada por um único retsina: todos os demais vinhos eram feitos na Ática, na Macedônia ou em Samos, com uvas nativas da própria Grécia, mas fermentados à maneira francesa ou californiana. A temida sopa de ovo e limão não foi vista em parte alguma, e o queijo feta foi essencialmente mantido no armário.

Pedimos uma multidão de antepastos e três pratos principais. Só o pegajoso calamar, uma folha dura de parreira que se hospedou entre meus dentes e o Liquid Smoke com que alguém banhou a berinjela assada ameaçaram despertar minha fobia adormecida. O resto, na maioria das vezes simplesmente grelhado com limão e azeite, estava delicioso, e foi com redobrado prazer que me lancei naquilo que ainda parece uma jornada infindável rumo à aceitação do quiabo.

Mais tarde, naquela noite, minha adorável mulher foi mantida acordada por um estômago inquieto, e eu fui mantido acordado por minha mulher. Ela jurou nunca mais comer comida grega.

Banha. O magnífico The cooking of South-West France (Dial Press), de Paula Wolfert, me levou a adorar a banha com sua receita de confit de porc - grossos pedaços de 250 g de lombo de porco temperado com tomilho, alho, cravo e pimenta, cozidos durante 3 horas em 2 litros de banha em fogo baixíssimo e depois amaciados por até 4 meses em cápsulas de banha endurecida. Quando o lombo é devolvido à vida e dourado de leve em sua própria gordura, o resultado é absolutamente delicioso, saboroso e aromático. Eu nunca fizera esse prato porque, seguindo o conselho de Paula Wolfert, sempre evitei usar banha comercial, aqueles pedaços de meio quilo de gordura ligeiramente rançosa e repleta de conservantes que residem na geladeira do açougueiro.

Então, numa tarde nevada, encontrei-me sozinho numa cozinha com 2 kg de lombo de porco, igual quantidade de pura e branca gordura de porco e algumas horas livres. Seguindo as instruções simples de Paula para fazer banha, piquei a gordura, coloquei-a numa panela funda com um pouco de água, alguns cravos e cascas de canela, enfiei a panela num forno aquecido a 100 °C e acordei 3 horas mais tarde. Depois de coar as partes sólidas e as especiarias, fiquei com um elixir aromático, translúcido e dourado, que perfumou minha cozinha da mesma forma que, daqui por diante, perfumará minha vida.

Sobremesas em restaurantes indianos. Oito jantares indianos me ensinaram que nem toda sobremesa indiana tem textura e gosto de creme facial. Longe disso. Algumas têm textura e gosto de bolas de tênis. Essas atendem pelo nome gulab jamun, algo que o cardápio descrevia como "massa leve feita com leite seco e mel". O rasmalai tem a textura de goma de mascar velha de um dia e se recusa a ceder à ação dos dentes. Do lado mais animador, várias vezes consegui terminar meu kulfi, o sorvete indiano tradicional, e adoraria revisitar a halva de cenoura, toda caramelizada e picante. Mas creio que já viajei por essa estrada até onde a justiça exige.

O passo cinco é o exame final e a cerimônia de graduação.

Em exatos seis meses, consegui me purgar de quase todas as minhas repulsões e preferências, tornando-me um onívoro mais perfeito. Isso ficou claro um dia em Paris, França - cidade para a qual meus árduos deveres profissionais freqüentemente me levam. Estava experimentando um agradável restaurante novo e, quando o garçom trouxe o cardápio, vi-me num estado que jamais experimentara - algo como o Zen, se quiserem. Tudo no cardápio, todos os antepastos, quentes e frios, todas as saladas, todos os peixes e aves e pedaços de carne, era muitíssimo atraente, mas nenhum mais que os outros. Eu não tinha absolutamente nenhum modo de escolher. Embora desvanecido com a perspectiva de comer, vi-me impossibilitado de pedir o jantar. Lembrei-me da parábola religiosa medieval a respeito do asno que estava eqüidistante entre dois fardos de feno e, por não terem os animais livre-arbítrio, morreu de fome. Um homem, supostamente, não morreria.

A Igreja Católica estava totalmente errada. Eu teria ficado com fome se quem me acompanhava não houvesse salvado o dia, pedindo por nós dois. Creio que comi uma salada feita de pequenas fatias de foie gras, uma sole meunière perfeita e sweetbreads [o timo de animais jovens, como o vitelo e o cordeiro]. Tudo estava delicioso.

O passo seis foi reaprender a humildade. O fato de você ter se tornado um onívoro perfeito não o autoriza a ostentá-lo. Inebriado com minha própria realização, comecei a me portar mal, sobretudo em jantares. Quando sentava ao lado de um conviva especialmente enjoado, costumava me divertir indo direto à jugular. Muitas vezes, começava de modo maroto, fitando durante tempo ligeiramente prolongado a comida que sobrava em seu prato, e depois perguntava se ele gostaria de tomar meu garfo emprestado. Às vezes, lançava-me numa agressão direta, perguntando havia quanto tempo ele tinha horror a pão. E, às vezes, eu o enganava, dando início a uma conversa abstrata sobre alergias. Aí, recostava-me na cadeira e, complacente, ouvia sua confusão de desculpas e explicações: conselho de um personal trainer, intolerância ao glúten de trigo, uma fé patética em Dean Ornish [ver capítulo "Dor sem ganho"], a aguda - até dolorosa - sensibilidade das papilas gustativas, insinuações de maus-tratos durante a infância. E aí eu lhe contava a verdade.

Acredito que a compaixão e a generosidade chegam ao ápice quando praticamos esse tipo de amor severo em vizinhos de jantar que são menos onívoros que nós. Mas o onívoro perfeito sempre tem de lembrar que, para permanecer onívoro, é absolutamente necessário ser convidado de novo.

maio de 1989,
agosto de 1996

 

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