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A dama
da sucessão
Filha
de ex-presidente, com
saúde
frágil e um governo
bem
avaliado, Roseana Sarney
vira
a estrela da corrida para
o Planalto
ao assumir o segundo
lugar
nas pesquisas eleitorais
Alexandre
Oltramari, Mauricio Lima e Malu Gaspar
Sérgio de Divitiis
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Veja também |
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Ela
tinha tudo para não emplacar no time das estrelas nacionais. É
filha de uma oligarquia que há mais de três décadas
manda num dos Estados mais atrasados e pobres do Brasil. Seu pai deixou
o Palácio do Planalto com uma inflação escandalosa
e índices de popularidade de dar dó. Tem saúde frágil.
Já passou doze vezes pela mesa de cirurgia. Sua carreira política
começou há apenas onze anos, quando, já beirando
os 40, enfrentou sua primeira eleição pelo PFL, um dos partidos
menos populares do país. Mas Roseana Sarney Murad, 48 anos, casada,
uma filha adotiva e dois netos, é o fenômeno da temporada.
Na semana passada, pela primeira vez, uma pesquisa colocou-a isolada em
segundo lugar na corrida para a sucessão presidencial de 2002.
Pulou de 14,4% para 19,1%. Está mais de 10 pontos atrás
do líder Luís Inácio Lula da Silva, do PT, mas desgarrou-se
do segundo pelotão: ficou 7 pontos à frente do terceiro
colocado. Com isso, Roseana Sarney entrou de fato para a turma dos presidenciáveis.
Sua ascensão
é resultado direto de um trabalho de laboratório. Nos últimos
três meses, Roseana tem sido a única estrela na propaganda
do PFL. Foram setenta inserções em cadeia nacional e 250
em redes regionais, de trinta segundos cada uma. Nos comerciais, ela não
faz discurso, não critica ninguém, não apresenta
propostas nem faz promessas. Ela apenas aparece. Por isso, nos meios políticos,
e mesmo dentro do PFL, sobram dúvidas sobre a consistência
do crescimento de Roseana. O telespectador gosta do que vê, segundo
demonstram as pesquisas, mas o que ele vê não é propriamente
um candidato no modelo tradicional. O que aparece na televisão
é uma mulher dinâmica, bonita, simpática, sorridente.
Resta esperar agora pelo teste da campanha aberta, aquele momento em que
surgem os confrontos de idéias e os ataques dos adversários.
Roseana já surpreendeu uma vez, com sua ascensão nas pesquisas.
Deixou os colegas tucanos a anos-luz de distância. Pode surpreender
de novo lá na frente, mas isso só o tempo dirá. Em
1989, o paulista Guilherme Afif Domingos teve seu momento de ascensão
nas pesquisas como candidato a presidente. Acabou em sexto lugar na eleição.
A candidatura
de Roseana não é um fenômeno localizado. Analisando-se
os dados da pesquisa divulgada na semana passada, constata-se que ela
tem bom desempenho em quase todos os segmentos do eleitorado. Ao contrário
do que se tem dito, não vai bem apenas em sua região, o
Nordeste. Sua candidatura está em segundo lugar em todas as áreas
geográficas do país, à exceção do Norte,
onde já é líder nas pesquisas, acima de Lula. Ela
também está em segundo lugar na preferência dos homens
e das mulheres, dos moradores das zonas urbana e rural, das capitais e
das cidades pequenas, dos eleitores de todas as faixas etárias
e de todos os níveis de escolaridade à exceção
dos que têm curso superior, que preferem, pela ordem, Luís
Inácio Lula da Silva, depois Ciro Gomes, o candidato do PPS, e
só então Roseana. Diante desses dados, pode-se afirmar que
sua candidatura se espraiou pelo eleitorado.
Fotos álbum de família
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 |
| Os
Sarney, numa rara imagem em que aparece toda a família, e Roseana,
aos 3 anos: no início, a carreira política era coisa para os irmãos,
mas a menina venceu a resistência familiar |
"Estou muito
feliz", diz Roseana, saboreando a novidade. Única filha do ex-presidente
José Sarney e dona Marly, ela começou tarde seu namoro com
as urnas. "Acho que papai não queria que eu fosse política."
A família preferia que a vida pública fosse seguida pelos
filhos, Fernando, que se transformou no administrador do formidável
patrimônio do clã, e José Sarney Filho, o Zequinha,
que entrou para o ramo e hoje é ministro do Meio Ambiente. Mas
a política, por força da atividade do pai, sempre foi o
prato da casa. Roseana nasceu em São Luís, morou no Rio
de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, andou pela Suíça.
Casou-se aos 25, elegeu-se deputada federal em 1990 e, quatro anos mais
tarde, numa disputa acirrada, tornou-se a primeira mulher eleita para
um governo estadual. Em 1998, reelegeu-se com folga.
Na infância
em Brasília, Roseana sempre estudou em colégio de freiras,
nunca foi reprovada, mas não era uma aluna muito aplicada. Tinha
gosto por disciplinas como história, geografia e português,
e arrepios de horror nas aulas de física. Aos 12 anos, ao voltar
ao Maranhão, quando Sarney se elegeu governador, teve uma experiência
nova. Passou a conviver na escola com colegas mais pobres. "Em Brasília,
morava em prédio de parlamentares e convivia com filhos de parlamentares.
Em São Luís comecei a perceber que existiam diferenças",
relembra. Na escola, jogava vôlei e tocava guitarra na banda do
colégio. Apresentava pequenos shows com músicas da jovem
guarda. "Sempre adorei Roberto Carlos, gosto até hoje." Ela mantém
as duas paixões. Vive sintonizada nos canais esportivos da televisão
e torce para o Flamengo. Também não perde uma oportunidade
de pegar um violão e cantar ao microfone, embora esse hábito
esteja cada vez mais restrito às festas de família. Seu
repertório é formado por músicas de seresta, da jovem
guarda, de Roberto Carlos e de cantores maranhenses. Outra paixão,
desenvolvida mais tarde, mas sobre a qual Roseana não gosta de
falar, é o carteado. Prefere jogar pontinho e já andou apostando
nos panos verdes em Las Vegas.
A filha
do ex-presidente pensou em fazer medicina, mas acabou cursando ciências
sociais na Universidade de Brasília (UnB). Era uma época
em que não se preocupava em pentear o cabelo, usava bata hippie,
lia Max Weber, cantava músicas de protesto e tinha alguma militância
política. Antes de concluir o curso, resolveu largar tudo e ir
para o Rio de Janeiro, onde conviveu com seu futuro marido, Jorge Murad,
que, na época, usava cabelos compridos e tocava num grupo que se
apresentava no Teatro Opinião. Foi quando, pela primeira vez, sentiu
incômodo de ser filha de Sarney, político então filiado
à Arena, partido que dava sustentação política
à ditadura militar. "O clima influenciava muito, a gente tinha
de ser do contra." Nesse período, ela torcia pelo sucesso da Revolução
de Cuba e tinha simpatia pelo socialismo soviético.
Marina Malheiros
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Ana Araújo
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| Jorge
Murad, o marido de Roseana e homem forte no governo, e o prédio em
São Luís que serve de sede para suas empresas: ele comanda 40% do
orçamento do Estado e decide se libera ou não os outros 60% das verbas |
Na dúvida
sobre que rumo tomar na vida, Roseana decidiu, aos 20 anos, deixar o Rio
e encontrar seus dois irmãos Fernando e Zequinha, que moravam
na Suíça. "Aluguei um quarto num pensionato em Genebra e
fui estudar francês e inglês." Não concluiu os cursos
porque teve de ser submetida a uma cirurgia para extrair um cisto no ovário.
Ela suspeita que essa cirurgia a deixou estéril. Sua mãe,
dona Marly, só ficou sabendo da internação uma semana
depois, por meio de um telegrama da embaixada brasileira. Tomou um avião
e trouxe a filha de volta ao Brasil. Em Brasília, Roseana concluiu
o curso de ciências sociais e fascinou-se pelo Congresso Nacional,
onde fazia pesquisas acadêmicas. Gostou do clima, das conversas,
das articulações. Nessa época, começou a pensar
seriamente em seguir a carreira política. Esteve muito próxima
ao pai, no período em que José Sarney exerceu a Presidência,
de 1985 a 1990, e foi do Palácio do Planalto que saltou para seu
vôo-solo na vida pública.
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