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A nova campeã de audiênciaCom
um marketing imbatível, Roseana
Daniela Pinheiro
A ruidosa ascensão da governadora Roseana Sarney nas últimas pesquisas sobre sucessão presidencial é uma crônica que mescla oportunidade, organização política e muito marketing. Oportunidade porque o PFL vislumbrou uma estratégia nunca antes explorada: a de usar um único candidato em todos os programas políticos. Enquanto os demais, como o PSDB, ainda nem sabem direito o que fazer com seu tempo de TV, o PFL garantiu a notoriedade de quem realmente lhe interessa. Na noite de 1º de novembro, durante vinte minutos, exibiu a imagem irretocável da governadora em situações muito simpáticas (com crianças e em álbuns de família), pouco contundentes (apenas uma leve crítica à política de segurança pública de FHC), mas carismáticas (em palanques e no governo). Tudo com a assinatura de quem já ajudou a eleger Fernando Henrique Cardoso duas vezes: o publicitário Nizan Guanaes. Três dias depois, uma pesquisa do MCI mostrou que 31% dos espectadores ficaram com vontade de votar em Roseana. Usar tão bem o horário político na TV em geral um enfadonho intervalo para esperar a novela mostra que o PFL é um exemplo raro no Brasil de partido disciplinado e alinhado. Em nome de uma candidata que poderia nem emplacar, a direção nacional convenceu a cúpula dos 27 diretórios estaduais a abrir mão do tempo de TV e também de parte do horário regional. Tudo isso para Roseana brilhar. A tarefa, arriscada, mostrou-se vitoriosa. Os pefelistas ainda se recuperam do choque de ver a governadora roçar os 20% nas pesquisas. Ainda que a intenção inicial fosse só a de cacifar o partido para barganhar a Vice-Presidência na chapa governista posto que sempre disputou com o PMDB , a possibilidade de uma candidatura própria passou a ser discutida no PFL. Mesmo que a chance de torná-la real seja sempre posta em dúvida. "Quando vi os números, liguei para a governadora e disse: 'Sua vida não lhe pertence mais. É agora do Brasil'", conta Antonio Martins, há doze anos um de seus principais assessores.
Há pelo menos três anos, o nome de Roseana era ventilado. Mas como vice. Seu nome foi retirado das pesquisas, porém, volta e meia, ela era chamada para algum "teste" estadual. Em abril do ano passado, participou de uma maratona de entrevistas e visitas a jornais e rádios da Região Sul, onde tinha cerca de 1% das intenções de voto. Uma semana depois, já tinha 6%. Em junho deste ano, quando o PFL voltou a discutir o projeto de eleições primárias para a escolha do candidato governista ao Planalto, Roseana foi novamente lembrada. Mas, dessa vez, como a única solução. Ela era carismática e sua administração, elogiada. Ninguém no quadro do partido tinha uma biografia parecida. Quando voltou às pesquisas, em agosto, Roseana detinha cerca de 9% das intenções de voto. O "fator Roseana" é novíssimo. Tem quatro meses, e olhe lá. Por isso impressiona. Em setembro, logo depois das primeiras inserções regionais terem sido exibidas, seu porcentual saltou de 9% para 14%. De acordo com levantamento do Instituto GPP, encomendado pelo PFL, na Região Sudeste, onde se concentra a maior parte do eleitorado do país, ela passou de 10% em setembro para 15% em apenas dois meses. Nos últimos três meses, o PFL gastou cerca de 700.000 reais em seis comerciais e em um programa nacional. Estima-se que Roseana tenha aparecido aproximadamente setenta vezes em cadeia nacional e umas 250 em âmbito regional, graças às inserções comerciais. "Vamos colocá-la ainda mais na TV", diz Saulo Queiroz, secretário executivo do PFL. Em 3 de dezembro, Roseana volta a aparecer em todo o país ocupando o espaço regional por dez minutos, metade do tempo total. "Ela é um tigre na televisão", diz Carlos Augusto Montenegro, diretor do Ibope. "O que fiz foi o antimarketing. Não teve nenhum tralalá. Foi Roseana pura. Foi morango sem chantilly", rebate Guanaes, que faz bravata, mas não se descuida de eventuais percalços de campanha. O sobrenome Sarney é um deles. Apesar de o PFL insistir que pesquisas provam o contrário, o governo Sarney ficou marcado como o período em que os índices de inflação bateram os 80% ao mês. No programa, Roseana é quase sempre chamada apenas pelo primeiro nome, e aparece ao lado do deputado Ulysses Guimarães por mais tempo do que com seu pai. São detalhes imperceptíveis para o espectador, mas são eles que fazem a fortuna dos marqueteiros. Roseana, uma mulher que já sofreu diversas cirurgias delicadas, aparece dinâmica, em trens, aviões, carros. A cúpula da pré-campanha acredita, aliás, que o assunto saúde uma preocupação desde o episódio Tancredo Neves não pesará contra a candidata, avaliando que os eleitores admiram sua capacidade de superar as enfermidades. Outro aspecto diz respeito a sua origem. Ela aparece como uma mulher cosmopolita, criada entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, distante da imagem de nordestina. Os índices do Maranhão também merecem cautela. Indicadores sociais, e não econômicos, vão ser priorizados. É possível que seu crescimento seja apenas uma bolha. "Acho que o timing da superexposição está errado. Ainda estamos muito longe das eleições", diz o cientista político Marcos Coimbra, do Vox Populi. A um ano da eleição, cerca de 70% da população ainda não fechou com nenhum candidato o que pode indicar que uma aparição agora pouco signifique daqui a doze meses. Ele lembra que em 1989 Fernando Collor outro brilhante caso de construção de um candidato via TV decolou nas pesquisas por ter usado o tempo da propaganda eleitoral de três partidos nanicos a menos de sete meses da eleição. Foi exigência de Roseana, soprada por um conselheiro experiente, arrebanhar a trupe de marqueteiros de FHC. Eles já definiram até o slogan de campanha, que vai pegar carona no real e propor soluções para o emprego e a segurança pública. "RS: Real e Social", em uma alusão às iniciais de seu nome. Como se vê, o PFL está adiantadíssimo. "Roseana está crescendo por omissão do PSDB", diz o publicitário Duda Mendonça, que vai tocar a campanha de Lula. É verdade que, se o PSDB quiser comandar a sucessão, terá de colocar o bloco na rua já, e não vai ser fácil. Na semana passada, o partido não conseguiu acordo nem para fazer um programa de televisão. O presidenciável Tasso Jereissati ameaçou trabalhar por Roseana em retaliação à estratégia de José Serra de impedir que os pré-candidatos do partido aparecessem na propaganda tucana, que irá ao ar nesta semana. Na quarta-feira passada, o ministro da Saúde embarcou para o Catar para uma reunião da Organização Mundial do Comércio sem participar de nenhuma gravação dando margem ao comentário jocoso de que Serra preferia tentar aparecer na Al Jazira, a rede de TV do Oriente Médio que ganhou fama desde que o mundo conheceu Osama bin Laden. O publicitário serrista Nelson Biondi chegou a pensar num programa sem ele (um locutor explicaria, diante de uma cadeira vazia, que Serra estava trabalhando pela saúde no país). A idéia não foi adiante, mas o PFL pode sair ganhando com a confusão. E o "fator Roseana", que deveria ser um balão-de-ensaio para inflar a candidatura de vice, pode virar coisa séria. "Aí, quero ver eles explicarem para o eleitor que a candidata a vice, do PFL, tem 20% das intenções de voto enquanto o cabeça de chapa do PSDB só tem 4%", diz Duda Mendonça.
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