"O conceito de direita
e de esquerda foi criado
pelos franceses 200 anos atrás. Se eles dizem que correr
é de direita, acredite: correr é de direita.
Se o direitista corre, o esquerdista só pode andar.
É outro jeito de analisar a história. Os monarquistas
corriam. Os jacobinos andavam"
Correr é
de direita? Quem se perguntou isso foi o jornal Libération.
Os franceses entendem do assunto. O conceito de direita e
de esquerda foi criado por eles 200 anos atrás. Se
eles dizem que correr é de direita, acredite: correr
é de direita. Um especialista citado pelo jornal declarou
que a corrida passa a idéia de desempenho e de individualismo,
valores tradicionalmente associados à direita. Se o
direitista corre, o esquerdista só pode andar. É
outro jeito de analisar a história. Os monarquistas
corriam. Os jacobinos andavam. Maria Antonieta corria. Robespierre
andava.
O que desencadeou
a reportagem do Libération foi o fato de o presidente
Nicolas Sarkozy ter o costume de correr. Pior: ele costuma
correr com a camiseta do Departamento de Polícia de
Nova York. Sarkozy é um representante da direita. Logo,
correr é de direita. Descartes se orgulharia do rigor
intelectual de seus compatriotas. Eu nunca li o Libération,
um jornal de esquerda. Eu soube de sua inspiradora reportagem
sobre o caráter reacionário da corrida por meio
do Times, um jornal rigorosamente de direita. O artigo
do Times foi publicado em 4 de julho. Naquele mesmo
dia, decidi começar a correr. Se José Dirceu
me classifica como o "agitador de todas as direitas do Brasil",
só me resta correr. Como sofro de uma certa fraqueza
ideológica, acabei adiando por mais de quatro semanas
o início de minha atividade física. Na última
quarta-feira, na falta de uma camiseta do Departamento de
Polícia de Nova York, coloquei uma camiseta da Drogaria
Pacheco e corri pela orla até o fim do Leblon. Descobri
que o tornozelo inchado é de direita. A bolha no pé
é de direita. O ácido láctico é
de direita.
A esquerda francesa
pode contar com a ajuda da esquerda brasileira em sua grandiosa
tarefa de redefinir os atributos dos dois campos políticos.
Até outro dia, quando tinham de se posicionar ideologicamente,
os petistas recorriam ao pobre Norberto Bobbio, abastardando
um ou dois enunciados mais rasteiros de sua obra. Agora isso
mudou. Para os propagandistas do PT, um direitista é
aquele que arremessa ovos podres pela janela e surra empregadas
domésticas. Por mais direitista que eu seja, segundo
José Dirceu e seus amigos, ainda reluto em adotar a
prática de arremessar ovos pela janela. Por outro lado,
penso em surrar minha empregada sempre que ela se esquece
de comprar manteiga no supermercado. Os repórteres
esquerdistas que cobriram a última passeata contra
Lula revelaram também que os direitistas só
se referem ao presidente da República com termos grosseiros
como "ca-cha-cei-ro" e "va-ga-bun-do". O esquerdista Luis
Fernando Verissimo repete todas as semanas que os direitistas
rejeitam Lula por ele ser um metalúrgico. Mais: um
pau-de-arara. Rejeitar Lula seria uma forma de preconceito
de classe. Eu gosto de ler o Verissimo porque ele me trata
como um aristocrata. É como se eu, com toda a minha
vira-latice, me tornasse momentaneamente um personagem de
P.G. Wodehouse. Um Bertie Wooster. Corre, Diogo, corre.