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Notícias de uma guerra suja

Traffic, um filme ambicioso,
urgente e original

Isabela Boscov

 
Divulgação
As tramas de Traffic: no México, o policial Del Toro faz uma apreensão. Muito mais drogas, porém, vão cruzar a fronteira até as mãos de "empresários" como Catherine Zeta-Jones. Em Washington, Douglas lidera a guerra, mas não sabe o que fazer com a filha viciada

O policial não consegue parar de fumar, de jeito nenhum. A socialite recomenda pelo menos dois copos de vinho tinto para tornar a vida mais colorida. O juiz não dispensa uma dose de uísque à noite – sem ela, "morreria de tédio", diz. Sua mulher admite ter experimentado de tudo no tempo da faculdade. Sua filha está rapidamente se tornando dependente de crack e heroína, fornecidos pelo namorado. Podem parecer casos comuns – e são. Mas é justamente sua banalidade, sustenta Traffic (Estados Unidos/Alemanha, 2000), que os torna tão importantes: é a cultura do prazer instantâneo e do alívio rápido para a frustração que alimenta os lucros bilionários do narcotráfico. Para quebrar as pernas dessa indústria não basta, portanto, desbaratar cartéis. Nem tampouco enquadrar os consumidores na lei: é preciso tratá-los. Esse ponto de vista sensato, embora sem grande apelo, é só um dos aspectos que distinguem Traffic, que estréia nesta sexta-feira no país, da massa de filmes feitos até hoje sobre as drogas. Ambicioso, envolvente e magistralmente orquestrado, Traffic é um filme de tirar o fôlego. Seu diretor, Steven Soderbergh, de 38 anos, protagoniza um feito inédito: concorre ao Oscar de direção por dois filmes indicados também ao prêmio principal – além de Traffic, Erin Brockovich. O drama disputa ainda as estatuetas de roteiro, montagem e ator coadjuvante (para Benicio Del Toro, tido como imbatível).

Traffic expõe ângulos diferentes de uma guerra dura, cara e freqüentemente inútil: a batalha contra as drogas que sucessivos governos americanos travam sobretudo na sua vasta fronteira com o México, por onde se estima que passem 70% da cocaína que chega aos Estados Unidos. Todas as esferas tocadas pelo narcotráfico estão representadas nesse mural. Do juiz (Michael Douglas) escolhido para comandar a ação antidrogas nos Estados Unidos à sua filha viciada. De um "gerente" do tráfico obrigado a entregar seus chefões à Justiça até a riquinha californiana (Catherine Zeta-Jones) que, ao ver o marido ser preso, descobre de onde vem sua fortuna – e agilmente assume o comando dos negócios. Pelo lado mexicano entram desde os "soldados" do tráfico até o general corrupto (Tomás Milian), que esfacela um cartel para encobrir sua ligação com outro. O personagem reproduz o caso de Jesus Gutiérrez Rebollo, um general de verdade preso em 1997. O traficante Amado Carrillo Fuentes, bizarramente morto durante uma cirurgia plástica no mesmo ano, também é reencarnado em Traffic. Os personagens se dividem em três tramas paralelas, mas facilmente identificáveis por suas cores: um amarelo áspero para o México, um azul frio para Washington e uma paleta suave para a californiana San Diego, onde se dá boa parte da receptação dos narcóticos.

Pegadinha – O coração do filme, contudo, é o policial mexicano Javier Rodríguez Rodríguez, interpretado por Benicio Del Toro (veja quadro). Por um salário mensal equivalente a 316 dólares, Javier se impõe uma missão quase sobre-humana: a de parecer conivente com a corrupção, mas manter-se íntegro e fazer seu trabalho. A interpretação de Del Toro é fascinante e projeta uma sombra monumental sobre um elenco em que muitos dos atores (110 deles com diálogos) atingem o melhor desempenho de suas carreiras – como Catherine Zeta-Jones, grávida de seis meses, realisticamente inchada e livre uma vez na vida da imposição de ser a beldade do filme.

Fazer um filme como esse sair do papel foi uma guerra em si. O roteiro de Traffic foi recusado por todos os estúdios de Hollywood, descrentes de que uma história tão complexa pudesse interessar ao público. Por um breve intervalo, a situação pareceu desanuviar-se: Harrison Ford mostrou interesse em fazer o papel do czar antidrogas, como dizem os americanos, e topou até cortar seu cachê pela metade, para 10 milhões de dólares, em troca de reformas extensas no roteiro. Mas voltou atrás, deixando a vaga aberta para Michael Douglas (a mulher dele, Catherine Zeta-Jones, já havia dado o "sim"). Com a adesão de Douglas, o farol vermelho finalmente mudou para o verde – mas nas mãos de um estúdio independente, a USA Films, e com um orçamento de 46 milhões de dólares, enxuto para uma produção desse porte. Esperto, Soderbergh incluiu em seu contrato com a USA Films uma cláusula que parecia irrelevante: todos os diálogos entre personagens latinos seriam falados em espanhol. O estúdio só se deu conta da pegadinha quando as filmagens já corriam. Pelo menos um terço do filme é acompanhado de legendas, o que torna Traffic autenticamente bilíngüe e muito mais verossímil – além de uma raridade em Hollywood.

Acima do seu elenco ou do excelente roteiro (baseado na série de TV inglesa Traffik e nas experiências pessoais do roteirista Stephen Gaghan, um ex-viciado), Traffic é uma vitória de Stephen Soderbergh. Há doze anos, o cineasta encabeçou uma revolução. Seu sexo, mentiras e videotape, produzido ao custo de 1,2 milhão de dólares, ganhou a Palma de Ouro em Cannes e deu um impulso crucial para o cinema independente. "Bem, a partir daqui é só ladeira abaixo", declarou o diretor na ocasião. A piada mostrou-se um tanto profética. Não só as produções independentes se trivializaram como Soderbergh parecia incapaz de repetir a originalidade de seu primeiro filme. No dia em que descobriu que havia perdido a paixão pelo ofício, tomou uma atitude radical. Levantou 300.000 dólares para rodar o caótico Schizopolis, no qual ele, a mulher e a filha interpretam uma família em pé de guerra pela iminência do divórcio – exatamente a situação que viviam em casa.

Ninguém viu o filme, mas Soderbergh, depois da catarse, se reencontrou. Desde então, fez o ótimo Irresistível Paixão, com George Clooney e Jennifer Lopez, e Erin Brockovich, no qual sua direção segura ajudou Julia Roberts a conseguir um excelente desempenho e conquistar uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Soderbergh já está rodando Ocean's 11, também estrelado por Julia, Clooney, Brad Pitt e mais um punhado de estrelas. O surpreendente nesses filmes é que eles unem as idéias e a linguagem do cinema independente ao orçamento e ao alcance das produções de Hollywood. É uma espécie de segunda revolução, que nenhum filme exemplifica melhor do que Traffic, um sucesso de bilheteria com a urgência dos grandes filmes políticos dos anos 60, como Z ou A Batalha de Argel. Se a moda pegar, Soderbergh terá feito história duas vezes.

 

Um touro na arena de Hollywood

Para o policial mexicano Javier Rodríguez, que vive na linha de fogo do narcotráfico, qualquer palavra a mais pode ser a morte. Mas ele nem precisa dizer o que pensa ou sente. Está tudo lá, no olhar, nas inflexões e até na postura do assombroso Benicio Del Toro, a principal razão pela qual Traffic é, em vários momentos, um dos filmes mais vivos e ressonantes do cinema americano atual. Conhecido pelas atuações maneiristas – como o bandido de dicção indecifrável de Os Suspeitos –, Del Toro experimenta aqui um estilo minimalista, no melhor sentido do termo, e interpreta em sua língua materna, o espanhol. Mas teve quase de reaprendê-lo, inclusive a peculiar inflexão mexicana. Nascido em Porto Rico, em uma família de classe média alta, ele perdeu a mãe aos 9 anos e, aos 12, a caminho de virar um problema, foi mandado para um colégio interno nos Estados Unidos. Del Toro até tentou seguir a vocação familiar, mas trocou a faculdade de administração pelas aulas de arte dramática. "Meu pai não se conforma", diz. "Ele acha que, se eu acordasse mais cedo, poderia estudar direito aos poucos e largar esta vida", ri. Aos 34 anos, 1,93 metro de altura e charme incandescente, mora num apartamento minúsculo em Los Angeles, repleto de livros, e raramente explora a beleza máscula em seus papéis. Pelo contrário. Por causa de um deles, o gordo e animalesco doutor Gonzo de Medo e Delírio, passou uma impressão tão negativa que ficou dois anos sem conseguir trabalho. Uma injustiça já corrigida por Traffic. Como Javier, ele pode considerar-se no mesmo patamar que o Marlon Brando de O Selvagem ou o Robert De Niro de Taxi Driver.

 

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